Mostrando postagens com marcador William Shakespeare. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador William Shakespeare. Mostrar todas as postagens

24.4.20

William Shakespeare: Sonnet 57 / Soneto 57: trad. de Adriano Nunes




Soneto 57


Servo de ti, farei o que senão
Zelar por se cumprir tua vontade?
Não tenho excelso tempo a ser em vão,
Nem ofício a fazer que não te agrade.
Sequer censuro a hora que é infinda
Ao cuidar,  meu senhor, do tempo teu,
Nem penso co' amargor a ausência advinda
Quando ao servo teu deste outro adeus.
Nem ouso sob ciúmes perguntar
Onde estarás ou quais os teus negócios,
E espero, triste servo, co' o pensar
Que feliz é quem frui contigo os ócios.
  Como tolo o amor é, que em teu querer,
  No que possas fazer, mal algum vê.




Sonnet 57


Being your slave what should I do but tend,
Upon the hours, and times of your desire?
I have no precious time at all to spend,
Nor services to do, till you require.
Nor dare I chide the world-without-end hour,
Whilst I, my sovereign, watch the clock for you,
Nor think the bitterness of absence sour
When you have bid your servant once adieu;
Nor dare I question with my jealous thought
Where you may be, or your affairs suppose,
But, like a sad slave, stay and think of nought
Save, where you are, how happy you make those.
  So true a fool is love, that in your will,
  Though you do anything, he thinks no ill.






SHAKESPEARE, William. Sonnet 57 / Soneto 57. In:_____. The Sonnets and a Lover's complaint. Org. por John Kerrigan. London: Penguin, 2009.

29.1.19

William Shakespeare: "Sonnet 18" / "Soneto 18": trad. de Geraldo Carneiro



Soneto 18

Te comparar com um dia de verão?
Tu és mais temperada e adorável.
Vento balança em maio a flor-botão
E o império do verão não é durável.
O sol às vezes brilha com rigor,
Ou sua tez dourada é mais escura;
Toda beleza enfim perde o esplendor,
Por acaso ou descaso da Natura;
Mas teu verão nunca se apagará,
Perdendo a posse da beleza tua,
Nem a morte rirá por te ofuscar,
Se em versos imortais te perpetuas.
    Enquanto alguém respire e veja e viva,
    Viva este poema, e nele sobrevivas.





Sonnet 18

Shall I compare thee to a summer’s day?
Thou art more lovely and more temperate:
Rough winds do shake the darling buds of May,
And summer’s lease hath all too short a date:
Sometime too hot the eye of heaven shines,
And often is his gold complexion dimmed,
And every fair from fair sometime declines,
By chance, or nature’s changing course untrimmed:
But thy eternal summer shall not fade,
Nor lose possession of that fair thou ow’st,
Nor shall death brag thou wand’rest in his shade,
When in eternal lines to time thou grow’st,
    So long as men can breathe or eyes can see,
    So long lives this, and this gives life to thee.







SHAKESPEARE, William. "Sonnet 18" / "Soneto 18". In:_____. O discurso do amor rasgado. Poemas, cenas e fragmentos de William Shakespeare. Trad. de Geraldo Carneiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

16.9.16

Shakespeare: "T'is the time's plague" / "A tragédia deste tempo": trad. Inês Pedrosa



'T'is the time's plague when madmen lead the blind.

SHAKESPEARE, William. King Lear, act IV, scene I.


A tragédia deste tempo é que os loucos conduzem os cegos.

SHAKESPEARE, William, King Lear, act IV, scene I. In: Pedrosa, Inês (org. e trad.). As lições de vida de William Shakespeare. Alfragide: Dom Quixote, 2016.





7.4.14

William Shakespeare: "Sonnet 56" / "Soneto 56": trad. Adriano Nunes





Sonnet 56

Sweet love, renew thy force; be it not said
Thy edge should blunter be than appetite,
Which but today by feeding is allay'd,
Tomorrow sharpen'd in his former might:
So, love, be thou; although today thou fill
Thy hungry eyes even till they wink with fullness,
Tomorrow see again, and do not kill
The spirit of love with a perpetual dullness.
Let this sad interim like the ocean be
Which parts the shore, where two contracted new
Come daily to the banks, that, when they see
Return of love, more blest may be the view;
Else call it winter, which being full of care
Makes summer's welcome thrice more wish'd, more rare.


SHAKESPEARE, William. The sonnets and A Lover's Complaint. Edited by John Kerrigan. London: Penguin Classics, 2009.



Soneto 56

Doce amor, renova-te; que não seja dito
Ser mais cego teu gume que teu apetite,
Que está saciado por ter hoje comido,
Mas amanhã co' antiga força está em riste.
Assim, amor, sê tu; embora bem se fartem
A piscar, plenos, teus olhares esfaimados,
Amanhã enxerguem novamente, e não matem
O espírito do amor com um perpétuo enfado.
Deixa este triste ínterim como o mar ser
Que separa a praia, onde um nubente par
Vem à orla diariamente, e por ver
O retorno do amor, mais ditoso é o olhar.
Ou então o inverno, que cheio de cuidado
Faz o verão três vezes mais raro e almejado.


Tradução de Adriano Nunes

3.4.14

William Shakepeare: "Sonnet LV" / "Soneto LV": trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos






Sonnet LV


Not marble, nor the gilded monuments

Of princes, shall outlive this powerful rime;

But you shall shine more bright in these contents

Than unswept stone, besmear’d with sluttish time.

When wasteful war shall statues overturn,

And broils root out the work of masonry,

Nor Mars his sword nor war’s quick fire shall burn

The living record of your memory.

’Gainst death and all-oblivious enmity

Shall you pace forth; your praise shall still find room

Even in the eyes of all posterity

That wear this world out to the ending doom.

  So, till the judgment that yourself arise,

  You live in this, and dwell in lovers’ eyes.





Soneto LV


De mármore não sei, nem de áureos monumentos

Que sobrevivam ao meu canto poderoso:

O tempo mancha a pedra, enquanto em meus acentos

Tu sempre ostentarás um brilho vigoroso.

Quando estátuas a guerra infrene derruir

E as próprias construções das bases arrancar,

Não poderão espada ou fogo destruir

Este arquivo imortal que te há de relembrar.

Indiferente a morte e a olvido hás de viver,

E encontrará guarida o teu louvor supremo

No olhar das gerações que se hão de suceder

Até que o mundo atinja o seu momento extremo.

   Assim, até o juízo em que despertarás,
   Em meu verso e no olhar dos que amam viverás.




SHAKESPEARE, William. Sonetos. Org. e trad. De Péricles Eugénio da Silva Ramos. São Paulo: Hedra, 2008.

20.2.13

William Shakespeare: "Sonnet 76" / "Soneto 76": trad. Geraldo Carneiro








Soneto 76

Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?
Por que só escrevo essa monotonia
Tão incapaz de produzir inventos
Que cada verso quase denuncia
Meu nome e seu lugar de nascimento?
Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas.
E assim vou refazendo o que foi feito,
Reinventando as palavras do poema.
   Como o sol, novo e velho a cada dia,
   O meu amor rediz o que dizia.



Sonnet 76

Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods, and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O know sweet love I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
   For as the sun is daily new and old,
   So is my love still telling what is told.





SHAKESPEARE, William. "Sonnet 76". In: CARNEIRO, Geraldo (trad. e org.). O discurso do amor rasgado. Poemas, cenas e fragmentos de William Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.


10.2.13

William Shakespeare: "Sonnet XVI" / "Soneto XVI": trad. de Adriano Nunes







Soneto XVI

Por que não usas modo mais viril
Pra lutar contra o Tempo, o sanguinário?
E contra a derrocada, todo o ardil
Mais ditoso que o meu verso ordinário?

Agora te fincas na alegre aurora,
E vero virgem jardim inda intato
Com ardor daria tua grã flora,
Mais símile que teu próprio retrato.

Logo a verve da vida a vida ampara,
Pois, o lápis do Tempo, ou minha pena,
Nem o íntimo valor ou a graça rara,
Aos homens não engendram melhor cena.

Entregando-te a tudo, com certeza,
Permanecerás por tua destreza.




Sonnet XVI

But wherefore do not you a mightier way
Make war upon this bloody tyrant, Time?
And fortify yourself in your decay
With means more blessed than my barren rhyme?

Now stand you on the top of happy hours,
And many maiden gardens yet unset
With virtuous wish would bear your living flowers,
Much liker than your painted counterfeit:

So should the lines of life that life repair,
Which this, Time's pencil, or my pupil pen,
Neither in inward worth nor outward fair,
Can make you live yourself in eyes of men.

To give away yourself keeps yourself still,
And you must live, drawn by your own sweet skill.




NUNES, Adriano. "William Shakespeare: 'Sonnet XVI'. Disp. no site Laringes de Grafite. URL: http://astripasdoverso.blogspot.com.br/2013/02/william-shakespeare-sonnet-xvi.html. Acessado em 09/02/2013.

18.12.11

Sobre um texto apócrifo




Um amigo me enviou por e-mail um poema atribuído a Shakespeare. Ele começa assim:

“Depois de algum tempo você aprende a diferença,
a sutil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E você aprende que amar não significa apoiar-se.
E que companhia nem sempre significa segurança.
[...]”

Como sou um aficionado de Shakespeare, vi logo que essas palavras não foram escritas pelo bardo. Ao perceber esse fato, resolvi fazer uma pesquisa sobre sua autoria. Nos sites brasileiros da Internet, ela é quase sempre atribuída a Shakespeare. Nos americanos, o texto, cujo começo, em ingles, diz

“After a while you learn
The subtle difference between
Holding a hand and chaining a soul
And you learn that love doesn't mean leaning
And company doesn't always mean security.
[…]”

é ora atribuído a Shakespeare, ora a uma certa Veronica A. Shoffstall. Ocorre que não se encontra, no catálogo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, absolutamente nenhuma obra de tal escritora. Isso indica que ela simplesmente não existe.

Há sites, porém, em que o texto em questão é atribuído a Jorge Luis Borges. Isso ocorre principalmente nos sites hispânicos, onde ele se dá como

“Después de algún tiempo aprenderás la sutil diferencia entre
sostener una mano y encadenar un alma,
y aprenderás que amar no significa apoyarse,
y que compañía no siempre significa seguridad.
[…]”

Ora, ocorre que tal poema não se encontra nas Obras completas de Borges editadas pela Emecé, nem me parece ter nada a ver com Borges, do ponto de vista estilístico. Trata-se, na verdade, de um texto apócrifo. De todo modo, segue-se que, embora não tenha sido escrito por Borges, o mistério de sua autoria é, certamente, borgeano...

19.9.10

A figura do autor




O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no sábado, 18 de setembro.



A figura do autor


EMBORA ROLAND Barthes (1915-1980) seja um autor que tanto leio quanto admiro, manifestei, em artigo aqui publicado no mês passado, discordar da sua tese de que as figuras do autor e da originalidade fossem produtos da época moderna. Observei que elas existem desde a Antiguidade, tendo surgido com a generalização do emprego da escritura.

Vários leitores me enviaram e-mails, defendendo as proposições que eu combatera. Um comentarista anônimo formulou bem uma ideia que resolvi comentar, pois parece ser hoje compartilhada por muita gente. Segundo ele, "originalidade no sentido forte surgiu no século 18, quando os escritores começaram a ganhar dinheiro com a venda de livros. Antes o que existia era o patronato e se vivia desse dinheiro. Fora o prestígio, pouco valia insistir na autoria". Entre os exemplos de autores que pouco se importavam com a originalidade, ele citava Dante e Shakespeare.

Embora a originalidade seja sempre relativa, isso não significa que não seja importante. Se encontrarmos duas obras literárias (ou duas peças musicais) idênticas, diremos não estar diante de duas obras, mas da mesma. Etimologicamente, aliás, a palavra latina "auctor", de "augere", isto é, "aumentar", significa aquele que aumenta ou incrementa. Não é autor quem simplesmente reproduz o que já há.

Quanto à valorização da originalidade entre os antigos, basta lembrar que o filósofo Lucrécio (séc. 1 a.C.), afirmava pretender percorrer, na poesia, caminhos que ninguém trilhara antes, e concluía: "É bom ir às fontes virgens e beber, é bom colher flores desconhecidas e com elas trançar para minha fronte coroa insigne, qual nunca a ninguém puseram as Musas".

E nada é mais questionável do que a menção de Dante e Shakespeare como autores para os quais era indiferente a originalidade, uma vez que precisamente Dante foi tido como o protótipo do indivíduo criativo pelo filósofo Schelling, e precisamente Shakespeare foi considerado o gênio original por excelência por, entre outros, Diderot e Goethe.

De fato, o direito autoral surgiu com o iluminismo. É racional que, uma vez que alguém ganhe reconhecimento e/ou dinheiro com a exploração de uma obra, deva algo ao autor. Mas quem disse que o valor da autoria se reduz ao dinheiro que ela possa proporcionar? Isso é evidentemente falso. Pense-se, por exemplo, na situação dos poetas.

Todos sabem que livro de poesia não dá dinheiro. No entanto, nada seria mais absurdo do que supor que os poetas fazem menos questão de ter reconhecida a autoria das obras que escreveram do que os escritores cujas obras são capazes de render direitos autorais. Na verdade, talvez seja exatamente o contrário. "Nos domínios da criação, que são também os domínios do orgulho", como diz, com razão, Paul Valéry, "a necessidade de se distinguir é indivisível da existência mesma".

Contudo, no caso da poesia, essa distinção mesma tem um caráter distinto. Ela não se reduz à mera fama mundana. Em texto que escreveu para a reabertura do teatro de Weimar, em outubro de 1798, Schiller explica que os artistas do palco precisavam do aplauso do público porque a arte deles (ao contrário da dos poetas, que é capaz de perdurar por séculos) se extinguia junto com suas vozes e gestos. Como a posteridade não lhes teceria grinaldas (como as que costumava tecer aos poetas), eles não podiam deixar de ser ávidos do reconhecimento contemporâneo. Assim, por compaixão, o poeta Schiller pedia ao público que aplaudisse os atores.

Ao falar da perenidade da arte do poeta, Schiller podia estar pensando na obra do poeta romano Ovídio (sec. 1 d.C.), por exemplo. Este, concluindo seu grande poema “Metamorfoses”, afirmou que terminara obra “que nem a ira de Júpiter / nem o fogo ou o ferro ou a voraz velhice / abolirão. Quando chegar a minha hora / será para meu corpo apenas, encerrando / os meus dias; mas a melhor parte de mim / alçarei muito acima dos mais altos astros, / perene, e nosso nome será indelével. / Que onde quer que se abra a potência de Roma / sobre as terras dominadas eu seja lido / pelo povo, e de fama, por todos os séculos / (se os presságios dos vates valerem), eu viva”. Os presságios valeram.

A distinção que os poetas enquanto poetas almejam não se reduz, portanto, nem a ganhos materiais nem à fama mundana. O que pretendem – desde a Antiguidade – é a glória de terem sido os autores de poemas que, valendo por si por serem, como as demais obras clássicas, dotados do "eterno e irreprimível frescor" de que falava o poeta Ezra Pound, sejam indiferentes às contingências do tempo.

11.11.08

William Shakespeare: Soneto LXXIII. Tradução de Ivo Barroso

Soneto LXXIII

Em mim tu podes ver a quadra fria
Em que as folhas, já poucas ou nenhumas,
Pendem do ramo trêmulo onde havia
Outrora ninhos e gorjeio e plumas.
Em mim contemplas essa luz que apaga
Quando no poente o dia se faz mudo
E pouco a pouco a negra noite o traga,
Gêmea da morte, que cancela tudo.
Em mim tu sentes resplender o fogo
Que ardia sob as cinzas do passado
E num leito de morte expira logo
Do quanto que o nutriu ora esgotado.

Sabê-lo faz o teu amor mais forte
Por quem em breve há de levar a morte.



SHAKESPEARE, William. "Soneto LXXIII". In:_____. 50 sonetos. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.




Sonnet LXXIII

That time of year thou mayst in me behold,
When yellow leaves, or none, or few do hang
Upon those boughs which shake against the cold,
Bare ruined choirs, where late the sweet birds sang.
In me thou seest the twilight of such day,
As after sunset fadeth in the west,
Which by and by black night doth take away,
Death's second self that seals up all in rest.
In me thou seest the glowing of such fire,
That on the ashes of his youth doth lie,
As the death-bed, whereon it must expire,
Consumed with that which it was nourished by.

This thou perceiv'st, which makes thy love more strong,
To love that well, which thou must leave ere long.



SHAKESPEARE, William. The complete works. Edited with a glossary by W.J. Craig. London: Oxford University Press, 1957.

30.6.08

Sérgio Salvia Coelho: "Wagner Moura faz o Hamlet da sua geração"

Assisti à estréia do excelente "Hamlet" dirigido por Aderbal Freire-Filho e protagonizado pelo Wagner Moura, que mereceu, em 24 do corrente, na "Ilustrada", da Folha de São Paulo, a seguinte crítica de Sérgio Salvia Coelho, que se encontra disponível no seu blog, "Na Moita" (http://namoita.zip.net/):


WAGNER MOURA FAZ O HAMLET DA SUA GERAÇÃO

Wagner Moura lançou-se na empreitada iniciática de “fazer seu Hamlet” anunciando a intenção que fosse apenas mais uma montagem. Falhou: é o Hamlet emblemático da sua geração. Espelho inesgotável, mas que reflete apenas o que se põe na sua frente, a obra prima de Shakespeare, síntese do Teatro, já teve o rosto compenetrado de Sérgio Cardoso, do Teatro do Estudante, que assumia a responsabilidade de construir o moderno teatro brasileiro; e no extremo oposto, um Marcelo Drummond se estraçalhando em uma entrega camicase ao caos dos anos 90, na montagem do Teatro Oficina.

Moura, Hamlet do milênio, tem pela frente um país que se reergue praticamente de ruínas, mas tendo aprendido importantes lições. Vestindo o personagem como uma armadura, consciente da batalha, Moura precisa primeiro exorcizar o fantasma da grandiloqüência com o humor adolescente que tanto o marcou. Não é pela melancolia, mas pelo deboche exasperado que ele rejeita a podridão de seu reino, e ganha a platéia nos trocadilhos e na marcação frenética. Mas há método nessa loucura: quando é preciso, triunfa pela simplicidade, e inesquecíveis monólogos marcam sua entrada definitiva no mundo adulto.

Com uma preciosa tradução dividida entre ele, Bárbara Harrington e o diretor Aderbal Freire-Filho, se faz compreender sem perder o frescor nem a beleza sonora. O “ser ou não ser” tem seu peso devido, ou seja, um devaneio entre parênteses, quando o mais importante está em suas considerações sobre o próprio teatro, e aí a bandeira de Shakespeare se desfralda com o vigoroso vento da sede por um teatro livre dos truques retóricos da autocontemplação.

Para isso, é preciso um diretor que ponha seu currículo inteiro em cena, como faz Freire-Filho. Não pode ser menos, com “Hamlet”: tudo o que o diretor já fez soa como uma preparação para o que se vê aqui. No cenário, retoma com Fernando Mello da Costa a experiência do “Púcaro Búlcaro”: coxias abertas, abarrotadas, com atores atentos, em contraste com o palco nu. Há o vídeo em cena, que esfriava “O Que Diz Molero”, e que agora acompanha passo a passo o texto, desdobrando suas leituras com grande impacto visual. Há sobretudo a soberania total do ator, que dispõe de todos os recursos do “romance em cena”, que lhe põe na mão instantaneamente tudo o que ele precisa.

Em uma das muitas metalinguagens, o pai de Hamlet, rei destronado por um canastrão, é uma entidade coletiva, feita por todo o elenco de apoio que se reveza na armadura: a verdadeira majestade é da trupe, não do indivíduo. Mas cada peça desse quebra-cabeças é precisamente ajustada.

Tonico Pereira, com sua bonomia que remeteria mais a Polônio, faz um Rei Cláudio extremamente simpático, e por isso perigoso: humano na sua fraqueza, Pereira atinge a maturidade como ator encontrando a tragédia no centro do cômico.

Georgiana Góes é uma Ofélia adolescente que se estraçalha na dor, por sambas e frevos que parecem improvisados na hora (façanha do autor da trilha, o hermano Rodrigo Amarante) para culminar no assombro do grito de Munch. Fábio Lago faz um Laertes transfigurado pelo ódio, que recobra a integridade no final; enquanto que Gillray Coutinho aproveita tudo o que Polônio pode lhe oferecer, na sua técnica espantosa, frenesi de tiques e pirotecnia verbal. Marcelo Flores e Cláudio Mendes, par de clowns meticulosos, sabem também honrar seus solos, enquanto coveiros e atores. Carla Ribas tem grande dignidade como Gertrudes, mas fica um pouco deslocada quando o desvario triunfa. Caio Junqueira (um Horácio carismático) e Felipe Kouri (que tira o máximo dos menores personagens) completam um elenco no qual ninguém faz sombra a ninguém, e é a história que prevalece.

A luz de Maneco Quinderé é sutil e precisa, enquanto que o figurino de Marcelo Pies sabe conciliar despojamento e requinte. Este Hamlet é indispensável e antológico justamente por sua essencialidade. Não busca ser original, mas eficiente, e faz um apelo emocionante e contagiante pela própria grandeza do Teatro. É para deixar qualquer um que tenha cedido à idéia da morte do teatro com vergonha. Na ratoeira de Hamlet, o que fica preso é o coração da platéia, com os olhos abertos para se ver refletido nesse espelho infinito. (quatro estrelas)