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12.3.21

Bertolt Brecht: "Hier standen die alten Mauren" / "Aqui ficavam os antigos mouros"




Aqui ficavam os antigos mouros


Aqui ficavam os antigos mouros

E miravam longamente o mar

Dizendo, reinos são morredouros

E o nosso está para se acabar.


E o que os muros diziam é inconteste

Pois não sobrou um para contar;

E agora, onde ficavam, está Brecht

E ele mira longamente o mar.




Hier standen die alten Mauren


Hier standen die alten Mauren

Und shcauten aufs Meer hinaus

Und sagten, nun kann's nicht mehr lang dauern

Und dann ist's mit uns aus.


Und damit hatten die Mauren recht;

Denn jetzt ist's mit ihnen aus

Und da, wo sie standen, steht jetzt der Brecht

Und schaut aufs Meer hinaus




BRECHT, Bertolt. "Hier standen die alten Mauren" / "Aqui ficavam os antigos mouros". In: Poesia. Introdução e tradução. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.






14.2.21

Homenagem aos noventa anos do poeta Augusto de Campos

 Hoje o grande poeta Augusto de Campos faz 90 anos. Para comemorar esse esplêndido fato, vários poetas lhe fizeram uma bela homenagem, que teve o design e a direção de arte do poeta André Vallias. Eis o link para essa merecida homenagem:

https://erratica.com.br/ac90 






15.1.20

Bertolt Brecht: "Die neuen Zeitalter" / "As novas eras": trad. por André Vallias




As novas eras


As novas eras não começam de repente.
Meu avô já vivia numa nova era
Meu neto vai viver ainda na antiga.

Carne nova se come com garfo velho.

Não foram os veículos autodirigíveis
Nem os tanques
Não foram os aviões sobre nossos telhados
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vieram as velhas asneiras.
A sabedoria foi de boca em boca transmitida.





Die neuen Zeitalter


Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal.
Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit.
Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben.

Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen.

Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht
Noch die Tanks.
Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht.
Noch die Bomber.

Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten.
Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.







BRECHT, Bertolt. "Die neuen Zeitalter" / "As novas eras". In:_____. Poesia. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.

10.12.19

Bertolt Brecht: "Die Vergessenen" / "Os deslembrados": trad. por André Vallias




Os deslembrados


Eles vivem e morrem por aí –
Numa estrangeira viela
A vida com violência os atropela
E se põe a fugir.
Viveram e morreram e lutaram duro
E criaram suas crianças
E aí na mais distante deslembrança
Terminam seu percurso.




Die Vergessenen


Sie leben und sterben irgendwo
An einem fremden Steg
Das Leben geht vorüber roh
Und über sie hinweg.
Sie lebten und starben und rangen schwer
Und zogen Kinder auf
Und dann in ferner Vergessenheit hehr
Sie enden ihren Lauf.





BRECHT, Bertolt. "Die Vergessenen" / "Os deslembrados". In:_____. Bertolt Brecht: Poesia. Introdução e tradução por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.

9.12.19

Bertolt Brecht: POESIA: Introdução e tradução de André Vallias


É hoje, na Livraria da Travessa de Botafogo, o lançamento das excelentes traduções que o poeta André Vallias fez dos maravilhosos poemas de Bertolt Brecht:




20.4.19

Heinrich Heine: "Es kommt der Tod" / "Chegou a morte": trad, por André Vallias



Chegou a morte

Chegou a morte – agora vou
Dizer o que o orgulho não
Me permitiu: meu coração
Tão só por ti pulsou, pulsou.

Já estou fechado no ataúde,
Descem-me à cova. A calmaria
Me abraça enfim, mas tu, Maria,
Por mim irás, muito amiúde,

Chorar, e pra quê, afinal?
Consola-te, este é o destino
Humano: o que há de bom e fino
E grande sempre acaba mal.




Es kommt der Tod

Es kommt der Tod -- jetzt will ich sagen,
Was zu verschweigen ewiglich
Mein Stolz gebot: für dich, für dich,
Es hat mein Herz für dich geschlagen!

Der Sarg ist fertig, sie versenken
Mich in die Gruft. Da hab ich Ruh.
Doch du, doch du, Maria, du
Wirst weinen oft und mein gedenken.

Du ringst sogar die schönen Hände --
O tröste dich -- Das ist das Loos,
Das Menschenloos: -- was gut und groß
Und schön, das nimmt ein schlechtes Ende.






HEINE, Heinrich. "Es kommt der Tod" / "Chegou a morte". In:_____. Heine, heim? Poeta dos contrários. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

26.1.19

Heinrich Heine: "Die Fräulein stand am Meere" / "Uma garota, lá na praia": trad. de André Vallias



Uma garota, lá na praia,
Acompanhando o pôr do sol,
Com olhos rasos d’água solta
Suspiros fundos e alguns ais.

Ora, garota, paciência!
É sempre a mesma velha história:
Agora o astro sai de cena –
De manhãzinha, está de volta.





Das Fräulein stand am Meere
Und seufzte lang und bang,
Es rührte sie so sehre
Der Sonnenuntergang.

Mein Fräulein! seyn Sie munter,
Das ist ein altes Stück;
Hier vorne geht sie unter
Und kehrt von hinten zurück.




HEINE, Heinrich. "Die Fräulein stand am Meere" / "Uma garota, lá na praia". In:_____. Heine, heim? Poeta dos contrários. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2011. 

13.8.18

Heinrich Heine: "Ein Fichtenbaum steht einsam" / "Solitário na montanha": trad. de André Vallias



Solitário, na montanha,
Um pinheiro no hemisfério
Norte dorme sob a manta
Branca de gelo e de neve.

Ele sonha com a palmeira
Do Oriente, tão distante,
Que calada se lamenta
Sobre o penhasco escaldante.




Ein Fichtenbaum steht einsam
Im Norden auf kahler Höh’.
Ihn schläfert; mit weißer Decke
Umhüllen ihn Eis und Schnee.

Er träumt von einer Palme,
Die, fern im Morgenland,
Einsam und schweigend trauert
Auf brennender Felsenwand.





HEINE, Heinrich. "Ein Fichtenbaum steht einsam" / "Solitário, na montanha". In: VALLIAS, André (org. e trad.). Heine, hein?: Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

24.1.18

Heirich Heine: "Ich stand in dunkeln Träumen" / "Num sonho escuro, eu": trad. de André Vallias



Num sonho escuro, eu
Olhava o seu retrato,
Então o rosto amado –
E imóvel – se moveu.

Nos lábios vi pousar
O riso mais bonito,
E, como umedecido,
Reacender o olhar.

Das lágrimas também
Meu rosto está molhado –
Eu não aceito o fato
Que te perdi, meu bem!



Ich stand in dunkeln Träumen
Und starrte ihr Bildniß an,
Und das geliebte Antlitz
Heimlich zu leben begann.
 
Um ihre Lippen zog sich
Ein Lächeln wunderbar,
Und wie von Wehmuthsthränen
Erglänzte ihr Augenpaar.
 
Auch meine Thränen flossen
Mir von den Wangen herab –  
Und ach, ich kann es nicht glauben,
Daß ich dich verloren hab'!



HEINE, Heinrich. "Ich stand in dunkeln Träumen" / "Num sonho escuro, eu". In: VALLIAS, André (org. e trad.). Heine, heim? Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva: Goethe Institut, 2011.

28.1.17

Bertolt Brecht: "Entdeckung an einer jungen Frau" / "Descoberta numa jovem mulher": trad. de André Vallias

Agradeço a André Vallias por me ter enviado sua bela tradução do seguinte belo soneto de Brecht:


Entdeckung an einer jungen Frau


Des Morgens nüchterner Abschied, eine Frau
Kühl zwischen Tür und Angel, kühl besehn
Da sah ich: eine Strähn in ihrem Haar war grau
Ich konnt mich nicht entschließen mehr zu gehn

Stumm nahm ich ihre Brust, und als sie fragte
Warum ich, Nachtgast, nach Verlauf der Nacht
Nicht gehen wolle, denn so war’s gedacht
Sah ich sie unumwunden an und sagte

Ist’s nur noch eine Nacht, will ich noch bleiben
Doch nütze deine Zeit, das ist das Schlimme
Daß du so zwischen Tür und Angel stehst

Und laß uns die Gespräche rascher treiben
Denn wir vergaßen ganz, daß du vergehst
Und es verschlug Begierde mir die Stimme



BRECHT, Bertolt. "Entdeckung an einer jungen Frau". In:_____. Werke. Groβe kommentierte Berliner und Frankfurter Ausgabe. Hg. von W. Hecht, J. Knopf, W. Mittenzwei, K-D Müller. Berlin, Weimar, Frankfurt: Suhrkamp Verlag, 1988, Bd.13.



Descoberta numa jovem mulher


Uma mulher, no sóbrio adeus de uma manhã,
Com o pé na soleira, fria, examinada:
Descubro então a mecha de cabelo bran-
Co, e já não sei se vou bater em retirada

Calado, pus as minhas mãos sobre os seu seios
Quando ela me indagou por que eu estava ainda
Ali – um hóspede noturno, a noite finda —
Olhei pra ela, e aí lhe disse sem rodeios

Foi uma noite apenas, e eu quero ficar
Mas usufrua do seu tempo, é bem pior
Você permanecer com o pé na soleira

Porém, vamos deixar a conversa pra lá
Nos esquecemos que você vai virar pó —
E me embargaram a voz as chamas da fogueira



Trad. de André Vallias

13.1.17

Bertolt Brecht: Zum Freitod des Flüchtlings W.B. / Ao suicídio do fugitivo W.B.: trad. por André Vallias


Agradeço a André Vallias por me ter enviado sua excelente tradução do belo -- e estranhamente atual -- poema que Brecht fez sobre o suicídio de Walter Benjamin, perseguido pelos nazistas.




Zum Freitod des Flüchtlings W.B.

Ich höre, daß du die Hand gegen dich erhoben hast 
Dem Schlächter zuvorkommend. 
Acht Jahre verbannt, den Aufstieg des Feindes beobachtend 
Zuletzt an eine unüberschreitbare Grenze getrieben 
Hast du, heisst es, eine überschreitbare überschritten. 

Reiche stürzen. Die Bandenführer 
Schreiten daher wie Staatsmänner. Die Völker
Sieht man nicht mehr unter den Rüstungen.

So liegt die Zukunft in Finsternis, und die guten Kräfte
Sind schwach. All das sahst du
Als du den quälbaren Leib zertörtest.



BRECHT, Bertolt. "Zum Freitod des Flücherlin/Weimanr/Frankfort: Suhrkamp, 1993.




Ao suicídio do fugitivo W.B.

Ouço que ergueste a mão contra ti
Ao carniceiro te antecipando.
Oito anos desterrado, observando a ascensão do inimigo
Por fim, coagido a uma fronteira intransponível
Uma transponível, diz-se, ultrapassaste.

Reinos desabam. Os chefes de quadrilha
Avançam como homens de Estado. Não
Se vê mais os povos sob tanto armamento.

Assim o futuro jaz na escuridão, e as forças do bem
Estão fracas. Tudo isso enxergaste
Quando o torturável corpo destruíste.


Trad. por André Valias

12.3.15

P.B. Shelley: "Ozymandias" / "Ozymândias": trad. André Vallias




OZYMÂNDIAS

Disse o viajante de uma antiga terra:
  “Duas pernas de pedra, no deserto,
Despontam gigantescas, e bem perto
  Há um rosto destroçado que descerra
Os lábios num sorriso de comando
  Que atesta: o escultor leu com mestria
Paixões que na matéria inerte e fria
  A mão que as entalhou vão perdurando.
‘Meu nome é Ozymândias, rei dos reis:
  Desesperai perante as minhas obras!’
Alerta uma inscrição no pedestal.
  Mas são ruínas tudo o que ali sobra,
E um mar de areia, em árida nudez,
  Circunda a decadência colossal”.



Tradução de André Vallias




OZYMANDIAS

I met a traveller from an antique land
  Who said: “Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
  Half sunk, a shatter'd visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
  Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp'd on these lifeless things,
  The hand that mock'd them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
  ‘My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!’
  Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
  The lone and level sands stretch far away”.




SHELLEY, P.B. "Ozymandias". In:_____. Poetical works. Ed. by Thomas Hutchinson. Oxford: Oxford U. Press, 1970. 

6.10.14

Heinrich Heine: "Os anjos" / "Die Engel": trad. André Vallias




Os anjos

Eu, incrédulo Tomé,
Já não creio na doutrina
Que o rabi e o padre ensinam:
Nesse “céu” não levo fé!

Mas nos anjos acredito,
Dou aqui meu testemunho:
Perambulam pelo mundo,
Impolutos e bonitos.

Só refuto essa bobagem
De anjo aparecer de asinha;
Sei de muitos, Senhorinha,
Desprovidos de penagem.

Com carinho e claridade,
De olho atento nos humanos,
Nos protegem, afastando
O infortúnio e a tempestade.

Amizade tão discreta
Reconforta toda gente,
Tanto mais o duplamente
Judiado, que é o poeta.



Die Engel.

Freylich ein ungläub’ger Thomas
Glaub’ ich an den Himmel nicht,
Den die Kirchenlehre Romas
Und Jerusalems verspricht.

Doch die Existenz der Engel,
Die bezweifelte ich nie;
Lichtgeschöpfe sonder Mängel,
Hier auf Erden wandeln sie.

Nur, genäd’ge Frau, die Flügel
Sprech’ ich jenen Wesen ab;
Engel giebt es ohne Flügel,
Wie ich selbst gesehen hab’.

Lieblich mit den weißen Händen,
Lieblich mit dem schönen Blick
Schützen sie den Menschen, wenden
Von ihm ab das Mißgeschick.

Ihre Huld und ihre Gnaden
Trösten jeden, doch zumeist
Ihn, der doppelt qualbeladen,
Ihn, den man den Dichter heißt.



HEINE, Heinrich. "Poema do tempo". In:_____. heine hein? poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2011.

5.8.14

Heirich Heine: "Ich tanz nicht mit, ich räuchre nicht den Klötzen" / "Não entro nessa dança, não incenso": trad.: André Vallias




Não entro nessa dança, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.



Ich tanz nicht mit, ich räuchre nicht den Klötzen,
Die außen goldig sind, inwendig Sand;
Ich schlag nicht ein, reicht mir ein Bub die Hand,
Der heimlich will den Namen mir zerfetzen.

Ich beug mich nicht vor jenen hübschen Metzen,
Die schamlos prunken mit der eignen Schand;
Ich zieh nicht mit, wenn sich der Pöbel spannt
Vor Siegeswagen seiner eiteln Götzen.

Ich weiß es wohl, die Eiche muß erliegen,
Derweil das Rohr am Bach, durch schwankes Biegen,
In Wind und Wetter stehn bleibt, nach wie vor.

Doch sprich, wie weit bringt’s wohl am End’ solch Rohr?
Welch Glück! als ein Spazierstock dient’s dem Stutzer,
Als Kleiderklopfer dient’s dem Stiefelputzer.



HEINE, Heinrich. "Sonetos-afresco". In:_____. heine hein? poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2011. 

20.4.13

Heinrich Heine: "Die blauen frühlingsaugen" / "Esses olhos-primavera": trad. André Vallias







Esses olhos-primavera,
Me fitando azuis na relva
São amáveis violetas
Que escolhi para um buquê.

Vou colhendo enquanto penso:
O que vem ao pensamento
E no coração me dói,
Cantam alto os rouxinóis.

O que eu penso eles cantam
Estridentes – num instante
Minha sina mais secreta
Espalhou-se na floresta.




Die blauen Frühlingsaugen
Schau'n aus dem Gras hervor;
Das sind die lieben Veilchen,
Die ich zum Strauß erkor.

Ich pflücke sie und denke,
Und die Gedanken all,
Die mir im Herzen seufzen,
Singe laut die Nachtigall.

Ja, was ich denke, singt sie
Lautschmetternd, daß es schallt;
Mein zärtliches Geheimnis
Weiß schon der ganze Wald.



HEINE, Heinrich. "Die blauen Frühlingsaugen" / "Esses olhos-primavera". Trad. André Vallias. In: VALLIAS, André. Heine hein? Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva, 2011.



25.12.12

Heirich Heine: "Ehmals glaubt ich, alle Küsse" / "Acreditava antigamente": trad. André Vallias






Acreditava antigamente
Que todo beijo que me tiram,
Ou que recebo de presente,
Fosse por obra do destino.

Deram-me beijos e beijei,
Antes com tanta seriedade,
Como se obedecesse às leis
Que regem a necessidade.

Agora sei como é supérfluo
E não me faço de rogado,
Vou dando beijos em excesso,
Incrédulo e despreocupado.





Ehmals glaubt ich, alle Küsse,
Die ein Weib uns gibt und nimmt,
Seien uns, durch Schicksalsschlüsse,
Schon urzeitlich vorbestimmt.

Küsse nahm ich, und ich küßte
So mit Ernst in jener Zeit,
Als ob ich erfüllen müßte
Thaten der Notwendigkeit.

Jetzo weiß ich, überflüssig,
Wie so manches, ist der Kuß,
Und mit leichtern Sinnen küß ich,
Glaubenlos im Überfluß.



HEINE, Heinrich: "Uma gaivota. Poemas, 1830-1839". In:_____. VALLIAS, André (org., intr. e trad.). Heine, heim? Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva, Goethe Institut, 2011.

29.5.11

Heinrich Heine: "Laß die heil'gen Parabolen" / "Larga as parábolas sagradas": tradução de André Vallias




Larga as parábolas sagradas,
Deixa as hipóteses devotas,
E põe-te em busca das respostas
Para as questões mais complicadas.

Por que se arrasta miserável
O justo carregando a cruz,
Enquanto, impune, em seu cavalo,
Desfila o ímpio de arcabuz?

De quem é a culpa? Jeová
Talvez não seja assim tão forte?
Ou será Ele o responsável
Por todo o nosso azar e sorte?

E perguntamos o porquê,
Até que súbito – afinal –
Nos calam com a pá de cal –
Isto é resposta que se dê?



Laß die heil'gen Parabolen,
Laß die frommen Hypothesen -
Suche die verdammten Fragen
Ohne Umschweif uns zu lösen.

Warum schleppt sich blutend, elend,
Unter Kreuzlast der Gerechte,
Während glücklich als ein Sieger
Trabt auf hohem Roß der Schlechte?

Woran liegt die Schuld? Ist etwa
Unser Herr nicht ganz allmächtig?
Oder treibt er selbst den Unfug?
Ach, das wäre niederträchtig.

Also fragen wir beständig,
Bis man uns mit einer Handvoll
Erde endlich stopft die Mäuler -
Aber ist das eine Antwort?



HEINE, Heinrich; VALLIAS, André. Heine, hein? : Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva; Goethe Institut, 2011.

31.3.11

Paul Verlaine: "Bibliophilie" / "Bibliofilia" : tradução de André Vallias




Bibliofilia

O livro velho, tantas vezes lido!
Com furos e fissuras ficou feio
Por uso, mas de súbito está cheio
De vida, ao tato e à vista oferecido.

O livro, que até pouco era defunto,
Ressurge "sem surpresa para o sábio"
Que sabe, ó Transformista de alfarrábio,
O quanto de arte pões no teu assunto.

Jovem de novo, afoito para o afã:
O livro – feito antiga cortesã
Que alguma fada-mãe deixasse virgem;

E, como se escutássemos a voz
Dourada de uma excelsa musa, nós
Relemos, entretidos na vertigem.

Foto: Otavio Schipper



Bibliophilie

Le vieux livre qu’on a lu, relu tant de fois !
Brisé, navré, navrant, fait hideux par l'usage,
Soudain le voici frais, pimpant, jeune visage
Et fin toucher, délice et des yeux et des
                                        doigts.

Ce livre cru bien mort, chose d'ombre et
                                        d'effrois,
Sa résurrection « ne surprend pas le sage ».
Qui sait, ô Relieur, artiste ensemble et mage,
Combien tu fais encore mieux que tu ne dois.

On le reprend, ce livre en sa toute jeunesse,
Comme l’on reprendrait une ancienne
                                        maîtresse
Que quelque fée aurait revirginée au point;

On le relit comme on écouterait la Muse
D'antan, voix d'or qu'éraillait l'âge qui
                                        nous point :
Claire à nouveau, la revoici qui nous amuse.



VERLAINE, Paul. Biblio-Sonetos. Tradução de André Vallias. São Paulo: Selo Demônio Negro, 2010.

5.3.11

Heinrich Heine: "An Edom!" / "A Edom!": tradução de André Vallias





A Edom!*

Há dois milênios já perdura
A convivência tão fraterna –
Quando eu respiro, tu me aturas,
Se te enraiveces, eu tolero.

Algumas vezes, convenhamos,
Cruzaste as raias do mau gosto,
As santas unhas mergulhando
Na tinta rubra do meu corpo!

Nossa amizade agora cresce
A cada dia e nunca para;
Virei alguém que se enraivece,
Estou ficando a tua cara.



An Edom!*

Ein Jahrtausend schon und länger,
Dulden wir uns brüderlich,
Du, du duldest, daß ich atme,
Dass du rasest, dulde Ich.

Manchmal nur, in dunkeln Zeiten,
Ward dir wunderlich zu Mut,
Und die liebefrommen Tätzchen
Färbtest du mit meinem Blut!

Jetzt wird unsre Freundschaft fester,
Und noch täglich nimmt sie zu;
Denn ich selbst begann zu rasen,
Und ich werde fast wie Du.

[1824]


*Edom: do hebraico = 'vermelho'; nome dado a Esaú e ao povo que dele descende; por extensão, aplicado às nações inimigas de Israel [nota de André Vallias].






VALLIAS, André. Heine heim? Poeta dos contrários. São Paulo: Perspectiva, 2011 (no prelo).

A tradução, por André Vallias, desse e de outros poemas de Heinrich Heine, acaba de ser publicada na revista Piauí, nº 54 (março).