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17.10.21

Pedro Tamen: "Não me deste o retrato"

 



Não me deste o retrato

do que hoje ou ontem se passou.

Não sei a cor, as dimensões,

as palavras exactas.

Não tenho apontados no diário

os factos com cê pronunciado,

as caras das pessoas,

donde vinham. Se estava

chuva ou sol, ou ventania.

A História de Cantù.



Ter o que foi, em mim,

é ter esquecido.






TAMEN,  Pedro. "Não me deste o retrato". In:_____ Memória indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.

30.7.21

Pedro Tamen: "Como se na boca da trompete"

 



Faleceu ontem o grande poeta português Pedro Tamen. Eu já admirava muito sua poesia quando o conheci, em 2006, na ocasião em que ambos, a convite do Centro Nacional de Cultura de Portugal, participamos de uma missão de poetas lusófonos a Macau. Desde então ficamos amigos, e lamento profundamente a sua morte.Eis um dos seus belos poemas:



Como se na boca da trompete

coloca-se a surdina sobre a vida

e a memória irrompe qual um vento

imitação de sons    de vozes    tiros

num escuro que nada mais já pode iluminar


Não há cheiro novo que resseja a planta

verdadeira    a genuína cor    o prato

a fumegar de uma sápida sopa inexistente

sopra-se na vida todo o ar que o tempo

nos pôs no peito em anos discorridos

e é cor de sombra agora o arco-íris





TAMEN,  Pedro. "Como se na boca da trompete". In:_____. Memória indescritível. Lisboa: Gótica, 2000. 

 



9.3.18

Pedro Tamen: "Azul. Era azul? Era a cor"





Azul. Era azul? Era a cor
que era, não a que pretendo
-- ou seja, a que relembro.
O mar. Água, em todo o caso.
Vento por cima; ou era a voz
de alguém fazendo o ar bulir?
É na pele o que sinto
ou nos ouvidos soa? A sós
a praia. A sós, que não estou lá.





TAMEN, Pedro. "Azul. Era azul? Era a cor". In:_____. Memória indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.

27.8.17

Pedro Tamen: "Palavras minhas"



Palavras minhas

Palavras que disseste e já não dizes,
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus, e mais felizes.

Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas,
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam.

Palavras que dizias, sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido…

Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas.



TAMEN, Pedro. "Palavras minhas". In:_____. Tábua das matérias (Poemas 1956-1991). Sintra: Tertúlia, 1991.

1.5.17

Pedro Tamen: "Linneu"


Linneu

A minha profissão é dar-lhes nomes.
Tal como o outro, passados os seis dias,
foi tudo achando bem, e disse
que era bom, e o chamou,
assim, no bom ou mau,
eu dou nomes à vida, digo
esta é a rosa dos ventos, digo
esta é a flor das águas, digo
esta é a planta do teu pé.

Apenas digo nomes: tudo existe
muito senhor de si,
tudo existe insolente,
independente.

Não era necessário eu ter nascido.



TAMEN, Pedro. "Linneu". In:_____. Analogia e dedos. Lisboa: Oceanos, 2006.


15.2.17

Pedro Tamen: "Discurso do papagaio de papel"




Discurso do papagaio de papel

                    para José de Guimarães

Do alto vos falo, onde
acrescento azul de muitas cores
ao outro azul que os olhos vossos vêem
quando outra coisa não há no chão que ver.
Do alto me assobio,
vertendo em vós silêncio alçado
por cima dos ventos nos buracos
que a vossa vida minam.
Do alto assumo ser
preso ao chão que me solta
e estar como um farol assinalando
a possível e vera liberdade.



TAMEN, Pedro. "Discurso do papagaio de papel". In:_____. "Depois de ver". In:_____. Retábulo das Matérias. Poesia 1956-2001. Lisboa: Gótica, 2001.

2.9.12

Pedro Tamen: "(Washington D.C.")






                                               (Washington, D.C.)

Como um velho     como um cão
sentado num parque frente aos desportistas
ressentindo Pessoa     o Campos     como ele
como um velho     como um cão
sentado num parque ao sol
a não pensar em nada ou repensando
as coisas sem interesse e sem razão

Deixar correr o tempo sem memória
entre memoriais de tudo quanto houve
valendo-me assim do que os outros lembram
para nada lembrar     não tanto
como um velho sentado num parque:
como um cão.



TAMEN, Pedro. Memorial indescritível. Lisboa: Gótica, 2000.