14.5.22

Bertolt Brecht: "Die Lösung" / "A solução"

 



A solução


Depois da rebelião do 17 de junho
O secretário da Associação dos Escritores
mandou distribuir panfletos na Alameda Stalin
Onde se podia ler que o povo havia
Levianamente perdido a confiança do governo
E somente a reconquistaria
mediante trabalho dobrado. Ora,
Não seria bem mais fácil
Se o governo dissolvesse o povo e
Elegesse um outro?





Die Lösung


Nach dem Aufstand des 17. Juni
Ließ der Sekretär des Schriftstellerverbands
In der Stalinallee Flugblätter verteilen
Auf denen zu lesen war, daß das Volk
Das Vertrauen der Regierung verscherzt habe
Und es nur durch verdoppelte Arbeit
Zurückerobern könne. Wäre es da
Nicht doch einfacher, die Regierung
Löste das Volk auf und
Wählte ein anderes?





BRECHT, Bertolt. "Die Lösung" / "A solução". In: Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininguer (trads.) Seis décadas de poesia alemã, do pós-guerra ao início do século XXI. Antologia bilingue. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2012.   

12.5.22

Antonio Cicero: "Segundo a tradição"




Segundo a tradição


O grande bem não nos é nunca dado

e foste já furtado do segundo:

o resto é afogar-te com o amado

na líquida volúpia de um segundo





CICERO, Antonio. "Segundo a tradição". In:_____Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

8.5.22

Diego Mendes Sousa: "A TERRA E O SER"




A TERRA E O SER


Chorar

desnuda

o ser.


A chuva

encharca

a terra.


O choro

limpa a alma,

molha o rosto,

lava o tempo

e a saudade.


O mar

escapa

pelas

artérias

da dor.


Chorar

é enxurrada

de beleza

que arrasta

as palavras

de amor.





SOUSA, Diego Mendes.  "A TERRA E O SER". In:_____ Rosa numinosa. Teresina: Ed. do Autor, 2022.

7.5.22

Ferreira Gullar: "A galinha"

 



A galinha

 


Morta,

flutua no chão.

                                   Galinha.

 

Não teve o mar nem

quis, nem compreendeu

aquele ciscar quase feroz. Cis -

cava. Olhava

o muro,

aceitava-o, negro e absurdo.

 

               Nada perdeu. O quintal

               não tinha

                                qualquer beleza.

 

                                                             Agora

as penas são só o que o vento

roça, leves.

                  Apagou-se-lhe

toda a cintilação, o medo.

Morta. Evola-se do olho seco

o sono. Ela dorme.

                                Onde? onde?






GULLAR, Ferreira. "A galinha". In:_____ Toda poesia: 1950-2010. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

30.4.22

Abel Silva: "A coisa mutante"

 



A coisa mutante

 

O tempo

é coisa mutante

e o seu emissário

o Vento

lembra sempre

a todo instante

que este “sempre”

é inconstante

e o que é, já foi

ou seria

e o que vai ser

se anuncia

num passado ancestral,

que não garante alforria

do presente ou do futuro

fruto de vez ou maduro

mas ai de quem imagina

que O domina

e na ilusão,

perde o tempo da existência

por não entender a valia

do tempo

do dia a dia.





SILVA, Abel. "A coisa mutante". In_____ O caderno vermelho das manhãs. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001.

26.4.22

Manuel Bandeira: "Oceano"

 



OCEANO 


Olho a praia. A treva é densa. 

Ulula o mar, que não vejo, 

Naquela voz sem consolo, 

Naquela tristeza imensa 

Que há na voz do meu desejo. 


E nesse tom sem consolo 

Ouço a voz do meu destino: 

Má sina que desconheço, 

Vem vindo desde eu menino, 

Cresce quanto em anos cresço. 


– Voz de oceano que não vejo 

Da praia do meu desejo... 






BANDEIRA, Manuel. "Oceano". In:_____."A cinza das horas". In:_____ Estrêla da vida inteira. Poesias reunidas.Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966.

22.4.22

Diego Mendes Sousa: "Gesta da água"

 



Gesta da água


            Há sempre um copo de mar

                 para um homem navegar”

            Jorge de Lima



Nesta grandíssima manhã 

de primavera, 

as portas 

da minha casa 

estão abertas 

para a visita

fluida da beleza.

Altair é a susana da minha poesia 

e da minha vida.

A solidão habitava o feiume 

dos meus gestos e

querençoso eu esperava 

o tempo.


Hoje caminho tardo 

pelo vento oeste.


Meu coração vagueia 

no mapa das ruínas 

e infesto o campo dos 

silêncios.


Cada ruído pressentido, 

diz da alma.


Cada rastro revelado, 

diz da vidência, essa 

alegria 

a se eternizar.


Mancham os céus de um cinza cruel 

e morrem 

os oceanos 

em mim.


Eu que sempre 

fui água, 

mansidão 

de peixes 

e de siris.



Ser líquido 

na chuva, 

rio no mar naufragado.


Eu que sempre 

fui água, 

a escorrer 

pelo sangue das marés.


Ó manhã 

devastada no belo! 

Assim é a ceia farta 

dos maremotos 

escondidos!


Queda,

quebra,

estrondo


elegia da natureza 

encantada,

sou água!








SOUSA, Diego Mendes. "Gesta da água". In:_____. Rosa numinosa. Teresina: Ed. do Autor, 2022.

21.4.22

Arthur Rimbaud: "Le coeur volé" / "Coração logrado": trad. por Ivo Barroso

 




Coração logrado



Meu coração baba na popa.

Triste e cheirando a caporal:

Vêm-lhe jogar jatos de sopa.

Meu coração baba na popa:

Sob os apupos dessa tropa

Que lança risos em geral,

Meu coração baba na popa,

Triste e cheirando a caporal!


Itifálicos, soldadescos,

Foi por insultos depravado!

Fazem, chegando a tarde, afrescos

Itifálicos, soldadescos.

Fluxos abracadabrantescos,

Salvai meu coração coitado:

Itifálicos, soldadescos,

Foi por insultos depravado!


Quando mascar não possam mais,

Como agir, coração logrado?

Serão refrães de bacanais,

Quando mascar não possam mais:

Crises tereis estomacais

Se o coração for degradado:

Quando mascar não possam mais,

Como agir, coração logrado?





Le coeur volé



Mon triste coeur bave à la poupe,

Mon coeur couvert de caporal :

Ils y lancent des jets de soupe,

Mon triste coeur bave à la poupe :

Sous les quolibets de la troupe

Qui pousse un rire général,

Mon triste coeur bave à la poupe,

Mon coeur couvert de caporal !


Ithyphalliques et pioupiesques

Leurs quolibets l'ont dépravé !

Au gouvernail on voit des fresques

Ithyphalliques et pioupiesques.

Ô flots abracadabrantesques,

Prenez mon coeur, qu'il soit sauvé!

Ithyphalliques et pioupiesques

Leurs quolibets l'ont dépravé !


Quand ils auront tari leurs chiques,

Comment agir, ô coeur volé ?

Ce seront des hoquets bachiques

Quand ils auront tari leurs chiques :

J'aurai des sursauts stomachiques,

Moi, si mon coeur est ravalé :

Quand ils auront tari leurs chiques

Comment agir, ô coeur volé?








RIMBAUD, Arthur_____ "Le coeur volé" / "Coração logrado". In: Poesia completa. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995.

17.4.22

Dênis Rubra: "escrevo em papéis"

 



escrevo em papéis

como se pixasse

os muros dos bairros

das cidades.






RUBRA, Dênis. "escrevo em papéis". In:_____ É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.

10.4.22

Ricardo Vieira Lima: "Aríete"

 



Aríete

Reverbera no escudo o brlho baço

do túrgido aríete

com que distância e tempo enfureces.

              Francisco Alvim

 


Escrevo para as paredes.

O ar puro me asfixia.

Escrevo todas as vezes

que um desejo se anuncia.


Escrevo contra as paredes

que transponho em agonia.

Escrevo sempre isolado,

sem nenhuma companhia.


Escrevo sob as paredes

que me cercam, todavia,

em casa ou no trabalho.

E sem carta de alforria,


escrevo sobre as paredes.

Escrevo à noite ou de dia.

Com a ânsia de condenado

na sua hora tardia.


Escrevo todos os meses

e não vejo outra saída.

Escrevo para as paredes:

não posso escrever pra vida.






LIMA, Ricardo Vieira. "Aríete". In:_____. Aríete -- poemas escolhidos. Rio de Janeiro: Circuito, 2021.

6.4.22

Cesare Pavese: "Il Paradiso sui tetti" / "O Paraíso sobre os telhados": Carlos Leite

 



O Paraíso sobre os telhados




Será um dia tranquilo, de luz fria

como o sol que nasce ou que morre, e o vidro

fechará por fora o ar sórdido.


Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,

na tepidez do último sono: A sombra

será como a tepidez. Encherá o quarto

pela grande janela um céu mais vasto.

Da escada subida um dia para sempre

não virão mais vozes nem rostos mortos.


Não será preciso deixar a cama.

Só a aurora entrará no quarto vazio.

Bastará a janela para vestir cada coisa

de uma claridade tranquila, quase uma luz.

Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.

As recordações serão coágulos de sombra

calcados quais velhas brasas

na chaminé. A recordação será a chama

que ainda ontem picava nos olhos apagados.







Il Paradiso sui tetti



Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda

come il sole che nasce o che muore, e il vetro

chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.


Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,

nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra

sarà come il tepore. Empirà la stanza

per la grande finestra un cielo più grande.

Dalla scala salita un giorno per sempre

non verranno più voci, né visi morti.


 Non sarà necessario lasciare il letto.

Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.

Basterà la finestra a vestire ogni cosa

di un chiarore tranquillo, quasi una luce.

Poserà un’ombra scarna sul volto supino.

I ricordi saranno dei grumi d’ombra

appiattiti così come vecchia brace

nel camino. Il ricordo sarà la vampa

che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.









PAVESE, Cesare. "Il Paradiso sui tetti"/ "O paraíso sobre os telhados". In:_____Trabalhar cansa.
Título original: Lavorare stanca. Trad. de Carlos Leite. Lisboa: Ed. Cotovia, 1997.












1.4.22

Emily Dickinson: "Best Witchcraft is Geometry" / "A Geometria é a maior Magia": trad. de Augusto de Campos

 



54


A Geometria é a maior Magia

Para a imaginação do mago —

Cujos prodígios, meros atos,

A humanidade prestigia.




54


Best Witchcraft is Geometry

To the magician’s mind—

His ordinary acts are feats

To thinking of mankind.








DICKINSON, Emily. "Best Witchcraft is Geometry" / "A Geometria é a maior Magia". In:_____.  Não sou ninguém. Poemas. Trad. por Augusto de Campos. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2015.

27.3.22

Giuseppe Ungaretti: "O notte" / "Ó noite": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti

 



Ó noite



O ansioso abraço da aurora

Desvela a folhagem.


Dolorosos despertares.


Folhas, irmãs folhas,

Ouço o vosso lamento.


Outonos,

Moribundas doçuras.


Ó juventude,

Um instante mal nos separa.


Altos sonhos, céus da juventude,

Livre arroubo.


E já deserto estou.


Perdido nesta curva melancolia.


Mas a noite dispersa as distãncias.


Oceânicos silêncios,

Ninhos astrais de ilusões,


Ó noite.










O Notte



Dall'ampia ansia dell'alba

Svelata alberatura.


Dolorosi risvegli.


Foglie, sorelle foglie,

Vi ascolto nel lamento.


Autunni,

Moribonde dolcezze.


O gioventù,

Passata è appena l'ora del distacco.


Cieli alti della gioventù,

Libero slancio.


E già sono deserto.


Preso in questa curva malinconia.


Ma la notte sperde le lontananze.


Oceanici silenzi,

Astrali nidi d'illusione,


O notte.






UNGARETTI, Giuseppe. "O notte" / "Ó noite". In:_____ Poemas. Seleção e tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.

22.3.22

Ricardo Silvestrin: "Lixo sem luxo"

 



Lixo sem luxo


Ele sabe que será jogado 

na lata de lixo da história,

mas esperneia.

Tira de sua cabeça,

como um coelho morto

de uma podre cartola,

ideias sem serventia.

Os medíocres que o seguem

aplaudem sua iniciativa

e votam em assembleia

os dejetos que se transformam

em decretos.






SILVESTRIN, Ricardo. "Lixo sem luxo". In:_____ Carta aberta ao Demônio. Porto Alegre: Libretos, 2021.


20.3.22

16.3.22

Eugénio de Andrade: "Eu amei esses lugares"

 




Eu amei esses lugares



Eu amei esses lugares

onde o sol

secretamente se deixava acariciar.


Onde passaram lábios,

onde as mãos correram inocentes,

o silêncio queima.


Amei como quem rompe a pedra,

ou se perde

na vagarosa floração do ar.





ANDRADE, Eugénio de. "Eu amei esses lugares". In:_____ "Matéria solar". In: SARAIVA, Arnaldo (org.). Poemas de Eugénio de Andrade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

12.3.22

Antero de Quental: "Nocturno"

 



Nocturno


Espírito que passas, quando o vento

Adormece no mar e surge a lua,

Filho esquivo da noite que flutua,

Tu só entendes bem o meu tormento...


Como um canto longínquo – triste e lento –  

Que voga e subtilmente se insinua,

Sobre o meu coração, que tumultua,

Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...


A ti confio o sonho em que me leva

Um instinto de luz, rompendo a treva,

Buscando, entre visões, o etemo Bem.


E tu entendes o meu mal sem nome,

A febre de Ideal, que me consome,

Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!






 QUENTAL, Antero de. "Nocturno". In:_____ Sonetos. Edição organizada por António Sérgio. Lisboa: Livraria Sá da Costa Editora, 1963.

9.3.22

Vasco Gato: "A mdmória"

 



A memória



A memória

do dia em que

o teu cão morreu

e entendeste que

a roupa da vida

não pára de encolher

há-de ser revisitada

até servir

de tecto ao coração.


A capela sistina

é uma manta de retalhos

e tu

dois dedos 

que jamais se tocam.







GATO, Vasco. "A memória". In:_____ Um passo sobre a terra. São Paulo: Corsário-Satã, 2021.

6.3.22

Marco Lucchesi: "Luz"

 



Luz



modula


a pupila


nas trevas


o raio


do poema



em sua


tão densa


luz





LUCCHESI, Marco. "Luz". In:_____ Clio. São Paulo: Blblioteca Azul, 2014.

4.3.22

Paul Valéry: "Le Sylphe" / "O Silfo": Nelson Ascher




O Silfo



Entrevisto e esquivo,

Eu sou esse aroma

Finado mas vivo

Que no vento assoma!


Entrevisto e incerto,

Acaso ou talento?

Mal se chega perto,

Concluiu-se o intento!


Entrelido e oculto?

Que erros, ao arguto,

Foram prometidos!


Entrevisto e alheio

Lapso nu de um seio

Entre dois vestidos!







Le Sylphe



Ni vu ni connu

Je suis le parfum

Vivant et défunt

Dans le vent venu !


Ni vu ni connu

Hasard ou génie ?

À peine venu

La tâche est finie !


Ni lu ni compris ?

Aux meilleurs esprits

Que d’erreurs promises !


Ni vu ni connu,

Le temps d’un sein nu

Entre deux chemises 





VALÉRY, Paul. "Le Sylphe / "O Silfo". In: ASCHER, Nelson. Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro: Imago, 1998. 




1.3.22

Luís Miguel Nava: "Sem outro intuito"

 



Sem outro intuito



Atirávamos pedras


à água para o silêncio vir à tona.


O mundo, que os sentidos tonificam,


surgia-nos então todo enterrado


na nossa própria carne, envolto


por vezes em ferozes transparências


que as pedras acirravam


sem outro intuito além do de extraírem


às águas o silêncio que as unia.











NAVA,  Luís Miguel. "Sem outro intuito". In:______ Poesia completa1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

25.2.22

W. H. Auden: "This lunar beauty" / "Lunar, esta beleza"; trad. de José Paulo Paes e João Moura Jr.

 



Lunar, esta beleza



Lunar, esta beleza

É primeva, inteira,

Não tem nenhuma história.

Se a beleza mais tarde

Exibe algum traço,

Foi porque teve amante,

Já não é como antes.


Nisto, qual em sonho,

Vige um outro tempo,

Perdido se o dia

De tudo se apropria.

O tempo são centímetros

E mudanças de alma

Que espectro assombrou,

Perdeu e desejou.


Mas isto, por certo,

Não foi coisa de espectro,

Nem espectro, ela finda,

Sentiu-se a gosto, ainda,

E enquanto persista,

Nem se chega amor

A tal doçura e a dor

Tampouco lhe vem dar

Seu infinito olhar.




This lunar beauty



This lunar beauty

Has no history,

Is complete and early;

If beauty later

Bear any feature

It had a lover

And is another.


This like a dream

Keeps other time,

And daytime is

The loss of this;

For time is inches

And the heart’s changes

Where ghosts has haunted,

Lost and wanted.


But this was never

A ghost’s endeavour

Nor, finished this,

Was ghost at ease;

And till it pass

Love shall not near

The sweetness here

Nor sorrow take

His endless look.







AUDEN, W.H. "This lunar beauty"/ "Lunar, esta beleza". In:_____ Poemas. Seleção de João Moura Jr.; tradução de José Paulo Paes e João Moura Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

21.2.22

Paulo Henriques Britto: "Ao leitor"

 



Ao leitor


Se fosse o Ser quem fala no poema

eu calaria a boca, e é até possível

que o escutasse, um pouco. Sem problema;

seria, eu sei, um papo de alto nível.


Mas esta fala aqui -- garanto -- vem

de um mero estar, minúsculo, mortal,

prosaico e costumeiro, a voz de alguém

que embore sonhe no condicional


habita -- na vigília -- o indicativo,

e fala sempre, sempre, na primeira

e singular pessoa que está sendo


agora e aqui, como qualquer ser vivo

com o dom da palavra (a trapaceira),

tal qual faz quem me lê neste momento.





BRITTO, Paulo Henriques. "Ao leitor". In:  Uma antologia comemorativa.. São Paulo: Companhia das Letras, 35 anos.

19.2.22

Olavo Bilac: "Última página"

 



Última página



Primavera. Um sorriso aberto em tudo. Os ramos

Numa palpitação de flores e de ninhos.

Doirava o sol de outubro a areia dos caminhos

(Lembras-te, Rosa?) e ao sol de outubro nos amamos.


Verão. (Lembras-te Dulce?) À beira-mar, sozinhos,

Tentou-nos o pecado: olhaste-me... e pecamos;

E o outono desfolhava os roseirais vizinhos,

Ó Laura, a vez primeira em que nos abraçamos...


Veio o inverno. Porém, sentada em meus joelhos,

Nua, presos aos meus os teus lábios vermelhos,

(Lembras-te, Branca?) ardia a tua carne em flor...


Carne, que queres mais? Coração, que mais queres?

Passas as estações e passam as mulheres...

E eu tenho amado tanto! e não conheço o Amor!





BILAC, Olavo. "Última página". In:BARBOSA, Frederico. Cinco séculos de poesa. Antologia da poesia clássica brasileira. São Paulo: Landy Editora, 2003.


11.2.22

Jean-Pierre Lemaire: "LE PETIT CAVALIER" / "O PEQUENO CAVALEIRO": trad. de Júlio Castñon Guimarães




O PEQUENO CAVALEIRO


Devora pelo caminho

campos verdes e amarelos

castelos, rios

todas as novidades 

do mundo inesgotável

Está cada vez maior

cada vez mais leve

Quse ouve bater 

o coração lento do céu

Tudo o que come 

se transforma em nuvem





 



LE PETIT CAVALIER


Il avale en route

les champs verts et jaunes

les châteaux, les rivières

toutes les nouveautés

du monde inépuisable

Il est de plus en plus grand

de plus en plus léger

Il entend presque battre

le coeur lent du ciel

Tout ce qu'il mange

se transforme en nuage






LEMAIRE, Jean-Pierre. "LE PETIT CAVALIER" / "O PEQUENO CAVALEIRO". In:_____  Poemas. Trad. por Julio Castañon Guimarães. São Paulo: Lumme Editor, 2010.

8.2.22

Arthur Nogueira canta "Brasileiro Profundo"

 



Assistam, no You Tube, Arthur Nogueira a cantar "Brasileiro Profundo", uma canção feita com versos meus e notas musicais dele. Eis o link: https://youtu.be/JOrgmS3FSq0


3.2.22

Wallace Stevens: "Of mere being" / "Meramente ser": trad. de Paulo Henriques Britto

 



Meramente Ser


A palmeira no final da mente,

Além do pensamento último, se eleva

No brônzeo cenário.


Um pássaro de penas de ouro

Canta na palmeira, sem sentido humano,

Sem sentimento humano, um canto estrangeiro.


Então você entende que não é a razão

Que nos traz tristeza ou alegria.

O pássaro canta. As penas brilham.


A palmeira paira no limiar do espaço.

O vento roça devagar seus galhos.

As penas de ouro do pássaro resplendem fogo.






Of mere being



The palm at the end of the mind,

Beyond the last thought, rises

In the bronze decor,


A gold-feathered bird

Sings in the palm, without human meaning,

Without human feeling, a foreign song.


You know then that it is not the reason

That makes us happy or unhappy.

The bird sings. Its feathers shine.


The palm stands on the edge of space.

The wind moves slowly in the branches.

The bird's fire-fangled feathers dangle down.





STEVENS, Wallace. "Of mere being" / "Meramente ser". In: O imperador do sorvete e outros poemas.

Seleção e tradução de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Cmpanhia das Letrs, 2017.




31.1.22

Armando Freitas Filho: "Escritório"

 



Escritório



Igual ao que as pedras pesam

os livros lidos, relidos e idos

me carregam, não sei se mais

ou menos, do que aqueles que não.

Do que aqueles tantos fechados

ou só folheados que curvam a tábua

da estante, que cavam um lugar

cerrados, cegos de mim, que vão fundo

mesmo ficando parados - à espera

e que apenas as traças atravessam.





FREITAS FILHO, Armando. "Escritório". In:_____ "Duplo cego". In:_____ Uma antologia . Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2006. 

28.1.22

Paulo Henriques Britto: "À margem do Douro"

 



À margem do Douro



Não espero nada, e já me satisfaço

com a consciência de ainda estar em mim

e não de volta ao nada de onde vim.

Por ora, ao menos, ainda ocupo espaço,

junto a uma mesa no Cais da Ribeira;

permito-me, sem culpa, desfrutar

de pão, e queijo, e vinho, e vista, e ar,

todo o entorno da minha cadeira.

Que os dias que me restam não me tragam

apenas a miséria de contá-los

pra ao fim ver que as contas não fecham. Peço

demais? Eu, que não sou desses que tragam

a vida num só gole e no gargalo,

sem ter nem mesmo perguntado o preço.




BRITTO, Paulo Henriques. "À margem do Douro". In:_____ "Nenhum mistério". In:_____ Por Ora. Poesia reunida (1982-2018). Lisboa: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 2021.

26.1.22

António Carlos Cortez: "Lição de poesia"

 



Lição de poesia

 

 

Ganhar, perder tudo jogamos

dia a dia. Importa viver,

esquecer o que é preciso, lembrar

quanto entre nós foi dito, reescrito,

desmentido... Não nos disseram

que, fechada qualquer porta, o sentido

vem, noite após noite, vencer seu prazo,

derrotando o que pensaste teres vencido

e regressa, entre perdas, entre pedras,

como um dardo um ensurdecedor som mudo

— o amor que no viver s'esgota

exactamente como s'esgota tudo






CORTEZ, António Carlos. "Lição de poesia". In:_____ Diamante. Alfragide: Publicações Dom Quixote, 2021.


23.1.22

Giuseppe Ungaretti: "Mattina" / "Manhã": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti

 



Manhã

Santa Maria la Longa, 26 de janeiro de 1917


Ilumino-me

de imenso







Mattina

Santa Maria la Longa il 26 gennaio 1917


M''illumino

d'immenso






UNGARETTI, Giuseppe. "Mattina" / "Manhã". In: CAVALCANTI, Geraldo Holanda (seleção, tradução e notas). Poemas. Edição Bilíngue. São Paulo: EDUSP, 2017.

21.1.22

Fávia Souza Lima: "Nada não"

 



NADA NÃO


Toda coisa

que não fala

fala alguma coisa.

Qualquer coisa

que se sinta

-- mesmo nada -- 

não é nada

-- e fala alguma coisa.

Todo nada

que não fala

fala alguma coisa.

E não é nada.

___





LIMA, Flávia Souza. "Nada não". In:_____ "Pandêmicas". In:_____ Desjeitos. Rio de Janeiro: Numa Editora, 2021.

20.1.22

Christovam de Chevalider: "Medo"

 



Medo


                ao Ricardo


Meu medo não é o vírus

que pode me tirar o ar.

Temo pelo desconhecido 

medo maior que o do mar.


Meu medo, repito, não é o vírus

que pode de tudo me afastar.

Meu medo é perder teu sorriso

esse jeito tão teu de me olhar.


Meu medo, já disse, não é o vírus

ainda que ele possa me matar.

Medo maior é o desvario

de um dia não mais te encontrar.






CHEVALIER, Christovam de. "Medo". In:_____. Inventário de esperanças e outros poemas. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2021.

18.1.22

Fernando Pessoa: "O dos castelos"

 



O dos castelos




A Europa jaz, posta nos cotovelos:

De Oriente a Ocidente jaz, fitando,

E toldam-lhe românticos cabelos

Olhos gregos, lembrando.


O cotovelo esquerdo é recuado;

O direito é em ângulo disposto.

Aquele diz Itália onde é pousado;

Este diz Inglaterra onde, afastado,

A mão sustenta, em que se apoia o rosto.


Fita, com olhar esfíngico e fatal,

O Ocidente, futuro do passado.


O rosto com que fita é Portugal.





PESSOA, Fernando. “O dos castelos”. In: Mensagem. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997.

16.1.22

Fernando Pessoa / Álvaro de Campos: "Magnificat"

 



Magnificat



Quando é que passará esta noite interna, o universo,

E eu, a minha alma, terei o meu dia?

Quando é que despertarei de estar acordado?

Não sei. O sol brilha alto,

Impossível de fitar.

As estrelas pestanejam frio,

Impossíveis de contar.

O coração pulsa alheio,

Impossível de escutar.

Quando é que passará este drama sem teatro,

Ou este teatro sem drama,

E recolherei a casa?

Onde? Como? Quando?

Gato que me fitas com olhos de vida, que tens lá no fundo?

É esse! É esse!

Esse mandará como Josué parar o sol e eu acordarei;

E então será dia.

Sorri, dormindo, minha alma!

Sorri, minha alma, será dia!






PESSOA, Fernando. “Magnificat”. In:_____ “Poesias de Álvaro de Campos“. In: “Ficções do interlúdio”. In:_____ Obra poética. Org. por Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1980.


9.1.22

José Gomes Ferreira: "LXIV: Sim, a morte vazia"

 



LXIV


Sim, a morte vazia,

sem anjos na paisagem,

nem a dor duma estrela

no silêncio medonho.


Só a morte vazia

e esta coragem 

de não querer enchê-la

de sonho.





FERREIRA, José Gomes. “LXIV: Sim, a morte vazia”. In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui. Poemas portugueses: Antologia da poesia portuguesa do Séc. XIII ao Séc XXI. Porto: Porto Editora, 2009.


2.1.22

Ferreira Gullar: "A alegria"

 



A alegria


O sofrimento não tem

nenhum valor

Não acende um halo

em volta de tua cabeça, não

ilumina trecho algum

de tua carne escura

(nem mesmo o que iluminaria

a lembrança ou a ilusão

de uma alegria).


Sofres tu, sofre

um cachorro ferido, um inseto

que o inseticida envenena.

Será maior a tua dor

que a daquele gato que viste

a espinha quebrada a pau

arrastando-se a berrar pela sarjeta

sem ao menos poder morrer?


A justiça é moral, a injustiça

não. A dor

te iguala a ratos e baratas

que também de dentro dos esgotos

espiam o sol

e no seu corpo nojento

de entre fezes

       querem estar contentes.





GULLAR, Ferreira. “A alegria”. In: ______“Na vertigem do dia”. In:______Poesia completa, teatro e prosa. Org. por Antonio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008.