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2.3.20

Francisco Alvim: "Bruma"




Bruma


Teu ser inconcluso
trabalha na pedra
e a pedra se esgarça
em bruma.

Tão nítida a hora
as coisas tão nítidas
tua face contudo
na bruma

Talvez tua fala
o som de teus passos
possam desfazer
a bruma

Tua fala é bruma
Teus passos são bruma




ALVIM, Francisco. "Bruma" In:_____. Sol dos cegos. Rio de Janeiro, 1968.

14.10.19

Francisco Alvim: "Nada, mas nada mesmo"




Nada, mas nada mesmo


tem a menor importância

Nem antes
Nem depois
Nem durante





ALVIM, Francisco. "Nada, mas nada mesmo". In:_____. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

7.6.19

Francisco Alvim: "Com ansiedade"




Com ansiedade

Os dias passam ao lado
o sol passa ao lado
de quem desceu as escadas

Nas varandas tremula
o azul de um céu redondo, distante

Quem tem janelas
que fique a espiar o mundo




ALVIM, Francisco. "Com ansiedade". In:_____. Poemas. 1968-2000. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

7.5.19

Francisco Alvim: "A minha pessoa"




A minha pessoa




Só tem


Serve?










ALVIM, Francisco. "A minha pessoa". In:_____. O medo nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

6.3.18

Francisco Alvim: "A poesia"



A poesia

Houve um tempo
em que Schmidt e Vinícius
dividiam as preferências
como maior poeta do Brasil
Quando por unanimidade ou quase
nesse jogo tolo
de se querer medir tudo
Drummond foi o escolhido
ele comentou
alguém já me mediu
com fita métrica
para saber se de fato sou
o maior poeta?

Estava certo
Pois a poesia
quando ocorre
tem mesmo a perfeição
do metro -- 
nem o mais
nem o menos
-- só que de um metro nenhum
um metro ninguém
um metro de nadas





ALVIM, Francisco. "A poesia". In:_____. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

2.12.17

Francisco Alvim: "Disseram na Câmara"



Disseram na Câmara

Quem não estiver seriamente preocupado e
perplexo
não está bem informado




ALVIM, Francisco. "Disseram na Câmara". In:_____. Poemas [1968-2000]. São Paulo/Rio de Janeiro: Cosac Naify/7 Letras, 2004. 

23.5.16

Francisco Alvim: "Revolução"




REVOLUÇÃO

Antes da revolução eu era professor
Com ela veio a demissão da Universidade
Passei a cobrar posições, de mim e dos outros
(meus pais eram marxistas)
Melhorei nisso –
hoje já não me maltrato
nem a ninguém


ALVIM, Francisco. "Revolução". In:_____. Passatempo e outros poemas. São Paulo: Brasiliense, 1981.

6.9.15

Francisco Alvim: "O gênio da língua"




O gênio da língua

Corno manso
Bobo alegre



ALVIM, Francisco. "O gênio da língua". In:_____.  "Elefante". In:_____. Poemas [1968-2000]. Rio de Janeiro: 7 Letras; São Paulo: Cosacnaify, 2004.

9.9.14

Francisco Alvim: "Espelho"





Espelho

Meu deus como é triste
Olhar a noite nos olhos
O som da treva ecoa
no brejo mais fundo

Lembrar a montanha
a tarde cheia de sinos
a menina — névoa no azul
o menino

Uma luz
que afastasse este breu
para além da estrela remota

Olho e vejo um furo
no escuro — um lago?
Aviões partem
Para que deserto?



ALVIM, Francisco. Poemas [1968-2000]. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

29.7.13

Francisco Alvim: "Argumento"






Argumento


Mas se todos fazem







ALVIM, Francisco. "Elefante". In:_____. Poemas. 1968-2000. São Paulo: Cosacnaify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004.

8.10.12

Francisco Alvim: "Sofrimento"




Sofrimento

Cara de tristeza na festa
Anda, vê um copo d'água pra teu pai





ALVIM, Francisco. "Elefante". In:_____. Poemas [1968-2000]. São Paulo: Cosac & Naify; Rio de Janeiro: 7 Letras, 2004.


25.4.12

Francisco Alvim: "Lago, montanha"





Viúva

Luís me amava muito
muito mesmo
apesar de suas amantes
foi por isso que nunca me separei



ALVIM, Francisco. Lago, montanha. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1981.

27.9.11

Francisco Alvim: "Acontecimento"

Acontecimento

                                                       Ao Roberto
Quando estou distraído no semáforo
e me pedem esmola
me acontece agradecer



ALVIM, Francisco. O metro nenhum. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

18.2.09

Francisco Alvim: "Carnaval"

.


CARNAVAL


Sol

Esta água é um deserto

O mundo, uma fantasia

O mar, de olhos abertos
engolindo-se azul

Qual o real da poesia?



De: ALVIM, Francisco. "Elefante". In: Poemas [1968-2000]. São Paulo e Rio de Janeiro: Cosac & Naify e 7 Letras, 2000.

29.10.08

Francisco Alvim: "Em silêncio conversemos"

.


Em silêncio conversemos

Que fazer deste ser
sem prumo
despencado do extremo de um dia e
que o sono não recolheu?

Não não indaguemos
Para que indagar matéria de silêncio
Procurar a nenhuma razão que nos explique
e suavemente nos envolva
em suas turvas paredes protetoras

Nada de perguntas
A campânula rompeu-se
O instante nos ofusca

A quem sobra olhos resta ver
um ser nu a vida pouca
Só dentes e sapatos
de volta para casa

Nem um passo à frente
ou atrás
De pés firmes
o corpo oscilante
neste suave embalo da mágoa
descansemos




De: ALVIM, Francisco. Sol dos cegos. Rio de Janeiro: 1968.