20.1.23

Paul Éluard: "Belle épouse" / "Bela esposa": trad. de Maria Gabriela Llansol

 



BELA ESPOSA


Bela esposa de que não há memória

Ela saiu do seu leito

Como se entra na história






BELLE ÉPOUSE


Belle épouse de mémoire

Elle sortit de son lit

Comme on entre dans l'histoire.





ÉLUARD, Paul. "Belle épouse" / "Bela esposa". In: Últimos poemas de amor. Derniers poèmes d'amour. Tradução de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2002. 

14.1.23

W.B. Yeats: "The coming of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria": trad. por José Agostinho Baptista

 



COM O TEMPO A SABEDORIA



Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.






THE COMING OF WISDOM WITH TIME



Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.




YEATS, W.B. "The comingo of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria". In: Uma antologia. Seleção e tradução por José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.   


10.1.23

Gastão Cruz: "O tempo a vida"

 



O TEMPO A VIDA



Não coincide o tempo com a vida

tão tarde o aprendemos


Fora dele vivida conhecemos

antes de nela entrarmos a saída


Num retrocesso intemporal vivemos

intemporal decerto é a nossa vida






CRUZ, Gastão. "O tempo a vida". In: Rua de Portugal. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.

19.12.22

T.S. Eliot: "Morning at the Window" / "Manhã à Janela": trad. por Caetano W. Galindo

 


Manhã à Janela

 

 

Elas batem pires nas cozinhas fundas,

Junto às bordas calcadas da rua

Percebo as almas úmidas das empregadas

Que brotam amuadas dos portões.

 

As vagas da névoa marrom me arremessam

Rostos contorcidos do fundo da rua

E arrancam da passante de saia enlameada

Um sorriso sem destino que flutua pelo ar

E some junto à liinha dos telhados.

 

 

 

 

 

 

 

 

Morning at the Window

 

 

They are rattling breakfast plates in basement kitchens,

And along the trampled edges of the street

I am aware of the damp souls of housemaids

Sprouting despondently at area gates.

 

The brown waves of fog toss up to me

Twisted faces from the bottom of the street,

And tear from a passer‑by with muddy skirts

An aimless smile that hovers in the air

And vanishes along the level of the roofs.





ELIOT, T.S. "Morning at the Window" / "Manhã à Janela". In:_____ Poemas. Org. e tradução para o português: Caetano W. Galindo. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.


12.12.22

Fernando Pessoa: "AUTOPSICOGRAFIA"

 



AUTOPSICOGRAFIA


O poeta é um fingidor.

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.


E os que leem o que escreve

Na dor lida sentem bem,

Não as duas que ele teve,

Mas só a que eles não têm,


E assim nas calhas de roda

Gira, a entreter a razão,

Esse comboio de corda

Que se chama o coração.





PESSOA, Fernando. "AUTOPSICOGRAFIA". In:_____. "Cancioneiro". In:_____. Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar S.A., 1986.

2.12.22

Rudolf Otto Wiemer: "unbestimmte zahlwörter" / "quantificadores indefinidos": trad. por Rosvitha Blume Friesen e Markus J.Weininger

 



quantificadores indefinidos


todos sabiam

muitos sabiam

diversos sabiam

vários sabiam

alguns sabiam 

poucos sabiam

ninguém sabia.







unbestimmte zahlwörter


alle habem gewusst

viele haben gewusst

manche haben gewusst

einige haben gewusst

ein paar haben gewusst

wenige haben gewusst

niemand hat gewusst





WIEMER, Rudolf Otto. "unbestimmte zahlwörter" / 'quantificadores indefinidos". In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. (org.). Seis décadas de poesia alemã. Do pós-guerra ao início do século XXI. Antologia bilingue. Florianópolis: U.FSC, 2012.

27.11.22

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Era o tempo"

 



Era o tempo


Era o tempo das amizades visionárias

Entregues à sombra à luz à penumbra

E ao rumor mais secreto das ramagens

Era o tempo extático das luas

Quando a noite se azulava fabulosa e lenta

Era o tempo do múltiplo desejo e da paixão

Os dias como harpas ressoavam

Era o tempo de oiro das praias luzidias

Quando a fome de tudo se acendia






ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Era o tempo". In:_____"O Búzio de Cós e outros poemas". In:_____Obra poética. Edição Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Editorial Caminho, SA, 2011.