18.9.22

Giuseppe Ungaretti: "Il porto sepolto": trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti

 



Il porto sepolto


Mariano il 29 giugno 1916


Vi arriva il poeta

e poi torna alla luce con i suoi canti

e li disperde


Di questa poesia

mi resta

quel nulla

d’inesauribile segreto







O porto sepulto


Mariano, 29 de junho de 1916



Ali chega o poeta

e depois regressa à luz com seus cantos

e os dispersa


Desta poesia 

me sobra

aquele nada

de inesgotável segredo








UNGARETTI, Giuseppe. "Il porto sepolto". In:_____:Poemas. Edição bilíngue. Trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: EDUSP, 2017,


10.9.22

Derek Walcott: "Map of the new world -- archipelagoes" / "Mapa do novo mundo -- arquipélagos: trad. por Nelson Ascher




Mapa do novo mundo -- arquipélagos



Ao cabo desta frase, choverá

À beira-chuva, uma vela.


A vela aos poucos perderá de vista as ilhas;

A fé nos portos de uma raça inteira

sumirá na neblina.


A guerra de dez anos terminou.

O cabelo de Helena: uma nuvem grisalha.

Tróia: um fosso branco de cinzas

junto ao mar onde garoa.


A garoa se retesa como as cordas de uma harpa.

Um homem de olhos nublados toma em mãos a chuva

e tange o primeiro verso da Odisseia.







Map of the new world --  archipelagoes



At the end of this sentence, rain will begin.

At the rain's edge, a sail.


Slowly the sail will lose sight of islands;

into a mist will go the belief in harbours

of an entire race.


The ten-years war is finished.

Helen's hair, a grey cloud.

Troy, a white ashpit

by the drizzling sea.


The drizzle tightens like the strings of a harp.

A man with clouded eyes picks up the rain

and plucks the first line of the Odyssey. 








WALCOTT, Derek. "Map of the new world -- archipelagoes" / "Mapa do novo mundo -- arquipélagos". Trad. por Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998.




4.9.22

João Cabral de Melo Neto: "As nuvens"

 



As nuvens


As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;


são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;


são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;


são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados;

a medicina, branca!

nossos dias brancos.





MELO NETO, João Cabral de. "As nuvens". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema. Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

20.8.22

Diego Mendes Sousa: AVE DOÍDA

 



Ave doída



O poeta

é aquele

ser risível 

que opera,

pesa, sente,

sangra 

e galopa

insano.


Dói

o espanto

e se 

descoisificam

os nomes.


Como dói o espanto?

Como dói o espanto!

Como dói o espanto.


O poeta dói-dói

é essa ave doída

ridícula e ferida

que sonda

o abismo

o tempo

a vida


as ruínas


e voa

só voa só voa

só voa







SOUSA, Diego Mendes. AVE DOÍDA

3.8.22

UNGARETTI, Giuseppe. "Non gridate più" / "Não gritai mais"

 



Não gritai mais


Cessai de matar os mortos,

Não gritai mais, não gritai

Se quereis ainda ouvi-los,

Se esperais não perecer.


É imperceptível seu sussurro,

Não fazem rumor mais forte

Que o da relva quando cresce,

Onde não passa nenhum homem.






Non gridate più



Cessate d’uccidere i morti,

Non gridate più, non gridate

Se li volete ancora udire,

Se sperate di non perire.


Hanno l’impercettibile sussurro,

Non fanno più rumore

Del crescere dell’erba,

Lieta dove non passa l’uomo.









UNGARETTI, Giuseppe. "Non gridate più" / "Não gritai mais". In:_____ "La dolore" / "A dor". In:_____. Poemas. Edição bilingue. Trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: USP, 2017.

29.7.22

Pietro Aretino: "Soneto 3": trad. de José Paulo Paes




3


Para gozar Europa, em boi mudou-se

Jove, pelo desejo compelido,

E em mais formas bestiais, posta no olvio

A sua divindade, transformou-se.


Marte perdeu também aquele doce

Repouso a um Deus somente consentido.

Por seu muito trepar foi bem punido,

Qual rato que na rede embaraçou-se.


Este que ora mirais, em contradita,

Podendo, sem perigo, a vida interia

Trepar, a cu nem cona se habilita.


Por isso, que é sem dúvida uma asneira

Inaudita, solene, verdadeira,

Nunca mais neste mundo se repita.


Insossa brincadeira!

Pois não sabes, meu puto, que é malsão

Fazer boceta e cu da própria mão?




3


Per Europa godere in bue cangiossi

Giove, che di chiavarla avea desio,

E la sua deità posta in obblio,

In più bestiali forme trasformossi.


Marte ancor cui perdè li suoi ripossi

Che potea ben goder perchè era Dio

E di tanto chiavar pagonne il fio,

Mentre qual topo in rete pur restossi.


All'incontro costui, che qui mirate,

Che pur senza pericolo potria

Chiavar, non cura potta nè cullate.


Questa per certo è pur coglioneria

Tra le maggiori e più solennizzate

E che commessa mai al mondo sia.


Povera mercanzia!

Non lo sai tu, coglion, ch'è un gran marmotta

Colui che di sua man fa culo e potta.



ARETINO, Pietro. "Soneto 3". In: Sonetos luxuriosos. Trad. de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1981.


18.7.22

J.W. Goethe: "Epigrama 35"




35


A vida de um homem – que é? Porém milhares podem 

Falar desse homem, daquilo que fez e como o fez.

Menos ainda é um poema; contudo mil podem gozá-lo,

Milhares censurá-lo. Amigo, continua pois a viver facer teus poemas.









35


Eines Menschen Leben, was ists? Doch Tausende können

    Reden über den Mann, was er und wie ers getan.

Weniger ist ein Gedicht; doch können es Tausend genießen,

    Tausende tadeln. Mein Freund, lebe nur, dichte nur fort!






GOETHE, J.W. "Epigramme" / "Epigramas". Venedig, 1790. In:_____. Poemas. Versão portuguesa: Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida Editora, SARL, 1949.