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17.7.21

Bertolt Brecht: "Vom ertrunkenen Mädchen" / "A moça afogada"

 



A moça afogada


1

Quando ela se afogou e a boiar foi descendo 

Dos córregos para os rios mais caudalosos, 

Brilhava o céu de opala tão maravilhoso 

Qual se devesse recompensar o cadáver.

 

2

Sargaços e algas iam-na enleando,

De modo que ela aos poucos ficava com mais peso.

Frios os peixes nadavam-lhe pelas pernas,

Plantas e bichos faziam-lhe ainda mais lenta a última viagem.


3

E o céu da tarde era escuro feito fumaça

Retendo à noite o brilho das estréias sobre o horizonte.

Mas cedo alvoreceu, a fim de que também

Manhã e tarde houvesse para ela.


4

Quando seu corpo branco apodreceu nas águas, 

Aconteceu (bem devagar) que Deus foi-a esquecendo:

Primeiro o rosto, as mãos depois e por fim os cabelos.

Então ela passou a ser no rio uma carniça igual a tantas outras.




BRECHT, Bertolt. "A moça afogada". In:_____. Poemas e canções. Seleção e tradução por Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. 




Vom ertrunkenen Mädchen


1

Als sie ertrunken war und hinunterschwamm

Von den Bächen in die größeren Flüsse

Schien der Opal des Himmels sehr wundersam

Als ob er die Leiche begütigen müsse.


2

Tang und Algen hielten sich an ihr ein

So daß sie langsam viel schwerer ward.

Kühl die Fische schwammen an ihrem Bein

Pflanzen und Tiere beschwerten noch ihre letzte Fahrt.


3

Und der Himmel ward abends dunkel wie Rauch

Und hielt nachts mit den Sternen das Licht in Schwebe.

 Aber früh ward er hell, daß es auch

Noch für sie Morgen und Abend gebe.


4

Als ihr bleicher Leib im Wasser verfaulet war

Geschah es (sehr langsam), daß Gott sie allmählich vergaß

Erst ihr Gesicht, dann die Hände und ganz zuletzt erst ihr Haar.

Dann ward sie Aas in Flüssen mit vielem Aas.





BRECHT, Bertolt. "Vom ertrunkenen Mädchen". In:_____. Die Gedichte von Bertot Brecht in einem Band. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1981.


23.2.21

Stefan Georg: "Lied" / "Cantiga": trad. por Olympio Monat da Fonseca

 



Cantiga



Nas janelas onde outrora contigo

A paisagem da noite contemplava,

Brilham estranhos lumes.

O caminho ainda começa da porta


Onde, sem olhares para trás,

Um dia rumaste ao vale.

Mas a lua, quando tornou,

Tua pálida face fez erguer:


Então, era já demasiado tarde para um apelo.

Sombras, silêncio, ar pesado – 

Afogam minha casa.

Levaste contigo toda alegria.






Lied



Fenster wo ich einst mit dir

Abends in die landschaft sah

Sind nun hell mit fremdem licht.


Pfad noch läuft vom tor wo du

Standest ohne umzuschaun

Dann ins tal hinunterbogst.


Bei der kehr warf nochmals auf

Mond dein bleiches angesicht..

Doch es war zu spät zum ruf.


Dunkel -- schweigen -- starre luft

Sinkt wie damals um das haus.

Alle freude nahmst du mit.





GEORG, Stefan. "Lied" / "Cantiga". Trad. por Olympio Monat da Fonseca. In: CAMPOS, Geir (org.). O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.


7.2.21

Stefan Georg: "Nacht-Gesang" / "Noturno": trad. por João Accioli

 



Noturno



Calmo e esquivo

longe de mim

vagar e errar

meu destino.


Tempestade e outono

Com a morte.

Brilho e maio

Com a vida.


O que fiz

O que sofri

O que pensei

O que sou:


fumo

que se esgarça

canto

que se acaba.








Nacht-Gesang 


Mild und trüb
  
Ist mir fern,  

Saum und Fahrt  

Mein Geschick.   



Sturm und Herbst  

Mit dem Tod, 

Glanz und Mai  

Mit dem Glück.   


Was ich tat,  

Was ich litt,  

Was ich sann,  

Was ich bin:   


Wie ein Brand  

Der verraucht,  

Wie ein Sang  

Der verklingt.







GEORG, Sefan. "Nachtgesang" / "Noturno". Trad. por João Accioli..In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janiero: Ediouro, s.d.


27.7.18

Bertolt Brecht: "General, dein Tank ist ein starker Wagen"/"O vosso tanque, general, é um carro forte"



General, dein Tank ist ein starker Wagen

General, dein Tank ist ein starker Wagen.
Er bricht einen Wald nieder und zermalmt hundert Menschen.
Aber er hat einen Fehler:
Er braucht einen Fahrer.

General, dein Bombenflugzeug ist stark.
Es fliegt schneller als der Sturm und trägt mehr als ein Elefant.
Aber es hat einen Fehler:
Es braucht einen Monteur.

General, der Mensch ist sehr brauchbar.
Er kann fliegen, und er kann töten.
Aber er hat einen Fehler:
Er kann denken.



O vosso tanque, general, é um carro forte.

O vosso tanque, general, é um carro forte
Derruba uma floresta, esmaga cem homens,
Mas tem um defeito
– Precisa de um motorista.

O vosso bombardeiro, general, é poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga do que um
Elefante.
Mas tem um defeito
– Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar e sabe matar
Mas tem um defeito
– Sabe pensar.




BRECHT, Bertolt. "General, dein Tank ist ein starker Wagen"/"O vosso tanque, general, é um carro fote". Trad. de Geir Campos. In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã. Editora Ediouro, s.l. e s.d.

11.12.17

Anônimo: "Traum" / "Sonho mau": trad. Geir Campos



Sonho mau

Esta noite sonhei
Um pesadelo assim:
– Em me jardim crescia
Um pé de alecrim;

Cemitério, o jardim;
A cova era um canteiro;
Flores, botões caíam
Do verde alecrineiro;

As flores coloquei
Juntas num jarro de ouro
Que me caiu dasmãos
E em cacos se quebrou;

Vi então correrem pérolas
E aljôfar cor-de-rosa...
Que quer dizer atl sonho?
Ah, Amada, estarás morta?




Traum

Ich hab die Nacht geträumet
Wohl einen schweren Traum,
Es wuchs in meinem Garten
Ein Rosmarienbaum.

Ein Kirchhof war der Garten
Ein Blumenbeet das Grab,
Und von dem grünen Baume
Fiel Kron und Blüte ab.

Die Blüten tät ich sammeln
In einen goldnen Krug,
Der fiel mir aus den Händen,
Daß er in Stücken schlug.

Draus sah ich Perlen rinnen
Und Tröpflein rosenrot:
Was mag der Traum bedeuten?
Ach Liebster, bist Du tot?




Anônimo. "Traum". In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português). Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

6.6.16

Friedrich Rückert: "Dem Libesänger" / "Ao cantor de amor": trad. de Bernardo Taveira Júnior




Ao cantor de amor

Se queres em peito humano
Todas as cordas mover,
Desfere os sons da tristeza;
Não descantes o prazer.
Para muitos cá na terra
Nunca a ventura existiu:
Mas quem ainda no peito
A voz da dor não ouviu?




Dem Libesänger

Wenn du willst in Menschenherzen
Alle Saiten rühren an;
Stimme du den Ton der Schmerzen,
Nicht den Klang der Freuden an.
Mancher ist wohl der erfahren
Hat auf Erden keine Lust,
Keiner, keiner der nicht still bewahren
Wird ein Weh in seiner Brust.





RÜCKERT, Friedrich. "Dem Libesänger" / "Ao cantor de amor". Trad. Bernardo Taveira Júnior.. In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã. Antologia de poetas da língua alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

19.6.15

Martin Opitz: "Schönheit dieser Welt vergehet" / "Passa a beleza do mundo": trad. Geir Campos




Passa a beleza do mundo

Passa a beleza do mundo:
como o vento vagabundo,
como a flor que mal germina
e já por terra se inclina,
como a onda que vem ligeira
e dá a vaga à companheira...
Mas por que hei de assim glosar?
Mundo é vento e flor e mar.



Schönheit dieser Welt vergehet

Schönheit dieser Welt vergehet,
Wie ein Wind, der niemals stehet,
Wie die Blume, so kaum blüht
Und auch schon zur Erden sieht,
Wie die Welle, die erste kömmt
Und den Weg bald weiter nimmt.
Was für Urteil soll ich fallen?
Welt ist Wind, ist Blum und Wellen.



OPITZ, Martin. "Schönheit diser Welt vergehet". Trad. de Geir Campos. In: CAMPOS, Geir (org.). Antologia: O livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português). Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

17.1.12

Friedrich Nietzsche: "So sprach ein Weib..." / "Assim me disse uma mulher...": trad. Geir Campos




Assim me disse uma mulher, tímida,
À luz do amanhecer:
"Já és tão feliz na sobriedade...
Bêbedo, como não hás de ser?"



So sprach ein Weib voll schüchternheit
Zu mir im Morgenschein:
"Bist schon du selig vor Nüchternheit,
Wie selig wirst du -- trunken sein?"



NIETZSCHE, Friedrich. "So sprach ein Weib..." Trad. de Geir Campos. In: CAMPOS, Geir (org.). O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.

20.1.11

Geir Campos: "A árvore"




Por sugestão do Jefferson Bessa, publico o soneto "A árvore", de Geir Campos:


A árvore

Ó árvore, quantos séculos levaste
a aprender a lição que hoje me dizes:
o equilíbrio, das flores às raízes,
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste
e outra se batam, pondo cicatrizes
inúteis sobre os membros infelizes?
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos
e experiências – que o vigor consomem
entre vigílias e cismares mudos –

demoraste aprendendo o teu exemplo,
no sossego da selva armada em templo,
E dize-me: há esperança para o Homem?



CAMPOS, Geir. "A árvore". In: CAMPOS, Paulo Mendes (org.) Forma e expressão do soneto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1952.

Esse soneto foi publicado originalmente em:

CAMPOS, Geir. Rosa dos rumos. Rio de Janeiro: Revista Literária, 1950.