16.9.18
Age de Carvalho: "Waly Salomão"
Waly Salomão
Ele,
todo alterado,
alter-
outro sempre,
de visita à bahiana Beirute,
à síria Aruad patrícia,
em 98, de volta
onde nunca jamais esteve
(a vida é sonho)
e onde agora nele,
com ele seria:
a ilha ali,
à mão
para o salto de Waly no sangue
tatarancestral, em viagem —
e cair na praia do Morro da Sereia,
Rio Vermelho, alto
verão na Bahia.
CARVALHO, Age de. "Waly Salomão". In:_____. Ainda: em viagem. Belém: Ed. UFPA, 2015.
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14.9.18
Helio Jaguaribe: "Tudo é irrelevante"
Helio Jaguaribe, que foi uma das pessoas mais brilhantes que conheci, faleceu na semana passada. Por coincidência, acaba de ser lançado um documentário sobre ele, intitulado "Tudo é irrelevante", dirigido por sua filha, Izabel Jaguaribe, e Ernesto Baldan. Eis o trailer desse filme:
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12.9.18
Juan Arias: "A visão apocalítica do "Le Monde" sobre o Brasil"
Há alguns dias, o Le Monde publicou uma reportagem pessimista sobre o Brasil. Na verdade, ela corresponde ao que, nas circunstâncias atuais, muitos brasileiros também pensam. Ontem, porém, o jornal espanhol El País publicou um artigo, assinado por Juan Arias, que, criticando o artigo do Le Monde, oferece-nos outra perspectiva. Conheci-o na tradução portuguesa oferecida pelo site IHU On-Line. Ei-lo:
A visão apocalítica do "Le Monde" sobre o Brasil
O mundo tem os olhos voltados ao Brasil a um mês das importantes e já ensanguentadas eleições presidenciais, ofuscadas pela história infinita da candidatura de Lula na prisão, negada pela Justiça brasileira. Entre as visões negativas da imprensa internacional sobre o Brasil, o editorial do importante jornal francês Le Monde é especialmente apocalíptico.
Com o título de “O naufrágio de uma nação”, o Le Monde chega a afirmar que o Brasil “é um país que parece ter perdido o controle de seu destino”. É, acrescenta, “uma nação que se sente abandonada”. A classe política também não se salva, chamada de “tão angustiante como envelhecida, minada pela corrupção”.
O Le Monde já foi uma referência de jornalismo no mundo que formou gerações inteiras. Talvez por isso sua visão catastrofista sobre o Brasil, para os que, sem ser brasileiros, vivem aqui de perto a crise que assola o país é surpreendente. Não que tenhamos os olhos vendados para reconhecer que o país vive um de seus momentos mais difíceis após a ditadura, mas também não é verdade que o país tenha naufragado e perdido o controle de seu destino.
Não deixa de surpreender que os que colocaram há poucos anos esse país no Olimpo dos deuses, inveja do mundo, hoje o apresentem como uma nação que perdeu o controle, sem que se preocupem em analisar por que isso teria ocorrido, em tão pouco tempo, do céu ao inferno. Dentro e fora do Brasil, hoje são necessárias mais do que visões catastrofistas, e às vezes até injustas, sobre esse importante país, coração econômico da América Latina, uma análise séria sobre as causas que conduziram a essa crise pela qual ele passa. Não existem crimes sem culpados e é importante ir às raízes do problema antes de se fazer julgamentos sumários como se o Brasil houvesse chegado a esse momento sem que ninguém se sinta responsável.
É verdade que existe hoje um perigo real de autoritarismo e saudades da ditadura, sobretudo dos que não a viveram em sua própria carne, e que existe uma crise entre as instituições que tentam rivalizar entre elas invadindo a independência das mesmas que deveria ser mais respeitada. Acreditar, entretanto, que a democracia naufragou é uma ofensa ao trabalho que esse país realizou para se manter dentro dos padrões das democracias mundiais. O Brasil, dentro do continente, faz parte, apesar de todos os seus problemas, dos mais bem aparelhados do continente na defesa dos direitos humanos. O Brasil não é a Venezuela e a Nicarágua e com toda a sua carga de violência ainda não chega aos índices de alguns países do continente.
É um país com total liberdade de expressão e com a Justiça, com todos os seus possíveis erros, agindo e punindo os crimes de corrupção das elites políticas e empresariais como nunca aconteceu em sua história, em que a prisão era privilégio de pobres e negros. É um país com um grande debate nacional sobre a discriminação racial e de gênero. E com um jornalismo que, apesar de todas as críticas que possam ser feitas, é um dos mais vivos e responsáveis do continente, algo que me permito afirmar com meus 50 anos na profissão.
É verdade que há anos os brasileiros não estavam tão divididos por motivos políticos, agravado pelas redes sociais que ampliaram as possibilidades de debate. É um país, entretanto, que dos partidos políticos à sociedade mais madura reprovou, por exemplo, o atentado sangrento contra Bolsonaro, o candidato ultraconservador e cultor da violência.
Não sinto, como o Le Monde, que o Brasil seja um país como um barco já naufragado e sem esperanças. É um país irritado com seus governantes, descrente com seus políticos, mas como na maior parte do mundo de hoje. Prefiro ficar com a visão editorial do El País, que condenando dias atrás o atentado a Bolsonaro e o perigo de que possa ser usado para colocar em confronto uma sociedade já exasperada, concluiu dizendo: “O Brasil não está em guerra”. Eu diria que é uma sociedade sofrendo das dores do parto. Um Brasil que quer mais e o quer para todos, sem privilégios vergonhosos para os que deveriam dar exemplo à sociedade. Não é um país em agonia. É tão vivo que ainda é capaz de demonstrar sua raiva.
10.9.18
W. P. Yeats: "A coat" / "Um manto": trad. por Nelson Ascher
Um manto
Fiz para o verso um manto
de alto a baixo ornado
com mitos do passado.
Tolos, no entanto,
ao mundo reles
o expõem como se urdido
fosse por eles.
Levem-no em paz,
pois, verso, andar despido
é mais audaz.
A coat
I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From heel to throat;
But the fools caught it,
Wore it in the world’s eyes
As though they’d wrought it.
Song, let them take it
For there’s more enterprise
In walking naked.
YEATS, W. B. "A coat" / "Um manto". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia; 124 poemas traduzidos. Trad. e org. por Nelson Ascher. Rio de Janeiro: Imago, 1998.
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7.9.18
Paulo Sabino: "Um para dentro todo exterior"
Um para dentro todo exterior
nada a esconder
mesmo que
muito por
saber
o mundo
é um
para dentro
todo exterior
por detrás
do dentro
apenas o
dentro
nada
é o que há
para além
do que há:
o oculto
às claras
fundura
em superfície
o mistério
sem segredos:
todas as coisas
ao alcance dos dedos
SABINO, Paulo. "Um para dentro todo exterior". In:_____. Um para dentro todo exterior. Rio de Janeiro: Editora Autografia, 2018.
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5.9.18
Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Grandes são os desertos, e tudo é deserto"
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.
Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.
Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.
Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.
Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.
Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.
Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.
Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.
Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.
Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!
Mais vale arrumar a mala.
Fim.
PESSOA, Fernando. “Poesias de Álvaro de Campos”. In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
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4.9.18
Alex Varella: "Mar Sophia"
MAR SOPHIA
I
O poeta ensinou às coisas a falar e dizer seu nome.
Por exemplo, o mar.
Do mar são prateleiras,
platibandas,
licor de cor de laranja,
minha fruta-cor amarela.
As coisas do mar são além-delas.
II
As coisas ensinaram o poeta a falar e dizer seu nome.
Meu nome é o mar.
Meu mar é o mar sophia, que é todo poesia.
Mar da poeta Sophia,
em sua concreta sabedoria.
VARELLA, Alex. "Mar Sophia". In:_____. Céu em cima, mar em baixo. Rio de Janeiro: Topbooks, 2012.
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