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18.6.09

John Ashbery: "What is poetry" / "Que é a poesia": tradução de Antonio Cicero e Waly Salomão

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Que é a poesia


A cidade medieval, com frisa
De escoteiros de Nagoya? A neve

Que veio quando queríamos que nevasse?
Belas imagens? Tentar evitar

Ideias, feito neste poema? Mas
Voltamos a elas como a uma esposa, largando

A amante que desejamos? Agora
Terão que acreditar

Como acreditamos. Na escola
O pente fino tirou todo pensamento:

O que sobrou era feito uma planície.
Feche os olhos, para senti-la por milhas em torno.

Abra-os agora num caminho estreito e vertical.
Ela talvez nos dê – o que? – algumas flores em breve?



What Poetry Is


The medieval town, with frieze
Of boy scouts from Nagoya? The snow

That came when we wanted it to snow?
Beautiful images? Trying to avoid

Ideas, as in this poem? But we
Go back to them as to a wife, leaving

The mistress we desire? Now they
Will have to believe it

As we believed it. In school
All the thought got combed out:

What was left was like a field.
Shut your eyes, and you can feel it for miles around.

Now open them on a thin vertical path.
It might give us--what?--some flowers soon?



De: ASHBERY, John. "Houseboat days". In: Selected poems. New York: Penguin, 1986.

29.3.09

John Ashbery sobre Henri Michaux

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Apresentando a entrevista que fez com o poeta Henri Michaux, o poeta John Ashbery contou que


“Michaux não quer ser fotografado e se recusa até a permitir que um desenho que o retrate seja reproduzido. Os rostos o fascinam de modo horrível. Ele escreveu: “Um homem e seu rosto, é um pouco como se estivessem constantemente a se entredevorar”. A um editor que uma vez lhe pediu uma fotografia para publicar num catálogo, ele respondeu: “escrevo para revelar uma pessoa de cuja existência ninguém suspeitaria ao olhar para mim”. Essa declaração foi publicada no espaço que havia sido destinado ao seu retrato.


De: ASHBERY, John. "An interview with Henri Michaux". Reported sightings. Art chronicles 1957-1987. Cambridge, Mass: Harvard University Press, 1991.

11.1.09

O poeta João Brossa no Brasil

O seguinte artigo – que consiste numa adaptação do relato que fiz para o Diário Catarinense da vinda do poeta Joan Brossa ao Brasil – foi publicado na minha coluna da Folha de São Paulo sábado, 10 de janeiro de 2009.


O poeta Joan Brossa no Brasil

EM DEZEMBRO de 1992, ao ser apresentado a Helena Severo, que no mês seguinte assumiria a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, sugeri-lhe que, em vez de promover apenas shows internacionais de rock, a prefeitura apoiasse também ciclos internacionais de palestras sobre filosofia, arte, literatura etc.

Tendo gostado da ideia, ela me pediu que desenvolvesse um projeto nesse sentido, coisa que foi logo noticiada pela imprensa. Pouco tempo depois, recebi um telefonema de Ana Lúcia Magalhães Pinto, que dirigia a programação cultural do Banco Nacional, dizendo que havia lido a matéria nos jornais e que o Banco Nacional estava disposto a financiar essa iniciativa.

Convidei o poeta Waly Salomão para trabalhar comigo. Na época, João Cabral era amplamente considerado o maior poeta vivo do Brasil. Como Waly e eu o admirávamos imensamente, pensamos logo em incluí-lo no primeiro ciclo.

O nome de João nos lembrou o do seu velho amigo, Joan Brossa, com cuja obra havíamos nos familiarizado pouco tempo antes. Sabíamos que Cabral, quando cônsul em Barcelona, no final da década de 40 e no começo da de 50, havia influenciado um importante grupo de jovens artistas e poetas de Barcelona, inclusive Brossa. Lembramo-nos também de outro "João", o grande poeta americano John Ashbery. Como nos parecia que o mais difícil de tudo seria conseguir a participação do nosso Cabral, que a essa altura andava bastante recluso, começamos pelos outros. Enviamos cartas para Brossa e Ashbery, que concordaram em nos receber, e fomos pessoalmente persuadi-los a vir ao Brasil.

Quando chegamos, na hora marcada, ao edifício em que Brossa morava, em Barcelona, tocamos a campainha várias vezes, inutilmente. Ninguém respondeu ao interfone nem veio abrir a porta. Não havia porteiro. Ligamos de um telefone público para o seu apartamento, mas quem atendeu foi uma secretária eletrônica. Dissemos que estávamos ali, à porta, e nada. Desconfiamos que podia haver algum engano no endereço e indagamos por Brossa aos garçons de um bar, na esquina. Jamais tinham ouvido falar dele. Disseram-nos que por ali havia, de fato, vivido um poeta, alguns anos atrás, mas que já morrera. Sentimos-nos mergulhados em pleno surrealismo catalão. Pela última vez, ligamos para o número de Brossa e falamos com a secretária eletrônica. Usando toda a sua capacidade dramática, Waly apelou para o sentimentalismo: havíamos atravessado o oceano Atlântico, dois pobres poetas, só para encontrar o grande Joan Brossa. Que desolação voltar para casa sem ao menos trocar duas palavras com o nosso ídolo!

Já estávamos realmente a ir embora, quando percebemos, à porta do edifício dele, uma senhora. Sem jamais a ter visto antes, Waly correu a abraçá-la, e ela abriu os braços para acolhê-lo. Lembrei-me de uma cena do filme soviético "Quando Voam as Cegonhas". Essa senhora era a esposa de Brossa. Este estava arrependido de ter consentido em nos receber. Ela, porém, não tendo resistido ao rompante sentimental de Waly, decidira que, querendo ou não, seu marido nos receberia.

Quando lá chegamos, Brossa foi cordial, mas firme: não havia questão de vir ao Brasil, pois se sentia descentrado até quando ia de trem a Valencia (a meia hora de Barcelona). De todo modo, continuamos a conversar. Falamos dos poemas visuais dele, falamos de João Cabral, que ele adorava, falamos do mundo em geral. Em duas horas, ficamos amigos, despedimo-nos e fomos embora, conformados. Que fazer? Procurar outro poeta.

Mal chegamos ao hotel e tocava o telefone: Brossa já estava de malas prontas para vir ao Brasil conosco. Felicíssimos, explicamos a ele que o encontro não era naquela semana, mas dali a três meses.

Depois de Brossa, foi relativamente fácil conseguir Ashbery e Cabral. A noite dos três poetas no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio foi extraordinária. Todos eles disseram coisas surpreendentes e memoráveis. Mas vou descrever apenas a última coisa da noite, que foi a performance poética de Brossa.

Ele havia trazido um tinteiro e uma pena de avestruz. Molhou a pena no tinteiro e saiu do palco, ostensivamente, para escrever alguma coisa. Voltou, molhou novamente a pena e saiu. Fez isso mais uma vez, e trouxe dos bastidores um envelope fechado. Escolheu uma moça bonita na plateia -por acaso era a Renata Sorrah-, entregou-lhe o envelope e lhe pediu que o abrisse dali a três minutos. Os três minutos pareceram três horas. Ao abrir a carta, viu-se que nela estava escrito: FIM.

11.3.08

Ashbery, Cabral e Brossa no MAM do Rio



Na foto de cima, a partir da esquerda, Waly Salomão, John Ashbery, João Cabral, Joan Brossa e eu, no encontro do Banco Nacional de Idéias, no MAM, em 1993. Na de baixo, Brossa saíu para fazer a sua performance.


Meu contato com Joan Brossa

Em 1993, Waly Salomão e eu trouxemos o poeta catalão Joan Brossa ao Brasil, para participar de uma mesa redonda com o poeta norte-americano John Ashbery e o brasileiro João Cabral de Melo Neto. Na semana passada, Victor da Rosa, mestrando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, pediu-me que lhe enviasse, para publicar no suplemento cultural do jornal Diário Catarinense, um breve depoimento pessoal sobre meu contato com Brossa. Enviei-lhe o seguinte texto, publicado em 8 de março:

Em outubro de 1992, participei, com Waly Salomão, Luciano Figueiredo e Júlio Bressane, de uma mesa-redonda em Barcelona, por ocasião da inauguração da exposição da obra de Hélio Oticica na Fundação Antoni Tàpies. Lá mesmo vi, fiquei entusiasmado e comprei o catálogo de uma exposição, que havia tido lugar em Valencia, de poemas visuais de Joan Brossa. O texto de apresentação desse catálogo, de Victoria Combalía, menciona a importância de João Cabral de Melo Neto – que havia sido cônsul em Barcelona no final da década de 40 e no começo da de 50 – para Brossa, assim como para um grupo de jovens artistas e poetas de Barcelona. O próprio Tàpies, que havia sido um desses artistas, contou-nos várias histórias dessa época.

De volta ao Brasil, em dezembro, ao ser apresentado a Helena Severo, que havia sido nomeada secretária de Cultura do recém-eleito prefeito do Rio, Cesar Maia, sugeri que ela organizasse ciclos internacionais de conferências sobre literatura, arte e filosofia, que poderiam se intitular “Enciclopédia da Virada do Século/Milênio”. Para minha surpresa, dois dias depois ela declarava aos jornais que me convidaria para organizar os ciclos que eu lhe havia proposto. Dito e feito. Aceitei o convite e, poucas semanas depois, Ana Lúcia Magalhães Pinto, que dirigia a programação cultural do Banco Nacional, telefonou-me dizendo que havia lido a matéria nos jornais e que o Banco Nacional estava disposto a apoiar essa iniciativa, cujo nome então mudou para “Banco Nacional de Idéias”.

Chamei Waly para trabalhar junto comigo. Na época, João Cabral era sem dúvida o maior poeta brasileiro vivo. Como Waly e eu o admirávamos imensamente, pensamos logo em incluí-lo no primeiro ciclo que organizássemos. O nome de João nos lembrou seu velho amigo, Joan Brossa. Lembrei-me também de outro “João”, o grande poeta americano John Ashbery. Como nos parecia que o mais difícil de tudo seria conseguir a participação do nosso Cabral, que a essa altura andava bastante recluso, começamos pelos outros. Enviamos cartas para Brossa e Ashbery, que concordaram em nos receber, e viajamos para persuadi-los pessoalmente a vir ao Brasil.

Quando chegamos, na hora marcada, ao edifício em que Brossa morava, em Barcelona, tocamos a campainha várias vezes, inutilmente. Ninguém respondeu ao interfone nem veio abrir a porta. Não havia porteiro. Ligamos de um telefone público para o seu apartamento, mas quem atendeu foi uma secretária eletrônica. Dissemos que estávamos ali, à porta, e nada. Desconfiamos que podia haver algum erro no endereço, e indagamos por Brossa aos garçons de um bar, na esquina. Jamais tinham ouvido falar dele. Disseram-nos que por ali havia, de fato, vivido um poeta, alguns anos atrás, mas que já morrera. Sentimos-nos mergulhados em pleno surrealismo catalão. Pela última vez, ligamos para o número de Brossa e falamos com a secretária eletrônica. Usando toda a sua capacidade dramática, Waly apelou para o sentimentalismo: havíamos atravessado o oceano Atlântico, dois pobres poetas, só para encontrar o grande Joan Brossa. Que desolação voltar para casa sem ao menos trocar duas palavras com o nosso ídolo!

Já estávamos realmente a ir embora, quando percebemos, à porta do edifício dele, uma senhora. Sem jamais a ter visto antes, Waly correu a abraçá-la, e ela abriu os braços para acolhê-lo. Lembrei-me de uma cena do filme soviético “Quando voam as cegonhas”. Essa senhora era a esposa de Brossa. Este estava arrependido de ter consentido em nos receber. Ela, porém, não tendo resistido ao rompante sentimental de Waly, decidira que, querendo ou não, ele nos receberia.

Quando lá chegamos, Brossa foi logo cordial, mas firme: não havia questão de vir ao Brasil, pois se sentia descentrado até quando ia de trem a Valencia (a meia hora de Barcelona). De todo modo, continuamos a conversar. Falamos dos poemas visuais dele, falamos de João Cabral, que ele adorava, falamos do mundo em geral. Em duas horas, ficamos amigos, despedimo-nos e fomos embora, conformados. Que fazer? Procurar outro poeta. Mal chegamos ao hotel e tocava o telefone: Brossa já estava de malas prontas para vir ao Brasil conosco. Felicíssimos, explicamos a ele que o encontro não era naquela semana, mas dali a três meses.

Depois de Brossa, foi relativamente fácil conseguir Ashbery e Cabral. A noite dos três poetas no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio foi extraordinária. Todos eles falaram coisas surpreendentes e memoráveis. Mas vou descrever apenas a performance poética feita por Brossa. Ele havia trazido um tinteiro e uma pena de pato. Molhou a pena no tinteiro e saiu do palco, ostensivamente para escrever alguma coisa. Voltou, molhou novamente a pena e saiu. Fez isso mais uma vez, e trouxe dos bastidores um envelope fechado. Escolheu uma moça bonita na platéia – por acaso era a Renata Sorrah – entregou-lhe o envelope e lhe pediu que o abrisse dali a três minutos. Os três minutos pareceram três horas. Ao abrir a carta, estava escrito: FIM.