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29.10.21

Eugénio de Andrade: "Improviso na madrugada"

 



Improviso na madrugada



Húmido de beijos e de lágrimas,

ardor da terra com saber a mar,

o teu corpo perdia-se no meu.


(Vontade de ser barco ou de cantar.)






ANDRADE, Eugénio de. "Improviso na madrugada". In:_____ Primeiros poemas, As mãos e os frutos, Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006. 

13.9.21

Eugénio de Andrade: "Canção"

 



Canção



Tu eras neve. 

Branca neve acariciada. 

Lágrima e jasmim 

no limiar da madrugada.


Tu eras água. 

Água do mar se te beijava. 

Alta torre, alma, navio, 

adeus que não começa nem acaba.


Eras o fruto 

nos meus dedos a tremer. 

Podíamos cantar 

ou voar, podíamos morrer.


Mas do nome 

que maio decorou, 

nem a cor 

nem o gosto me ficou.





ANDRADE, Eugénio de. "Canção". In:_____ Até amanhã. Porto: Limiar, 1990.

15.8.21

Eugénio de Andrade: "O amor"

 



O amor



Estou a amar-te como o frio

corta os lábios.


A arrancar a raiz

ao mais diminuto dos rios.


A inundar-te de facas,

de saliva esperma lume.


Estou a rodear de agulhas

a boca mais vulnerável.


A marcar sobre os teus flancos

itinerários da espuma.


Assim é o amor: mortal e navegável.








ANDRADE, Eugénio de. "O amor". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 1015. 

11.6.21

Eugénio de Andrade: "Regressar ao corpo, entrar nele"

 



Regressar ao corpo, entrar nele

sem receio da insurreição da carne.

Nenhuma boca é fria,

mesmo quando atravessou


o inverno. Uma boca é imortal

sobre outra boca: diamante

aceso, estrela aberta

quando a luz irrompe, invade


ombros, peitos, coxas, nádegas, falos.

Despertos, puros no seu pulsar,

aí os tens: esplendorosos,

duros.





ANDRADE, Eugénio de. "Regressar ao corpo, entrar nele". In:_____. "Branco no branco". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Org. por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

16.2.21

Eugénio de Andrade: "Litania"

 



Litania



O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;


o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece


navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror,


são a grande razão, a única razão.





ANDRADE, Eugénio de. "Litania". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguessa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

15.6.19

Eugénio de Andrade: "Mar de setembro"




Mar de setembro

Tudo era claro:
céu, lábios, areias.
O mar estava perto,
fremente de espumas.
Corpos ou ondas:
iam, vinham, iam,
dóceis, leves -- só
ritmo e brancura.
Felizes, cantam;
serenos, dormem;
despertos, amam,
exaltam o silêncio.
Tudo era claro,
jovem, alado.
O mar estava perto.
Puríssimo. Doirado.




ANDRADE, Eugénio de. "Mar de setembro". In:_____. Poemas de Eugénio de Andade. Org. Por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

27.1.19

Eugénio de Andrade: "Canção breve"



Canção breve

Tudo me prende à terra onde me dei:
o rio subitamente adolescente,
a luz tropeçando nas esquinas,
as areias onde ardi impaciente.

Tudo me prende do mesmo triste amor
que há em saber que a vida pouco dura,
e nela ponho a esperança ou o calor
de uns dedos com restos de ternura.

Dizem que há outros céus e outras luas
e outros olhos densos de alegria,
mas eu sou destas casas, destas ruas,
deste amor a escorrer melancolia.




ANDRADE, Eugénio de. "Canção breve". In:_____. Primeiros poemas; As mãos e os frutos; Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.

9.5.18

Eugénio de Andrade: "As mãos e os frutos"



As mãos e os frutos

Shelley sem anjos e sem pureza,
Aqui estou à tua espera nesta praça,
Onde não há pombos mansos mas tristeza
E uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
Das casas não vale a pena porque estão
Gastas pelo relógio e pelas luas
E pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te, mas não sei
Que dizer-te desta história de maneira
Que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
Tecendo estes versos e a noite
Que te há-de trazer e nos há-de deixar sós.




ANDRADE, Eugénio de. "As mãos e os frutos". In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses: de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

3.3.18

Eugénio de Andrade: "Soneto"



Soneto

Amor desta tarde que arrefeceu
as mãos e os olhos que te dei;
amor exacto, vivo, desenhado
a fogo, onde eu próprio me queimei;

amor que me destrói e destruiu
a fria arquitectura desta tarde
– só a ti canto, que nem eu já sei
outra forma de ser e de encontrar-me.

Só a ti canto que não há razão
para que o frio que me queima os olhos
me trespasse e me suba ao coração;

só a ti canto, que não há desastre
de onde não possa ainda erguer-me
para encontrar de novo a tua face.



ANDRADE, Eugénio de. "Soneto". In:_____. "Os amantes sem dinheiro". In:_____. Primeiros poemas, As mãos e os frutos, Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quase, 2006.

5.8.16

Eugénio de Andrade: "II" de "As mãos e os frutos"




II

Cantas. E fica a vida suspensa.
É como se um rio cantasse:
em redor é tudo teu;
mas quando cessa teu canto
o silêncio é todo meu.



ANDRADE, Eugénio de. "II". In:_____. "As mãos e os frutos". In:_____. Primeiros poemas, As mãos e os frutos, Os amantes sem dinheiro. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006.

9.7.15

Eugénio de Andrade: "Arte dos versos"




Arte dos versos

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão
ou dos campos de Alpedrinha
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.




ANDRADE, Eugénio de. "Arte dos versos". In:_____. Rente ao dizer. Lisboa: Fundação Eugénio de Andrade, 1992.

11.12.14

Eugénio de Andrade: "Até amanhã"




Até amanhã

Respira. Um corpo horizontal,
tangível, respira.
Um corpo nu, divino,
respira, ondula, infatigável.

Amorosamente toco o que resta dos deuses.
As mãos seguem a inclinação
do peito e tremem,
pesadas de desejo.

Um rio interior aguarda.
Aguarda um relâmpago,
um raio de sol,
outro corpo.

Se encosto o ouvido à sua nudez,
uma música sobe,
ergue-se do sangue,
prolonga outra música.

Um novo corpo nasce,
nasce dessa música que não cessa,
desse bosque rumoroso de luz,
debaixo do meu corpo desvelado.



ANDRADE, Eugénio de. "Até amanhã". In:_____. Poesia. Porto: Modo de Ler, 2011.

18.7.14

Eugénio de Andrade: "Ao fim da tarde"




Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali, à porta naqueles olhos.



ANDRADE, Eugénio de. "Pequeno formato". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.  

12.6.14

Eugénio de Andrade: "É assim, a música"




É assim, a música

A música é assim: pergunta,
insiste na demorada interrogação
– sobre o amor?, o mundo?, a vida?
Não sabemos, e nunca
nunca o saberemos.
Como se nada dissesse vai
afinal dizendo tudo.
Assim: fluindo, ardendo até ser
fulguração – por fim
o branco silêncio do deserto.
Antes porém, como sílaba trémula,
volta a romper, ferir,
acariciar a mais longínqua das estrelas.



ANDRADE, Eugénio de. "Os lugares do lume". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Arnaldo Saraiva.

16.3.14

Eugénio de Andrade: "A sílaba"





A sílaba

Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que ma faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba,
Uma única sílaba.
A salvação.



ANDRADE. Eugénio de. "Ofício de paciência" In:_____. Poesia. Lisboa: Fundação Eugénio de Andrade, 2005.

6.2.14

Eugénio de Andrade: "Soneto menor à chegada do verão"





Soneto menor à chegada do verão

Eis como o verão
Chega de súbito,
Com seus potros fulvos,
Seus dentes miúdos,

Seus múltiplos, longos
Corredores de cal,
As paredes nuas,
A luz de metal,

Seu dardo mais puro
Cravado na terra,
Cobras que despertam
No silêncio duro –

Eis como o verão
Entra no poema.



ANDRADE, Eugénio de. In: BERARDINELLI, Cleonice (org.). Cinco séculos de sonetos portugueses de Camões a Fernando Pessoa. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.

31.12.13

Eugénio de Andrade: "O sorriso"




O sorriso

Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.



ANDRADE, Eugénio de. O outro nome da Terra. Porto: Limiar, 1989.




Devo a Arthur Nogueira o link para o maravilhoso vídeo em que o próprio Eugénio de Andrade, sorrindo, diz o seu poema. Ei-lo:





22.11.13

Eugénio de Andrade: "Frutos"





Frutos

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.




ANDRADE, Eugénio. Poemas de Eugénio de Andrade. Seleção, estudo e notas de Alberto Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

27.12.12

Eugénio de Andrade: "Arte dos versos"






Arte dos versos

Toda a ciência está aqui,
na maneira como esta mulher
dos arredores de Cantão,
ou dos campos de Alpedrinha,
rega quatro ou cinco leiras
de couves: mão certeira
com a água,
intimidade com a terra,
empenho do coração.
Assim se faz o poema.




ANDRADE, Eugénio de. Rente ao dizer. Fundação Eugénio de Andrade, 1992.

5.11.12

Eugénio de Andrade: "Ao fim da tarde"





Ao fim da tarde

Ninguém esperava ver o mar naquele dia
mas era o mar
que estava ali à porta naqueles olhos.




ANDRADE, Eugénio de. Poemas de Eugénio de Andrade. Org. por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.