23.1.20

Ferreira Gullar: "Vendo a noite"




Vendo a noite


Júpiter, Saturno.
De dentro de meu corpo
estou vendo
o universo noturno.

Velhas explosões de gás
que meu corpo não ouve:
vejo a noite que houve
e não existe mais –

a mesma, veloz, em Troia,
no rosto de Heitor
– hoje na pele de meu rosto
no Arpoador.





GULLAR, Ferreira. "Vendo a noite". In:_____. "Dentro da noite veloz". In:_____ Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. 

20.1.20

Jorge Mautner: "Da maravilhosa loucura"




Da maravilhosa loucura


Da maravilhosa loucura
da matéria porosa escura
do buraco negro vem
e nasce a negra energia.
Tudo isso é compreendido
pela nova astronomia.

Essa energia é fundamental
para a harmonia do espaço sideral
mas tudo isso a gente já sabia
por causa da força divina que o samba irradia
batucando por nós essa negra melodia.






MAUTNER, Jorge. "Da maravilhosa loucura". In:_____. Kaos total. Org. por João Paulo Reys e Maria Borga. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

18.1.20

Antonio Cicero: "Teofania"





Teofania


Sabe-se que um deus só vem porque quer
e que é capaz de desaparecer
a seu bel-prazer, por mero capricho.
Nisso ele se assemelha mais a um bicho

selvagem, feito serpente ou veado,
do que a gente. Uns são intempestivos.
É no momento menos indicado
que nos capturam e mantêm cativos.

Assim é o Amor, por exemplo. Não
há quem não reconheça a divindade
de tal deus. Não: os próprios cristãos dão
a mão à palmatória e têm saudade

do realismo do mundo pagão
quando o vêem chegar como quem não quer
nada e ofuscar tudo. Outros são
diferentes. Todos vêm por prazer,

isso é claro mas, por exemplo, o Sono
não deixa de abraçar-nos todo dia
enquanto somos jovens: dir-se-ia
ser nosso escravo e não suave dono.

Mas isso não se deve nem pensar
pois se ele ouvir o nosso pensamento
e resolver provar-nos a contento
ser mesmo deus, desaparecerá,

pois que ele é deus mostra-o nem tanto o fato
de que vem sem ser chamado e escraviza,
em teatros, aulas, ônibus, vigílias,
o desejo que almeja dominá-lo

quanto a própria insônia, teofania
negativa do Sono, quando somem
as doces nuvens e as torres macias
do príncipe dos deuses e dos homens

 e não se abrem as águas da lagoa
ou os portões de chifre ou de marfim
e nossa imaginação se esboroa
em prosa e a noite cansa até o fim.

Não se iludam. Nem o mais poderoso
dos soporíferos substituiria
ver abolirem-se as categorias
pela espontânea ação de um deus gasoso.

Tais deuses só na velhice sabemos
o que são. O jovem nem desconfia
ser divino o próprio Tesão ou mesmo,
tremo só de lembrar, a Poesia.







CICERO, Antonio. "Teofania". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

15.1.20

Bertolt Brecht: "Die neuen Zeitalter" / "As novas eras": trad. por André Vallias




As novas eras


As novas eras não começam de repente.
Meu avô já vivia numa nova era
Meu neto vai viver ainda na antiga.

Carne nova se come com garfo velho.

Não foram os veículos autodirigíveis
Nem os tanques
Não foram os aviões sobre nossos telhados
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vieram as velhas asneiras.
A sabedoria foi de boca em boca transmitida.





Die neuen Zeitalter


Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal.
Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit.
Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben.

Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen.

Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht
Noch die Tanks.
Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht.
Noch die Bomber.

Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten.
Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.







BRECHT, Bertolt. "Die neuen Zeitalter" / "As novas eras". In:_____. Poesia. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.

12.1.20

Lêdo Ivo: "Depois do jogo"




Depois do jogo


Urge escolher
ou tudo ou nada.
A noite escura
ou a alvorada.

Atrás de tudo
há sempre o nada,
a rosa negra
evaporada.

Quando termina
o jogo sujo
e embaralhado

do tudo ou nada
o nada é tudo
e tudo é nada.




IVO, Lêdo.  "Depois do jogo". In:_____. Antologia poética. Org. de Albano Martins. Porto: Afrontamento, 2012.

9.1.20

Ivan Junqueira: "Vésperas"



Vésperas


A tarde descortina
uma paisagem híspida:
no galho seco, o ninho
é uma inútil relíquia
que a luz do sol calcina
até a estrita cinza.
Gota a gota, o alambique
das horas se esvazia,
e dilui-se a vertigem
do álcool que lhe mordia
as veias retorcidas.
Êxtase da agonia
no crepúsculo a pino.
Sob o céu que definha,
alguém lê, num papiro,
o que afligiu o espírito
de Plotino e Agostinho,
e relembra a lascívia
do fogo que engoliu
Cartago e Alexandria.




JUNQUEIRA, Ivan. "Vésperas". In:_____. Poesia completa. Edição por Jorge Reis-Sá. Org. por Ricardo Vieira Lima. Lisboa: Glaciar, 2019.

6.1.20

Jean Giono: "O homem não se adiciona"




O homem não se adiciona. Dois homens não são matematicamente mais fortes que um só; não têm o dobro de ideias, iniciativas, inteligência, espírito, eficácia, nobreza, ciência. Quase sempre, é o contrário.




GIONO, Jean. "O homem não se adiciona". In:_____. "La philosophie dans le boudoir" (extraits). In: "Il faut relire Giono", par Serge Sanchez. In: Le nouveau magazine litteraire. Janvier, Nº 25, 2020.