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26.11.20

António Botto: "Quem não ama não vive"

 



Quem não ama não vive


Já na minha alma se apagam

As alegrias que eu tive;

Só quem ama tem tristezas,

Mas quem não ama não vive.


Andam pétalas e folhas

Bailando no ar sombrio;

E as lágrimas, dos meus olhos,

Vão correndo ao desafio.


Em tudo vejo Saudades!

A terra parece morta.

– Ó vento que tudo levas,

Não venhas á minha porta!


E as minhas rosas vermelhas,

As rosas, no meu jardim,

Parecem, assim caídas,

Restos de um grande festim!


Meu coração desgraçado,

Bebe ainda mais licor!

– Que importa morrer amando,

Que importa morrer d'amor!


E vem ouvir bem-amado

Senhor que eu nunca mais vi:

– Morro mas levo comigo

Alguma cousa de ti. 






BOTTO, António. "Quem não ama não vive". In: VIEGAS, Francisco José (org.). Cem poemas para salvar a nossa vida. Lisboa: Quetzal, 2014.

9.7.19

António Botto: "Não. Beijemo-nos apenas"




I


Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda – 
Para outro momento
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro. . .

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos. – És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.
Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?




BOTTO, António. "Não. Beijemo-nos apenas". In:_____. "Adolescente". In:_____. Canções e outros poemas. Org. de Eduardo Pitta. Vila Nova do Famalicão: Quasi, 2007.

25.10.17

António Botto: "Venham ver a maravilha"



Venham ver a maravilha
Do seu corpo juvenil!

O sol encharca-o de luz,
E o mar, de rojos, tem rasgos
De luxúria provocante.

Avanço. Procuro olhá-lo
Mais de perto… A luz é tanta
Que tudo em volta cintila
Num clarão largo e difuso…

Anda nu - saltando e rindo,
sobre a areia da praia
Parece um astro fulgindo.
Procuro olhá-lo; - e os seus olhos,
Amedrontados, recusam,
Fixar os meus… - Entristeço…

Mas nesse lugar fugidio -
Pude ver a eternidade
Do beijo que eu não mereço…



BOTTO, António. "Venham ver a maravilha". In:_____. Canções e outros poemas. Org. por Eduardo Pitta. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2007.

24.3.16

António Botto: "Foi tarde de julho"




Foi tarde de julho


Foi numa tarde de julho.
Conversávamos a medo,
– Receios de trair
Um tristíssimo segredo.

Sim, duvidávamos ambos:
Ele não sabia bem
Que o amava loucamente
Como nunca amei ninguém.
E eu não acreditava
Que era por mim que o seu olhar
De lágrimas se toldava...

Mas, a dúvida perdeu-se;
Falou alto o coração!
- E as nossas taças
Foram erguidas
Com infinita perturbação!

Os nossos braços
Formaram laços.

E, aos beijos, ébrios, tombamos;
– Cheios de amor e de vinho!

(Uma suplica soava:)

“Agora... morre comigo,
Meu amor, meu amor... devagarinho!...”



BOTTO, António. "Foi tarde de julho". In: VIEGAS, Francisco José (org.). Cem poemas para salvar a nossa vida. Lisboa: Quetzal, 2014.

3.2.15

António Botto: "Sê jovem"




Sê jovem

Sê jovem,
jovem, apenas.

Não faças literatura
nem ponhas o melancólico aspecto
de quem sabe
e se debruça
nos abismos
desta pobre humanidade
tão vil e tão desgraçada!

Sê natural como as rosas
que rebentaram ali nos canteiros do jardim,
-- e sê jovem!

Mas não queiras ser mais nada
quando estás ao pé de mim.



BOTTO, António. Canções e outros poemas. Vila Nova do Famalicão: Quasi, 2007.

23.6.12

António Botto: "Quanto, quanto me queres?"





Quanto, quanto me queres? — perguntaste
Numa voz de lamento diluída;
E quando nos meus olhos demoraste
A luz dos teus senti a luz da vida.

Nas tuas mãos as minhas apertaste;
Lá fora da luz do Sol já combalida
Era um sorriso aberto num contraste
Com a sombra da posse proibida...

Beijámo-nos, então, a latejar
No infinito e pálido vaivém
Dos corpos que se entregam sem pensar...

Não perguntes, não sei — não sei dizer:
Um grande amor só se avalia bem
Depois de se perder.



BOTTO, António. As canções de António Botto. Lisboa: Presença, 1999.