15.1.19

Alex Varella: "Ela é de Alexandria" e "O pombo flâneur"



Ela é de Alexandria

A luz negra de seu corpo ilumina todo o porto.
Ela é de Alexandria, da baía de Alexandria.
Eu venho de Sírias,
pelo Egito, por Jônia,
por Creta,
pela Grécia.
Em meu corpo corre o sangue do mar.




O pombo flâneur

Todo pombo é flâneur, mas o carioca ainda mais.
Conta Paulo Mendes Campos que era verão,
e dois deles tinham marcado um encontro,
às cinco azul em ponto,
nos céus do Rio de Janeiro.
Os tradicionais relógios da Mesbla e da Central marcavam a hora,
mas não marcavam o tempo,
(nenhum relógio marca o tempo).
Atravessando a cidade num fio de luz,
a vista ardendo de azul,
aquele pombo se atrasou
e, arrulhando,
em uma sentença se explicou:
“-- Desculpe , meu amor,
mas o dia estava tão bonito que eu vim andando;
eu tinha de vir andando!”




VARELLA, Alex. "Ela é de Alexandria" e "O pombo flâneur".

13.1.19

Salgado Maranhão: "Refrão secreto"



Refrão secreto

Aqui,
a carne aberta
aos relâmpagos
                         (ante as estalagens
de edificações do ser).

Palavras que cicatrizam
granito; palavras
que viralizam o tempo
                                   que se alcova
com os larápios.

Há que se varrer
a memória a serrote;

há que se brotar
com as enchentes.

Tudo é o mesmo
estar-se
            em sonho
e substância:

nos córregos que atravessam
as uvas; no desejo
esticado ao deserto.

Se eu pudesse inserir
a galáxia em meu peito,
seria só o refrão
                         de um coração
que late —;

entre paixões ferinas
e revólveres de chocolate.





MARANHÃO, Salgado. "Refrão secreto". In:_____. A sagração dos lobos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2017.

11.1.19

Jorge Fernandes da Silveira: "Samira no miradouro"



SAMIRA NO MIRADOURO

mais pesada fosse a
pedra
sobre
as minas de prata
o ouro do dia
o vento desfazia a tarde em
nuvem
de fitas

Margarida
ao me curvar
para colher da
cova a
palma caída
me deu a sua mão
e

sabíamos
se de mármore
talhada mais
bela não seria
Samira
ó pedra
no miradouro
a fitar o
infinito
encantado de
vê-la


15 de agosto de 1994





SILVEIRA, Jorge Fernandes da. “Samira no miradouro”. In:_____. Memorial de Jorge da Silveira: a poor boy from nichtheroy. Rio de Janeiro: Desalinho, 2018.

9.1.19

Alphonsus de Guimaraens Filho: "Soneto dos quarenta anos"



Soneto dos quarenta anos

Não me ficou da vida mágoa alguma
de que possa lembrar aos quarenta anos
senão esses cansados desenganos
que o mar que trouxe leva como espuma.

Foram-se os anos, mas que são os anos?
Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.
As horas que eu vivi, de uma em uma,
deixaram sonhos e deixaram danos.

Muita morte passou n'alma ferida:
meu pai e meus irmãos, mortos amados.
Mas pela minha vida passou vida,

passou amor também, passou carinho.
E pelos dias claros ou magoados
não fui feliz e nem sofri sozinho.




GUIMARÃES FILHO, Alphonsus de. "Soneto dos quarenta anos". In: Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte, Maio de 2018.

7.1.19

Alain Bosquet: "Le mot par le mot" / "Do verbo o verbo...": trad. por Mário Laranjeira



Do verbo o verbo...

É o poema em mim que escreve o meu poema,
do verbo o verbo se origina.
Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.
Quer a poesia, essa inquilina,

meu espaço vital gerir e, furibunda,
ralha: quem sabe estou errado.
Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,
eu lhe preparo um melhor fado.

Faremos par feliz; há de a minha alegria 
vencer-lhe toda inquietação.
Os trêmulos detesta; a mim não cederia 
emprego algum: a narração,

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia, 
pois tudo quer decidir logo.
Meu cérebro retrai-se e a minha razào fria 
Não vale um dado posto em jogo.

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;
numa mortalha ia melhor.
Ele é adulto, pode ser o promontório,
a ave, o azul e a tília em flor.

Nada mais a dizer, poeta; quieto assim
sonhando com sonhar eu vou.
Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;
luxúria de que me privou.





Le mot par le mot

C'est le poème en moi qui écrit mon poème ;
Le mot par le mont engendré.
Il est mon occupant ; je ne sais pas s'il m'aime.
Mon locataire veut gérer

Mon espace vital et, de plus, il me gronde : 
peut-être suis-je dans mon tort. 
Il m'absoudra un jour ; en ses couches profondes, 
je lui prépare un meilleur sort.

Nous formerons un couple heureux ; mon allégresse 
aura raison de ses soucis. 
Il a horreur des trémolos ; il ne me laisse 
aucun emploi : ni le récit,

ni le déroulement, ni l'air, ni la musique
car il prétend tout décider. 
Mon cerveau se rétracte et ma pauvre logique 
vaut moins, dit-il, qu'un coup de dé.

Je suis pour mon poème un squelette inutile, 
qui ferait mieux dans un linceul. 
Il est adulte, il peut devenir la presqu'île, 
l'oiseau, l'azur et le tilleul.

Je n'ai plus rien à dire, Ô poète : en silence 
je rêve au défi de rêver. 
Mon poème sans moi en soi-même se pense, 
luxure dont il m'a privé.





BOSQUET, Alain. "Le mot par le mot" / "Do verbo o verbo...". In: LARANJEIRA, Mário (seleção, org. e trad.) Poetas de França hoje (1945-1995). São Paulo: EDUSP, 1996. 

5.1.19

Ferreira Gullar: "Visita"



Visita

no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar
perto do filho mas
diante daquele
bloco negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu
soluçando





GULLAR, Ferreira. "Visita". In:_____. "Muitas vozes". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.

3.1.19

P.B. Shelley: "Time" / "Tempo": trad. por Adriano Scandolara



O tempo

Ó insondável Mar! marulho de anos,
      Tempo em cujos pelágios fundas mágoas
Salmouram só do pranto dos humanos!
      Maré sem margens, sob as vossas águas
Podeis os fins do ser mortal tocar
      E, nauseado, a uivar, pedindo mais,
Em suas margens vis os restos vomitais;
Pérfido na bonança, atroz na fúria,
   Quem vai vos desbravar,
   Ó insondável Mar?




Time

Unfathomable Sea! whose waves are years,
      Ocean of Time, whose waters of deep woe
Are brackish with the salt of human tears!
      Thou shoreless flood, which in thy ebb and flow
Claspest the limits of mortality!
      And sick of prey, yet howling on for more,
Vomitest thy wrecks on its inhospitable shore;
      Treacherous in calm, and terrible in storm,
         Who shall put forth on thee,
         Unfathomable Sea?





SHELLEY, Percy B. “Time” / “O tempo”. In:_____. Prometeu desacorrentado e outros poemas. Trad. por Adriano Scandolara. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.