6.12.19

Antonio Cicero: "Elo"





Elo

Dizem ser Marcelo mar e céu
Dizem ser vão ser e ser poeta
Só sei que desde que me aconteceu
Esse horizonte azul assim sem reta
Quero ser não o poeta
Ser o verso de Marcelo
Ser a rima de Marcelo
Ser esse elo
Entre ar mar céu nome ser não ser Marcelo








CICERO, Antonio. "Elo". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

4.12.19

Friedrich Hölderlin: "Die Liebenden" / "Os amantes": trad. de Paulo Quintela




Os amantes



     Queríamos separar-nos, tínhamos isso por bom e sensato;

          Quando o fizemos, por que nos assustou, como homicídio,
                                                                                          [a ação?

               Ai! Pouco nos conhecemos,

                    Pois em nós reina um Deus.








Die Liebenden



     Trennen wollten wir uns, wähnten es gut und klug;

          Da wir's taten, warum schröckt' uns wie Mord die Tat?

               Ach! Wir kennen uns wenig,

                    Denn es waltet ein Gott in uns.







HÖLDERLIN, Friedrich. "Die Liebenden" / "Os amantes". In:_____. Poemas. Org. e trad. de Paulo Quintela. Coimbra: Atlântida, 1959.

1.12.19

Carlos Drummond de Andrade: "Liberdade"




Liberdade


O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto.





ANDRADE, Carlos Drummond de. "Liberdade". In:_____. Farewell. Rio de Janeiro: Record, 1996.

29.11.19

José Almino: "O descampado do ócio"




O descampado do ócio


o acanhado das ruas
e das alpercatas

a calha e o lodo
e o assento seboso

o chão de fuligem
e o árido cerrado

a nudez do quintal
 e o musgo e a cisterna

o sol e o sol
e o sol e o mormaço

o tédio feroz
e a dor do inútil

a vida prescrita
e a vida acabada





ALMINO, José. "O descampado do ócio". In:_____. Encouraçado e cosido dentro da pele. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2019.

27.11.19

Castro Alves: "Os três amores"




Os três amores


I
Minh'alma é como a fronte sonhadora
Do louco bardo, que Ferrara chora...
Sou Tasso!... a primavera de teus risos
De minha vida as solidões enflora...
Longe de ti eu bebo os teus perfumes,
Sigo na terra de teu passo os lumes...
—Tu és Eleonora...

II
Meu coração desmaia pensativo,
Cismando em tua rosa predileta
Sou teu pálido amante vaporoso,
Sou teu Romeu... Teu lânguido poeta!...
Sonho-te às vezes virgem...seminua...
Roubo-te um casto beijo à luz da lua...
—E tu és Julieta...

III
Na volúpia das noites andaluzas
O sangue ardente em minhas veias rola...
Sou D. Juan!... Donzelas amorosas,
Vós conheceis-me os trenos na viola!
Sobre o leito do amor teu seio brilha...
Eu morro, se desfaço-te a mantilha...
Tu és Júlia, a Espanhola!...





ALVES, Castro. "Os três amores". In:_____. Espumas flutuantes. Cotia: Ateliê Editorial, 1998.

23.11.19

Ferreira Gullar: "Flagrante"




Flagrante


o meu gato
na cadeira
se coça

corto papéis coloridos na sala
e os colo num caderno

a manhã clara canta na janela
estou eterno





GULLAR, Ferreira. "Flagrante". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015.