20.5.17

Sandra Niskier Flanzer: "Tocar de ouvido"



Tocar de ouvido

Durante tempos cultivei sabedoria,
Tentada a convencer-me que a agarrava,
Tentando demover-me da empáfia convencida
De supor que inspiração não se pegava.
Ora, cansei de ir contra a natureza das mãos.
Cansei dos falsos toques, dados no saber sem vida.
Se hoje escrevo, como quem toca de ouvido,
É porque me tocam as coisas que ouço.
Ouço as coisas que toco e, pronto, escrevo.
No mais, é só o de menos.



FLANZER, Sandra Niskier. "Tocar de ouvido". In:_____. Por um, segundo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2012.

18.5.17

Antonio Carlos Secchin: "A gaveta"



A gaveta

A gaveta está trancada,
a chave levou Maria.
Nela guardados os planos
de quem já fui algum dia?
Decerto aí também mora
a linha da pescaria
que mirou no meu futuro,
mas errou a pontaria.
Desconheço se ela abriga
alguma mercadoria
dispondo de mais valor
que um pardal na ventania.
Mas por que agora eu escuto
numa quase litania
as vozes que dela saem
e se engrossam em gritaria?
Chamo então um bom chaveiro
da Europa, Olinda ou Bahia,
para arrombar a gaveta,
pois lá do fundo eu traria
a chave de algum passado
que aprisionado me espia.
Chega um e chegam dez
chaveiros em romaria.
A gaveta a todos eles,
um por um, derrotaria.
São bem fracos contra a força
e a resistência bravia
que a tal fechadura impõe
frente a tal cavalaria.
Na madrugada, cansado
pela perdida porfia,
percebo voando no ar
uma dúbia melodia.
Provém daquela gaveta:
ela afinal me induzia
a entrar sem maior esforço,
já que a mim se entregaria,
e dentro de si guardava
peça de imensa valia;
eu agora nem de chave
nem de nada carecia.
Conseguiu me convencer
com voz bastante macia,
e, pronto para apossar-me
da mais pura pedraria,
abri-a com a mão amante
de quem pisa em joalheria.
O tesouro acumulado
era a gaveta vazia.
Dois insetos passeavam
sobre a superfície fria.



SECCHIN, Antonio Carlos. "A gaveta". In: Mallarmagens. Revista eletrônica de poesia e arte contemporânea. URL: http://www.mallarmargens.com/2017/05/a-c-secchin-ineditos.html?q=Secchin. Acessado em 17/05/2017.




16.5.17

Abel Silva: "O pássaro da poesia"



O pássaro da poesia
O pássaro da poesia
soma de tanta asa
tanta pena
tanta amplidão,
é animal de grande potência
e autonomia,
os poetas, não.

Gotas de sangue eles são
nas veias do Pássaro-Mãe
e têm de cuidar de si
e do ávido bico materno
que se alimenta
dos filhos que gera.

Voa a Poesia
as grandes asas sombreando os caminhos.
O poeta vai a pé
sob olhares e zumbidos
junto a invisíveis muradas.

Sente frio
sob o sol
sente febre
e solidão.
Por onde vai os dedos apontam o vagabundo,
ele prossegue, entretanto.
É seu destino.
E ele não o troca
por nada deste mundo.



SILVA, Abel. "O pássaro da poesia" In:_____. PoemAteu. São Paulo: 7 Letras, 2011.


14.5.17

Abel Silva na Ocupação Poética do Teatro Cândido Mendes



















Nesta segunda (15), às 20h, o teatro do Centro Cultural Cândido Mendes, em Ipanema, receberá a 9ª edição do projeto Ocupação Poética, dedicada ao grande poeta e letrista da música popular brasileira, ABEL SILVA. Com leituras de parte de sua obra poética e interpretações de alguns de seus sucessos musicais, a noite contará com as participações especiais de ilustres amigos e parceiros do homenageado como o filósofo, poeta e letrista Antonio Cícero; o cantor e compositor Geraldo Azevedo; o poeta e jornalista Christovam de Chevalier; a poeta, atriz, cantora e dramaturga Elisa Lucinda; a atriz, escritora e jornalista Tessy Callado. A coordenação é do poeta e jornalista Paulo Sabino, que também participa da homenagem.

13.5.17

Francisco Bosco: "Da Amizade"



Da Amizade

Não é pelo saber nele encerrado,
mas sim pelo sabor da língua antiga

– qual num palimpsesto culinário,
na língua nova a língua traduzida:

os nomes próprios são especiarias,
Tibério, Caio Lélio, Cipião,

são como mariscos pescados nas ilhas,
aura e sal conservados no som –,

que a leitura do Da Amizade,
de Marco Túlio Cícero, o romano,

portanto é menos uma aprendizagem,
que um pequeno rito gastronômico:

é como se comêssemos um prato
envolto em naufrágios e segredos

– os cozinheiros estão todo mortos,
os livros, porém, guardam a receita.



BOSCO, Francisco. "Da Amizade". In:_____. Da Amizade. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003.

10.5.17

Charles Baudelaire: "Spleen (III)": trad. de Guilherme de Almeida



Spleen (III)

Je suis comme le roi d'un pays pluvieux,
Riche, mais impuissant, jeune et pourtant très vieux,
Qui, de ses précepteurs méprisant les courbettes,
S'ennuie avec ses chiens comme avec d'autres bêtes.
Rien ne peut l'égayer, ni gibier, ni faucon,
Ni son peuple mourant en face du balcon.
Du bouffon favori la grotesque ballade
Ne distrait plus le front de ce cruel malade ;

Son lit fleurdelisé se transforme en tombeau,
Et les dames d'atour, pour qui tout prince est beau,
Ne savent plus trouver d'impudique toilette
Pour tirer un souris de ce jeune squelette.
Le savant qui lui fait de l'or n'a jamais pu
De son être extirper l'élément corrompu,
Et dans ces bains de sang qui des Romains nous viennent,
Et dont sur leurs vieux jours les puissants se souviennent,
Il n'a su réchauffer ce cadavre hébété
Où coule au lieu de sang l'eau verte du Léthé.





Spleen (III)

Sou como o pobre rei de algum país chuvoso,
Rico, mas incapaz, moço e no entanto idoso,
Que as lisonjas dos preceptores desprezando
Vai com seus animais, com seus cães se enfadando.
Nada o pode alegrar, nem caça, nem falcão,
Nem seu povo morrendo em frente do balcão.
Do jogral favorito a grotesca balada
Não mais lhe desenruga a fronte acabrunhada;

Todo flores-de-lis, é um mausoléu seu leito,
E as aias, que acham todo príncipe perfeito,
Já não sabem que traje impudico vestir
Para fazer esse esqueleto moço rir.
O sábio, que fabrica o seu ouro, em vão luta
Por lhe extirpar do ser a matéria corrupta,
E nem nos tais banhos de sangue dos romanos,
De que se lembram na velhice os soberanos,
Conseguiu aquecer essa carcaça insulsa
Onde, em lugar de sangue, a água do Lete pulsa.




BAUDELAIRE, Charles. "Spleen (III)". In: ALMEIDA, Guilherme (org. e trad.). Poetas de França. São Paulo: Babel, s.d.

7.5.17

Luis Cernuda: "El amor y el amante" / "O amor e o amante": trad. Antonio Cicero


El amor y el amante

¿Eres amor? Pasa el fuego,
Cruza con alas el mar,
Despierta a la vida en el sueño,
Da hermosura a lo real.

¿Eres tan sólo la sombra?
Cubre con tu resplandor
Tu mentira. Haz que la sombra
Venza al fuerte, al puro amor.



CERNUDA, Luis. "El amor y el amante". In:_____. "La realidad y el deseo". In:_____. Poesía completa.  Org. por Derek Harris e Luis Maristany. Madrid: Siruela,1993.




O amor e o amante

És mesmo amor? Passa o fogo
Cruza com asas o mar,
Desperta na vida o sonho,
Dá formosura ao real.

Ou és apenas a sombra?
Cobre com teu resplendor
Tua mentira: que a sombra
Vença o forte, o puro amor.



Tradução por Antonio Cicero