16.6.18

Jorge Luis Borges: "a un viejo poeta" / "a um velho poeta": trad. de Josely Vianna Baptista



A un viejo poeta

Caminas por el campo de Castilla
y casi no lo ves. Un intrincado
versículo de Juan es tu cuidado
y apenas reparaste en la amarilla

puesta del sol. La vaga luz delira
y en el confín del Este se dilata
esa luna de escarnio y de escarlata
que es acaso el espejo de la Ira.

Alzas los ojos y la miras. Una
memoria de algo que fue tuyo empieza
y se apaga. La pálida cabeza

bajas y sigues caminando triste,
sin recordar el verso que escribiste:
Y su epitafio la sangrienta luna.




a um velho poeta

Caminhas pelo campo de Castela
e quase não o vês. Um intrincado
versículo de João é teu cuidado
e mal percebes a luz amarela

do pôr do sol. A vaga luz delira
e nos confins do Leste se dilata
essa lua de escárnio e de escarlata
que talvez seja o espelho da Ira.

O olhar elevas e a contemplas. Uma
memória de algo que foi teu começa
e se dissipa. A pálida cabeça

curvas e segues caminhando triste,
sem recordar o verso que escreveste:
seu epitáfio a sangrenta lua.




BORGES, Jorge Luis. "a un viejo poeta" / "a um velho poeta". In:_____. O fazedor (1960). Trad. de Josely Vianna Baptista. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

12.6.18

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "É do princípio das tardes"



É do princípio das tardes
do sol das tardes
das janelas abertas
das cigarras
e é do sol a entrar pelas janelas
da sua incidência nas cristaleiras
nas macãs e nos jarrões,
é das iluminadas peças de bronze
do segundo plano das aguarelas
das mais à sombra fotografias da família
que eu saio
durante as horas paradas
para escrever poesia.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "É do princípio das tardes". In:_____. Dióspiro, poesia reunida 1977-2007. Org. por Luís Miguel Queirós e José Carlos Tinoco. Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2007. 

10.6.18

Luís Miguel Nava: "Rapazes"



Rapazes

Foi há cerca de um ano que eu
os vi, onde o granito e a luz são consanguíneos.

Seguiam abraçados um
ao outro, o pensamento posto no amoroso
lençol de que era na mão deles
o guarda-chuva uma antecipação.



NAVA, Luís Miguel. "Rapazes". In:_____. Poesia completa 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2002.

7.6.18

Mário Quintana: "O poema. I"; "O poema. II"



O poema. I

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta
[noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de
[poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.




O poema. 2

O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta..




QUINTANA, Mário. "O poema. I"; "O poema. II". In: BANDEIRA, Manuel. "Antologia". In: Apresentação da poesia brasileira, seguida de uma antologia. São Paulo: Cosanaify, 2009.

4.6.18

Luis Turiba: "Perxistência"



Perxistência

sonhos senhas
sedes credos
scripts santos ao sol
flores filtros
afloram o céu

cada passo um destino
cada ritmo uma rotina
caminhada é teimosia
mas sim, sigo rumo ao fim



 TURIBA, Luis. "Perxistência". In:_____. Qtais. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

2.6.18

Caio Meira: "Cozimento"



Cozimento

Ri o poeta
vindo da cozinha:
"adivinhe o que acaba
de sair do forno."
"Pães de queijo?"
"Não.
Um poema."



MEIRA, Caio. "Cozimento". In:_____. Romance. Rio de Janeiro: Circuito, 2013.

30.5.18

Waly Salomão: "Câmara de ecos"



Câmara de ecos

Cresci sob um teto sossegado,
meu sonho era um pequenino sonho meu.
Na ciência dos cuidados fui treinado.

Agora, entre meu ser e o ser alheio
a linha de fronteira se rompeu.



SALOMÃO, Waly. "Câmara de ecos". In:_____. "Algaravias: Câmara de ecos [1996]". In:_____. Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.