18.10.15

Hans Magnus Enzensberger: "Middle class blues": trad. Markus J. Weininguer e Rosvitha Friesen Blume





Middle class blues

Nós não temos nada a reclamar.
Nós temos o que fazer.
Nós estamos servidos.
Nós estamos comendo.

A grama cresce,
A curva do PIB,
A unha,
As épocas passadas.

As ruas estão vazias.
As planilhas de balanço perfeitas.
As sirenes se calam.
Aquilo passa.

As pessoas falecidas fizeram seu testamento.
A chuva diminuiu.
A guerra ainda não está declarada.
Aquilo não tem pressa.

Nós comemos a grama.
Nós comemos o PIB.

Nós comemos as unhas.
Nós comemos as épocas passadas.


Nós não temos nada a ocultar.
Nós não temos nada a perder.
Nós não temos nada a dizer.
Nós temos.

A corda do relógio está ajustada.
As condições estão bem definidas.
A louça está lavada.
A última condução está passando.

Ela está vazia.

Nós não temos nada a reclamar.

Nós estamos esperando o que afinal?




Middle class blues

Wir können nicht klagen.
Die verhältnisse sind geordnet.
Wir sind satt.
Wir essen.

Das gras wächst.
Das sozialprodukt,
Der fingernagel,
Die vergangenheit.

Die strassen sind leer.
Die abschlüsse sind perfekt.
Die sirenen schweigen.
Das geht vorüber.

Die toten haben ihr testament gemacht.
Der regen hat nachgelassen.
Der krieg ist noch nicht erklärt.
Das hat keine eile.

Wir essen das gras.
Wir essen das sozialprodukt.

Wir essen die fingernägel.
Wir essen die vergangenheit.

Wir haben nichts zu verheimlichen.
Wir haben nichts zu versäumen.
Wir haben nichts zu sagen.
Wir haben.

Die uhr ist aufgezogen.
Wir haben zu tun.
Die teller sind abgespült.
der letzte autobus fährt vorbei.

Er ist leer

Wir können nicht klagen.

Worauf warten wir noch?




ENZENSBERGER, Hans Magnus. "Middle class blues". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGUER, Markus J. (organização e traduções). Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Antologia bilingue. Florianópolis: Editora UFSC, 2012. 

Um comentário:

Geraldo Vicente Martins disse...

De uma beleza cruel esse poema de Enzensberger...