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29.7.22

Pietro Aretino: "Soneto 3": trad. de José Paulo Paes




3


Para gozar Europa, em boi mudou-se

Jove, pelo desejo compelido,

E em mais formas bestiais, posta no olvio

A sua divindade, transformou-se.


Marte perdeu também aquele doce

Repouso a um Deus somente consentido.

Por seu muito trepar foi bem punido,

Qual rato que na rede embaraçou-se.


Este que ora mirais, em contradita,

Podendo, sem perigo, a vida interia

Trepar, a cu nem cona se habilita.


Por isso, que é sem dúvida uma asneira

Inaudita, solene, verdadeira,

Nunca mais neste mundo se repita.


Insossa brincadeira!

Pois não sabes, meu puto, que é malsão

Fazer boceta e cu da própria mão?




3


Per Europa godere in bue cangiossi

Giove, che di chiavarla avea desio,

E la sua deità posta in obblio,

In più bestiali forme trasformossi.


Marte ancor cui perdè li suoi ripossi

Che potea ben goder perchè era Dio

E di tanto chiavar pagonne il fio,

Mentre qual topo in rete pur restossi.


All'incontro costui, che qui mirate,

Che pur senza pericolo potria

Chiavar, non cura potta nè cullate.


Questa per certo è pur coglioneria

Tra le maggiori e più solennizzate

E che commessa mai al mondo sia.


Povera mercanzia!

Non lo sai tu, coglion, ch'è un gran marmotta

Colui che di sua man fa culo e potta.



ARETINO, Pietro. "Soneto 3". In: Sonetos luxuriosos. Trad. de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1981.


11.12.21

Rainer Maria Rilke: "Wir genen um mit Blume, Weinblatt, Frucht" / "Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta": trad. por José Paulo Paes

 


Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta


Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta.

Não falam só a fala das quatro estações.

Do escuro surdem vívidas irisações,

onde o brilho da inveja talvez repercuta


dos mortos que refazem a força da terra.

Que sabemos de sua parte em cada messe?

Há muito, livre, o cerne deles transparece

no próprio barro que os despojos lhes encerra.


Fazem-no de bom grado? é o que nos perguntamos.

Esses frutos intensos, trabalho de escravos,

repontam porventura para nós, seus amos?


Ou serão eles os amos, que dormem ignavos

sob as raízes e nos dão, do seu sobejo,

esse dom entre a muda força bruta e o beijo?





Wir gehen um mit Blume, Weinblatt, Frucht


Wir gehen um mit Blume, Weinblatt, Frucht.

Sie sprechen nicht die Sprache nur des Jahres.

Aus Dunkel steigt ein buntes Offenbares

und hat vielleicht den Glanz der Eifersucht


der Toten an sich, die die Erde stärken.

Was wissen wir von ihrem Teil an dem?

Es ist seit lange ihre Art, den Lehm

mit ihrem freien Marke zu durchmärken.


Nun fragt sich nur: tun sie es gern? …

Drängt diese Frucht, ein Werk von schweren Sklaven,

geballt zu uns empor, zu ihren Herrn?


Sind sie die Herrn, die bei den Wurzeln schlafen,

und gönnen uns aus ihren Uberflüssen

dies Zwischending aus stummer Kraft und Küssen?









RILKE, Rainer Maria. "Wir gehen um mit Blume, Weinblatt, Frucht" / "Ligamo-nos à flor, ao pâmpano e à fruta". In: "Os sonetos a Orfeu". In: R.M. Rilke: Poemas. Org. e trad. por José Paulo Paes. São Paulo: Companhhia das Letras, 1993.




15.10.21

Pietro Arentino: "Questo è un libro d'altro que sonetti" / "Mais que sonetos este livro aninha": trad. José Paulo Paes

 



I


Mais que sonetos este livro aninha,

Mais que éclogas, capítulos, canções.

Tu, Bembo ou Sannazaro, aqui não pões

Nem líquidos cristais e nem florinhas.


Marignan madrigais não escrevinha

Aqui, onde há caralhos sem bridões,

Que em cu ou cona lépidos dispõem-se

Como confeitos dentro da caixinha.


Gente aqui há que fode e que é fodida,

De conas e caralhos há caudal

E pelo cu muita alma já perdida.


Fode-se aqui com graça sem igual,

Alhures nunca assaz reproduzida

Por toda a jerarquia putanal.


                          Enfim loucura tal

Que até dá nojo essa iguaria toda,

E Deus perdoe a quem no cu não foda.





I


Questo è un libro d’altro che sonetti,

Di capitoli, d’egloghe o canzone,

Qui il Sannazaro o il Bembo non compone

Nè liquidi cristalli, nè fioretti.


Qui il Marignan non v’ha madrigaletti,

Ma vi son cazzi senza discrizione

E v’è la potta e ‘ l cul, che li ripone

Appunto come in scatole confetti.


Vi son genti fottenti e fottute

E di potte e di cazzi notomie

E ne’ culi molt’anime perdute.


Qui vi si fotte in più leggiadre vie,

Ch’in alcun loco si sien mai vedute

Infra le puttanesche gerarchie;


                       In fin sono pazzie

A farsi schifo di si buon bocconi

E chi non fotte in cul, Dio gliel perdoni.







ARENTINO, Pietro. "Questo è un libro d'altro que sonetti" / "Mais que sonetos este livro aninha". In:_____ Sonetos luxuriosos.  Org. e trad. de José Paulo Paes. Rio de Janeiro: Record, 1981.



18.2.21

Constantinos Caváfis: "Desfecho": trad. por José Paulo Paes

 



Desfecho


No meio de temores e receios,

com olhos pávidos, com mente perturbada,

buscamos até a exaustão um plano que pudesse

nos pôr a salvo do real

perigo que tão sinistramente nos rondava.

Enganamo-nos, porém, não está a caminho:

eram falsas as notícias

(ou não ouvimos bem ou não as compreendemos).

Outro desastre, que nem imaginávamos,

cai de repente, torrencial, por sobre nós,

despreparados — já não há mais tempo — e leva-nos.







CAVÁFIS, Constantinos. "Desfecho". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

19.12.19

Constantinos Caváfis: "O quanto possas": trad. de José Paulo Paes




O quanto possas


Se não podes afeiçoar tua vida como queres,
deves ao menos tentar, o quanto
possas, isto: não a rebaixes
no excessivo comércio do mundo,
no excesso de palavras e de gestos.

Não a rebaixes levando-a para dar
passeios, exibindo-a o tempo todo
nas reuniões e comemorações
em que a tolice diária se compraz,
até fazeres dela uma estranha importuna.




CAVÁFIS, Constantinos. "O quanto possas". In: PAES, José Paulo (org e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

19.1.18

Constantinos Caváfis: "Desde as nove": trad. José Paulo Paes



Desde as nove

Nove e vinte. Passou depressa o tempo
desde as nove, quando acendi a lâmpada
e me sentei aqui. Fiquei sentado sem ler
e sem falar. Com quem falar
se estou sozinho nesta casa?

A imagem do meu corpo jovem,
desde as nove, quando acendi a lâmpada,
veio rondar-me, veio me lembrar
de quartos fechados cheios de perfume
e de prazeres idos – que prazeres audazes!
Pôs-me também diante dos olhos
ruas que ora se me tornaram estranhas,
locais cheios de rumor que se findaram,
e cafés e teatros que existiram outrora.

A imagem do meu corpo jovem
veio rondar-me, trazer-me coisas tristes:
lutos de família, afastamentos,
as saudades dos meus, saudades
de mortos tão pouco lamentados.

Meia-noite e meia. Como o tempo passsa.
Meia-noite e meia. Como passam os anos.




CAVÁFIS, Constantinos. "Desde as nove". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.

24.9.17

José Paulo Paes: "Madrigal"



Madrigal

Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.

Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.



PAES, José Paulo. "Madrigal". In:_____. Poemas reunidos. São Paulo: Diário de S. Paulo, 1961.

6.10.16

W.H. Auden: "Words" / "Palavras": trad. José Paulo Paes




Palavras

Nasce um mundo da frase pronunciada
Onde tudo acontece tal e qual;
Na palavra a palavra está empenhada:
À fala, não ao falante, dá-se o aval.

Clara seja a sintaxe, e mais: que nada
Mude ao tema seu fluxo natural
Nem troque os tempos por amor à toada
Pois há tristes versões de pastoral.

Para que um blá-blá inteminável
Se os fatos são nossa melhor ficção?
Antes o verbo facilmente achável

Do que a rima a falsa encantação,
Qual dança de zagais mima o insondável
Cavaleiro a vagar na solidão




Words

A sentence uttered makes a world appear
Where all things happen as it says they do;
We doubt the speaker, not the tongue we hear:
Words have no word for words that are not true.

Syntactically, though, it must be clear;
One cannot change the subject half-way through,
Nor alter tenses to appease the ear:
Arcadian tales are hard-luck stories too.

But should we want to gossip all the time,
Were fact not fiction for us at its best,
Or find a charm in syllables that rhyme,

Were not our fate by verbal chance expressed,
As rustics in a ring-dance pantomime
The Knight at some lone cross-roads of his quest?




AUDEN, W.H. "Words" / "Palavras". In:_____. Poemas. Seleção: João Moura Jr.; tradução: José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

27.9.16

Rainer Maria Rilke: "Baudelaire": trad. José Paulo Paes




Baudelaire
                        Para Anita Forrer/ em 14 de abril de 1921

Somente o poeta juntou as ruínas
de um mundo desfeito e de novo o fez uno.
Deu fé da beleza nova, peregrina,
e, embora celebrando a própria má sina,
purificou, infinitas, as ruínas:

assim o aniquilador tornou-se mundo.




Baudelaire
                       Für Anita Forrer/ aum 14. April 1921

Der Dichter einzig hat die Welt geeinigt,
die weit in jedem auseinanderfällt.
Das Schöne hat er unerhört bescheinigt,
doch da er selbst noch feiert, was ihn peinigt,
hat er unendlich den Ruin gereinigt:

und auch noch das Vernichtende wird Welt.




RILKE, Rainer Maria. "Baudelaire". In:_____. Poemas. Seleção, tradução e introdução José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

9.4.16

Charles Baudelaire: "Les promesses d'un visage" / "As promessas de um rosto": trad. de José Paulo Paes




Meu querido amigo Adriano Nunes enviou-me o seguinte belo poema de Baudelaire, no original e na também bela tradução que dele fez José Paulo Paes:



As promessas de um rosto

Amo,ó pálida beleza, os teus cenhos curvados
Que dão às trevas todo o império;
Teus olhos, embora negros, me inspiram cuidados
Que não têm nada de funéreos.

Teus olhos, que imitam a negrura dos cabelos
Da tua longa crina elástica,
Teus olhos langues me dizem: "Amante, se o apelo
Queres seguir da musa plástica,

  Que infundimos no teu ser, ou tudo que contigo
Em matéria de gosto trazes,
Poderás ver, desde as nádegas até o umbigo,
Que nós te fomos bem verazes;

 Encontrarás, sobre dois belos seios pontudos,
Dois grandes medalhões de bronze,
E sob o ventre liso, macio como veludo,
Amorenado como bronze,
 
Um rico tosão que à tua enorme cabeleira
Copia no negrume e na espessura;
De tão sedoso e encrespado, ele te iguala inteira,
Noite sem astros, Noite escura!"



Les promesses d’un visage

J'aime, ô pâle beauté, tes sourcils surbaissés,
D'où semblent couler des ténèbres,
Tes yeux, quoique très noirs, m'inspirent des pensers
Qui ne sont pas du tout funèbres.

Tes yeux, qui sont d'accord avec tes noirs cheveux,
Avec ta crinière élastique,
Tes yeux, languissamment, me disent : " Si tu veux,
Amant de la muse plastique,

Suivre l'espoir qu'en toi nous avons excité,
Et tous les goûts que tu professes,
Tu pourras constater notre véracité
Depuis le nombril jusqu'aux fesses ;

Tu trouveras au bout de deux beaux seins bien lourds,
Deux larges médailles de bronze,
Et sous un ventre uni, doux comme du velours,
Bistré comme la peau d'un bonze,

Une riche toison qui, vraiment, est la soeur
De cette énorme chevelure,
Souple et frisée, et qui t'égale en épaisseur,
Nuit sans étoiles, Nuit obscure !"




BAUDELAIRE, Charles. "Les promesses d'un visage" / "As promessas de um rosto". In: PAES, José Paulo. Poesia erótica em tradução. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

9.10.15

Séferis, Giórgos: "Rima": trad. José Paulo Paes




Rima

Lábios, vigias de minha paixão outrora acesa
mãos, cadeias da juventude que tão logo passa
cor de um rosto perdido em meio à natureza
árvores... pássaros... caça.

Corpo, rácimo negro sob um sol que te arde
corpo, magnífico navio, que rumo levas?
É esta a hora em que sufoca a tarde
e eu me afadigo a procurar as trevas...

(os dias roem nossa vida sem alarde).




SÉFERIS, Giórgos. "Rima". Trad. José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, 1986.

7.5.15

Constantinos Caváfis: "Jônica": trad: José Paulo Paes





Jônica

Embora quebrássemos as estátuas,
embora os baníssemos de seus templos,
os deuses absolutamente não morreram.
Oh terra da Jônia, eles te amam ainda,
as suas almas te recordam ainda.
Quando, por sobre ti, alvorece a manhã de agosto,
o frêmito da vida deles te anima a atmosfera
e por vezes uma sombra etérea de efebo,
indistinta, a passo rápido,
percorre o cimo das tuas colinas.


CAVÁFIS, Constantinos. "Jônica". In: PAES, José Paulo (org.). Poesia moderna da Grécia.Rio de Janeiro, Ed. Guanabara, 1986.

9.8.14

Constatinos Caváfis: "Che fece... Il Gran Rifiuto": trad. José Paulo Paes





Che fece... Il Gran Rifiuto

Para alguns homens, chega o dia finalmente
em que é necessário o grande Sim ou o grande Não
dizer. Percebe-se quem trazia, nessa ocasião,
o Sim já pronto dentro de si, e dizendo-o sente

seu valor aumentado, sua confiança crescida.
Não se arrepende quem diz não. Di-lo-ia outra vez
se lho perguntassem, embora saiba o mal que fez
aquele não — por mais justo que fosse — à sua vida.



CAVÁFIS, Constatinos. "Che fece... Il gran rifiuto". Trad. por José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo. Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. 

10.7.13

José Paulo Paes: "Poética"






Poética


conciso? com siso

prolixo? pro lixo





PAES, José Paulo. Os melhores poemas de José Paulo Paes. seleção de David Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998.

24.5.13

José Paulo Paes: "O aluno"





O aluno

São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância,
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.

São meus também os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode.
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.




PAES, José Paulo. Os melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção de Davi Arrigucci Jr. São Paulo: Global, 1998.

17.9.12

Teócrito: Epigrama IX.599: trad. de José Paulo Paes




I.599

Olha para essa estátua, ó forasteiro,
atentamente e diz, de regresso à pátria:
"Eu vi em Teos a estátua de Anacreonte,
que entre os antigos foi excelente aedo".
Ah, e do seu pendor por rapazes não
te esqueças, para dizer o homem todo.



Texto grego: clique para ampliar:





PAES, José Paulo (org. e trad.). Poemas da Antologia Grega ou Palatina. Séculos VII a.C. a V d.C. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

11.4.12

Constantinos Caváfis: "Volta" / trad. de José Paulo Paes




Volta

Volta outras vezes e domina-me,
frêmito amado, volta outras vezes e domina-me --
quando a memória do corpo despertar,
quando ao sangue retornar o desejo de outrora
e os lábios e a pele lembrarem e as mãos
sentirem-se como que tocadas de novo.

Volta outras vezes e domina-me, quando a noite
fizer com que os lábios e a pele se lembrem.



PAES, José Paulo (org.: seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas) Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

16.2.12

Empédocles de Agrigento: poema ix.569 da Antologia grega: traduzido por José Paulo Paes





IX.569


ἤδη γάρ ποτ᾽ ἐγὼ γενόμην κοῦρός τε κόρη τε

θάμνος τ᾽ οἰωνός τε καὶ ἔξαλος ἔλλοπος ἰχθύς.




IX.569

Pois em verdade eu já fui rapaz, já fui donzela,

fui arbusto, pássaro, ardente peixe do mar.




PAES, José Paulo (org.). Poemas da Antologia grega ou palatina. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.




NOTA de A.C.: Esse poema da Antologia grega consiste no fragmento 117 (Diels/Kranz) da obra De natura, de Empédocles.

9.1.11

Rainer Maria Rilke: "Was wirst du tun, Gott..." / "Deus, que será de ti...": trad. José Paulo Paes



Rafael Martins observou um paralelo entre o poema do José Luis Hidalgo e o seguinte poema de Rilke:


Deus, que será de ti...

Deus, que será de ti, quando eu morrer?
Eu sou teu cântaro (e se me romper?)
A tua água (e se me corromper?)
Sou teu agasalho, sou teu afazer.
Vai comigo o significado teu.

Não tens mais sem mim aquela casa, Deus,
que com quentes palavras te acolhia.
Perdem teus pés exaustos as macias
sandálias: também elas eram eu.

De ti desprende-se o teu longo manto.
O teu olhar, que a minha face, quente
coxim acolhe, virá entrementes,
virá procurar-me longamente
e deitar-se depois, ao sol poente,
entre pedras estranhas, nalgum canto.

Deus, que será de ti? Tenho medo, tanto...


Was wirst du tun,Gott...

Was wirst du tun, Gott, wenn ich sterbe?
Ich bin dein Krug (wenn ich zerscherbe?)
Ich bin dein Trank (wenn ich verderbe?)
Bin dein Gewand und dein Gewerbe
mit mir verlierst du deinen Sinn.

Nach mir hast du kein Haus, darin
dich Worte, nah und warm, begrüßen.
Es fällt von deinen müden Füßen
die Samtsandale, die ich bin.

Dein großer Mantel läßt dich los.
Dein Blick, den ich mit meiner Wange
warm, wie mit einem Pfühl, empfange,
wird kommen, wird mich suchen, lange -
und legt beim Sonnenuntergange
sich fremden Steinen in den Schoß.

Was wirst du tun, Gott? Ich bin bange.



RILKE, Rainer Maria. "De O livro das horas". Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

23.7.09

Rainer Maria Rilke: "Ernste Stunde" / "Hora grave": tradução de José Paulo Paes

.


Hora grave


Quem chora agora em algum lugar do mundo,
sem razão chora no mundo,
chora por mim.

Quem ri agora em algum lugar da noite,
sem razão se ri na noite,
ri-se de mim.

Quem anda agora em algum lugar do mundo,
sem razão anda no mundo,
vem para mim.

Quem morre agora em algum lugar do mundo,
sem razão morre no mundo,
olha para mim.



Ernste Stunde


Wer jetzt weint irgendwo in der Welt,
ohne Grund weint in der Welt,
weint über mich.

Wer jetzt lacht irgendwo in der Nacht,
ohne Grund lacht in der Nacht,
lacht mich aus.

Wer jetzt geht irgendwo in der Welt,
ohne Grund geht in der Welt,
geht zu mir.

Wer jetzt stirbt irgendwo in der Welt,
ohne Grund stirbt in der Welt:
sieht mich an.



De: RILKE, Rainer Maria. Poemas. Tradução e introdução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.