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8.6.20

Moacyr Félix: "Havia"




Havia


Havia um Deus de costas, nu e sobre o lustre
na sala mais íntima das minhas almas.
Chamei-o pelo nome. E ele dissolveu-se
no espaço agora definido pelo corpo
da minha natureza a celebrar desejos
não mais divinos porque imensamente humanos.

A vida se liberta ao libertar o fogo
maior que o medo de dar nome aos deuses.
Chega de fantasmas! Vamos ficar nus, vamos ser
inteiramente o corpo que somos
porque é no chão sem fim do que é o desejo
que o universo planta em nós a sua voz. E mora.





FÉLIX, Moacyr. "Havia". In:_____. Em nome da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.

26.3.19

Moacyr Félix: "O erotismo"




O erotismo

Instruído pelo demônio, seu confidente
e seu irmão, inventor da liberdade além
da temporalidade oca, o poeta sabe outra vez
que a imaginação é erótica e que o erotismo é
uma explosão de infinitos se movendo
entre os silêncios da vida em nossa boca.





FÉLIX, Moacyr. "O erotismo". In:_____. Em nome da vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; São Paulo: Massao Ohno, 1981.

18.7.11

Moacyr Félix: "O poema"




O Poema

Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
                          que não viveu.

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia



FÉLIX, Moacyr. "O poema" In: FELIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte,