23.6.19

José Gomes Ferreira: "Menino que vais na rua"




Menino que vais na rua

                   (Serenata cínica para o Bettencourt cantar:)


Menino que vais na rua,
não cantes nem chores: berra!
Cospe no céu e na Lua
e aprende a pisar a Terra.


Aprende a pisar o Mundo.
Deixa a Lua aos violinos
dos olhos dos vagabundos
e dos poetas caninos.


Aprende a pisar a vida.
Deixa a Lua às costureiras
–  pobre moeda caída
de quem não tem algibeiras.


Aprende a pisar no chão
o silêncio do luar
sem sentir no coração
outras pedras a gritar.


Pisa a Lua sem remorsos,
estatelada no solo...
Não hesites! Quebra os ossos
dessa criança de colo.


Pisa-a, frio, com coragem,
sem olhos de serenata:
que isso que vês na paisagem
não é ouro nem é prata.


Menino que vais na rua,
não chores, nem cantes: berra!
ou, então, salta pra Lua
e mija de lá na Terra.




FERREIRA, José Gomes. "Menino que vais na rua". In:_____. Poesias II. Lisboa: Portugália Editora, 1972.


21.6.19

William Soares dos Santos: "O novo modus operandi do mundo é o algoritmo"




O novo modus operandi do mundo é o algoritmo

O novo modus operandi do mundo
é o algoritmo.
Não mais aquele sentimento de
ser uma espécie que a biologia
constituiu em tempos primais,
nem a consciência que se instaurou
com o orgulho da modernidade,
mas as estatísticas que,
de agora em diante,
parecem conduzir
a nossa história
sem lances de dados.





SANTOS, William Soares dos. "O novo modus operandi do mundo é o algoritmo". In:_____. Três Sóis. São Paulo: Patuá, 2019.

19.6.19

Robert Frost: "Nothing gold can stay" / "Nada de ouro permanece": trad. de Ivan Justen Santana




Nothing Gold Can Stay

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.




FROST, Robert. "Nothing gold can stay". In:_____. The poetry of Robert Frost: The collected poems. Org. por Edward Connery Lathem. New York: Henry Holt and Company, 1975.




Nada de ouro permanece

O verde no início é de ouro,
Seu mais difícil tesouro.
Folha nova em flor aflora,
Mas apenas por uma hora.
Depois folhas se sucedem.
Na mágoa naufraga esse Éden,
No dia essa aurora perde-se.
Nada de ouro permanece.





FROST, Robert. "Nada de ouro permanece". Trad. de Ivan Justen Santana. In URL ossurtado.blogspot.com/2011/06/nothing-nada-gold-permanece-can-verde.html. 

17.6.19

A Estante do Poeta



Amanhã, dia 18, estarei no Espaço Afluentes, na Av. Rio Branco, 181, sala 1905 (em frente à estação de metrô “Carioca”), participando do projeto “A Estante do Poeta”, no qual fui convidado a conversar com Paulo Sabino sobre como a poesia entrou na minha vida, como foi que me descobri poeta e que poetas e/ou poemas mais me influenciaram. 

Antonio Cicero



15.6.19

Eugénio de Andrade: "Mar de setembro"




Mar de setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves -- só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.




ANDRADE, Eugénio de. "Mar de setembro". In:_____. Poemas de Eugénio de Andade. Org. Por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

13.6.19

Manoel de Barros: "Sem título"




Sem título

de Livro sobre nada (1996)


Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras.
Sou formado em desencontros.
A sensatez me absurda.
Os delírios verbais me terapeutam.
Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
(E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso
porque não encontrava um título para os seus poemas.
Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que
apareceu Flores do mal. A beleza e a dor. Essa antítese
o acalmou.)

As antíteses congraçam.





BARROS, Manoel de. "Sem título". In:_____. Ocupação Manuel de Barros. Org. por Carlos Costa. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

11.6.19

Emily Dickinson: "Fame is a bee" / "A Fama é uma abelha"




79

A Fama é uma abelha.
   Tem um estribilho –
Um ferrão em brasa –
   Ah! também tem asa.





79

Fame is a bee.
   It has a song –
It has a sting –
   Ah, too, it has a wing.







DICKINSON,  Emily. "Fame is a bee" \ "A Fama é uma abelha". In:_____. Não sou ninguém. Trad. de Augusto de Campos. Campinas: Editora da Unicamp, 2008.