21.4.18

Aleksandr Blok: "Do ciclo 'Dança da morte'": trad. de Augusto de Campos



Do ciclo Dança da morte

Noite. Fanal. Rua. Farmácia.
Uma luz estúpida e baça.
Ainda que vivas outra vida,
Tudo é igual. Não há saída.

Morres – e tudo recomeça,
E se repete a mesma peça:
Noite – rugas de gelo no canal.
Farmácia. Rua. Fanal.




BLOK, Aleksandr. "Do ciclo Dança da morte". Trad. de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; SCHNAIDERMAN, Boris (organizadores e tradutores). Poesia russa moderna. São Paulo: Perspectiva, 2012.

18.4.18

Vinícius de Moraes: "Soneto do Café Lamas"



Soneto do Café Lamas

No Largo do Machado a pedida era o "Lamas"
Para uma boa média e uma "canoa" torrada
E onde a noite cumpria ir tomar umas brahmas
E apanhar uma zinha ou entrar numa porrada.

Bebendo, na tenção de putas e madamas
Batidas de limão até de madrugada
Difícil era prever se o epílogo das tramas
Seria algum michê ou alguma garrafada.

E em meio a cafetões concertando tramóias
Estudantes de porre e mulatas bonitas
Sem saber se ir dormir ou ir na Lili das Jóias

Ordenar, a cavalo, um bom filé com fritas
E ao romper da manhã, não tendo mais aonde
Morrer de solidão no reboque de um bonde.





MORAES, Vinícius. "Soneto do Café Lamas". In: GIL, Daniel. A poesia esparsa de Vinícius de Moraes. Uma leitura de inéditos e (des)conhecidos. São Paulo: Todas as Musas, 2018.

15.4.18

Luís Miguel Nava: "A fome"



A fome

Aqui, onde a mão não
alcança o interruptor da vida, aqui
só brilha a solidão.
Desfazem-se as lembranças contra os vidros.
Aqui, onde a brancura
dum lenço é a brancura do infortúnio,
aqui a solidão
não brilha, apenas
se estorce.
A fome fala através das feridas.




NAVA, Luís Miguel. "A fome". In:_____. Vulcão. Lisboa: Quetzal, 1994.

12.4.18

Wisława Szymborska: "Opinião sobre a pornografia": trad. de Regina Przybycien



Opinião sobre a pornografia

Não há devassidão maior que o pensamento.
Essa diabrura prolifera como erva daninha
num canteiro demarcado para margaridas.

Para aqueles que pensam nada é sagrado.
O topete de chamar as coisas pelos nomes,
a dissolução da análise, a impudicícia da síntese,
a perseguição selvagem e debochada dos fatos nus,
o tatear indecente de temas delicados,
a desova das ideias – é disso que eles gostam.

À luz do dia ou na escuridão da noite
se juntam aos pares, triângulos e círculos.
Pouco importa ali o sexo e a idade dos parceiros.
Seus olhos brilham, as faces queimam.
Um amigo desvirtua o outro.
Filhas depravadas degeneram o pai.
O irmão leva a irmã mais nova para o mau caminho.

Preferem o sabor de outros frutos
da árvore proibida do conhecimento
do que os traseiros rosados das revistas ilustradas,
toda essa pornografia na verdade simplória.
Os livros que os divertem não têm figuras.
A única variedade são certas frases
marcadas com a unha ou com o lápis.

É chocante em que posições,
com que escandalosa simplicidade
um intelecto emprenha o outro!
Tais posições nem o Kamasutra conhece.

Durante esses encontros só o chá ferve.
As pessoas sentam nas cadeiras, movem os lábios.
Cada qual coloca sua própria perna uma sobre a outra.
Dessa maneira um pé toca o chão,
o outro balança livremente no ar.
Só de vez em quando alguém se levanta,
se aproxima da janela
e pela fresta da cortina
espia a rua.




SZYMBORSKA, Wisława. "Opinião sobre a pornografia". In:_____. Poemas. Trad. de Regina Przybycien. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

10.4.18

Sophia de Mello Breyner Andresen: "As ondas quebravam uma a uma"



As ondas quebravam uma a uma
Eu estava só com a areia e com a espuma
Do mar que cantava só para mim.



ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "As ondas quebravam uma a uma". In:_____. Coral e outros poemas. Org. por Eucanaã Ferraz. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

7.4.18

Paul Celan: "Der uns die Stunden zählte" / "Aquele que nos contava as horas": trad. João Barrento e Y.K. Centeno





Aquele que nos contava as horas

Aquele que nos contava as horas
continua a contar.
Que estará ele a contar, diz?
Conta e torna a contar.

Não faz mais frio,
nem mais noite,
nem mais húmido.

Só aquilo que nos ajudava a escutar
agora escuta
para si sozinho.




Der uns die Stunden zählte

Der uns die Stunde zählte,
er zählt weiter.
Was mag er zählen, sag?
Er zählt und zählt.

Nicht kühler wirds,
nicht nächtiger,
nicht feuchter.

Nur was uns lauschen half:
es lauscht nun
für sich allein.




CELAN, Paul. "Der uns die Stunden zählte" / "Aquele que nos contava as horas". In:_____. Sete rosas mais tarde. Antologia poética.  Org. e trad.: João Barrento e Y.K. Centeno. Lisboa: Cotovia, 1996.

5.4.18

Antonio Carlos Secchin: "Caetano Veloso: Londres e São Paulo"




Assistam à gravação da belíssima palestra do acadêmico Antonio Carlos Secchin, intitulada "Caetano Veloso: Londres e São Paulo", pronunciada na terça-feira passada, na ABL, como parte do ciclo de conferências "As cidades dos poetas":