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18.1.22

Fernando Pessoa: "O dos castelos"

 



O dos castelos




A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.


O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.


Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.


O rosto com que fita é Portugal.





PESSOA, Fernando. “O dos castelos”. In: Mensagem. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.

16.1.22

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Magnificat"

 



Magnificat



Quando é que passará esta noite interna, o universo,

E eu, a minha alma, terei o meu dia?

Quando é que despertarei de estar acordado?

Não sei. O sol brilha alto,

Impossível de fitar.

As estrelas pestanejam frio,

Impossíveis de contar.

O coração pulsa alheio,

Impossível de escutar.

Quando é que passará este drama sem teatro,

Ou este teatro sem drama,

E recolherei a casa?

Onde? Como? Quando?

Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?

É esse! É esse!

Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;

E então será dia.

Sorri, dormindo, minha alma!

Sorri, minha alma, será dia!






PESSOA, Fernando. “Magnificat”. In:_____ “Poesias de Álvaro de Campos“. In: “Ficções do interlúdio”. In:_____ Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1980.


27.10.19

Fernando Pessoa: "Ulisses"




Ulisses


O mito é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo -
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.

Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.

Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre.




PESSOA, Fernando. "Ulisses". In:_____. Mensagem. Lisboa: Ática, 1972.

7.10.19

Fernando Pessoa: "Mar Português"




Mar Português


Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.





PESSOA, Fernando. "Mar Português" In:_____. Mensagem. Org. de Cleonice Berardinelli, Maurício Matos. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

9.6.19

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Sim, sei bem"




Sim, sei bem



Sim, sei bem

Que nunca serei alguém.

    Sei de sobra

Que nunca terei uma obra.

    Sei, enfim,

Que nunca saberei de mim.

    Sim, mas agora,

Enquanto dura esta hora,

    Este luar, estes ramos,

Esta paz em que estamos,

    Deixem-me me crer

O que nunca poderei ser.





PESSOA, Fernando. "Sim, sei bem". In:_____. "Odes de Ricardo Reis". In:_____. "Ficções do interlúdio". In:_____. Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1986.

13.2.19

Fernando Pessoa: "Sonhador de sonhos"




Sonhador de sonhos


Sonhador de sonhos

Queres me vender

Teus dias risonhos

Por eu te esquecer?...


Minha alma é só mágoa

Por saber que vive...

Passo como a água,

Nunca fui ou estive...






PESSOA, Fernando. “Sonhador de sonhos”. In:_____. Poesia, 1902-17. Org. por Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine. Porto:  Assírio & Alvim, 2005.

5.9.18

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Grandes são os desertos, e tudo é deserto"



Grandes são os desertos, e tudo é deserto.

Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto
Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo.
Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes -
Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas,
Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu.

Grandes são os desertos, minha alma!
Grandes são os desertos.

Não tirei bilhete para a vida,
Errei a porta do sentimento,
Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse.
Hoje não me resta, em vésperas de viagem,
Com a mala aberta esperando a arrumação adiada,
Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem,
Hoje não me resta (à parte o incómodo de estar assim sentado)
Senão saber isto:
Grandes são os desertos, e tudo é deserto.
Grande é a vida, e não vale a pena haver vida.

Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar
Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem).
Acendo o cigarro para adiar a viagem,
Para adiar todas as viagens.
Para adiar o universo inteiro.

Volta amanhã, realidade!
Basta por hoje, gentes!
Adia-te, presente absoluto!
Mais vale não ser que ser assim.

Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro.
E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito.

Mas tenho que arrumar a mala,
Tenho por força que arrumar a mala,
A mala.
Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão.
Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala.
Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas,
A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino.

Tenho que arrumar a mala de ser.
Tenho que existir a arrumar malas.
A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte.
Olho para o lado, verifico que estou a dormir.
Sei só que tenho que arrumar a mala,
E que os desertos são grandes e tudo é deserto,
E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci.

Ergo-me de repente todos os Césares.
Vou definitivamente arrumar a mala.
Arre, hei-de arrumá-la e fechá-la;
Hei-de vê-la levar de aqui,
Hei-de existir independentemente dela.

Grandes são os desertos e tudo é deserto,
Salvo erro, naturalmente.
Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado!

Mais vale arrumar a mala.
Fim.




PESSOA, Fernando. “Poesias de Álvaro de Campos”. In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

20.8.18

Fernando Pessoa: "Entre o sono e o sonho"



Entre o sono e o sonho

Entre o sono e o sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim.




PESSOA, Fernando. "Entre o sono e o sonho". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986. 

28.7.18

Evando Nascimento: "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas"



Assistam ao vídeo da bela palestra pronunciada pelo escritor, pensador e professor universitário Evando Nascimento, na ABL, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas". Essa conferência fez parte do ciclo de conferências intitulado "Poesia e Filosofia", que concebi e coordenei no mês de julho.


24.7.18

Conferência de Evando Nascimento na ABL

A Academia Brasileira de Letras encerra o Ciclo de Conferências que, a convite da Acadêmica Ana Maria Machado, concebi para o mês de julho de 2018, com a palestra do  escritor, pensador e professor universitário Evando Nascimento. O tema escolhido foi Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas. Tenho certeza de que será interessantíssimo.

O evento está programado para quinta-feira, dia 26 de julho, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.


9.2.18

Fernando Pessoa: "Dom João, Infante de Portugal"



Dom João, Infante de Portugal

Não fui alguem. Minha alma estava estreita
Entre tam grandes almas minhas pares,
Inutilmente eleita,
Virgemmente parada;

Porque é do portuguez, pae de amplos mares,
Querer, poder só isto:
O inteiro mar, ou a orla vã desfeita --
O todo, ou o seu nada.



PESSOA, Fernando. "Dom João, Infante de Portugal". In:_____. Mensagem. Org. de Clarice Berardinelli, Maurício Matos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2008.

7.12.17

Fernando Pessoa: "Nesta vida, em que sou meu sono"



Nesta vida, em que sou meu sono

Nesta vida, em que sou meu sono,
Não sou meu dono.
Quem sou é quem me ignoro e vive
Através desta névoa que sou eu
Todas as vidas que eu outrora tive,
Numa só vida.
Mar sou; baixo marulho ao alto rujo,
Mas minha cor vem do meu alto céu,
E só me encontro quando de mim fujo.

Quem quando eu era infante me guiava
Senão a vera alma que em mim estava?
Atada pelos braços corporais,
Não podia ser mais.
Mas, certo, um gesto, olhar ou esquecimento
Também, aos olhos de quem bem olhou,
A Presença Real sob o disfarce
Da minha alma presente sem intento.



PESSOA, Fernando. "Nesta vida em que sou meu sono". In:_____. Poesias inéditas (1930-1935). Lisboa: Ática, 1955.

8.11.17

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Vivem em nós inúmeros"



Vivem em nós inúmeros

Vivem em nós inúmeros;
Se penso ou sinto, ignoro
Quem é que pensa ou sente.
Sou somente o lugar
Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.
Há mais eus do que eu mesmo.
Existo todavia
Indiferente a todos.
Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados
Do que sinto ou não sinto
Disputam em quem sou.
Ignoro-os. Nada ditam
A quem me sei: eu escrevo.



PESSOA, Fernando. "Vivem em nós inúmeros". In:_____. "Ficções do interlúdio / Odes de Ricardo Reis". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

21.4.17

Fernando Pessoa / Ricardo Reis: "Não torna ao ramo a folha que o deixou"



Não torna ao ramo a folha que o deixou, (28-9-1926)

Não torna ao ramo a folha que o deixou,
Nem com seu mesmo pó se uma outra forma.
O momento, que acaba ao começar
        Este, morreu p'ra sempre.
Não me promete o incerto e vão futuro
Mais do que esta iterada experiência
Da mutada sorte e a condição deserta
        Das cousas e de mim.
Por isso, neste rio universal
De que sou, não uma onda, senão ondas,
Decorro inerte, sem pedido, nem
        Deuses em quem o empregue.



PESSOA, Fernando. "Não torna ao ramo a filha que o deixou". In:_____. Poemas de Ricardo Reis. Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1994.

20.2.17

Secos e Molhados: "Não: não digas nada". João Ricardo/Fernando Pessoa


Agradeço a Nadine Granad por me ter lembrado da versão musicada por João Ricardo do poema de Fernando Pessoa "Não: não digas nada", pelos Secos e Molhados. Encontrei-a no You Tube. Ei-la:





João Ricardo/Fernando Pessoa. "Não: não digas nada". Faixa 3 do segundo álbum da banda brasileira Secos e Molhados (1974).. 

Fernando Pessoa: poema 127 do "Cancioneiro"





127

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.



PESSOA, Fernando. "127". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

14.12.16

Fernando Pessoa: "Análise"




Análise

Tão abstracta é a ideia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a ideia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.



PESSOA, Fernando. "Análise". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

4.9.16

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Mestre, meu mestre querido!"


No domingo passado, no dia 28 de agosto deste ano, a querida Professora Cleonice Berardinelli completou cem anos. Para homenageá-la, publico aqui um poema de Fernando Pessoa/Álvaro de Campos, "Mestre, meu mestre querido!", que a Professora Cleonice, em um dos excelentes ensaios de seu livro Fernando Pessoa: outra vez te revejo... (Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004), declarou ser "poema perfeito e completo":



Mestre, meu mestre querido!

Mestre, meu mestre querido!
Coração do meu corpo intelectual e inteiro!
Vida da origem da minha inspiração!
Mestre, que é feito de ti nesta forma de vida?

Não cuidaste se morrerias, se viverias, nem de ti nem de nada.
Alma abstracta e visual até aos ossos,
Atenção maravilhosa ao mundo exterior sempre múltiplo,
Refúgio das saudades de todos os deuses antigos,
Espírito humano da terra materna,
Flor acima do dilúvio da inteligência subjectiva...

Mestre, meu mestre!
Na angústia sensacionista de todos os dias sentidos,
Na mágoa quotidiana das matemáticas de ser,
Eu, escravo de tudo como um pó de todos os ventos,
Ergo as mãos para ti, que estás longe, tão longe de mim!

Meu mestre e meu guia!
A quem nenhuma coisa feriu, nem doeu, nem perturbou,
Seguro como um sol fazendo o seu dia involuntariamente,
Natural como um dia mostrando tudo,
Meu mestre, meu coração não aprendeu a tua serenidade.
Meu coração não aprendeu nada.
Meu coração não é nada,
Meu coração está perdido.

Mestre, só seria como tu se tivesse sido tu.
Que triste a grande hora alegre em que primeiro te ouvi!
Depois tudo é cansaço neste mundo subjectivado,
Tudo é esforço neste mundo onde se querem coisas,
Tudo é mentira neste mundo onde se pensam coisas,
Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente.
Depois, tenho sido como um mendigo deixado ao relento
Pela indiferença de toda a vila.
Depois, tenho sido como as ervas arrancadas,
Deixadas aos molhos em alinhamentos sem sentido.
Depois, tenho sido eu, sim eu, por minha desgraça,
E eu, por minha desgraça, não sou eu nem outro nem ninguém
Depois, mas porque é que ensinaste a clareza da vista,
Se não me podias ensinar a ter a alma com que a ver clara?
Porque é que me chamaste para o alto dos montes

Se eu, criança das cidades do vale, não sabia respirar?
Porque é que me deste a tua alma se eu não sabia que fazer dela
Como quem está carregado de ouro num deserto,
Ou canta com voz divina entre ruínas?
Porque é que me acordaste para a sensação e a nova alma,
Se eu não saberei sentir, se a minha alma é de sempre a minha?

Prouvera ao Deus ignoto que eu ficasse sempre aquele
Poeta decadente, estupidamente pretensioso,
Que poderia ao menos vir a agradar,
E não surgisse em mim a pavorosa ciência de ver.
Para que me tornaste eu? Deixasses-me ser humano!

Feliz o homem marçano,
Que tem a sua tarefa quotidiana normal, tão leve ainda que pesada.
Que tem a sua vida usual,
Para quem o prazer é prazer e o recreio é recreio.
Que dorme sono,
Que come comida,
Que bebe bebida, e por isso tem alegria.

A calma que tinhas, deste-ma, e foi-me inquietação.
Libertaste-me, mas o destino humano é ser escravo.
Acordaste-me, mas o sentido de ser humano é dormir.




PESSOA, Fernando. "Mestre, meu mestre querido!". In:_____. "Ficções do interlúdio / Poesias de Álvaro de Campos". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.  

22.8.16

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: trecho de "Tabacaria"



Tabacaria


Não sou nada;
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

[...]



PESSOA, Fernando. "Tabacaria" (trecho). In:_____. "Ficções do interlúdio / Poesias de Álvaro de Campos". In:_____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

12.5.13

Fernando Pessoa: "Tomamos a vila despois de um intenso bombardeamento"



Tomamos a vila depois de um intenso bombardeamento

A criança loura

Jaz no meio da rua,
Tem as tripas de fora
E por uma corda sua
Um comboio que ignora.

A cara está um feixe
De sangue e de nada.
Luz um pequeno peixe --
Dos que bóiam nas banheiras --
À beira da estrada.

Cai sobre a estrada o escuro.
Longe, ainda uma luz doura
A criação do futuro...

E o da criança loura?

  PESSOA, Fernando. "Cancioneiro". In: _____. Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.