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13.5.21

Júlio Castañon Guimarães: "Geografia"

 



Geografia


sombras ancestrais

claras manhãs

em que margem?

ainda que a memória esbata as horas

o que  há são espaços perdidos

uma casa

uma viagem

cabelos soltos em minhas mãos




GUIMARÃES, Júlio Castañon. "Geografia". In: FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.


21.1.21

Charles Baudelaire: "De profundis clamavi": trad. por Júlio Castañon Guimarães

 



De profundis clamavi


Imploro-te piedade, meu único amor,

Do abismo onde me foi o coração lançado,

Triste universo e seu horizonte cerrado

Onde na noite nadam blasfêmia e horror;


Seis meses paira um sol frio nessa região,

Por seis outros a noite vem tudo ganhar;

É uma extensão mais nua que a terra polar;

– Nem animais, nem riachos, nem vegetação!


Ora, não há horror no mundo que ultrapasse

A gélida crueldade desse sol e a face

Dessa noite sem fim, ao Caos tão semelhante;


Tenho inveja da fera mais horripilante,

Que pode afundar num sono sem contratempo,

Tão lenta se desfia a urdidura do tempo!








De profundis clamavi


J'implore ta pitié, Toi, l'unique que j'aime,

Du fond du gouffre obscur où mon coeur est tombé.

C'est un univers morne à l'horizon plombé,

Où nagent dans la nuit l'horreur et le blasphème;


Un soleil sans chaleur plane au-dessus six mois,

Et les six autres mois la nuit couvre la terre;

C'est un pays plus nu que la terre polaire

— Ni bêtes, ni ruisseaux, ni verdure, ni bois!


Or il n'est pas d'horreur au monde qui surpasse

La froide cruauté de ce soleil de glace

Et cette immense nuit semblable au vieux Chaos;


Je jalouse le sort des plus vils animaux

Qui peuvent se plonger dans un sommeil stupide,

Tant l'écheveau du temps lentement se dévide!






BAUDELAIRE, Charles. "De profundis clamavi". In: As flores do mal. Trad. por Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

9.5.20

Antoine Emaz: "Lie, 4" / "Borra, 4": trad. por Júlio Castañon Guimarães




Borra, 4 (25.07.06)


enfim o vento
de verdade
no azul do verão
o ar
o frescor na pele e nas telhas
após dias
enfim

dias escaldantes
corpo dessorado

andava-se
em uma massa mole quente
para avançar
se empurrava o ar

no jardim raso amarelo seco






Lie, 4 (25.07.06)


enfin le vent
vrai
dans le bleu de l’été
l’air
le frais sur la peau et les tuiles
après des jours
enfin

jours plombés
corps essoré

on marchait
dans une masse molle chaude
pour avancer
on poussait l’air

dans le jardin ras jaune sec







EMAZ, Antoine. "Lie, 4" (25.07.06) / "Borra, 4" (25.07.06). In:_____. Lama, pele. Trad. por Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.





3.2.18

Jean-Pierre Lemaire: "L'imprimeur" / "O impressor": trad. de Júlio Castañon Guimarães



O impressor

a Jean-François

Na entrelinha, entre os tipos,
ele às vezes põe um pedaço de papel,
acrescenta às palavras visíveis
uma folha de fino silêncio,
o arrepio dos pinheiros em torno da oficina,
a onda quase apagada
vinda de uma forja na saída do lugarejo
ou da grande bigorna
muda do Mézenc.
Mais tarde, distante dali,
o poeta relê a página impressa,
reconhece seu rosto e seu próprio mundo
com alívio:
o espelho respira.




L’imprimeur

à Jean-François

Sur la réglette, entre les caractères,
il glisse parfois un morceau de papier,
ajoute aux mots visibles
une feuille de fin silence,
le frisson des sapins autour de l’atelier,
l’onde presque éteinte
venue d’une forge au bout du village
ou de la grande enclume
muette du Mézenc.
Plus tard, loin de là,
le poète relit la page imprimée,
reconnaît son visage et son propre monde
avec soulagement :
le miroir respire.




LEMAIRE, Jean-Pierre. "L'imprimeur" / "O impressor". In:_____. Poemas. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lemme Editor, 2010. 

27.9.17

Jean-Pierre Lemaire: "Le piano" / "O piano": trad. de Júlio Castañon Guimarães



O piano

No piano, havia um outro mundo
com florestas, campos cheios de animais
cidades ao pôr do sol, batalhas
vozes que pareciam a de meu pai
histórias, viagens a todos os países
e sobretudo, acho eu, nossa história futura
que era preciso decifrar sem poder se apressar demais.



Le piano

Dans le piano, il y avait un autre monde
avec des forêts, des prairies pleines d’animaux
des villes au soleil couchant, des batailles
des voix qui ressemblaient à celle de mon père
des contes, des voyages dans tous les pays
et surtout, je crois, notre histoire future
qu’il fallait déchiffrer sans pouvoir aller vite





LEMAIRE, Jean-Pierre. "Le piano" /"O piano". In:_____. Poemas. Trad. de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme Editor, 2010. 

4.6.16

Serge Nuñez Tolin: "En tout paysage" / "Em toda paisagem": trad. Júlio Castañon Guimarães




Em toda paisagem, há alguma coisa nascendo, a começar pelo olhar.

A visão não acaba onde ela chega, começaria até mesmo no ponto onde se perde.




En tout paysage, il y a quelque chose de naissant, à commencer par le regard.

La vue ne finit pas où elle porte, elle commencerait même au point où elle se perd.




NUÑEZ TOLIN, Serge. "En tout paysage" / "Em toda paisagem". In:_____. Noeud noué par personne / Nó dado por ninguém. tRAD. Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme, 2015.

16.4.16

Serge Núñez Tolin: "Dire, aussi loin [...]" / "Dizer, até onde [...]": trad. de Júlio Castañon Guimarães




Dizer, até onde as palavras podem levar em direção ao que as
excede, o que não está em sua ordem dizer.

As palavras indefinidamente abertas: nó dado por ninguém, cujo
limite se desvanece com o movimento de se fechar.





Dire, aussi loin que les mots peuvent porter vers ce qui les
excède, ce qui n'est pas dans leur ordre de dire.

Les mots indéfiniment ouverts: nœud noué par personne, dont la
limite s'évanouit avec le mouvement de s'enclore.



TOLIN, Serge Núñez. "Dire, aussi loin [...]" / "Dizer, até onde [...]". In:_____. Nó dado por ninguém / Nœud noué par personne. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme, 2015.

3.2.13

Carlos Drummond de Andrade: "Canção amiga"







Canção amiga


Eu preparo uma canção

em que minha mãe se reconheça,
tôdas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segrêdo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.

      ANDRADE, Carlos Dummond de. Poesia 1930-62. Edição crítica. GUIMARÃES, Júlio Castañon (org.). São Paulo: Cosac Naify, 2012.

22.3.12

Antoine Emaz: trecho de "Boue" XI / "Lama" XI: tradução de Júlio Castañon Guimarães




acaba que cada um
ao menor problema
se muda de si mesmo
para um pouco mais longe
todos os dias
para um pouco mais longe

no máximo a gente se acompanha
forçando o sorriso



reste que chacun
au moindre mal
transbahute de soi
un peu plus loin
tous les jours
un peu plus loin

au mieux on s'accompagne
en forçant le sourire



EMAZ, Antoine. "Boue/Lama" XI. In: Lama, pele. Tradução e posfácio de Júlio Castañon Guimarães. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012.

8.4.11

Jean-Pierre Lemaire: "O sol da ilha de Poros": trad. de Júlio Castañon Guimarães




O sol da ilha de Poros

O quarto do sol
o quarto dos enamorados azuis
o quarto das flores
o quarto da noite dos tempos
Todos se comunicam
na memória da felicidade
que conserva suas cores puras
sem paredes entre as horas


Le soleil de Poros

La chambre du soleil
la chambre des amants bleus
la chambre des fleurs
la chambre de la nuit des temps
Toutes communiquent
dans la mémoire du bonheur
qui garde leurs couleurs pures
sans mur entre les heures


LEMAIRE, Jean-Pierre. Poemas. Tradução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme Editor, 2010.

22.9.09

Lançamento de "A moeda do tempo", de Gastão Cruz




O belíssimo livro A moeda do tempo, do poeta Gastão Cruz, será lançado no dia 25, sexta-feira, às 18 horas, na Fundação Casa de Rui Barbosa. Eis o convite: