2.5.10

A ideologia marxista hoje




O seguinte texto é uma versão um pouco mais longa do artigo que foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 1º de maio.


A ideologia marxista hoje


JÁ CITEI uma vez, nesta coluna, a observação do filósofo Theodor Adorno no ensaio "As Estrelas Descem à Terra" de que, ao semierudito, "a astrologia [...] oferece um atalho, reduzindo o que é complexo a uma fórmula prática e oferecendo, simultaneamente, uma agradável gratificação: o indivíduo que se sente excluído dos privilégios educacionais supõe pertencer a uma minoria que está "por dentro'". Na época, mostrei que tal descrição convém também à ideologia religiosa do apóstolo Paulo, assim como à de Martinho Lutero. Pois bem, o fato é que ela se aplica igualmente bem a ideologias seculares, tais como o marxismo vulgar.

Embora tencione dar uma chave para o entendimento do mundo, como uma religião, o marxismo, longe de se tomar como religião, considera-se inteiramente racional, declarando-se tanto filosofia quanto ciência da história e da sociedade. Isso faculta ao semierudito ter-se, do ponto de vista cognitivo, como superior também aos eruditos que, por diferentes razões, não tenham adotado a concepção marxista.

Como, além disso, essa concepção do mundo quer fundamentar uma teoria revolucionária, tendo em vista a superação do capitalismo e a instauração do comunismo, sociedade em que pretende que não haverá mais propriedade privada dos meios de produção, nem diferentes classes sociais nem os flagelos da exploração e da opressão do ser humano pelo ser humano, os marxistas, já pelo simples fato de se posicionarem a favor de tal revolução, consideram-se, a priori, superiores, também do ponto de vista ético, a todos que não o tenham feito.

Para esse modo de pensar, o mundo existente, em que domina o modo de produção capitalista, é inteiramente degradado. Nele, qualquer progresso é tido como meramente adjetivo, quando não fictício. A democracia existente -qualificada de "burguesa"- não é valorizada senão enquanto caminho para a revolução. Só esta deverá trazer um progresso real.

Hoje, porém, nem os marxistas podem pretender saber como se daria a superação do capitalismo. Não ignoro que, se questionados, certamente falariam em "socialismo". Concretamente, porém, que poderia significar para eles tal palavra?

Seu socialismo certamente nada teria a ver com a social-democracia, pois esta, sendo compatível com o capitalismo, não representaria sua superação. Tratar-se-ia então do socialismo como a estatização dos meios de produção, tal como se deu, por exemplo, na União das Repúblicas Socialistas Soviéticas?

Será realmente possível identificar a estatização com o socialismo, que seria a transição para o comunismo? Friedrich Engels diria que não, pois afirmava que "quanto mais forças produtivas o Estado moderno passa a possuir, quanto mais se torna um capitalista total real, tantos mais cidadãos ele explora. Os trabalhadores continuam assalariados, proletários. Longe de ser superada, a relação capitalista chega ao auge". Dado que a propriedade estatal dos meios de produção não garante a posse real deles pelos trabalhadores, ela é capaz de não passar de uma forma de capitalismo de Estado. A superação do capitalismo somente se daria quando a sociedade, aberta e diretamente, sem a intermediação do Estado, tomasse posse das forças produtivas. Note-se bem: a propriedade estatal dos meios de produção, consistindo na manifestação extrema de uma relação de produção capitalista, está longe de ser a posse social dos mesmos.

Os revolucionários russos não pensaram assim. Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a instauração do socialismo (que seria o primeiro passo para o comunismo), supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista.

O fato, porém, é que a própria extinção da URSS e o caráter selvagem e mafioso do capitalismo que hoje vigora na Russia se encarregaram de desmentir essa pretensão. Em obra recente, o marxista Alain Badiou reconhece que “sob a forma do Partido-Estado, experimentou-se uma forma inédita de Estado autoritário e mesmo terrorista, de todo modo muito separado da vida das pessoas”. E conclui: “O princípio da estatização era em si mesmo viciado e por fim ineficaz. O exercício de uma violência policial extrema e sangrenta não conseguiu salvá-lo de sua inércia burocrática interna e, na competição feroz que lhe impuseram seus adversários, não foram precisos mais de cinquenta anos para mostrar que ele jamais venceria”.

A Revolução Cultural Chinesa pode ser entendida como uma tentativa de mobilizar as massas contra o estabelecimento de uma situação semelhante, na China. Seu líder, Mao Tse-tung, chegou a dizer: “Não se sabe onde está a burguesia? Mas [nos países socialistas] ela se encontra no Partido Comunista!” Como, porém, as “massas” são necessariamente plurais, particulares, instáveis e manobráveis, o fato é que, na época moderna, qualquer “democracia direta” não pode passar de uma quimera. Não admira, portanto, que a Revolução Cultural se tenha tornado extremamente caótica e violenta, de modo que, por fim, tenha sido necessário, como diz Badiou, “restabelecer a ordem nas piores condições”. O resultado é que impera hoje na China o mais brutal capitalismo, tanto estatal quanto privado.

A verdade é portanto que, como nem a centralização, sob a égide do Partido, nem a mobilização das massas logram superar o capitalismo, não se sabe – jamais se soube realmente– como se daria tal superação.

Contudo, só a miopia ideológica impede de ver que, embora a "Revolução" se tenha revelado um beco sem saída, o mundo em que vivemos encontra-se em fluxo incessante; e que a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc. -que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão- constituem também as verdadeiras condições para torná-lo melhor.

69 comentários:

Anônimo disse...

A Psicanálise parece se encaixar nessa descrição.

ADRIANO NUNES disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
ADRIANO NUNES disse...

Cicero,

Meu novo poema:



"Sem medida" - Para Washington Rodrigues Filho.


Fim é fim.
Não há como
Duvidar.

De que vale
Amar tudo
Mais que tudo

Dessa vida?
Um mistério
Encoberta-nos:

Amo o seu
Coração.
Outra coisa

Não. Prometo
O poema
Livre, à toa...

Somos só
Medo, músculos
E memória.



Abração,
A. Nunes.

Anônimo disse...

Cícero,

quando tiveres um tempo, espreita esta conferência de David Harvey (economista e Prof.) aqui: http://www.counterfire.org/index.php/news/61-reports/4776-david-harvey-video-the-enigma-of-capital-lse-2010

ele tem uma análise histórica bastante boa da crise. segue-se uma "receita de mudança" ainda mt menos desenvolvida do que a análise histórica (e com a qual tenho já alguns problemas, mas ok). mas a questão é que ele cita marx sem embarcar na onda "religiosa".

outro economista que ouvi recentemente (este, ao vivo) e que me pareceu muito bom foi Ian Goldwin (ex-presidente do banco mundial, ex-conselheiro de Nelson Mandela...)

enfim são dois economistas que defendem a reforma do sistema financeiro e reconhecem os seus problemas, nas suas duas dimensões mais graves - a social e a ambiental - só que um é um "marginal" desse sistema e o outro é um "peão".

começa a haver alguma convergência no discurso e isso (eu espero!!), é um importante sinal de mudança.

abraço grande,
F.

EDSON DA BAHIA disse...

Profundo! Esclarecedor! Contundente em sua análise! Texto aurífero.
Avante, Cícero! Aqui, se bebe a água pura do saber.

rodrigomadeira79@gmail.com disse...

uma aula.
eu, que sempre fui ex-marxista e um cavalo com roupa,
vim beber no açude de tua lucidez.

obrigado, cicero!

Anônimo disse...

Cícero você desenrola o texto me parece seguindo uma das seis propostas de Italo Calvino:Leveza.
Muito bom e simples.Merece uma continuidade seguir por este beco sem saída.Navegar é preciso.
Um grande abraço.

Julio Camillo disse...

Os anarquistas já não antecipavam esse fracasso do estado terrorista soviético?

Anônimo disse...

Espetacular!!!! Esse texto já esá guardado para o resto da minha vida. Fabio

Anônimo disse...

Olá! Gostaria de fazer uma observação, na verdade um pergunta. Você conclui seu texto "A ideologia marxista hoje" dizendo que: a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc, constituem também as verdadeiras condições para tornar o mundo melhor. No entanto, será mesmo que tais condições podem existir onde impera o modo de produção capitalista? Digo, a sociedade capitalista permite que a sociedade seja aberta? que o pensamento possa se expressar livremente? que a maximização da liberdade individual seja compatível com a existência da sociedade? será mesmo que a tal sociedade que se encontra em fluxo incessante permite a autonomia da arte e da ciência? Não há nenhum direcionamento imposto pelo capitalismo à todas estas supostas condições necessárias para tornar o mundo melhor?

Faço estas perguntas pois percebo que o texto busca criticar o marxismo vulgar mas acaba por cair em um anti-marxismo vulgar. Ah! Seria interessante se tivesse citado qual é a posição do marxismo no que se refere a "ideologia", já que o testo intitula-se "a ideologia marxista hoje". Ainda, os conceitos de Crítica e Razão podem ser tomadas como sinônimos? Na Filosofia, existe uma distinção clara e obrigatória destes conceitos. Mas, de qualquer modo, fica a pergunta.

Desculpe qualquer incômodo e obrigado pela paciência.

Nielen disse...

Bom dia Antonio Cicero!
Adorei seu texto, era exatamente o que eu procurava para entender algumas coisas, pois estou fazendo um trabalho para a faculdade de Pedagogia nas Faculdades Integradas Maria Imaculada de Mogi Guaçu SP, onde eu preciso entender a ideologia marxista e os dias de hoje. Seu artigo será muito bem comentado.
Obrigado

Nobile José disse...

sou aries com ascendente em libra e marxista de botequim. não perdoo a urss por ter transformado a palavra "comunismo" em sinônimo de ditadura.
acho impossível um estado comunista na forma como me dizem que tal estado seria. pelo menos hoje. no futuro, não sei.
mas tb acho difícil. o capitalismo é mais fácil, mais prático; e ao aderir à democracia, acabou por criar um binônio de sucesso no ocidente.
os ignorantes da cortina de ferro achavam que podiam "pensar" pelas massas - no lugar delas. isso é impossível. isso é a genuína ditadura ideológica.
por outro lado, penso que o comunismo só vai existir mesmo como um pensamento ideal, um avesso impossível do que existe hoje.
mas consultando os astros, fico tentato a dizer que, como um dia a democracia já foi um ideal com aplicação limitada, pode ser que as ideias comunistas tb encontrem ampla aplicação um dia.
explico: não há como negar que a democracia se efetivou nos estados de direito após as ideias iluministas, que culminaram na revolução francesa e na norte-americana.
e hoje, no brasil, por exemplo, temos uma democracia em "implantação". a constituição abarca, inclusive, duas ideologias distintas: a liberal e a social.
a função social da propriedade é um exemplo da flexibilização do direito de propriedade. ainda que a passos lentos, já é possível, hoje, a desapropriação para fins de reforma agrária. isso é uma idéia comunista aplicada a uma realidade capitalista.
penso no futuro, da mesa do meu botequim imaginário, com simpatia: um capitalismo-comunismo, respeitando-se o que há de melhor em ambos.
e isso só é possível, graças à efetivação da democracia e ao respeito à razão: combustíveis natos do pensamento crítico.
e a netuno passando por plutão, lógico...

Afrânio disse...

O capitalismo triunfou porque está mais concorde com a natureza humana e com a natureza do mundo físico que o comunismo e o socialismo. Daqui a milhares de anos quando a natureza humana puder ser modificada, os mais espertos usarão os recursos da genômica em proveito próprio e o capitalismo continuará triunfante. O mundo continuará sendo uma grande cebola com umas camadas sobre as outras, e continuará abrigando uma sociedade de abelhas, com suas rainhas, zangões e operárias.

Ministério da saúde disse...

Caro blogueiro,

A vacina contra Influenza H1N1, vírus que já matou 1.632 brasileiros, está disponível nos postos de saúde pública de todo o Brasil para pessoas com maior risco de desenvolver a forma grave da doença. A vacina foi testada, é segura e mais de 300 milhões de pessoas já foram imunizadas com esta vacina no Hemisfério Norte. Sábado, 24, começa mais uma etapa da campanha, voltada agora para a vacinação de idosos com doenças crônicas. No entanto, a população das outras etapas - jovens de 20 a 29 anos, grávidas, crianças maiores de 6 meses a menores de 2 anos e doentes crônicos com menos de 60 anos - ainda podem procurar os postos para se vacinar.Para mais informações sobre como se tornar um parceiro, escreva para fernanda.scavacini@saude.gov.br
Atenciosamente,
Ministério da Saúde

Robson Ribeiro disse...

Belo texto, Cicero. De fácil entendimento. Obrigado.

Grande Abraço!

Antonio Cicero disse...

Para ser sincero, custa-me crer que você esteja fazendo essas perguntas a sério. Vejamos:

“A sociedade capitalista permite que a sociedade seja aberta?”

Resposta: Até hoje só houve sociedade com algum grau de abertura onde houve capitalismo. As sociedades pré-capitalistas – primitivas, escravistas, feudais etc. – eram fechadas; as sociedades que pretenderam ir além do capitalismo eram não só fechadas, mas totalitárias.

“A sociedade capitalista permite que o pensamento possa se expressar livremente?”

Resposta: Acaso o seu pensamento não pode se expressar livremente? Desde quando há – no Brasil contemporâneo, nos Estados Unidos ou na Europa, por exemplo – censura à expressão do pensamento? Onde é que você vive? Onde há censura é em Cuba e na Coreia do Norte, por exemplo.

“A sociedade capitalista permite a máxima liberdade individual compatível com a sua existência?”

Resposta: De novo, nunca, em nenhum momento da história, houve tanta liberdade individual no mundo quanto há hoje, em países capitalistas como o Brasil, os Estados Unidos, ou os da Europa.

“Será mesmo que a tal sociedade que se encontra em fluxo incessante permite a autonomia da arte e da ciência?”

Resposta: De novo, nunca foi possível aos cientistas e aos artistas tanta autonomia quanto hoje, nos países já mencionados.

“Não há nenhum direcionamento imposto pelo capitalismo à todas estas supostas condições necessárias para tornar o mundo melhor?”

Exatamente o que você quer dizer com isso? Não dá para entender que direcionamento é esse, se cada um pensa de modo diferente do outro. Acaso você é obrigado por alguém a pensar ou dizer o mesmo que eu?

Quanto à ideologia, se você clicar no marcador “Ideologia”, à direita do portal do blog, encontrará três artigos em que falo desse assunto.

Finalmente, ao contrário do que você pensa, a crítica é um modo – e o modo fundamental – da razão. Mas aqui não é o lugar para falar disso. Se acaso lhe interessar saber o que penso sobre isso, leia o meu livro “O mundo desde o fim”.

Maria Rodrigues disse...

Antonio Cícero,

A grande maioria dos críticos de Marx se esquece do método. Algo que é todo o fundamento de seu pensamento. E isso fica tão estranho que chegamos ao ponto de nos depararmos com críticas que se fundamentam em métodos do próprio pensamento marxista.
O que aliás, é muito bizarro e em geral partem de ex-marxitas arrependidos; o que não creio ser seu caso.
O fato é que o pensamento de Marx se recoloca na ordem do dia. Não por um capricho diletante, mas como uma necessidade de compreensão da própria realidade, face a atual crise que abalou e abala os pilares da economia capitalista. (Vide a recente situação da Grécia e outras que estão a caminho).
Abs.

Antonio Cicero disse...

Maria,

Jamais afirmei que o capitalismo não sofra crises ou que as crises não provoquem mudanças. É claro que o capitalismo muda o tempo todo. Ou você acha que o capitalismo chinês é igual ao sueco?

E acho que vale a pena ler Marx: tanto que, ao contrário da maior parte dos marxistas, eu frequentemente o leio.

No meu artigo eu apenas chamo atenção para o fato de que a revolução socialista, nos moldes marxistas, não pode dar certo.
Nesse sentido, o marxismo está inteiramente superado.

Abraço

O Fantasma de Chet Baker disse...

Que texto! Quantas saudades...

rodrigomadeira79@gmail.com disse...

aquilo de bom que o marxismo poderia oferecer já foi em menor ou maior medida, dependendo do país, assimilado ou ao menos absorvido pelo repertório reivindicativo de partidos que defendem o capitalismo democrático. tome-se como ex. os países nórdicos, países capitalistas desde o fim gradual do feudalismo. existe algum exemplo maior de justiça social, o santo graal socialista, do que nesses países? e justiça social com liberdade. creio que nunca na história, em se tratando de sociedades complexas, chegou-se a resultados que tais.

agora, o socialismo("revolucionário", vá lá, mas mesmo "democrático" - e botemos mais aspas aí! - como na venezuela ou na bolívia) está na contracorrente da liberdade. não é possível um estado socialista que não busque, alienando pela doutrinação política ou policiando pura e simplesmente, cercear a liberdade de iniciativa, pensamento e expressão, arte e ciência incluídos. peguemos o exemplo da urss "jadanoviana". quantos artistas não foram presos, torturados, se mataram ou formam censurados pela menor crítica que fizessem? fiquemos só no terreno da poesia. roman jacobson fala disso com propriedade: khlébnikov, iessiênin, tsvetáieva, akhmatova, maiakóvski, pasternak...

simplesmente não dá. basta um mínimo de bom senso e boa-fé intelectual para perceber: um cara que defende o marxismo numa sociedade como a nossa, o faz livremente; em um país socialista, o sujeito que citar locke, voltaire, smith ou sei lá quem em defesa de mudanças está perdido. isso que a gente faz agora mesmo, dialogar pela internet abertamente e sem medo, jamais seria possível num país socialista.

creio que o socialismo pertence à história, uma experiência fracassada e comparável em atrocidades ao nazi-fascismo. pertence à história tanto quanto o modo de produção asiático ou o feudalismo. o que impressiona é que, ao contrário destes (milhares de anos e 1.000 anos respectivamente), o socialismo ruiu em menos de um século.
a sociedade que já tenha experimentado o gostinho agridoce da verdadeira democracia liberal, jamais aceitará viver sob as puas de um estado socialista.

rodrigo madeira disse...

ps - o caso de cuba me entristece profundamente. em certos meios intelectuais, falar mal de cuba é falar bem dos estados unidos. falar mal de cuba é imediatamente vestir uma máscara de monstro reacionário. eu simplesmente não entendo. é facil bater no médici ou no pinochet (e tbm o faço, com o maior prazer), mas por que poupar o fidel - ou bater com uma flor, tergiversando e racionalizando sobre os avanços na saúde ou na erradicação da mendicância infantil. não posso senão atribuir isso a uma das doenças ideológicas mais comuns entre as pessoas que se dizem politizadas: o antiamericanismo irracional.

uma pequena lista de países capitalistas com espetaculares sistemas de saúde e completa ausência de crianças de rua - e com liberade!

dinamarca
canadá
inglaterra
itália
alemanha
frança
espanha
holanda
suécia
áustria
etc

e por que só se fala em cuba? cuba não tem nada a nos ensinar... por que a ditadura militar brasileira causa justificadas ânsias de vômito nessas pessoas (afinal, pela lógica dessa gente, não era pra tanto: com certeza havia menos crianças abandonadas e violência urbana naquela época) mas a ditadura militar cubana (sim, ditadura militar, "por supuesto, comandante") não?
pra mim é uma questão principiológica. não interessa se é verde-oliva ou vermelhinha, ditadura é ditadura. mas ai de quem disser isso em determinadas festas e mesas de bar! fica-se extremamente malvisto...

pronto, desci do caixote, rs...

Anônimo disse...

Tenho uma dúvida!
Se o capitalismo não é um sistema e um regime totalitário, porque então ele busca se impor sobre os demais países? por que, então, ele procura de todas as maneiras se espalhar pelo globo? porque das recentes guerras? porque do vietnam? porque das ditaduras militares na América latina? porque do iraque? porque do afeganistão? porque? Para mim, o capitalismo é tão totalitário como qualquer outros regime anterior também considerado totalitário.

Anônimo disse...

Desculpe!
Qual a diferença entre o capitalismo chinês e o capitalismo suéco?

ADRIANO NUNES disse...

Cicero,


Meu novo poema:


"Pra toda vida" - Para meu amigo Mariano.


Procurar o
Momento raro,

Proclamar a
Vida, não para

Dá-la assim a
Datas. Acima

De tudo, vê-la
Brilhar, estrela,

Matéria-prima,
Melhor poema.



Grande abraço,
Adriano Nunes.

diou disse...

De fato há no marxismo vulgar uma tendência a querer se sobressair para além de qualquer erudito que não tenha aderido ao marxismo. Mas creio que seria necessário não deixar de ressaltar que se trata do marxismo vulgar durante todo o texto, visto que não fica suficientemente claro o que para você é vulgar ou não no marxismo -você considera o marxismo em toda sua amplitude como algo vulgar e ultrapassado, então porque se referiu ao marxismo vulgar? O rigor obriga que se refaça as distinções a todo tempo, a não ser que vulgar e não vulgar sejam equivalentes, o que não é o caso no pensamento marxista.
Você afirma:

"Para esse modo de pensar, o mundo existente, em que domina o modo de produção capitalista, é inteiramente desvalorizado."

Talvez seja verdade em se tratando do marxismo vulgar, mas "esse modo de pensar", ao qual você se refere, já não é mais o vulgar a estas alturas de seu texto. Se for para falar de Marx e dos grandes teóricos do marxismo, de maneira alguma o modo de produção capitalista é inteiramente desvalorizado. Marx encantou-se com os avanços do capitalismo. Lukàcs assinalou pontos incomparáveis no aprofundamento das possibilidades da consciência de classe, no modo de produção capitalista. Trotski dizia que as condições para a realização plena do homem estão dadas no capitalismo. E todos eram verdadeiros defensores, antes de tudo, da democracia mesmo no modo de produção capitalista (Quem dirá que Trotsky era um ditador quando preferia a democracia burguesa às ditaduras fascistas? -o problema para ele é que uma era a outra face da outra, no capitalismo. Ou não é?)
Outra afirmação sua:

"Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a propriedade social dos meios de produção, os revolucionários russos supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista"

Por partes. A admissão da existência de um proletariado, como você admite nesse trecho, já seria, dentro do pensamento marxista, possibilidades suficientes de uma organização política que o represente com propostas de supressão das condições sociais que permitem a existência mesma do proletariado. Por que? Porque o proletariado surgiu históricamente, e desse mesmo modo pode deixar de existir históricamente. De fato Engels não reconhecia que a estatização representasse supressão do modo de produção capitalista. Mas você só foi até a metade, porque onde é possível a estatização enquanto uma ação de um partido centralizado, é possível suprimir o próprio modo de produção -diria Engels. Os "russos" não uma e memsa coisa. Lenin nunca, em nenhum escrito seu, diz que a estatização é a ante-sala do paraíso comunista. Que o capitalismo acabou depois de outubro. Se houver isso peço que cite aqui, das palavras do mesmo.
Na minha opinião a "autonomia da arte" não consiste só em poder falar o que se quer, criar o que se quer. Aliás, penso que Walter Benjamin, baseado no materialismo, deixa claro que num mundo de crescente mercantilização da cultura, possa haver o cultivo de um mínimo de dignidade para o fazer artístico. (não há jeito para a mercantilização das pessoas dentro do capitalismo!) As pessoas sofrem nesse mundo, são frustradas e confusas. E isso não é uma questão pessoal. Você mesmo diz que o capitalismo é um "fluxo incessante". Surgiu dum fluxo incessante, e terminará seus dias, não há dúvidas, nesse mesmo fluxo, que não diria incessante, mas histórico.

Peço, encarecidamente, sendo que eu posso ter interpretado mal o que você quer dizer com "marxismo vulgar", que tu distingua mais claramente, ou faça um texto (apenas sugiro) tratando do que, para você, não é o marxismo vulgar. Eles não se confundem em suas críticas?

Abraços.

Antonio Cicero disse...

Anônimo,

O capitalismo não pode buscar “se impor sobre os demais países” porque ele não é um país, mas um modo de produção.

Os Estados é que fazem guerra, desde que existem.

Ninguém disse que o capitalismo é um mar de rosas, mas você está empregando impropriamente a palavra “totalitário”. Não é o fato de fazer guerra que qualifica um Estado de totalitário. Se você não tiver paciência para ler o livro da Hannah Arendt sobre o totalitarismo, leia ao menos o verbete do Houaiss, que define “totalitário” como “doutrina ou do regime político que, sem admitir qualquer forma legal de oposição, tolera apenas um partido (ao qual se subordinam todas as demais instituições), exigindo usualmente completa subserviência do cidadão ao Estado”. A Alemanha e a União Soviética, por exemplo, eram totalitários; a França e os Estados Unidos, por exemplo, não são totalitários.

Se você não sabe a diferença entre o capitalismo chinês e o sueco, leia os comentários do Rodrigo Madeira, acima.

Anônimo disse...

Seu artigo mostra que a abra de Wilhelm Dilthey e, dentro de outra chave, Paul Feyeraband não tiveram o menor significado em nossa pobre e querida terra. Besteira de gringo! Gramsci, Adorno, Horkheimer, Benjamim, Rosa Luxemburgo, Lukács, Althusser, Etiene Balibar nunca existiram, ou, no máximo são frescuras de estrangeirados. Isso sem falar da prata da casa: Carlos Nelson Coutinho, Ruy Fausto e Giannotti. Marxismo é Carlos Cafiero e Stálin ou as cartinhas do MST! É possível haver um debate intelectual sério nesses termos?

Antonio Cicero disse...

diou,

1.
Por “marxismo vulgar” entendo, evidentemente, o marxismo difundido, divulgado, vulgarizado hoje pelo mundo inteiro.

2.
Que Marx tenha reconhecido que o capitalismo havia representado um progresso em relação a modos de produção pré-capitalistas é claro. Mas toda sociedade de classes é, não só para o marxismo vulgar, mas também para Marx, a pré-história do comunismo: é nesse sentido que o mundo real é degradado em relação ao futuro.

3.
Para o marxismo vulgar soviético, ditadura do Partido Comunista = ditadura do proletariado = estatização da economia = socialismo = antessala do comunismo, sim.

4.
Lamento que a ideologia tenha amputado a sua faculdade de apreciação da arte contemporânea.

5
As pessoas sofrem e têm prazer, são frustradas e realizadas, são confusas e claras, neste mundo.

Abraço

Prozaico disse...

Às vezes perdemos jumentas e encontramos um reinado.

Prozaico - prosa prozaquiana.

Anônimo disse...

Caro ACicero,

Gostei muito do artigo. Fiquei pensando: o paralelo não se aplicaria também ao chamado "marxismo cultural"?

um abraço,
Lucas Nicolato

mateus mortaes disse...

Cícero,


Esclarecedor, claro, preciso...luz! Parabéns!


Um poema:

"O final da linha"


O traço do trem,
Trajeto poético,
Trilhos mais além...
E nada por perto:
Outra despedida!

Era uma criança
E como corria,
Corria sem fim...
O apito era festa,
E gente chegando

E partindo às pressas.
A vida era o circo,
A beira do rio,
A pracinha à noite,
Minha bicicleta...


Abraço,
Mateus.

Maria Rodrigues disse...

Antonio Cícero,

O maior problema que vejo nesta discussão, apesar de sua importância, é uma tendência a se fazer amálgamas de conceitos "científicos" com ideias calcadas no pensamento baseado no senso-comum. Disso resulta algo confuso e propício a conclusões simplistas da questão.
Quando vejo a Grécia com seus monumentos que remetem ao apogeu de uma civilização única na história, reduzida a pó, ponho-me a pensar em nosso próprio destino.
Marx dizia que "se a aparência das coisas, correspondessem à sua essência, não haveria necessidade de ciência".
- Viva a dialética!!!

abs.

Anônimo disse...

Mesmo no início da Revolução Russa de 1917, já havia outras formas de pensar o marxismo, como se pode ver no texto abaixo:

Críticas de Rosa Luxemburg aos Bolcheviques – “No seu artigo ‘A Revolução Russa’ (escrito em setembro de 1918 e publicado em 1921), ela atacava questões ligadas à forma de ditadura do proletariado pelo quais os Bolcheviques estavam optando: colocava-se contra a dissolução da Assembléia Constituinte, contra a limitação do direito de voto aos que estavam trabalhando e nos limites dos Sovietes, contra a suspensão das garantias democráticas como a liberdade de imprensa, de associação e de reunião, e contra o uso indiscriminado do terror em relação aos contra-revolucionários. Ela afirmava então: ‘A liberdade apenas para os partidários do governo, unicamente para os membros de um partido – por mais numerosos que eles sejam – não é liberdade. Ela é sempre pelos menos, a liberdade dos que pensam de maneira diferente”. “A República de Weimar e a Ascensão do Nazismo”, Ângela Mendes de Almeida, Brasiliense, 1982.
É injusto juntar todos os marxistas no mesmo balaio de gatos.

Antonio Cicero disse...

Anônimo,

nada disso resolve o problema, que repito:
como nem a centralização, sob a égide do Partido, nem a mobilização das massas logram superar o capitalismo, não se sabe – jamais se soube realmente– como se daria tal superação.

léo disse...

O anjo negro, além da cor belíssima do ébano,

carrega o castiçal em chamas da vingança,

a ilusão do amor nascido à fórceps,

como se o mundo pudesse retornar

e ser o sonho que já terminou.

Afrânio disse...

Desculpe-me a ignorância e a miopia, caro Cícero. Condeno quaisquer totalitarismos. Você disse que o capitalismo não pode buscar “se impor sobre os demais paises” porque ele não é um país, mas um modo de produção. Por obséquio, ajude-me a entender a realidade. É crível que os americanos tenham ido ao Iraque para levar-lhe a liberdade? Por quê toleraram os 21 anos da Redentora no Brasil e os muitos anos da ditadura argentina? Por quê ajudaram a derrubar Allende e conviveram pacificamente, por anos, com a ditadura de Pinochet? Por quê derrubaram Mossadegh e não se revoltaram contra a ditadura do Xá da Pérsia? Por quê apoiam a ditadura dos xeiques da Arábia Saudita e por quê não fazem um pesado embargo contra a ditadura chinesa como o fazem contra a cubana?
Não lhe parece que para os paladinos da liberdade um valor maior se alevanta: o lucro, a base do seu modo de produção? Não lhe parece, pois, que o modo de produção não é apenas um modo de produção? Como todo modo de produção não tem atrás de si um poderosíssimo sistema de forças que o apoiam? Um sistema de forças que deu a McNamara o desfrute de morrer tranquilamente em sua casa, aos 93 anos de idade, após ter enviado à morte milhares de jovens, no começo de suas vidas, no Vietnam, para defender o modo de produção que os americanos idolatram, mas que deixa ao relento dezenas de milhões de seus compatriotas fora do seu sistema de saúde. Modo de produção que não se envergonha de adotar práticas socialistas, jogando nas costas dos contribuintes americanos os prejuízos dos seus bancos.
Grato pela atenção.

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

A minha observação diz respeito à própria formulação: dizer que o capitalismo quer se impor aos demais países é dizer que ele é um país, o que é uma bobagem. As imprecisões desse tipo, conduzindo a confusões, são nocivas ao pensamento.

Eu disse que são os países que, por diferentes motivos, fazem a guerra. Jamais disse que os americanos são “paladinos da liberdade”. Já antes do capitalismo, os países faziam a guerra por motivos geopolíticos e econômicos. Quando são capitalistas, frequentemente têm motivos imperialistas para fazê-la.

É claro que os americanos não foram ao Iraque para levar a liberdade. Foram ao Iraque, aproveitando o pretexto que lhes foi dado pelo terrorismo islamista. Falsamente acusaram o ditador Saddam Hussein de ter estado envolvido no atentado de 11/09, e afirmaram que haviam detectado a construção de instalações que poderiam ser usadas para produzir armas atômicas. Tudo era mentira. Os interesses que os levaram à invasão do Iraque eram puramente geopolíticos.

Mas quem controlava o governo dos Estados Unidos então? O governo Bush, ele mesmo um homem do petróleo, e representante da extrema direita do Partido Republicano. Este, por sua vez, representa os interesses de petróleo, da indústria de armamentos e das grandes finanças: o que há de pior nos Estados Unidos. Trata-se de uma facção dos republicanos que quer destruir, naquele país e em todo o mundo, exatamente “a sociedade aberta, os direitos humanos, a livre expressão do pensamento, a maximização da liberdade individual compatível com a existência da sociedade, a autonomia da arte e da ciência etc., que constituem exigências inegociáveis da crítica, isto é, da razão”, que são, segundo penso, exatamente as condições para tornar o mundo melhor.

Sobre Bush, já declarei, em diferentes artigos, na coluna, que o governo mais vil de que se tem memória nos Estados Unidos foi o da extrema direita do Partido Republicano, na figura lamentável de George Bush.

Felizmente, há outros interesses e outras forças sociais e políticas nos Estados Unidos. Não se pode dizer que seja tudo a mesma coisa. A prova de que os Estados Unidos não se reduzem a essas forças reacionárias e belicistas está na enorme oposição que foi feita contra a guerra e contra o governo Bush.

Durante a guerra fria, quando, dados o controle soviético dos países da Europa Oriental, a Revolução Chinesa, a agressividade da Coreia do Norte, o apoio chinês às revoluções do sudeste asiático e a aliança de Cuba com a URSS, os americanos, que tinham efetivamente ajudado a Europa a se livrar do fascismo, grande parte dos americanos e europeus pensavam, de fato, que o mundo estava sendo gradualmente conquistado por outro totalitarismo: o comunismo. Foi a época em que os Estados Unidos, lamentavelmente, apoiaram o anticomunismo, onde quer que este se manifestasse. E foi a época da Guerra do Vietnam. Mas é preciso lembrar que, mesmo nessa época, houve imensa oposição à Guerra do Vietnam. A guerra foi perdida, em primeiro lugar, no interior dos Estado Unidos. E é preciso lembrar um importantíssimo subproduto dessa guerra: a contracultura.

Em suma, é preciso não simplificar as coisas. São muitos os países em que domina o modo de produção capitalista, são muito diferenciados e há muitas diferentes forças dentro deles: algumas profundamente democráticas, outras profundamente antidemocráticas. Precisamos sempre apoiar estas contra aquelas.

Sobre o sistema de saúde, não se esqueça de que Obama já conseguiu, contra uma brutal oposição dos republicanos, passar um ambicioso plano de seguro social.

E veja o que acontece e o que aconteceu nos países que pretenderam superar o modo de produção socialista: converteram-se, sem exceção, em brutais ditaduras e/ou voltaram a um capitalismo extraordinariamente selvagem.

Abraço

rodrigomadeira79@gmail.com disse...

acho que, com relação às guerras, o a.c. tem toda razão. não é algo inerente ao capitalismo. sempre houve guerras, sempre houve a preeminência dos interesses econômicos e territoriais sobre o respeito à vida humana. mas é ingênuo e a-histórico acreditar que os estados unidos sejam o pior império que já existiu. muitas de suas condutas no plano internacional (guerras justificadas por interesses geoestratégicos e energéticos, apoio a ditaduras e regimes ou grupos fundamentalistas) são condenáveis, devem ser abominadas mesmo. no entanto, entre todos os muitos impérios que já coalharam a terra, nenhum foi tão "benevolente". ajudar na reconstrução do japão e da alemanha sem transformá-los em colônias ou países-títeres, por exemplo, foi algo inédito. pense no que faziam os gregos, os romanos, os mongóis, os árabes, a cristandade cruzada, os árabes, o império britânico, japonês, o império soviético ou o proto-império nazifascista. sinceramente, o império americano (que negri, por exemplo, nem diz ser americano, mas multinacional, e mesmo supraestatal)de todos é "o que pega mais leve" (e espero que não me tomem por cínico quando digo isso. é a verdade.) não por eles serem mais bonzinhos e caridosos, e sim, porque a democracia liberal impõe limites a práticas arbitrárias. sei que muitos podem fazer um elenco de arbitrariedades perpetradas pelos EUA na condução de sua política externa, mas sempre poderemos fazer uma lista ainda maior e mais terrífica sobre qualquer desses outros impérios citados.

outro fato inconteste é que dificilmente acontecem guerras entre democracias. aliás, não me lembro de nenhuma. já houve alguma? desde a formação das democracias liberais e de sua consolidação no pós-2guerra, creio não ter havido conflito entre democracias. a guerra contra o iraque não foi uma guerra justa e o governo bush foi de fato um atraso e uma séria ameaça aos pilares da democracia americana erguidos pelos "founding fathers". se o iraque, porém, fosse uma democracia, essa guerra jamais teria acontecido. não haveria qualquer legitimidade.
é risível a ideia de fukuyama com relação ao "fim da história", mas gosto muito de uma de suas expressões mais caras: "uma confraria global de democracias liberais". creio que o caminho é por aí mesmo. deixemos de canto as ideologias megalomaníacas de reengenharia social, que sempre acabam em crimes atrozes, e partamos para a tal confraria. só assim me parece possível alcançar, para além da retoriquice e do "amor sociopático pela humanidade" - e com todas as imperfeições do capitalismo esteado em democracias representativas -, a segurança jurídica, o respeito aos direitos humanos e um mínimo de justiça e igualdade entre os homens...

Antonio Cicero disse...

Rodrigo,

só espero que você não esteja atribuindo a mim a tese de que os Estados Unidos são o pior império que já existiu... No mais, concordo com o que você diz.

rodrigomadeira79@gmail.com disse...

não, cícero, pelo contrário. concordo com vc. acho louvável não negociar com valores que devem, por princípio, ser inegociáveis: democracia, liberdade e direitos humanos.

li já há algum tempo um artigo excelente que vc escreveu sobre as torções que são feitas na comissão de direitos humanos da onu, inchada com dignatários de ditaduras e governos fundamentalistas. achei esclarecedor: direitos humanos devem sempre ser os direitos do indivíduo diante das grandes estruturas (estados, religiões). os fundamentalistas e ditadores realmente querem esvaziar - ou melhor, arrevesar - o conceito. querem que os direitos humanos, sob um disfarce multiculturalista, protejam estruturas de poder e religiões usadas como manoplas do terror: para oprimir e esmagar os indivíduos...

eu estava me referindo ao comentário do afrânio e do anônimo.

abç.

Afrânio disse...

À pergunta do Anônimo – “ A sociedade capitalista permite que o pensamento possa ser expresso livremente?” – você, caro Cícero, respondeu, em 04/05/10: “Até hoje só houve sociedade com algum grau de abertura onde houve capitalismo”. Concordo com você que o exercício do capitalismo exige um mínimo de abertura econômica e um mínimo dos mínimos de liberdade de expressão. Ex: o capitalismo na China. Ao Anônimo, digo que a sociedade capitalista, numa democracia, permite que o pensamento seja expresso com a mais absoluta liberdade desde que não defenda sistemas políticos que impliquem na supressão da liberdade de pensamento. E acrescento: a sociedade capitalista, numa ditadura, permite que o pensamento seja expresso com a mais absoluta liberdade desde que não contrarie o ditador de plantão. Ex: o capitalismo na China, nos 21 anos da Redentora e no Chile de Pinochet. Donde se conclui que a planta do capitalismo é uma planta-prostituta: dá, onde lhe pagam mais. Viceja onde possa haver um mínimo de possibilidade da colheita do seu fruto, o lucro, pouco se importando se há ou não plena liberdade de expressão do pensamento. Concordo plenamente com você, caro Cícero, onde houve, e houver, sociedade com algum grau de abertura, lá esteve, e estará, o capitalismo. Um abraço.

Afrânio disse...

Seria bom que a tal confraria das democracias liberais tomasse por modelo social não o dos Estados Unidos, mas, por exemplo, o da Suécia. Explico-me: a mulher sueca tem 16 meses de licença-maternidade remunerada e o pai, nos 3 primeiros meses, usufrui também da mesma licença. Nos EUA, a licença é de apenas 3 meses, e - vergonha das vergonhas! - menor que a de Cuba: 4 meses e meio. Note-se que, além disso, a razão entre o maior e o menor salário na Suécia é uma das mais baixas do mundo. Lá não se vê um Bill Gates circundado por milhões de compatriotas desprovidos de qualquer assistência pública à saúde. E não me venham dizer que ele e seus companheiros trilionários doam e doaram parte de suas fortunas. Ora bolas, por que não ajudaram, com suas inteligências privilegiadas e seus gigantescos recursos, a sanar uma chaga vergonhosa do país. Sei que a natureza humana é o que é. O egoísmo teve e tem vantagens evolutivas. O altruísmo é uma aberração humana. Mas, se os suecos, em plena democracia, conseguem - pombas! - por quê os americanos não? Yes, they can!

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

Seu comentário sobre a minha resposta ao anônimo está extremamente confuso. De fato, como você diz, eu afirmei que “Até hoje só houve sociedade com algum grau de abertura onde houve capitalismo”. Você diz que concorda.

Mas aí você diz que “A sociedade capitalista, numa democracia, permite que o pensamento seja expresso com a mais absoluta liberdade desde que não defenda sistemas políticos que impliquem na supressão da liberdade de pensamento”. Isso não é verdade, porque há inúmeras democracias que permitem a expressão até de pensamentos que defendam sistemas políticos que impliquem na supressão da liberdade. Por exemplo, Zizek e Badiou defendem tais sistemas. O primeiro mora nos Estados Unidos e o segundo, na França. Mas ambos viajam por todo o mundo capitalista, fazendo conferências em qeu defendem a “hipótese comunista”, inclusive Lênin, Stalin e Mao. Não se aplica, portanto, a condição que você estipula.

A afirmação de que “sociedade capitalista, numa ditadura, permite que o pensamento seja expresso com a mais absoluta liberdade desde que não contrarie o ditador de plantão”, é inteiramente irrelevante, pois se aplica a qualquer ditadura, independentemente de ser capitalista ou socialista.

Qual pode ser a sua conclusão, fora a formulação moralista, também irrelevante (“planta-prostituta”)? Apenas que o capitalismo é compatível tanto com a ditadura quanto com a sociedade aberta, o que ninguém, que eu saiba, jamais negou.

A acusação implícita de que o capitalismo é amoral, pois “viceja onde possa haver um mínimo de possibilidade da colheita do seu fruto, o lucro, pouco se importando se há ou não plena liberdade de expressão do pensamento”, é inteiramente inócua, pois ninguém nunca ignorou que é o lucro, e não a democracia, que faz parte da definição do capitalismo. Que ele pouco se importe se há ou não liberdade de pensamento é exatamente a VANTAGEM dele sobre os outros modos de produção, no que diz respeito à sociedade aberta.

É o socialismo – tão moralista – defendido pelos marxistas que se importa: ele simplesmente não tolera liberdade de expressão de pensamento.

Abraço

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

Sobre o modelo sueco ser superior ao americano, concordo. Os que defendem isso nos EUA, inclusive o próprio Obama, enfrentam inimigos terríveis, que, para impedi-lo de agir, querem destruir a própria abertura política da sociedade americana, encaminhando-a na direção do fascismo. Mas torço para que os social-democratas e a democracia ganhem a parada.

Afrânio disse...

10/05/10 – Parte 1
De fato, houve em meu penúltimo comentário muita imprecisão e confusão. Vamos ver se, agora, eu me saio melhor.
1) Em certas situações, as sociedades capitalistas democráticas impedem a livre expressão do pensamento defensor de sistemas políticos liberticidas. Exemplo 1: Se em meados da década de 1950, Zizek e Badiou se pusessem a percorrer os Estados Unidos defendendo o comunismo, como o fazem hoje, seriam certamente relacionados pelo Comitê das Atividades Anti-Americanas do saudoso senador Mc Carthy e, no mínimo, expulsos daquele país. Exemplo 2: Experimente um cidadão de uma democracia capitalista, como a Alemanha ou o Brasil, hoje, atualmente, depois de 65 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, defender o nazismo, alegando como mentira de judeus o Holocausto, e veja o que lhe acontece.
Concordo com que atualmente há inúmeras democracias que admitem a expressão de pensamentos que defendem sistemas políticos que impliquem na supressão da liberdade de pensamento. Não será porque o comunismo é hoje defunto de ressurreição impossível? Houvesse algum sinal de que poderia ressurgir das cinzas, as democracias tolerariam a peregrinação de Zizek e Badiou? Não surgiriam Mc Carthys, Comitês de Atividades Anti-americanas a impedí-la? Com relação a outro defunto, o nazismo, é possível ainda hoje, numa democracia, a sua defesa negando-se o Holocausto? Isso não dá cadeia? Daí a minha afirmação que apenas pretendeu reconhecer às democracias o seu direito inalienável à auto-defesa. Poderia reformular a minha proposição assim: “A sociedade capitalista, numa democracia, permite ordinariamente que o pensamento seja expresso com liberdade. Em certas situações, porém, restringe-se essa liberdade aos que defendem sistemas políticos que impliquem na supressão da liberdade de pensamento”. Creio ter ficado melhor. É de uma obviedade ululante. Um abraço.
Este texto tem continuação na Parte 2, da mesma data.

Afrânio disse...

10/05/10 – Parte 2 (Continuação)
2) Minha segunda proposição dá margem a que se discutam os conceitos de irrelevância e de moralidade. Não se pode dizer que, nos tempos da escravidão no Brasil, os senhores de escravos fossem amorais ou imorais. Não eram imorais porque não contrariavam a moralidade vigente. E não eram amorais porque possuíam uma moralidade: a vigente. Pouco a pouco, porém, certas mentes foram percebendo que poderia haver uma outra moralidade, uma moralidade superior, com a qual o comportamento vigente se tornava imoral e a escravidão acabou morrendo devido a diversas causas.
Se um industrial produtor de sapatos no Rio Grande do Sul transfere sua fábrica para a China porque não tem condições de concorrer com os produtos chineses feitos com mão-de-obra barata, muitos dizem “escrava”, não se pode acusá-lo de imoralidade, nem de amoralidade. Ele age de acordo com a moralidade vigente. E nisso repousa, concordo com você, a vantagem do capitalismo sobre outros modos de produção, o qual pouco se importa com existência ou não da liberdade de expressão em países onde atua. Trata-se, de uma vantagem evolutiva, por ser mais concorde com natureza humana.
Daí, me parecer relevante examinar exatamente essa vantagem que dá origem ao lucro. Por não se importar com a liberdade de expressão, e sim com o lucro, o empresário o obtém, numa ditadura, sendo cúmplice do regime totalitário, proporcionando-lhe lucros, dando-lhe vigor econômico e possibilitando a sua sobrevivência. Uma multinacional, que ajudou na construção das Três Gargantas, obteve lucro ao custo de fortalecer o regime ditatorial chinês e ao custo de empregar mão-de-obra escrava. Desculpe-me, mas o comportamente da multinacional não é isento de culpabilidade. É por essas e outras razões que as democracias capitalistas impedem o livre comércio com certos países não-alinhados e consideram culpadas as nações que desobedecem o embargo.
Não sei se me expliquei direito como vejo a coisa. Condeno o comunismo e o socialismo. Acho que a superação do capitalismo virá de um sistema econômico que, embora conservando o lucro, a mola do comportamento humano, o limite nas suas exorbitâncias, como na Suécia, e o reverte, através de elevadíssima taxação da renda e de um sistema muito bem controlado de gastos públicos, em benefício de uma longa licença-maternidade remunerada e de outros benefícios sociais.
O mundo precisa, sim, de muita reengenharia socio-econômica racional, sem retoriquices.
Aguardo o seu comentário que é sempre esclarecedor. Obrigado

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

Não tenho muito a comentar. Só acho que as coisas não são assim tão mecânicas quanto seu texto sugere. Por exemplo, você diz:

“Concordo com que atualmente há inúmeras democracias que admitem a expressão de pensamentos que defendem sistemas políticos que impliquem na supressão da liberdade de pensamento. Não será porque o comunismo é hoje defunto de ressurreição impossível? Houvesse algum sinal de que poderia ressurgir das cinzas, as democracias tolerariam a peregrinação de Zizek e Badiou? Não surgiriam Mc Carthys, Comitês de Atividades Anti-americanas a impedí-la?”

Veja: o Macarthysmo ocorreu na década de 50. Depois disso, na década de 60 e até 70, a guerra fria continuou a existir, assim como o fantasma da revolução comunista. Cuba, na porta dos EUA, aliou-se à URSS. Ocorreram a crise dos mísseis, a guerra do Vietnam, os bombardeios chineses de Taipé, a revolução dos Khmer Vermelhos no Cambodia etc. No entanto, longe de haver, nos EUA, a ressurreição do Macarthysmo, aconteceu a contracultura.

Não acho que o empresário que tenha sido cúmplice da escravidão seja isento de culpa. Os direitos – e deveres – humanos são, para mim, de alcance universal. O capitalismo é amoral porque não é um ser humano. Quem tem que ser moral são os seres humanos – e só os seres humanos – sejam capitalistas ou não. O lucro jamais justificaria a violação da moral ou dos direitos humanos.

Abraço

Afrânio disse...

Caro Cícero, algumas observações:
1) Por não se tratar de um ser humano, o adultério é amoral? E sendo amoral não podemos condená-lo?
É claro que as ações do agente definem o caráter moral ou imoral do agente. Julgamos a moralidade do agente confrontando os seus atos com as regras morais aceitas por nós. Ao conjunto dos atos do agente damos um nome, no caso, adultério. E o condenamos, ou não, de acordo com com a condenação que destinamos, ou não, aos atos que o constituem.
Assim ao capitalismo, como teoria ou prática, pode ser atribuída moralidade segundo julguemos a atividade do agente, seguidor dos seus princípios, moral ou imoral.
Trata-se tão-somente de uma corriqueira extensão de conceitos.

2) Também acho que o empresário, cúmplice da escravidão, não é isento de culpa, tanto a jurídica quanto a moral, ambas fixadas no tempo e no espaço em que vivo. Fosse outro o espaço e outro o tempo, talvez não o considerasse culpado. Por exemplo: se eu fosse comerciante ou proprietário de escravos do tempo do Império não o consideraria culpado. Quanto ao terceiro conceito de culpa, o mais profundo, o que denomino “a culpa natural” porque advinda da natureza humana produzida pelo complexo genoma + ambiente, essa, você já conhece a minha posição, essa não existe.

3) Acho que muito há na democracia americana merecedor dos mais rasgados elogios. Não obstante, gostaria de ver o seu comportamento, considerando o peso que nela possui a colonia judaica, se um alemão, naturalizado americano, nazista saudoso do seu amado chefe, resolvesse defender o nazismo, negando o Holocausto, como invenção do sionismo. As democracias brasileira e alemã já mostraram como procedem. E não as condeno. A liberdade de expressão do pensamento não deve ser absoluta, deve ter um limite. Não pode defender regimes que a destruam.

Grato pela atenção.

Anônimo disse...

O caderno Mais! da Folha de S.Paulo de 9 de maio de 2010, publicou um artigo - O Espectro do marxismo - sobre a publicação em livro da conferência sobre "a idéia de comunismo" proposta por Alain Badiou Slavoj Zizek. A obra traz 15 exposições proferidas na Conferência de Londres (maio de 2009). Como o Sr. escreve na Folha, não vai ser difícil postar o artigo no seu blog. Será mais uma contribuição ao debate democrático e uma saudáveis reação contra o "pensamento único". Sapere Aude!

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

Reconheço que há uma dificuldade. Imoral é o que contraria as regras morais de conduta. Imoral é, em primeiro lugar, o ser humano que contraria as regras morais de conduta; e dizemos ser imoral também qualquer conduta que contrarie as regras morais de conduta. Assim, o assassino é imoral; e dizemos ser imoral também o ato que ele cometeu. O assassinato é imoral.

Quanto ao capitalismo, não penso que seja uma conduta. Para mim (e nesse ponto estou com os marxistas), ele consiste num modo de produção, isto é, basicamente, numa estrutura composta de determinadas forças produtivas articuladas de determinado modo a determinadas relações de produção. Não se trata, portanto, nem de uma pessoa nem de uma conduta que uma pessoa possa ter, e que possa ser considerada moral ou imoral. Se você não acharia imoral um proprietário de escravos no tempo dele, isto é, no tempo do império, é claro que não acharia imoral o escravismo, no tempo do império. E por que então o capitalismo seria imoral no seu tempo, que é hoje?

Talvez você esteja certo ao dizer que a liberdade de expressão deve ter um limite. É uma questão. Mas, nos Estados Unidos, a situação que você descreve existe hoje. Há lá muita gente que abertamente defende o nazismo e nega o holocausto, e o faz com base na Quinta Emenda da Constituição americana, que protege a liberdade de expressão. É na Alemanha que é um crime defender o nazismo e negar o holocausto. Confesso não saber ao certo qual é a situação brasileira.

Abraço

Antonio Cicero disse...

Que gracinha, Anônimo! Fazer, no meu blog, propaganda, em nome do "debate democrático", das ideias de Badiou e Zizek, oportunistas que desprezam a democracia e querem enterrá-la. "Pensamento único" é o que eles, se tivessem poder, tentariam impor ao mundo, à maneira dos seus ídolos, Stalin e Mao.

Anônimo disse...

Pode ser... Mas vamos debater somente com quem pensa como nós? Isso é “centralismo democrático”! Marx deveria ser estudado seriamente porque disse que o Capitalismo é uma máquina de gerar crises e outra já está batendo nas portas. Quantas o Sr. viu no curto período de sua vida adulta? A crise de 2008 custou, por baixo, 13 trilhões de dólares. Convenhamos, é muita “destruição criativa”! Admiro e louvo a chamada “liberdade negativa” que existe – precariamente - nas sociedades ocidentais (e capitalistas), mas não sei onde existe democracia. Nem na Grécia Clássica existia, já que Péricles e sua máfia controlavam tudo (pergunte aos outros participantes da Liga de Délos...). O que existe em todos os lugares é a “Lei de Ferro das Oligarquias”. Ou será que o PT ou o PSDB, perguntaram aos respectivos militantes se queriam o Serra ou a Dilma? Tudo foi resolvido nos Fasanos da vida entre taças de vinho francês. Bom prá eles.

Afrânio disse...

Caro Cícero:
1) Para você o capitalismo “consiste num modo de produção, isto é, basicamente numa estrutura composta de determinadas forças produtivas articuladas de determinado modo e determinadas relações de produção”. Penso que essa definição caberia também ao socialismo. E por quê o condenamos? Porque esse modo de produção é mais ineficiente e, principalmente, porque conduz à supressão da liberdade das pessoas. Vemos, então, que julgamos um modo de produção confrontando os seus resultados (a perda da liberdade, principalmente) com uma regra moral que consideramos saudável para a comunidade: a liberdade é um bem que deve ser preservado. Daí, achar eu perfeitamente plausível a aplicação do predicado “moral” ou “imoral” a um modo de produção. E, portanto, discordar de você quando diz que o capitalismo é amoral por não ser um ser humano ou uma conduta de seres humanos. É preciso ver que esse modo de produção não dispensa pessoas e suas condutas, não se realiza sem que haja o empresário (cuja conduta consiste em arregimentar os fatores de produção e gerenciá-los), o capitalista (cuja conduta consiste em fornecer o capital), o trabalhador (cuja conduta consiste em fornecer o trabalho gerenciado pelo empresário) e o Estado (cuja conduta consiste em assegurar o cumprimento dos contratos, em fornecer a segurança pública, a legislação adequada etc). Do exposto, acho lícito dizer que a escravidão é imoral e dizer que o capitalismo sueco é moralmente superior ao capitalismo americano.
2) Desconheço o teor da 5ª. Emenda à Constituição Americana. Não obstante, suponho que ela não permite o racismo, o antissemitismo etc, ou seja, não permite a expressão irrestrita do pensamento.
3) No Brasil, Siegfried Ellwanger foi condenado, em 17/09/2003, em sentença do STF por racismo (antissemitismo) ao negar, em seus livros, ter ocorrido o Holocausto, tal como descrito pelos judeus.
Um abraço.

Antonio Cicero disse...

Anônimo,

e quem disse que eu, por exemplo, penso como você ou como tantas outras pessoas que quetionam as coisas que eu escrevo?

Mas não se discute racionalmente com irracionalistas, e já mostrei, em artigos aqui publicados, que Zizek e Badiou são irracionalistas.

Acho que você, de fato, faria bem de estudar mais Marx, que, como tinha horror ao irracionalismo, teria horror a essa gente que você admira.

rodrigo madeira disse...

o badiou eu não conheço. mas esse zizek é um idiota. pior até: porque se fosse simplesmente idiota, não convenceria tantos "desavisados com bibliotecas". na minha opinião o cara é um "espírito do mal", um sujeito inescrupuloso. é fácil fazer teoria travestida de bonomia e sensibilidade diante das injustiças do mundo... é fácil quando lidamos, de uma cátedra, com a dimensão inexequível das coisas. o que esse cara defende, por ser irrealizável, se posto em prática vai perseguir e matar pessoas.
acho incrível que pessoas inteligentes (capazes de pensar, somar, subtrair, dividir... e até de criar sistemas de pensamento e de criar beleza) se deixem seduzir pelo socialismo, ainda que seja clara a sua natureza* totalitária, planificadora e "bovinizante": sartre (que jamais seria sartre numa sociedade maoísta), neruda(que jamais seria neruda numa sociedade stalinista), gabriel gacia marquez ou chico buarque(de cujas obras sou fã incondicional, mas que jamais seriam gabriel garcía márquez e chico buarque na cuba de fidel - ou na nação portuguesa, caso álvaro cunhal não fosse democraticamente rechaçado e "murchasse a festa", ó pá!). josé saramago jamais escreveria e publicaria "ensaio sobre a cegueira" dentro do socialismo. e niemayer seria provavelmente mestre-de-obras do regime, construindo transiberianas e panteões a assassinos...

hannah arendt é clara quando escreve em "eichmann em jerusalém": a política não é um jardim de infância. não dá pra tirar da reta e justificar crimes contra a humanidade com "eu apenas recebia ordens" ou "tudo pela causa, tudo por um mundo melhor".
fhc tinha razão: esse tipo de negação da realidade só pode ser alguma espécie de dissonância cognitiva...

* concordo com vc, cícero. o capitalismo é acima de tudo um modo de produção, protéico, e portanto capaz de se adaptar tanto ao autoritarismo quanto à democracia. isso faz a sua força e superioridade prática. a amoralidade do lucro (e a gente sabe que também não é bem assim. esta é uma questão filosófica muito antiga, polemizada na sementeira do capitalismo por agostinianos, tomistas e protestantes...), de qualquer maneira, uma espécie de amoralidade que, contida pelo sistema moral de um regime democrático, faz do mundo um lugar muito melhor do que em qualquer outra época. aquela história: o mundo é uma merda, mas nunca esteve melhor!
o socialismo, porém, é mais do que um modo de produção. aliás, vc mesmo já o disse: sua ideia final de organização da produção - e das etapas para se chegar lá - é obscura, apenas esboçada; perde-se em meio a palavras de ordem.
volto a dizer: o socialismo (e não absorções tópicas de propostas socialistas), exatamente por ser um modo de produção extremamente politizado e moralizante, só funciona no autoritarismo. ou melhor, no totalitarismo. importante que a diferença fique clara neste debate: o totalitarismo, além de censurar e perseguir, instala um estado policial, é unipartidário e tenta controlar totalmente, na forma de um jornal do partido, as informações...
uma distinção importante, à parte juízos de valor: a ditadura militar no brasil foi autoritária (e terrível tbm!); a ditadura militar cubana é totalitária.

abç.

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

como estou passando uns dias em Buzios, numa casa sem Internet, e só venho de dois em dois dias a uma lan house, estou deixando para responder os comentários quando regressar, domingo. Até lá.

Antonio Cicero disse...

Afrânio,

Chegando de Buzios, respondo ao seu comentário.

1
Nos meus artigos não se trata tanto de condenar o “modo de produção socialista” quanto de dizer que ele nunca existiu, e de mostrar que nem sabemos como seria. A ideia geral é de que, no socialismo, os meios de produção deixariam de ser controlados pela burguesia e seriam controlados pelo proletariado ou pela sociedade como um todo. Mas não há como fazer isso. Nem a estatização funciona (pois produz um capitalismo de Estado e Partido, isto é, transfere para uma burocracia o controle dos meios de produção), nem a “democracia direta”, pois esta resulta em caos: e tanto um caminho quanto o outro implicam em gigantesca violência. Esta sim, deve ser condenada.

Já o “modo de produção capitalista”, uma vez que pode ser o nome tanto do que ocorre na China, quanto do que ocorre nos Estados Unidos ou na Suécia, não penso que possa ser condenado ou elogiado in abstracto.

Quanto à escravidão, sim: já há alguns séculos é fácil condená-la. Mas será que podemos condenar moralmente Aristóteles, por exemplo, como condenamos os escravistas que recentemente foram descobertos no Mato Grosso, ou os do norte da África? Acho que não. Hoje devemos condenar a escravidão em qualquer lugar do mundo em que ocorra, mas seria anacrônico transportar essa condenação para a antiguidade, quando ela era considerada natural por todo o mundo. Você mesmo já falou algo assim, no dia 10/05.

2
Na verdade, não é a Quinta Emenda à Constituição americana, mas a Primeira, que protege a liberdade de expressão. Ela permite, sim, expressões de racismo, antissemitismo etc.

3
Obrigado por me esclarecer sobre a situação brasileira em relação ao antissemitismo.

15 de maio de 2010 19:15

Antonio Cicero disse...

Caro Rodrigo,

Basicamente concordo com tudo o que você diz. É isso mesmo.

Abraço

Anônimo disse...

Caro Cícero,

como filósofo a sua generalização e superficialidade espantam. Existem várias interpretações e atualizações teóricas do marxismo. Nem mesmo entendi a que tipo de marxismo você se refere, quando afirma: "Hoje, porém, nem os marxistas podem pretender saber como se daria a superação do capitalismo". Mais adiante você sustenta: "Os revolucionários russos não pensaram assim. Tomando a estatização da economia sob a ditadura do Partido Comunista, pretenso representante do proletariado, como a instauração do socialismo (que seria o primeiro passo para o comunismo), supuseram que já haviam deixado para trás o modo de produção capitalista". Impressiona-me a sua obtusidade, ou seria ignorância? Nunca leu sobre a história russa? Os primeiros anos da revolução russa significaram essa compreensão com a instauração da NEP, por Lenin. É claro que a revolução russa foi realizada em um contexto de Rússia semi-feudal.
O seu artigo é primário.
Algumas observações sobre os comentários feitos:
1. No Brasil vivemos uma liberdade econômica, é livre quem tem dinheiro. Ao filho do pobre não é dada a liberdade de frequentar um curso de idiomas, por exemplo. Qual o favelado que pode viajar de férias com os filhos para uma praia ou para uma serra?
As cidades são imoralmente divididas: alguns clubes somente para ricos, outros para a 'classe média' e a grande maioria da população passa o final de semana nas periferias a beber e, alguns, entregues ao uso do crack, porque o poder público é inoperante e não oferece oportunidades: teatro, música, cinema, esporte etc etc etc. A Arte da qual você fala.
2. Você assegura que "Até hoje só houve sociedade com algum grau de abertura onde houve capitalismo". Nunca leu nada sobre as nossas sociedades indígenas? Leia o livro O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro.
3.Vivemos no Brasil a ditadura da Rede Globo, a ditadura do consumismo, e também a ditadura da beleza a todo custo, do individualismo, do mercado.
Quero saber qual o americano que, em nível de ideias, defenda a Al Quaida e não seja intimado a depor.
4. O sr. Rodrigo Madeira faz a seguinte observação: "uma pequena lista de países capitalistas com espetaculares sistemas de saúde e completa ausência de crianças de rua - e com liberade!

dinamarca
canadá
inglaterra
itália
alemanha
frança
espanha
holanda
suécia
áustria
etc
Achei interessante que o ETC também seja um país.Os países citados passaram por um processo de privatização imane durante os anos 90 e primeira década do século XXI, o que levou a uma piora sistemática não só do sistema sanitário, mas também dos setores de transporte, previdência e educação, , provocando protestos e mobilizações populares(Itália e França recentemente e hoje Grécia, Espanha e Portugal)de grande porte.
4.Os últimos dados da UNESCO colocam Cuba em 14º lugar no mundo (em 1º lugar na América Latina)na lista de países que cumprem as metas sobre acesso e qualidade de ensino estabelecidas pela própria UNESCO. Por que Cuba? Bem, está à frente de, por exemplo, Espanha (17º), Suiça (20º) e Bélgica (23º).Os dados não são de nenhum orgão comunista ou de esquerda, são da UNESCO. o Brasil está na posição 88.
Continuarei os comentários depois.
Marcos Leite

Antonio Cicero disse...

Marcos Leite,

Seu comentário, mera repetição grosseira e dogmática da desgastada cartilha marxista, cheio de chavões e preconceitos, sem um pingo de originalidade ou reflexão, dá um pouco de pena, mas não faz jus a resposta nenhuma. Pelo jeito, meu artigo o atingiu em cheio. Sinto muito por ter pisado na sua ferida. Tente curá-la, estudando um pouco mais.

Afrânio disse...

Caro Anônimo, concordo com algumas coisas que disseste. Não li Darcy Ribeiro, confesso. Quando os povos são coletores, caçadores, nômades, tudo bem. Mas quando se tornam agricultores, surge a propriedade privada. E aí, meu caro, a coisa fica brava. Este chão é meu porque estou aqui há 2.000 anos e o Livro Sagrado diz que sou eu o povo escolhido. Não, meu camarada, estava eu aqui muito antes de você e o Livro Sagrado foi escrito por você. E então, e então, veio a Força, e a Força criou o Direito, e a Força conservou o Direito. Amém.
É assim a natureza humana, meu caro. O macaco egoísta deu uma banana metafórica pro macaco altruísta e ficou com todo o cacho de bananas reais para si e para a sua família. O macaco altruísta se ferrou e não deixou descendência alguma. Somos descendentes do primeiro, que tinha maior vantagem evolutiva, não do segundo.
Por isso penso que o comunismo e o socialismo são inviáveis, pois contrariam a natureza humana. Só podem permanecer enquanto impostos pela força.
As democracias capitalistas têm em relação a eles pelo menos duas vantagens não desprezíveis: (1) – a possibilidade de alternância no poder e, em consequência a possibilidade de obterem-se melhorias, e (2) – a possibilidade de desabafo, uma vantagem emocional, e uma possibilidade de mudança.
(1) Sem alternância no poder, certas famílias dificilmente provariam biscoitos. É uma merreca, diremos nós. Concordo, uma merreca para quem nunca viu o único ovo frito ser dado ao moleque aniversariante diante dos olhos gulosos dos irmãos esfomeados.
E isso foi possível porque o Nosso Guia mudou o discurso, escolheu um milionário para seu companheiro de chapa e prometeu colocar no Banco Central outro milionário. Sem isso, não seria eleito. Alguém duvida? Contra a mídia, uma terceirização do departamento de vendas das empresas, ele não seria eleito. A verdade é que quem menos escolhe é o povão.
(2) Numa democracia, posso dizer livremente o que penso, desde que não seja em defesa do Bin Laden, nos Estados Unidos, ou manifestando dúvida quanto ao Holocausto, no Brasil. No Brasil, o águia dos águias disse que a verdadeira igualdade consiste em tratar desigualmente os desiguais na medida em que se desigualam. Em decorrência, vemos desiguais gozando férias de 60 dias e, no caso de terem cometido crimes, sendo aposentados compulsóriamente com seus polpudos salários, ao invés de irem para o xilindró como qualquer um de nós iria. Se digo isso, numa ditadura – babáu! - me fazem imediatamente uma retoscopia com cassetete em brasa, sem direito a anestesia alguma!
Tu me perguntas: esse desabafo adianta? Segundo Freud, sim. Num primeiro momento, descarrego a minha contrariedade, a minha inveja, esquecendo-me de que aprovaria as mesmas desigualdades se estivesse no lugar deles. Num segundo momento, se milhões disserem o que digo, há uma possibilidade de que as coisas mudem, ao contrário do que ocorre numa ditadura.

rodrigo madeira disse...

ANÔNIMO,

etc = noruega, finlândia, irlanda, coreia do sul, japão, áustria, bélgica, república tcheca, islândia, nova zelândia, austrália...

de novo: todos esses países têm excelentes sistemas de saúde e ensino - e com liberdade!

quanto a cuba...
pelo amor de deus, risível o seu comentário!
O dado da unesco é manipulado e altamente duvidoso. vc já imaginou como deve ser uma aula de história na cuba socialista? Creio que, na área de humanas ao menos, há uma tentativa de doutrinação política que compromete a qualidade do ensino como um todo... só alguém muito ingênuo ou um “tirésias cretino”, desses que não conseguem senão sonhar com o passado, pode acreditar (mesmo que a unesco o diga) que é preferível estudar o que quer que seja em cuba a estudar na suíça!! - exceto talvez por algum curso intensivo de guerrilha rural e urbana...

dito isso, é o PNUD (programa das nações unidas para o desenvolvimento) que mede o IDH (índice de desenvolvimento humano), o índice que mais importa. na última classificação (2009), cuba ficou em 51 - e aqui devemos levar em conta as manipulações estatísticas do partido... de qualquer maneira, posição muito ruim para o paraíso social na terra!

já que vc gosta de listas, leia esta, a dos 20 primeiros colocados na última aferição, todos capitalistas e democráticos:
1 Noruega; 2 Austrália; 3 Islândia; 4 Canadá; 5 Irlanda; 6 Holanda; 7 Suécia; 8 França; 9 Suíça; 10 Japão; 11 Luxemburgo; 12 Finlândia; 13 Estados Unidos; 14 Áustria; 15 Espanha; 16 Dinamarca; 17 Bélgica; 18 Itália; 19 Liechtenstein; 20 Nova Zelândia.

sabemos, por relatos de intelectuais independentes, que há muita maquiagem nos números cubanos.
informe-se sobre os relatos de demétrio magnoli, por exemplo, que não foi a cuba pajeado por autoridades do partido e tratado a havanas e rum de primeira.
cabe aqui lembrar aquele "causo" antigo: sartre, depois de visita à união soviética stalinista, voltou dizendo que apenas lá, em todo o mundo, se respirava a liberdade. recebido com honras de estado, protegido da tétrica realidade e de "cabeça feita" ainda antes de deixar paris, não poderia ser diferente...

ainda:

"primeiro, não é segredo para ninguém que o PIB Cubano não é calculado com base nos padrões internacionais. Sabe-se que o país de Fidel Castro utiliza metodologias específicas, introduzindo serviços de saúde e educação no PIB, produzindo então sua elevação. Essas variações metodológicas, portanto, maculam e comprometem a comparação do PIB cubano em relação aos demais países.
O segundo aspecto é que a renda per capita de cuba entra no cálculo do IDH com sendo de mais de US$ 6.000,00 (seis mil dólares). Ora, esse número é um completo absurdo, tendo em vista que não se pode usar o método PPP (Paridade do Poder de Compra) numa economia fechada, e com taxa de câmbio arbitrada pelo governo!
Para deixar isso claro, vamos observar que o salário de um médico cubano está na casa de US$ 20,00, o que dá US$ 240,00 / ano! Ora, então como é que podemos falar que o país tem renda per capita de US$ 6.000,00, em um país que se vangloria de não ter desigualdade social? O fato é que esse nível de renda per capita, que é o informado pelo governo cubano, não sobre auditoria das instituições internacionais, e é esse aspecto que catapulta, de forma artificial, o IDH de Cuba para a 55ª posição no ranking mundial." (reinaldo azevedo)

lembra dos mísseis de papelão nas paradas militares soviéticas?

por fim, quanto à abertura política, não precisamos nem usar índices. certamente cuba ombreia com o que há de pior no establishment político internacional: coreia do norte, irã e monarquias sauditas...

em suma, um país tão aberto politicamente e tão forte economicamente que, desde a revolução, "exportou 30 por cento de seus cidadãos" (r.a.)

Afrânio disse...

O mundo é cheio de coisas curiosas, meu caro Cícero. Eis uma delas:
Os maiores defensores das democracias - entre os quais me incluo por causa da possibilidade da alternância do poder e do frequente descarrego emocional que me propicia - nós, se formos sinceros, temos de reconhecer que não só aprovamos, como adoramos, no dia a dia, o autoritarismo, o funcionamento autoritário das organizações não-democráticas, desde que não sejamos nós os perseguidos pelos mandões. Exemplos de tais organizações que quotidianamente admiramos: FORÇAS ARMADAS, POLÍCIAS, IGREJAS, EMPRESAS e FAMÍLIAS. Não reconhecemos a forma autoritária dessas instituições como a mais adequada para organizá-las? Já imaginaram os chefes dessas organizações tendo de submeter-se à alternância do poder e tendo de submeter-se à votação democrática dos seus liderados? É claro que esses chefes, antes de decidirem, ouvem frequentemente os seus subordinados, mas essa audição não implica obviamente em votação democrática com caráter decisório. No fundo dos nossos corações, admirando como admiramos essas organizações não-democráticas, gostaríamos, muitos de nós, de proceder como aquele respeitável comandante militar que afirmou, recentemente a um jornal, que A MULHER DELE VOTA EM QUEM ELE MANDA VOTAR.
O diabo é que nenhum de nós, AUTORITÁRIOS, podemos ter absoluta certeza de que elas realmente VOTAM em quem nós MANDAMOS votar.
O voto não é secreto?

Anônimo disse...

Eleitor: alguém que usufrui o sagrado direito de votar em alguém que foi escolhido por outra pessoa, Ambrose Bierce, Dicionário do Diabo. É a injustamente esquecida "Lei de Ferro das Oligarquias". Que mesmo "esquecida", está sempre ai, como ilustrou o Sr.Afrânio.

Eduardo Ribeiro disse...

O tag socialismo é exclusivamente político, e vou ler, depois que abaixar a excitação de construir esse acervo de boa literatura que você brinda cada leitor da forma mais democrática. Passei os olhos superficialmente e vi sentido, depois comento seus posts. Mas, acho que vale a pena abrir um tag para Maiakovski, operário, escrevendo em caldeira, impulsionado pela ideologia da época, em alguns poemas, mas extremamanete lírico, em outros, como a Flauta Vértebra. "Memória convoca aos salões do cérebro" e "como quem num banquete ergue a taça e celebra" disseram-me que estava numa caldeira de fábrica.


FLAUTA VÉRTEBRA

A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso eu hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro um renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
Esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras

Gabriel Medeiros denoiteosolilumina@gmail.com disse...

Antônio, me desculpe comentar um artigo de alguns anos atrás, mas fiquei entusiasmado com o que li. Há, em geral, uma crítica histérica da direita e dos liberais ao socialismo e ao comunismo e uma defesa, também histérica, da esquerda sobre o mesmo tema.

Penso que o assunto deveria ser tratado com maior seriedade. Existem outros textos seus sobre o assunto? Ou algum texto de outro autor de que você se lembre e possa recomendar?

Abraço,
Gabriel

Antonio Cicero disse...

Caro Gabriel Medeiros,

Existe um ensaio meu que trata de assuntos semelhantes. Chama-se "Tempo e modernidade" e se encontra no livro O futuro não é mais o que era, organizado por Adauto Novaes e publicado pelo SESC SP em 2013.
Abraço

Gabriel Medeiros denoiteosolilumina@gmail.com disse...

Antônio, permita-me retomar o tema, após a leitura do teu ensaio “Tempo e modernidade”.

Entendo que a sua análise procura provar que as experiências socialistas/comunistas reais fracassaram:
1) Por não conseguirem superar o capitalismo, sendo esse um de seus objetivos, e praticarem um capitalismo de Estado, tão opressor quanto o velho capitalismo;
2) Por, além de não terem superado o capitalismo, terem se tornado regimes totalitários, em clara desvantagem às liberdades conquistadas progressivamente no capitalismo.

Há quem, apressadamente, leia sua crítica ao socialismo como um elogio irrestrito ao capitalismo. Coisa que não concordo. Presumo que você tenha muitas críticas ao capitalismo, mas a leitura que eu faço é a de que você também não vê obstáculos reais para que todos os problemas possam ser superados e que a liberdade possa ser cada vez mais plena sem que seja necessária a superação do capitalismo.

Em relação ao fracasso da experiência comunista, eu pergunto:
Ele se deu por falta de clareza e planejamento nas publicações de Marx de como se daria a superação do capitalismo?
Ou o fracasso aconteceu por, já nessas ideias de Marx, estarem subentendias ideias totalitárias?
O comunismo estará sempre fadado ao fracasso?

Eu conheço muitas pessoas bem intencionadas, assim como o jovem Antonio Cícero no final da década de 60 (ainda que por diferentes razões), que declarariam acreditar que o regime comunista no Brasil e no mundo seria uma forma de o mundo ser menos injusto e opressor.
Essas pessoas são imunes às críticas cínicas da direita ao comunismo, quem é que pode levá-las a sério, afinal? É a própria esquerda que deve duramente criticar esse episódio que lhe é tão caro. Mas não é o que vejo. Ao contrário, nos poucos partidos políticos de esquerda no Brasil que se pode levar a sério, o tema socialismo sempre está presente e é uma perspectiva real para muita gente. Por isso, textos lúcidos e precisos como o seu são de grande importância.

Antonio Cicero disse...

Caro Gabriel,

Para mim, a tarefa política que hoje se coloca é pensar – pensar de verdade – como é possível estabelecer uma verdadeira social-democracia que seja capaz de gradualmente, isto é, experimentalmente, conduzir-nos ao socialismo, sem, em nenhum momento, abdicar dos direitos humanos.