17.8.17

Adriano Nunes: "Erato"

Agradeço a Adriano Nunes por me ter dedicado o seguinte belo poema:



Clique, para ampliar:






NUNES, Adriano. "Erato".



15.8.17

Carlos Drummond de Andrade: "Confissão"



Confissão

É certo que me repito,
é certo que me refuto
e que, decidido, hesito
no entra-e-sai de um minuto.

É certo que irresoluto
entre o velho e o novo rito,
atiro à cesta o absoluto
como inútil papelito.

É tão certo que me aperto
numa tenaz de mosquito
como é trinta vezes certo
que me oculto no meu grito.

Certo, certo, certo, certo
que mais sinto que reflito
as fábulas do deserto
do raciocínio infinito.

É tudo certo e prescrito
em nebuloso estatuto.
O homem, chamar-lhe mito
não passa de anacoluto.



ANDRADE, Carlos Drummond de. "Confissão". In:_____. "As impurezas do branco". In:_____. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguiolar, 1988.

10 fatos sobre Antonio Cicero



Acabo de ver que o site Bol (Brasil On Line) publicou uma matéria intitulada "10 fatos sobre Antonio Cicero, o mais novo imortal do Brasil". Fica aqui: https://noticias.bol.uol.com.br/bol-listas/10-fatos-sobre-antonio-cicero-o-mais-novo-imortal-do-brasil.htm.

11.8.17

Eucanaã Ferraz: "Graça"



Graça

Milhões de palavras derramadas inúteis
mas teu rosto não; árvores tombadas livros
partidos tudo se vende mas teu rosto não;
sangue de cidades e crianças mas teu rosto
segue limpo; em cada canto um inimigo;
no teu rosto não: rosto onde não cabe
a guerra; rosto sem irmão; teu rosto
o teu nome o diz.



FERRAZ, Eucanaã. "Graça". In:_____. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

8.8.17

Jules Laforgue: "Complainte de la bonne défunte" / "Lamento da boa defunta": trad. de Régis Bonvicino




Lamento da boa defunta

Pela avenida ela fugia,
Iluminada eu a seguia,
Adivinhei! O olho dizia,
Hélas! Eu a reconhecia!

Iluminada eu a seguia,
Boca ingênua, nada via,
Oh! sim eu a reconhecia,
Ou sonhaborto ela seria?

Boca murcha, olho-fantasia;
Branco cravo, azul esvaía;
O sonhaborto amanhecia!
Ela em morta se convertia.

Jaz, cravo, de azul esvaía,
A vida humana prosseguia
Sem ti, defunta em demasia.
– Oh! já em casa, boca vazia!

Claro, eu não a conhecia.




Complainte de la bonne défunte

Elle fuyait par l'avenue,
Je la suivais illuminé,
Ses yeux disaient : " J'ai deviné
Hélas! que tu m'as reconnue ! "

Je la suivis illuminé !
Yeux désolés, bouche ingénue,
Pourquoi l'avais-je reconnue,
Elle, loyal rêve mort-né ?

Yeux trop mûrs, mais bouche ingénue ;
Oeillet blanc, d'azur trop veiné ;
Oh ! oui, rien qu'un rêve mort-né,
Car, défunte elle est devenue.

Gis, oeillet, d'azur trop veiné,
La vie humaine continue
Sans toi, défunte devenue.
- Oh ! je rentrerai sans dîner !

Vrai, je ne l'ai jamais connue.




LAFORGUE, Jules. "Complainte de la bonne défunte" / "Lamento da boa defunda". In:_____. Litanias da lua. Org. e trad. de Régis Bonvicino. São Paulo: Iluminuras, 1989. 

6.8.17

Para Suzana Moraes



Minha amiga Susana Moraes, uma das pessoas que mais admirei e amei em toda minha vida, faria aniversário hoje. Abaixo, uma foto de nós dois e um dos poemas que a ela dediquei. 
















Longe
                                    Para Susana Moraes

A chuva forte, o resfriado
real ou fingido, e eis-me livre
da escola e solto no meu quarto,
nos lençóis, nos mares de Chipre
ou no salão de Ana Pavlovna
ou no de Alcínoo, nas cavernas
de Barabar ou sob a abóbada
de Xanadu; perplexo em Tebas
e pelas veredas ambíguas
do sertão do corpo da língua,
cada vez mais longe de escolas
e de peladas e de bolas
e de promessas de futuros:
é mesmo errático meu rumo.



5.8.17

Manuel Bandeira: "Soneto inglês nº2"



Soneto inglês nº2

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana,
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança e nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
    Morrer sem uma lágrima, que a vida
    Não vale a pena e a dor de ser vivida.



BANDEIRA, Manuel. "Soneto inglês nº2". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.