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9.7.18

A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo

Na próxima quinta-feira, dia 12 de julho, às 17h30, darei, no Teatro R. Magalhães Jr., da Academia Brasileira de Letras, a palestra "A poesia e a filosofia no mundo contemporâneo". Ela será parte do ciclo de conferências "Poesia e Filosofia" do qual -- a convite da Primeira Secretária d ABL, a escritora Ana Maria Machado -- sou o coordenador, no corrente mês. A entrada será franca. 













Como parte do mesmo ciclo de conferências, ocorreu, na quinta-feira passada, no mesmo local, a bela e erudita conferência de Alberto Pucheu, "Espantografias: entre poesia e filosofia". Na quinta-feira, dia 26 do corrente mês, terá lugar a conferência de Evando Nascimento, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas".  

25.6.17

Alberto Pucheu: "Viagem aos 18 ou 19 anos"



Viagem aos 18 ou 19 anos

havia uma paisagem de pintura chinesa
ou japonesa, dessas em que o nanquim abre
um vazio branco por toda a montanha
e pelo lago no qual, em tempos passados,
distante, um pescador pescava solitário
em sua canoa, sem mais ninguém por ali.

havia uma floresta em plena cidade
invisível, na qual, em tempos passados,
inadequado à tarefa que lhe fora incumbida,
um temeroso soldado buscava — solitário —
fugir de uma guerra que por ali guerreavam,
alcançando o muro que limitava a mata e ele.

havia, desta vez, não uma imagem ou outra
qualquer, mas somente uma sensação
tão viva e, mesmo, uma certeza (a lhe invadirem)
de ser esta, a atual, sua terceira vida,
ainda que nenhuma dica lhe fosse dada
para ajudá-lo a vivê-la um pouco melhor.

havia, então, a última, que estava por vir,
apenas um brilho de luz prateada, chegando
de todos os lados para se concentrar
em um foco nítida e densamente coeso
que logo explodia, lançando seus estilhaços
excentricamente em todas as direções.




PUCHEU, Alberto. "Viagem aos 18 ou 19 anos". In:_____. para que poetas em tempos de terrorismo? Rio de Janeiro: Azougue, 2017.

17.3.16

Alberto Pucheu: "À míngua"




À míngua

Caminho há quinze horas pela cidade do Rio de Janeiro e
não sinto vontade de parar, apesar da fome
solapando as pernas e o pensamento.
Sou despejado de mim feito inquilino com contrato
expirado, sem dinheiro para renová-lo. Meu desespero é
pelo agora.
Não, não voltarei para o trabalho. Não serei como os
outros. Não serei como sou, eu que sou como qualquer
um e como todos os outros. Continuarei a caminhar
por quantas horas forem necessárias
até expirar o derradeiro resquício de incômodo, até secar
a última gota do medo,
até que o grito não venha do desajuste, mas
do inumano explícito em cada paisagem.
Vou por onde não preciso de portas.
Quinze horas caminharei, e depois mais quinze,
e, ainda, depois... Esquecido de mim
e de todos os outros.



PUCHEU, Alberto. "À míngua". In:_____. Ecometria do silêncio. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.

15.1.14




Eis o vídeo da conferência sobre "O contemporâneo e o moderno", que, a convite do Professor João Camillo Penna, pronunciei no Colóquio do Contemporâneo, por ele organizado, em novembro do ano passado, na UFRJ. A meu lado encontra-se o Professor Alberto Pucheu, que foi quem me recebeu e apresentou aos ouvintes.


22.12.13

Alberto Pucheu: "Ponto cego (da força e da fraqueza de nosso tempo)"





Ponto cego (da força e da fraqueza de nosso tempo)

“Quem somos?” –
perguntam aos poemas
em busca de uma resposta
que complete a pergunta,
sobrepondo uma, sem falta
nem excesso, à outra.
Mas os poemas repetidamente
respondem que somos
aquilo em que nos perdemos
ao buscarmos encontrar
o que acreditamos ser.
Se insistirem, portanto,
em perguntar aos poemas
de buscas, encontros, crenças...
se insistirem, portanto, em saber
a voz dos poemas, saibam que,
de diferentes modos, eles só dizem
o que não se busca nem se encontra,
a perdição, o fim das crenças,
oque não se oferece a nenhuma frase,
nem mesmo mais a nenhum verso.
Há um ponto cego nos poemas,
como há um ponto cego na vida,
não visto por mim nem por você
nem por ninguém, desde o qual
eles são o que são, um ponto cego
que somente os poemas – talvez –
nem sei – vejam. Se insistirem,
portanto, no trato com os poemas,
se de fato quiserem permanecer
com eles, sejam, ainda que os últimos
afeitos a tal empenho, fortes,
porque quase todos os outros
– sinal dos tempos – os abandonaram.



PUCHEU, Alberto. “Ponto cego (da força e da fraqueza de nosso tempo)”. In: Mais cotidiano que o cotidiano. Rio de Janeiro: Azougue, 2013.

9.12.13

Lançamento de livro de entrevistas de Antonio Cicero: livro organizado por Arthur Nogueira

Dia 12 (quinta-feira), na Argumento


Clique na imagem, para ampliá-la:

















Na mesma ocasião será lançado o livro mais cotidiano que o cotidiano,
do poeta Alberto Pucheu.

Clique na imagem para ampliá-la:

17.3.12

Alberto Pucheu: "O dia em que Gottfried Benn pegou onda"




O poema "O dia em que Gottfried Benn pegou onda" é recitado pelo seu autor, o poeta Alberto Pucheu, no seguinte vídeo, de Danielle Fonseca, intitulado "É preciso aprender a ficar submerso":



26.2.11

Alberto Pucheu: "A voz do sangue, o sangue da voz"




A voz do sangue, o sangue da voz

Tanto silêncio no ringue, no ringue
e na fome, tanto burburinho zoando simultaneamente,
que não posso distingui-los. E mesmo antes dos golpes
na cabeça, e mesmo antes de qualquer golpe
revolvendo as entranhas pelo avesso
(antes dos 4.500 quilos por impacto), e, mesmo antes,
tanto silêncio no ringue, no ringue
e na fome, tanto burburinho zoando
simultaneamente, que não posso distingui-los.
O ringue é o ringue, a fome é a fome, mas no ringue
(como na fome, como na fome do ringue, como no ringue
da fome), o silêncio é silêncio e burburinho,
e o burburinho, burburinho e silêncio. Quando,
no canto do amparo – sentado, curativos imediatos,
os segundos trabalhando a meu favor, a respiração em busca
de um ponto pacífico –, ouço a voz nítida do treinador
se erguendo do alarido da multidão e de ninguém,
não a escuto como um mandamento: infiel
e pecador, poderia traí-la. Escuto essa voz
desenrolar as últimas ataduras que envolvem o punho
do meu coração, espremê-lo ao sumo,
ao ponto de o gosto do sangue (de o gosto da fome) brotar comprimindo as gengivas por entre os dentes e o protetor,
me dando a certeza de que o próximo soar do gongo
será o último badalo com o qual meu adversário sonhará
antes de beijar a encardida lápide da lona.


PUCHEU, Alberto. A fronteira desguarnecida (poesia reunida 1993-2007). Rio de Janeiro: Azougue, 2007.

17.5.09

Os perigos da espontaneidade

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 16 de maio.


Os perigos da espontaneidade

TANTO O poeta francês Paul Valéry quanto o nosso João Cabral de Melo Neto, que costumava citar o primeiro, desconfiavam de que tudo o que lhes chegasse espontaneamente, à maneira de inspiração, era eco de alguma coisa que houvessem lido, ouvido ou percebido de alguma maneira. Por isso, só confiavam no que resultasse de um trabalho rigoroso, que eliminasse tudo o que fosse alheio.

Concordo com isso. Na verdade, acho que há, sem dúvida, no próprio João Cabral, algo que não vem do trabalho e que poderia ser chamado de "inspiração". Entretanto, parece-me que ela ocorre principalmente durante o próprio trabalho, que, pondo o poeta ante problemas imprevisíveis, exige dele uma extraordinária abertura e receptividade para o aproveitamento criativo daquilo que o acaso, o inconsciente, o inesperado, enfim, oferecem. Como diz Heráclito, "aquele que não espera o inesperado não o encontra".

De todo modo, há poucos dias uma experiência me confirmou o fato de que muito do que nos vem espontaneamente não passa de eco. Ao escrever um verbete intitulado "Verso" para a revista "Serrote", falei, em determinado momento, do recurso poético chamado "enjambement" ou "cavalgamento" (a palavra francesa é tão mais usada entre nós do que a portuguesa que acabo de notar que meu corretor ortográfico marca esta como errada, e não aquela). Trata-se, como bem o define o "Aurélio", do "processo poético de pôr no verso seguinte uma ou mais palavras que completem o sentido do verso anterior". O exemplo aureliano são os belos versos de Camões:

Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.

Os poetas modernos usam mais o enjambement do que os clássicos. De fato, com o verso livre, a importância expressiva do enjambement aumentou. Querendo dar um exemplo disso, lembrei logo de alguns versos de um livro que iluminou minha adolescência, "A Rosa do Povo", de Carlos Drummond de Andrade, mestre absoluto do enjambement. Do poema "Consideração do Poema", por exemplo, lembrei dos seguintes:

Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.

O final do verso exige uma pausa na apreensão do poema pelo leitor. O primeiro verso parece conter um pensamento completo. Entretanto, o enjambement faz com que a sentença, não coincidindo com o verso, termine no verso seguinte: "chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakóvski".

Nesse poema, Drummond pretende estar sem-cerimoniosamente a pedir, aos poetas que admira, elementos com os quais compor seus próprios poemas. A Neruda ele pede a gravata. Ocorre que a gravata, fazendo um laço em torno do pescoço de quem a usa, é um item formal e convencional do vestuário masculino. Assim, metaforicamente, a gravata seria uma forma convencional que tornaria o poema um tanto preso, mas "composto", no sentido de socialmente aceitável. Uma forma fixa às vezes não passa disso. Contudo, a palavra "chamejante", do verso seguinte, muda tudo. Uma gravata chamejante já é o oposto de uma convenção: trata-se da convenção em chamas, e lembra a gravata amarela, usada provocativamente pelo poeta revolucionário Maiakóvski, cujo nome é a última palavra do verso.

Esse exemplo era bom, mas uma inspiração súbita, como uma lufada de ar, trouxe-me à mente outro, ainda melhor. Refiro aos versos de "A Flor e a Náusea" que dizem:

Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.

Aqui, evidentemente, enquanto o primeiro verso diz algo que parece motivo de felicidade, o segundo nos faz cair na realidade, transfigurando o sentido do primeiro verso para uma espécie de sonho passageiro. Esse efeito poético do enjambement não poderia ser obtido em prosa.

Incluí esse exemplo no verbete e me dei por satisfeito. Tinha sido um grande achado. Pois bem, ontem, tentando pôr em ordem os papéis que imprimo diariamente, seja de textos meus, seja de outros, tomei um susto quando me deparei com uma página de um artigo que eu havia recebido por e-mail no ano passado, em que exatamente esses dois versos eram citados como exemplo de enjambement.

Trata-se do ensaio "Do Começo ao Fim do Poema", do poeta Alberto Pucheu. Na época, eu não tinha tido tempo de o ler de cabo a rabo, de modo que o guardara para depois. Mas aquilo era coincidência demais. Com certeza eu tinha passado os olhos por aquele exemplo de enjambement e ele me ficara na cabeça. E mais uma vez me dei conta de como Cabral e Valéry tinham razão de desconfiar de tudo o que chega espontaneamente.

9.5.09

Alberto Pucheu: "Poema ungulado, nº 2"

.



POEMA UNGULADO, No 2

Nenhuma gordura empanturra o corpo
do rinoceronte, varando suas cercas.
Nenhum couro escorrega em torno
da carne. Nenhuma dúvida quanto
a seu peso, quanto à coragem
ou a sua tranqüilidade. A armadura
talhada nos músculos, os chifres,
o rabo espanando qualquer súplica.
Olhos para ver. Boca para comer.
Patas para pisar. Orelhas para ouvir.
O corpo... na medida exata do corpo.
E o meu, tão distante, perdido pela multidão, pelos cantos das palavras alojadas, angaria faltas e excessos por onde anda: um guindaste se apropria de meu sexo, o combustível escasso para mais alguns quilômetros, o chifre crescendo pelo nariz. Quando o queixo começa a se empinar, guincho o que nunca escutei: a voz anginosa do rinoceronte.



In: PUCHEU, Alberto. "Ecometria do silêncio". A fronteira desguarnecida (poesia reunida 1993-2007). Rio de Janeiro: Azougue, 2007.

3.7.07

Alberto Pucheu: A luta antes da luta

Um poema admirável do livro A fronteira desguarnecida (poesia reunida 1993-2007), que Alberto Pucheu acaba de lançar:


A LUTA ANTES DA LUTA

Você sabe, de nada adianta rezar no canto do ringue.
Aquele que nele sobe, sobe sozinho.
As bravatas lançadas na hora da pesagem
e o peso da multidão colado em sua carne,
você sabe, lá em cima, só aumentarão seu abandono.
Você sabe também o preço que terá de pagar
se deixar que qualquer vagabundo desfigure
sua fisionomia. Mas é isso que você quer?
Não é isso que você quer. Aconteça
o que acontecer, não jogarei a toalha, não é para isso
que chegamos até aqui... Você ainda é muito novo
para perder, e sua família, muito necessitada. Você sabe,
você tem de deixar seu passado para trás, eu sei que você
não quer voltar para as ruas, para o crime, para a cadeia...
Portanto, quando subir lá em cima, eu lhe digo,
não deixe que o adversário veja medo em sua face:
se, ainda antes do primeiro soar do gongo, ele
vislumbrar uma mínima expressão de temor em seu rosto,
conhecerá o caminho mais rápido
para encontrá-lo durante o combate. Mas você
não terá nenhum instante de fraqueza nesse combate,
você está preparado, eu sei que você está preparado,
e você também sabe disso. Ninguém quer acordar amanhã
num quarto de hospital... você quer acordar
num quarto de hospital balbuciando palavras desconexas?
Ein? Você quer acordar num quarto de hospital,
com sua mulher chorando preocupada ao lado da cama?
Não, você não quer isso pra você nem pra sua família,
nem eu quero isso para o meu garoto de ouro. Por isso,
treinamos duro, por isso, treinamos tanto. Então, vá lá
em cima, já estão anunciando seu nome, suba
para o quadrado, suba, já começaram a tocar a música,
vá para o ringue e, no meio do entrevero,
por entre as saraivadas de golpes,
faça seu adversário sentir o peso do esquecimento
carregando-o para longe do estádio, carregando-o
para longe de todo e qualquer lugar.



De: PUCHEU, Alberto. A fronteira desguarnecida (poesia reunida 1993-2007). Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2007, p.236.

21.6.07

Resposta a meu amigo Alberto Pucheu

Caro Alberto,


Em primeiro lugar, quero deixar claro que não estava pensando nos seus livros, ao escrever o artigo que você critica. Não que eu não pense neles: ao contrário, aprecio muito os textos que já li, tanto de "Pelo Colorido, para além do Cinzento", quanto de “A Fronteira Desguarnecida”. Creio que foram duas as razões pelas quais não pensei nos seus livros, ao criticar o que vejo como a tendência contemporânea a assimilar poesia e filosofia. A primeira é que, embora você de fato defenda teoricamente o “desguarnecimento” das fronteiras entre a poesia e a filosofia, a verdade é que não leio os seus textos poéticos como filosofia, mas como poesia mesmo, e como boa poesia; e leio os seus textos filosóficos como filosofia mesmo, e como filosofia bem escrita e pensada, embora eu nem sempre concorde com ela. Falo, é claro, dos textos que já li. O que eu tinha em mente era uma tendência que vem do Romantismo Alemão, passa por Nietzsche (que, no entanto, é um caso especial), Kierkegaard e Heidegger, e chega ao chamado pós-estruturalismo.

Quero esclarecer alguns pontos. O fato de que não penso ser produtivo, nem para a poesia nem para a filosofia, que elas confluam para uma única coisa não significa que eu creia que a poesia não possa usar para seus próprios fins as intuições, as concepções, as palavras ou mesmo os conceitos da filosofia, ou que um texto filosófico não possa ter momentos poéticos, ou até ser escrito em versos (embora esta última possibilidade me pareça francamente contraproducente). O que afirmo é que há uma diferença irredutível entre a finalidade da poesia e a da filosofia; ora, a finalidade de um objeto artificial enquanto artificial é a sua essência. Há, portanto, segundo penso, uma diferença essencial entre poesia e filosofia. Um dos modos que encontrei para exprimir essa diferença foi através dos conceitos de metadiscurso (o discurso que fala sobre outros discursos) e discurso-objeto (aquele sobre o qual outro discurso fala). A tese que sustento é que, enquanto a filosofia é um metadiscurso terminal (sobre o qual nenhum outro discurso, isto é, nenhum discurso não-filosófico é capaz de falar), a poesia é um discurso-objeto terminal (que não fala propriamente sobre nenhum outro discurso, nem sobre coisa alguma). Não vou me estender sobre esse assunto aqui, já que o fiz no artigo que você criticou. Sustento que essa diferença não deve ser esquecida ou menosprezada, nem pelo poeta, nem pelo filósofo, nem pelos seus leitores.

Sempre afirmei que um poeta pode usar todos os recursos de que disponha para produzir um poema: todo o seu intelecto, toda a sua sensibilidade, toda a sua intuição, toda a sua razão, toda a sua experiência, todo o seu vocabulário, todo o seu conhecimento, todo o seu senso de humor, toda a sua cultura. Por que não usaria também tudo o que sabe de filosofia? Eu jamais teria a veleidade de tentar estabelecer limites para as palavras ou os pensamentos abordáveis pela poesia. Entretanto, os elementos filosóficos que um poema contenha fazem parte de uma totalidade cujo sentido – quando se trata de um poema de verdade – jamais é, ele mesmo, meramente filosófico. Não se pode, por isso, julgar um poema enquanto poema a partir da filosofia que porventura contenha. Por que? Porque uma leitura que se contente com a filosofia de um poema seria uma leitura empobrecedora, do ponto de vista poético.

Assim, os poemas de Horácio, por exemplo, são obras primas enquanto poesia: pode-se dizer que se trata de poemas profundos, pois têm muitas dimensões, muitos níveis, apontam para muitas coisas, transformam-se a cada leitura que deles fazemos; mas, do ponto de vista estritamente filosófico, são de um epicurismo simplesmente banal. Em outras palavras, os poemas de Horácio são profundos, mas uma leitura estritamente filosófica deles seria superficial. Já o poema de Parmênides, por exemplo, é uma grande obra de filosofia, mas, considerado enquanto poesia, é fraco.

Analogamente, uma filosofia pode ser expressa em termos poéticos, mas, quando a julgamos enquanto filosofia, isso não tem o menor peso. Não importa, para a avaliação de Parmênides enquanto filósofo, que ele não seja tão bom poeta quanto Empédocles, por exemplo. Penso que quem tem razão é Aristóteles, que, referindo-se a Empédocles, comenta que “também os que expõem algo médico ou físico costumam ser assim chamados [de “poetas”]: mas nada há em comum entre Homero e Empédocles fora a métrica, razão pela qual é justo chamar um de poeta e o outro de fisiólogo, em vez de poeta” (Poética, 1447b17ss.).

Isso não quer dizer que Empédocles não tivesse, como já foi dito, mais méritos poéticos do que Parmênides, por exemplo. Ao contrário, Aristóteles mesmo os reconhece (Gigon fr.17). O que Aristóteles quer dizer é que, diferentemente do que ocorre com os poemas de Homero, o livro de Empédocles Sobre a natureza é importante por algo que nada tem a ver com a poesia – isto é, pela filosofia – e não pelos seus trechos poéticos: que o que neles realmente importa, que são as idéias filosóficas, podia ter sido exposto em outras palavras, em prosa.

Alguns pensadores, como Lucrécio, podem ser apreciados ora como filósofos ora como poetas. São grande poesia, por exemplo os trechos de De rerum natura II.552 ss. ou III.832 ss., ou ainda o extraordinário

"Nequiquam, quoniam medio de fonte leporum
Surgit amari aliquit quod in ipsis floribus angat",

que resiste mal à tradução:

"Tudo é em vão pois em plena fonte da doçura
Surge algo amargo, alguma angústia em meio às flores".
(IV.1133).

Mas a verdade é que, em geral, os trechos poéticos de Lucrécio são, do ponto de vista da filosofia, fracos, e vice-versa.

Platão é evidentemente um grande escritor e um grande filósofo, mas não o considero um poeta. Os mais bem escritos dos seus diálogos o são porque têm uma função propedêutica. Eles querem seduzir os jovens bem dotados para a filosofia. É nesse sentido que competem com a poesia. Não que queiram ser poemas: ao contrário, a sua intenção é desviar o interesse dos jovens, da sofística e da poesia (que, para Platão, como transparece no diálogo “Sofista”, são praticamente a mesma coisa), para a filosofia. Geralmente, no começo de cada diálogo e, depois, em vários pontos dele, a sedução literária e erótica (no sentido carnal) cede sistematicamente lugar ao verdadeiro studium philosophandi, de modo que tanto os interlocutores de Sócrates quanto os leitores são conduzidos ao puro arrebatamento pela dialética e ao puro entusiasmo pela filosofia e pela busca da verdade.

Os verdadeiros personagens desses diálogos são a sofística, inclusive a poesia, de um lado, e a filosofia, de outro. É entre elas que se dão os embates. De certo modo, o sentido desses diálogos inclui, desde sempre, a expulsão dos poetas da Polis.

No “Fedro”, após atacar a escrita, Sócrates fala do logos que não é escrito em livros, mas na alma daquele que o aprende. Essa tese não é só do personagem platônico Sócrates, mas do próprio Platão que, falando enquanto Platão mesmo, na Carta VII – nada literária ou poética –, diz repetidamente que a verdadeira doutrina não pode ser escrita e que ele jamais pretendeu apresentá-la por escrito. Se é assim, então a função dos diálogos é apenas apontar para a verdadeira filosofia que, ágrafa, deve ser inscrita na alma. É a tese da escola de Tübingen.

“A escrita, Fedro”, diz Sócrates (275d4ss.), “tem essa qualidade esquisita, na verdade semelhante à da pintura. Pois as criaturas desta parecem estar vivas, mas se lhes indagares algo, silenciam solenemente. Assim são os escritos. Pensarias que falam com inteligência, mas se lhes perguntares, querendo entender as coisas que dizem, significam sempre as mesmas coisas. E uma vez escrito, todo discurso rola por toda parte, tanto entre os que o entendem quanto entre os que não se interessam por ele, e não sabe a quem deve falar e a quem não. E quando maltratado ou insultado, precisa sempre ser defendido pelo seu pai, pois ele próprio não é capaz de se defender”.

Observe que o que Sócrates diz aí dos escritos aplica-se somente aos discursos filosóficos. São esses que precisam ser defendidos pelos filósofos que os escreveram (ou pelos seus seguidores). Os discursos poéticos, ao contrário, não precisam – nem devem – ser defendidos pelos poetas que os compuseram.

De todo modo, o importante é que esses trechos deixam entrever a possibilidade de conceber um filósofo que simplesmente se cale e continue sendo um filósofo. Assim são alguns filósofos indianos. Ora, não chamaríamos de “poeta” alguém que não compusesse poemas. É que, enquanto a filosofia não se realiza plenamente nos discursos filosóficos, mas, ao contrário, estes são um caminho para aquela, a poesia se realiza plenamente nos discursos poéticos, que são os poemas. Mesmo etimologicamente isso é verdadeiro, pois, enquanto “filosofia” significa o puro amor à sabedoria, o que não implica fazer coisa alguma, “poesia” significa feitura, e o poema é o feito. Observe que, na Antiguidade, não se cunhou a palavra filosofema, análoga a poema. É que, enquanto o poema é a finalidade da poesia, a finalidade da filosofia – e dos textos filosóficos – é a própria filosofia.

Interessa-me agora um outro ponto. É que, no meu texto, eu havia dito que considero um erro, tanto para a poesia quanto para a filosofia, “ a vontade de apagar as fronteiras entre a poesia e a filosofia, e de escrever textos que sejam simultaneamente as duas coisas, ou que passem imperceptivelmente de uma para a outra”. Você comenta que “no que concerne à construção de um pensamento filosófico ou poético, a partir de certo nível muito básico, falar em ‘erro’ me parece, desculpem-me o retorno da triste palavra, o único ‘erro’ possível de se cometer. Não se pode falar em ‘erro’ nem no que se refere à indiscenibilidade entre poesia e filosofia nem, tampouco, no que diz respeito ao caminho de diferenciação entre elas”.

Ora, se você acha que errei, ao dizer que é um erro a tentativa de confundir poesia e filosofia, por que não poderia eu achar que errado está quem tenta confundi-las? Quem afirma uma tese, implicitamente afirma a sua verdade; e afirmar a verdade de uma tese equivale a afirmar a falsidade da tese que a contradiz. Do mesmo modo, afirmar uma tese é, implicitamente, afirmar que ela está certa; e afirmar que ela está certa é afirmar que está errada a tese que a contradiz. Por isso, se penso que está certo dizer que a poesia e a filosofia não devem se confundir, não posso deixar de pensar que está errado quem pensa o oposto.

E aqui aproveito para tocar em mais uma diferença entre a poesia e a filosofia: é que a filosofia pretende afirmar verdades. Ora, afirmar a verdade de uma tese equivale a afirmar a falsidade da tese que a contradiz. Por isso, as teses filosóficas não são todas compatíveis umas com as outras: ao contrário, umas negam as outras. Não é possível acreditar simultaneamente em duas teses realmente contraditórias. O mesmo não ocorre com a poesia. Um poema pode ser inteiramente diferente do outro: pode até, do ponto de vista extra-poético, afirmar o oposto do que o outro afirma. Como observa Nelson Ascher no prefácio ao seu excelente Poesia alheia, um poema pode dizer que tudo muda no mundo e o outro, que não há nada de novo sob o sol. No entanto, podemos apreciar os dois – podemos acreditar nos dois – igualmente.

Pois bem, o meu texto, que você critica, não é poético, mas filosófico. Ele afirma, portanto, algumas coisas, que tem como verdadeiras e certas; consequentemente, considera falsas e erradas as teses opostas. Permita-me dizer que o fato de que você considere isso errado é, a meu ver, um dos erros a que a confusão teórica entre a poesia e a filosofia pode levar.

Finalmente, a sua tese de que, num texto filosófico “a inseparabilidade entre o pensamento e as palavras se faz tão presente quanto no poético” parece-me inteiramente insustentável. Basta lembrar o seguinte: artigos são escritos e aulas são dadas sobre a filosofia de Tales de Mileto, do qual, no entanto, não sobrou sequer um fragmento; há uma bibliografia imensa de obras sobre a filosofia de Sócrates: não me refiro ao personagem de Platão, mas ao ateniense de carne e osso, que jamais expôs sua filosofia por escrito; ora, nada nem de longe equivalente existe ou poderia existir sobre poeta algum do qual não tenha sobrevivido ao menos alguma coisa escrita.


Um grande abraço,
Antonio Cicero

19.6.07

Alberto Pucheu: Sobre "Poesia e filosofia" de Antonio Cicero

Alberto Pucheu me enviou o seguinte texto, em que faz sérias e interessantes objeções ao artigo que publiquei em 1º de junho, na minha coluna da Ilustrada. Logo publicarei a minha resposta.


Abrindo seu último texto publicado na Ilustrada, Antonio Cicero afirmou: “Existe, entre muitos ensaístas e alguns poetas contemporâneos, uma vontade de apagar as fronteiras entre a poesia e a filosofia, e de escrever textos que sejam simultaneamente as duas coisas, ou que passem imperceptivelmente de uma para a outra. Tentarei mostrar algumas das razões pelas quais considero isso um erro, tanto para a poesia, quanto para a filosofia”.
Não apenas entre os contemporâneos se faz presente a realização rejeitada por Cicero, mas ela se coloca desde o começo, chegando até hoje, seja, como questão implícita para nós, nos poemas de Parmênides e Empédocles, explicitamente em Platão (apesar da exangue leitura da expulsão dos poetas), em Schlegel (“O que se pode fazer, enquanto filosofia e poesia estão separadas, está feito, perfeito e acabado; portanto, é tempo de unificar as duas”), em Novalis (“quanto mais poético, mais verdadeiro”), no Nietzsche desde quase menino (“No momento, arte e filosofia crescem, simultaneamente, em mim, de tal maneira que, aconteça o que acontecer, engendrarei, qualquer dia, um centauro”), em Euclides da Cunha (“o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, é hoje a tendência mais elevada do pensamento humano”), em Giorgio Agamben (“Por isso, sem dúvida, nem a poesia nem a filosofia, nem o verso nem a prosa poderão jamais realizar sozinhos seu empreendimento milenar. Apenas uma fala em que, em algum momento, a pura prosa da filosofia interviesse para quebrar o verso da fala poética, e em que o verso do poema sobreviesse para dobrar a prosa da filosofia, seria a verdadeira fala humana”)... À razão de Cicero, tais pensadores e muitos outros contemporâneos, por flagrarem ou criarem o desguarnecimento das fronteiras entre poesia e filosofia, “erraram”.
No que concerne à construção de um pensamento filosófico ou poético, a partir de certo nível muito básico, falar em “erro” me parece, desculpem-me o retorno da triste palavra, o único “erro” possível de se cometer. Não se pode falar em “erro” nem no que se refere à indiscernibilidade entre poesia e filosofia nem, tampouco, no que diz respeito ao caminho de diferenciação entre elas. Tais posições são experimentações criadas por uma tática que quer manifestar o que mais afeta cada um dos que se propõem a pensar tal questão. Negar uma das duas é negar a própria poesia e a filosofia como um todo, em suas múltiplas diretrizes. O fim de seu texto, que afirma “que esses dois pólos do pensamento não podem ser reduzidos um ao outro”, me faz pensar que Cicero pode estar brigando com um fantasma criado por si mesmo, porque, do lado dos que pleiteiam a possibilidade de miscigenações, nunca se tratou de querer “reduzir” a poesia à filosofia nem esta àquela. O que sempre se quer são alargamentos e desdobramentos imprevisíveis do pensamento e da escrita, nos quais, sem que se apaguem as diferenças, zonas de hibridismos são criadas.
Cicero deixa ver seu ponto de apoio: “Enquanto um poema não pode ser dito em outras palavras, aquilo que um artigo de filosofia diz pode perfeitamente ser expresso em outras palavras”. Falar de um texto filosófico com outras palavras é perder, necessariamente, seu modo de pensamento, já que, nele, a inseparabilidade entre o pensamento e as palavras se faz tão presente quanto no poético. Pelo menos desde Platão, sabe-se que a força de criação de qualquer pensamento respeitável recai na encruzilhada entre o que deve ser dito e o como deve ser dito, em que não se pode separar o assunto do modo de abordá-lo. O modo como o assunto se acomoda nos arranjos de palavras que criam um sentido turbinado é o primeiro passo exigido a qualquer pensamento para que se torne irredutível a um outro que lhe é alheio.
Por isso, nenhum comentador, ainda que possa ajudar na compreensão dele, esgota um grande texto original, que, insubstituível, permanece aberto à releitura que dele fazemos para redescobrirmos, nele, a cada vez, uma nova possibilidade. Quando grande, um texto diz o que tem a ser dito infinitamente melhor do que um secundário acerca dele; a não ser quando o secundário se torna tão grande quanto o primário, mas aí já é um outro grande texto filosófico também primário, que não fala apenas sobre o primeiro, mas por sobre ele, constituindo-se em outra obra grandiosa, irredutível também àquela, que não pode jamais ser substituído por outras palavras senão as com que existe.

Alberto Pucheu