9.4.21

Johann Wolfgang von Goethe: "Beherzigung" / "Recomendação": trad. por Amélia de Rezende Martins

 




Recomendação


Ai, que deve o homem esperar?

É melhor ficar inerte?

É melhor viver sem leme?

A algum amor se aferrar?

Deve em tenda residir?

Ou uma casa edificar?

Deve-se fiar em rocha,

Tão sujeita a vacilar?

A cada um o seu tanto...

Cada qual rume, com fé,

Pense onde se fixar

E não caia estando em pé.




Beherzigung


Ach, was soll der Mensch verlangen?

Ist es besser, ruhig bleiben?

Klammernd fest sich anzuhangen?

Ist es besser, sich zu treiben?

Soll er sich ein Häuschen bauen?

Soll er unter Zelten leben?

Soll er auf die Felsen trauen?

Selbst die festen Felsen beben.

Eines schickt sich nicht für alle!

Sehe jeder, wie er's treibe,

Sehe jeder, wo er bleibe,

Und wer steht, daß er nicht falle!




Goethe, Johann Wolfgang von. "Beherzigung / "Recomendação". Trad. por Amélia de Rezende Martins. In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português). Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.


7.4.21

Federico García Lorca: "Despedida": trad. por William Agel de Melo




Despedida


Se eu morrer,

deixai o balcão aberto.


    O menino chupa laranjas.

(Do meu balcão eu o vejo.)


    O segador sega o trigo.

(Desde meu balcão e o sinto.)


    Se eu morrer,

deixai o bacão aberto!





Despedida



Si muero,

dejad el balcón abierto.


    El niño come naranjas.

(Desde mi balcón lo veo).


    El segador siega el trigo.

(Desde mi balcón lo siento).


     ¡Si muero,

dejad el balcón abierto!





LORCA, Federico García. "Despedida". In:_____. "Canciones / Canções". In:_____. Obra poética completa. Trad. de William Agel de Melo. São Paulo: Martins Fontes Editora, 1987.

5.4.21

Diego Petrarca: "Alice ri"

 



Alice ri



Eu quero ir

com Alice

lá dentro de uma nuvem cheia

que nunca chove

Eu quero ir

com Alice

lá onde o tempo

só serve pra voar


e onde o sol

só desce

pra tomar

banho de mar


Eu quero ir

com Alice

lá onde a estrela

namora o passarinho


e onde é privilégio

se sentir sozinho


Eu quero ir

com Alice

lá onde os anjos

criam as aparências


e onde só exista Deus

nas coincidências


Com Alice

eu quero ir

eu quero rir




PETRARCA, Diego. "Alice ri". In:_____. Carnaval subjetivo. Porto Alegre: Class, 2018.


3.4.21

Waly Salomão: "Clandestino"

 



Clandestino


para Adriana Calcanhotto



vou falar por enigmas

apagar as pistas visíveis

cair na clandestinidade.

descer de pára-quedas

/camuflado/

numa clareira clandestina

da mata atlântica.


já não me habita mais nenhuma utopia

animal em extinção,

quero praticar poesia

– a menos culpada de todas as ocupações.


já não me habita mais nenhuma utopia.

meu desejo pragmático-radical

é o estabelecimento de uma reserva de ecologia

– quem aqui diz estabelecimento diz ESCAVAÇÃO –

que arrancará a erva daninha do sentido ao pé-da-letra,

capinará o cansanção dos positivismos e literalismos,

inseminará e disseminará metáforas,

cuidará da polinização cruzada,

cultivará hibridismos bolados pela engenharia genética,

adubará e corrigirá a acidez do solo,

preparará a dosagem adequada de calcário,

utilizará o composto orgânico

excrementado

pelas minhocas fornicadoras cegas

e propagará plantas por alporque

ou por enxertia.


já não me habita mais nenhuma utopia.


sem recorrer

ao carro alegórico:

olhar o que é,

como é, por natureza, indefinido.

quero porque quero o êxtase,

uma réplica reversora da república de Platão

agora expulsando para sempre a não-poesia

da metamorfose do mundo.


já não me habita mais nenhuma utopia.

bico do beija-flor suga glicose.

no camarão

em flor.


(de um livro em preparação, sem nome fixo)





SALOMÃO, Waly. "Clandestino". In:_____ "Pescados vivos". In:_____ Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

1.4.21

Ricardo Silvestrin: "Sacos"

 



Sacos



Estamos repletos de inutilidades,

suas, minhas,

inutilidades de família,

de valor inestimável.


Quinquilharias, ninharias,

boiando no pó, atiradas em caixas,

envelopes rasgados, gavetas.


Ninguém se arrisca a botar fora

esses tesouros de um reino perdido

entre os guardados.


Em quantos sacos de lixo,

sacos grandes de cem litros,

vai caber todo o passado?






SILVESTRIN, Ricardo. "Sacos". In:_____. "Outros cantos". In:_____. Carta aberta ao Demônio\. Porto Alegre: Libretos, 2021.

31.3.21

Conversa de Antonio Cicero com Luís Caetano sobre poesia e filosofia






Como eu, Antonio Cicero, a convite e sob a direção literária de Jorge Reis-Sá, acabo de publicar em Lisboa, na Coleção Plural da Imprensa Nacional de Portugal, três livros de poesia num só volume, com o nome de Guardar a cidade e os livros porventura, o excelente programa  A Ronda da Noite, da RTP -- Rádio e Televisão de Portugal -- pôs no ar uma conversa sobre poesia e filosofia que tive com Luis Caetano, o grande autor e apresentador de programas culturais. Ouçam: A Ronda da Noite


28.3.21

Carlos Cardoso: "Espanto"

 



 Espanto



Releio os meus versos

e me aterrorizo com o que faço.


Como pude escrevê-los?


Como me deixei expor

como um quadro na parede

em diferentes formas de estar ali

no plano

e sublinhado por tudo que é subjetivo?


Vontade de voltar a ser criança

e brincar de pique-esconde e lambuzar-me

de mariola e rapadura derretida,


por baixo da cama

jogar as folhas de papel,

doar minha lapiseira

a uma entidade filantrópica

e guardar tudo que sou,


deixar os meus rastros contados, 

fotografados e mostrados 

somente para minha memória,


e no espanto me desintegrar.





CARDOSO, Carlos. "Espanto". In:_____. Melancolia. Rio de Janeiro: Record, 2019.

26.3.21

Friedrich Hölderlin: "Buonaparte": trad. Antonio Cicero

 



Buonaparte


Vasos sagrados são os poetas,

Onde o vinho da vida, o espírito

Dos heróis se conserva;


O espírito desse jovem, porém,

Tão rápido, como não quebraria

Se o quisesse prender, o vaso?


Que o poeta o deixe intacto como o espírito da natureza,

Em tal matéria torna-se aprendiz o mestre.


No poema ele não pode viver e ficar:

Ele vive e fica no mundo.





Buonaparte


Heilige Gefäße sind die Dichter,

Worin des Lebens Wein, der Geist

Der Helden, sich aufbewahrt,


Aber der Geist dieses Jünglings,

Der schnelle, müßt er es nicht zersprengen,

Wo es ihn fassen wollte, das Gefäß?


Der Dichter laß ihn unberührt wie den Geist der Natur,

An solchem Stoffe wird zum Knaben der Meister.


Er kann im Gedichte nicht leben und bleiben,

Er lebt und bleibt in der Welt.





HÖLDERLIN, Friedrich „Buonaparte“. In:_____. Sämtliche Werke und Briefe.Vol.1. München: Carl Hanser Verlag, 1970,.

24.3.21

Mário Quintana: "LXXIII Da Realidade"

 



LXXIII Da Realidade


O sumo bem só no ideal perdura...

Ah! quanta vez a vida nos revela

Que "a saudade da amada criatura"

É bem melhor do que a presença dela...





QUINTANA, Mário. "LXXIII Da Realidade" In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012.

22.3.21

Antonio Cicero: "O Livro de Sombras de Luciano Figueiredo"

 



O livro de sombras de Luciano Figueiredo

 

1

 

Para onde vou, de onde vim?

Não sei se me acho ou me extravio.

Ariadne não fia o seu fio

à frente, mas sim atrás de mim.

Não será a saída um desvio

e o caminho o verdadeiro fim ?

 

2

 

Não é hora de regressos

Não é hora

 

3

 

É certo que me perco em sombras

e que, isolado em minha ilha,

já não me atingem as notícias

dos jornais a falar de bolsas,

modas, cidades que soçobram,

crimes, imitações da vida

ou da morte televisiva,

quadrilhas, teias penelópicas

de horrores ou de maravilhas

que dia a dia se desfiam

e fiam sem princípio ou fim

novíssimas novas artísticas,

científicas, estatísticas...

 

E há na noite quente um jasmim.

 

4

 

É aqui, mais real que as notícias, na própria

matéria, na dobradura de uma folha

em que se refolha este meu coração

babilônico, na configuração

da mancha gráfica sobre a tessitura

do papel tensionado, ou onde se apura

o lusco- fusco produzido por linhas

e entrelinhas, entre o preto e o branco e o cinza,

onde cada ideia, cada ponto e vírgula

dos trabalhos e das noites se confunde

com miríades de pontos de retícula

e meios-tons de clichês, entre o passado

que jamais está passado e alguns volumes,

linhas e planos apenas esboçados,

que súbito os elementos mais dispersos

se articulam, claro-escuro filme negro,

entre a pura matemática, o acaso

e a arte (esta árvore já foi vestido

de mulher) onde o delírio é mais preciso,

transparece o meu jornal imaginário.

 

5

 

Para onde vou, de onde vim?

Não sei se me acho ou me extravio.

Ariadne não fia o seu fio

à frente, mas sim atrás de mim.

Não será a saída um desvio

E o caminho o verdadeiro fim?






CICERO, Antonio. "O Livro de Sombras de Luciano Figueiredo". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.






 









20.3.21

Arthur Rimbaud: "Le buffet" / "O armário": trad. de Ivo Barroso

 



O armário



Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,

Muito antigo, adquiriu esse ar de bom dos idosos;

E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,

Como um jorro de vinho, odores capitosos;


Repleto, é uma babel de velhas velharias,

Recendentes lençóis encardidos, fustões

De infante ou feminis, as rendas alvadias

E os xales das avós pintados de dragões;


– Em ti podem-se achar os medalhões as mechas,

Os retratos, a flor ressequida que fechas,

Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.


– Ó armário de outrora, as histórias que exortas

E amarias contar, com teus roucos gemidos,

Quando se abrem de leve as tuas negras portas.








Le buffet




C'est un large buffet sculpté ; le chêne sombre,

Très vieux, a pris cet air si bon des vieilles gens ;

Le buffet est ouvert, et verse dans son ombre

Comme un flot de vin vieux, des parfums engageants ;



Tout plein, c'est un fouillis de vieilles vieilleries,

De linges odorants et jaunes, de chiffons

De femmes ou d'enfants, de dentelles flétries,

De fichus de grand'mère où sont peints des griffons ;



– C'est là qu'on trouverait les médaillons, les mèches

De cheveux blancs ou blonds, les portraits, les fleurs sèches

Dont le parfum se mêle à des parfums de fruits.



– Ô buffet du vieux temps, tu sais bien des histoires,

Et tu voudrais conter tes contes, et tu bruis

Quand s'ouvrent lentement tes grandes portes noires.







RIIMBAUD,  Arthur. "Le buffet" / "O armário". In:_____. Poesia completa. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. 
 


18.3.21

Giuseppe Ungaretti: "I ricordi" / "As lembranças": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti

 



As lembranças


As lembranças, infinito inútil,

Mas sós e unidas contra o mar, intacto

Em meio a estertores infinitos…


O mar,

Voz de uma grandeza livre,

Mas inocência inimiga nas lembranças,

Rápido em apagar as doces pegadas

De um pensamento fiel…


O mar, suas blandícias acidiosas

Quão ferozes e quão, quão esperadas,

E no momento da agonia,Sempre presente, renovada sempre,

No pensamento atento, a agonia…


As lembranças,

Revolver em vão

A areia que se move

Sem pesar sobre a areia,

Breves ecos prolongados,

Mudos, ecos de adeuses

De instantes que pareceram felizes…







I ricordi


I ricordi, un inutile infinito

Ma soli e uniti contro il mare, intatto

In mezzo a rantoli infiniti..


Il mare,

Voce d’una grandezza libera,

Ma innocenza nemica dei ricordi,

Rapido a cancellare le orme dolci

D’un pensiero fedele…


Il mare, le sue blandizie accidiose

Quanto feroci e quanto, quanto attese,

E alla loro agonia,

Presente sempre, rinnovata sempre

Nel vigile pensiero l’agonia..


I ricordi,

Il riversarsi vano

Di sabbia che si muove

Senza pesare sulla sabbia,

Echi brevi protratti,

Senza voce echi degli addii

A minuti che parvero felici…







UNGARETTI, Giuseppe. "I ricordi" / "As lembranças". In:_____. Poemas. Seleção e Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti. Prefácio de Alfredo Bosi. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.


16.3.21

Jorge Reis-Sá: "David Bowie [heroes]"

 



David Bowie

[Heroes]


Não é do pai que falo -- do amigo. Das conversas 

que ficaram por cumprir porque a morte se interpôs 

e as não permitiu. Do Lancia Delta que eu achava nos 

idos anos noventa o carro mais lindo do mundo e que 

ele, sapiente, retorquiu numa viagem luminosa


é demasiado semelhante a uma carrinha. O meu pai 

não gostava de carrinhas. Mas não é dele que falo – 

do amigo. Aquele que à entrada da salinha me via 

vibrar como David Bowie a cantar I, I wish you could 

swim, like dolphins, like dolphins can swim, vestido


de verde-alface. O David Bowie é o único homem 

no mundo a quem um fato verde-alface fica bem. 

O meu pai o único que consegue ficar para sempre 

à entrada da salinha.





REIS-SÁ, Jorge. "David Bowie [Heroes]". In:_____. Pátio. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2020. 

14.3.21

Antonio Carlos Secchin: Soneto de Lúcia

 



             Soneto de Lúcia



Luzes lançam-se agora na ribalta

Sobre a querida Lúcia, que, no meio

De uma guerra, nos leva a um devaneio:

Sonhar que a vida pode ser mais alta.

Venha ao Leblon, Marcel, chegue, Rimbaud,

Conosco se irmanando nesta ceia.

Nós somos, pois a arte nos salvou,

Ulisses sem naufrágio de sereia.

Vagamos, marinheiros veteranos,

Ainda assim ansiosos na aventura

De renascer além de tantos danos,

Festejando a alegria do que dura.

     E, revogadas as leis em contrário,

     Um viva à diva, em seu aniversário.




Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2021

Antonio Carlos Secchin

12.3.21

Bertolt Brecht: "Hier standen die alten Mauren" / "Aqui ficavam os antigos mouros"




Aqui ficavam os antigos mouros


Aqui ficavam os antigos mouros

E miravam longamente o mar

Dizendo, reinos sã morredouros

E o nosso está para se acabar.


E o que os muros diziam é inconteste

Pois não sobrou um para contar;

E agora, onde ficavam, está Brecht

E ele mira longamente o mar.




Hier standen die alten Mauren


Hier standen die alten Mauren

Und shcauten aufs Meer hinaus

Und sagten, nun kann's nicht mehr lang dauern

Und dann ist's mit uns aus.


Und damit hatten die Mauren recht;

Denn jetzt ist's mit ihnen aus

Und da, wo sie standen, steht jetzt der Brecht

Und schaut aufs Meer hinaus




BRECHT, Bertolt. "Hier standen die alten Mauren" / "Aqui ficavam os antigos mouros". In: Poesia. Introdução e tradução. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.






9.3.21

Lord Byron: Poem 72 of Canto III of Childe Harold / "Poema 72 do Canto III de Childe Harold: trad. por Augusto de Campos

 


Do Canto III


                      72


Não vivo por mim mesmo. Sou só um

Elo do que me cerca, mas se a altura

Das montanhas enleva-me, o zum-zum

Das cidades humanas me tortura.

A criação só errou na criatura

Presa à carne, onde paro, relutante,

Buscando, libertada a alma pura,

Mesclar-me ao céu, aos montes, ao ondeante

Plaino do oceano, às estrelas, e ir adiante.







From Canto III



                          72



I live not in myself, but I become 

Portion of that around me; and to me 

High mountains are a feeling, but the hum 

Of human cities torture: I can see 

Nothing to loathe in nature, save to be 

A link reluctant in a fleshly chain, 

Class’d among creatures, when the soul can flee, 

And with the sky, the peak, the heaving plain 

Of ocean, or the stars, mingle, and not in vain. 








BYRON, George Gordon. "72 from Canto III of Chlde Harold" / "72 do Canto III de Childe Harold..In:_____. Entreversos. Trad. de Augusto de Campos. São Paulo: Unicamp, 2009.




6.3.21

W.B. Yeats: "The coming of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria": trad. por José Agostinho Baptista

 



Com o tempo a sabedoria



Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade,

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.




The coming of wisdom with time



Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.




YEATS, W.B. "The coming of wisdom with time" /  "Com o tempo a sabedoria". In:_____. Uma antologia. Org. e trad. por José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.




3.3.21

Antonio Cicero: "La Capricciosa"

 



La Capricciosa

 

In memoriam

Roberto Correia Lima, meu irmão

 

É claro que estou exposto

eu como todos os outros

animais às intempéries

que cedo ou tarde nos ferem;

mas aqui a noite, seda,

suavemente me enleia:

espelhos olhares vinhos

uvas cachos rosas risos

e ali, do lado de lá

das lâminas de cristal

tão tranquila e cintilante

quanto o céu, sonha a cidade.

 

Desperta-me um celular:

a morte também tem arte.




CICERO, Antonio. "La Capricciosa". In:-_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

1.3.21

Luís Miguel Nava: "Retrato"



retrato


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo--a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada em relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procurara protecção.





NAVA, Luís Miguel. "Retrato". In:____. Poesia completa. 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

26.2.21

Yves Bonnefoy: "Le pont de fer" / "A ponte de ferro": trad. por Mário Laranjeira

 



A ponte de ferro



Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua

Onde andava eu criança um pântano estagnado

Retângulo pesado de morte ao céu negro.


Desde então a poesia

Separou de outras águas suas águas,

Beleza alguma, ou cor a vão reter,

Por ferro ela angustia-se e por noite.


Nutre um longo

Pesar de margem morta, uma ponte de ferro

Lançada à outra margem mais noturna ainda

É sua só memória e só real amor.





Le pont de fer



Il y a sans doute toujours au bout d'une longue rue

Où je marchais enfant une mare d'huile,

Un rectangle de lourde mort sous le ciel noir.


Depuis la poésie

A séparé ses eaux des autres eaux.

Nulle beauté nulle couleur ne la retiennent,

Elle s'angoisse pour du fer et de la nuit.


Elle nourrit

Un long chagrin de rive morte, un pont de fer

Jeté vers l'autre rive encore plus nocturne

Est sa seule mémoire et son seul vrai amour.



BONNEFOY,, Yves. "Le pont de fer" / "A ponte de ferro". In: LARANJEIRA, Mário. Poetas de França hoje. 1945-1995. São Paulo: Edusp, 1996. 



23.2.21

Stefan Georg: "Lied" / "Cantiga": trad. por Olympio Monat da Fonseca

 



Cantiga



Nas janelas onde outrora contigo

A paisagem da noite contemplava,

Brilham estranhos lumes.

O caminho ainda começa da porta


Onde, sem olhares para trás,

Um dia rumaste ao vale.

Mas a lua, quando tornou,

Tua pálida face fez erguer:


Então, era já demasiado tarde para um apelo.

Sombras, silêncio, ar pesado – 

Afogam minha casa.

Levaste contigo toda alegria.






Lied



Fenster wo ich einst mit dir

Abends in die landschaft sah

Sind nun hell mit fremdem licht.


Pfad noch läuft vom tor wo du

Standest ohne umzuschaun

Dann ins tal hinunterbogst.


Bei der kehr warf nochmals auf

Mond dein bleiches angesicht..

Doch es war zu spät zum ruf.


Dunkel -- schweigen -- starre luft

Sinkt wie damals um das haus.

Alle freude nahmst du mit.





GEORG, Stefan. "Lied" / "Cantiga". Trad. por Olympio Monat da Fonseca. In: CAMPOS, Geir (org.). O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.


21.2.21

Murilo Mendes: "Jogo"

 


Jogo


Cara ou coroa?

Deus ou o demônio

O amor ou o abandono

Atividade ou solidão.


Abre-se a mão, coro

Deus e o demônio

O amor e o abandono

Atividade e solidão.





MENDES, "Jogo". In_____. Poesias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

18.2.21

Constantinos Caváfis: "Desfecho": trad. por José Paulo Paes

 



Desfecho


No meio de temores e receios,

com olhos pávidos, com mente perturbada,

buscamos até a exaustão um plano que pudesse

nos pôr a salvo do real

perigo que tão sinistramente nos rondava.

Enganamo-nos, porém, não está a caminho:

eram falsas as notícias

(ou não ouvimos bem ou não as compreendemos).

Outro desastre, que nem imaginávamos,

cai de repente, torrencial, por sobre nós,

despreparados — já não há mais tempo — e leva-nos.







CAVÁFIS, Constantinos. "Desfecho". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

16.2.21

Eugénio de Andrade: "Litania"

 



Litania



O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;


o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece


navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror,


são a grande razão, a única razão.





ANDRADE, Eugénio de. "Litania". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguessa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

14.2.21

Homenagem aos noventa anos do poeta Augusto de Campos

 Hoje o grande poeta Augusto de Campos faz 90 anos. Para comemorar esse esplêndido fato, vários poetas lhe fizeram uma bela homenagem, que teve o design e a direção de arte do poeta André Vallias. Eis o link para essa merecida homenagem:

https://erratica.com.br/ac90 






12.2.21

Arnaldo Antunes: "valha"

 



valha



valha o que amo 

não porque amo

mas pelo que me faz

amar



valha por si

não por mim



pelo que si

lencia



não 

por meu sim





ANTUNES, Arnaldo. "valha". In:_____.  algo antigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.


9.2.21

Rose Ausländer: "Mutterland" / "Mátria": trad. por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger

 



Mátria


Minha pátria morreu

eles a sepultaram

no fogo


Eu vivo 

em minha mátria

palavra






Mutterland


Mein Vaterland ist tot

sie haben es begraben

im Feuer


Ich lebe

in meinem Mutterland

Wort.




AUSLÄNDER, Rose. "Mutterland" / "Mátria. In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. (organização e tradução). Seis décadas de poesia alemã, do pós-guerra ao início do século XXI. Antologia bilingue. Florianópolis: Editora da UFSC, 2012. 

7.2.21

Renato Gonçalves: "O verso que quis nos ajudar a fazer um país"

 

Acabo de ler, na Revista Pernambuco, Nº 167, de janeiro de 2020, revista que é o suplemento cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, um excelente ensaio, escrito por Renato Gonçalves, sobre a canção Fullgás, que fiz em parceria com minha irmã, Marina Lima. Ei-lo:


O verso que quis nos ajudar a fazer um país

Sobre a música Fullgás, de Marina Lima e Antonio Cicero

por Renato Gonçalves





Democracia, há tempos não falávamos nessa palavra que, no início do século XXI, mostrou-se tão cara aos países latino-americanos. Denunciamos o seu fim e até mesmo chegamos a questionar se ela, de fato, um dia existiu entre nós de forma efetiva. Aproveitando o título de um dos melhores sintomas da contemporaneidade, o best seller Como morrem as democracias, dos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, elaboremos uma pergunta na direção oposta: como nascem as democracias? Explicitar o lugar e o momento de formação dos projetos democráticos nos ajuda a compreender suas trajetórias.


Na experiência brasileira, o (re)nascimento da democracia é recente e se deu nos anos 1980. Uma década tratada de forma equivocada como “perdida” nos anais da História que abraçaram o rótulo designado às sucessivas, e fracassadas, iniciativas econômicas e governamentais. Por estar envolta em uma embalagem de imagens de excesso, efemeridade e nostalgia, parece que nada dela devia ser levado a sério. Diante dos últimos episódios políticos, no entanto, hoje parece que pagamos o preço por não termos compreendido a complexidade do contexto de criação da nossa jovem democracia.


A partir da canção Fullgás, composta por Marina Lima e Antonio Cicero, e lançada durante as campanhas pelas Diretas Já (1983-1984), marco do processo de abertura democrática, tracemos algumas linhas de interpretação dos sentidos envolvidos na criação da democracia brasileira. Se a Música Popular Brasileira (MPB), gestada nas décadas de 1960 e 1970, foi uma das principais expressões de resistência à ditadura militar, a nova e jovem geração de músicos da década posterior, sobretudo aquela alinhada ao rock e ao pop nacional, seria a trilha sonora da redemocratização.


A princípio, Fullgás, de versos como “meu mundo você é quem faz” e “onde quer que você vá, é lá que eu vou estar”, poderia ser lida apenas como uma radiofônica canção de amor. Declarando-se a um objeto de desejo, um eu lírico expressa seus sentimentos em jogo entre um “eu” e um “você”, marcados reiteradamente ao longo dos seus pouco mais de quatro minutos. À mínima suposição da ausência desse outro, o mundo se vê estranho: aquele que se ama lança tudo que há (“música, letra e dança”); é com ele que se faz “tudo de lindo”. Contudo, os versos finais, que são os únicos que se repetem ao longo da corrida canção, apontam para uma dimensão política que ganha sentido à luz da transição democrática pela qual o Brasil passava: “você me abre seus braços / e a gente faz um país”. A adesão política ficava ainda mais clara no seu videoclipe, quando a câmera focava a camiseta de Marina onde se podia ler “Brasil, urgente, diretas pra presidente”.


A democracia, no contexto brasileiro, substituiu os 21 anos de ditadura militar, que começou a ruir oficialmente em 1979 com o anúncio oficial de uma transição “lenta, gradual e segura” e a promulgação da Lei da Anistia “ampla, geral e irrestrita”. No início da década, o atentado frustrado no Riocentro, no Dia do Trabalhador, assinado pela ala conservadora do regime militar, juntamente à deflagração do “milagre econômico” inflamaram a opinião pública contra os militares, que, até então, obtinham apoio de grande parte da classe média e das elites financeiras alheias às violações do Estado.


Das greves gerais na região do ABC (São Paulo), lideradas por Luiz Inácio Lula da Silva, às manifestações populares pelo retorno das eleições diretas, das quais participaram artistas e políticos de oposição, a movimentação política ganhava os espaços públicos. Após anos de obscurantismo, voltava a ser vislumbrada uma “trilha clara” para o Brasil “apesar da dor” (citando-se Nu com a minha música, lançada por Caetano Veloso em 1981). As fulgurações e as representações do que poderia ser o país eram retomadas por aqueles que outrora foram excluídos do discurso oficial e ufanista da ditadura militar. Entre os entulhos e desmanches do regime autoritário e o que ainda delinear-se-ia como um projeto democrático, havia espaço para se fazer um país, como sugere o derradeiro verso de Fullgás.


Os sentidos de fabulação, elaboração e construção de um país foram sintetizados por Marina Lima e Antonio Cicero no Manifesto Fullgás, veiculado no LP homônimo, cujos ideais seriam retomados pela cantora ao apresentar a música em seus shows, como mostra o registro presente no álbum Todas ao vivo (1986): “não existe caminho, viaduto, túnel, nenhum caminho direto que leve à plena realização de um país. Mas a gente tem que tentar. É preciso tentar. A gente vai ter que inventar o que nenhum outro país inventou”. Itamar Assumpção, que, a partir da canção, elaborou o show Fugaz, em 1984, igualmente explicitou um desejo coletivo de criação: “é isso que que o Brasil está precisando. A gente quer fazer um país. Cada um na sua atividade. O Brasil todo quer fazer um novo país. E isso é possível para todos. Só quem não demonstra essa dedicação ao original são os políticos. Na profissão que eles escolheram, eles não são tão criativos como nós, das outras áreas”. [nota 1]


Em paralelo às ideias de inventividade, a década de 1980 destacou os atravessamentos das forças políticas na constituição das subjetividades. Frutos das discussões pós-1968 – momento de renovação e efervescência intelectual, comportamental e cultural no Ocidente –, correntes filosóficas enxergavam o sujeito e suas singularidades como campos de potência política. Conjugada na primeira pessoa do singular, são o desejo e a individualidade que movem a campanha pelas Diretas Já: “eu quero votar para presidente”, frase de efeito usualmente escrita em uma tipografia manuscrita. O crescimento das discussões feministas, a inserção de pautas sobre as sexualidades e o fortalecimento do movimento negro à ocasião dos 100 anos da Abolição no Brasil mostraram as diferenças que, por anos, foram achatadas em nome de uma coletiva resistência política contra o autoritarismo da ditadura.


Nos limites da criação e da autonomia subjetiva, Marina e Cicero inventaram uma nova palavra. Fullgás, junção de “full gas” (expressão em inglês que indica o tanque cheio de um veículo) e “fugaz” (aquilo que é efêmero), alinhava e sintetiza o espírito do tempo dos anos da transição democrática. O termo aponta para a intensidade e a fugacidade das transformações que se davam em diversos níveis, potencializadas pelas incessantes inovações tecnológicas, pelo estabelecimento e fortalecimento dos processos de globalização e pelo discurso homogeneizado do consumo, vetores que atravessam o projeto de construção de um novo país.


Composta a partir de um loop de bateria eletrônica programado por Marina em um sintetizador japonês, uma das novidades do período, Fullgás desenvolve a linguagem internacional do pop, desenraizada de territórios e voltada ao consumo em massa. A linha de baixo, inspirada em Billie Jean, de Michael Jackson, emoldura os sintéticos e elaborados versos de Antonio Cicero, que se assemelham a slogans, formato publicitário que condensa o máximo de significados em sua síntese textual. Na medida em que se volta ao que estava sendo produzido internacionalmente, a canção apaga qualquer tensão entre o local e o global e acaba compartilhando um dos ideais da visão liberal que se estabeleceria fortemente na década.


No mundo de faz de conta conjugado pelas expressões do consumo, da publicidade e do liberalismo, onde “nada de mal nos alcança” e “nada machuca nem cansa”, qualquer possibilidade de desprazer é excluída. Para sustentar a fantasia da soberania do prazer, duas drogas seriam protagonistas da década: a cocaína, substância psicoativa que estimula a produção de serotonina, dopamina e noradrenalina; e a fluoxetina, “pílula da felicidade” comercializada, a partir do final da década, pela empresa farmacêutica Lilly sob o nome comercial Prozac. Nesse sentido, será coincidência a rima entre “feliz” e “país” nos versos finais de Fullgás?


Àquela altura, enfim, parecia chegar a felicidade esperada e profetizada pelas canções políticas das décadas de 1960 e 1970. Em contraposição à sombrias décadas que a antecederam, quando reinaram os “dias de frio” (como sugerido em Fullgás), os anos de transição democrática foram marcados pelos signos da luminosidade. Pro dia nascer feliz (Cazuza/ Frejat), hit da banda Barão Vermelho, uma das pioneiras expressões do rock que representaria parte de uma nova geração jovem que promovia uma revolução comportamental inicialmente alienada a questões políticas, cumpria o anúncio de Apesar de você (1978), de Chico Buarque: “você vai se amargar / quando o dia raiar / sem lhe pedir licença”. Nesta mesma direção, o sol estampado nas camisetas amarelas das manifestações pelas eleições diretas foi pensado pelos publicitários de Curitiba responsáveis pela comunicação visual da campanha. O raiar também surgiria em Pra começar (1986), de Marina e Cicero: ”se tudo caiu / que tudo caia / pois tudo raia”.


Apesar da euforia transbordante da “festa da democracia”, termo-slogan empregado diversas vezes pela cobertura jornalística realizada no período, o processo de redemocratização seria marcado por vários percalços até a promulgação da Constituição, em 1988. Embora tivesse grande força dentro do Congresso, a Emenda Dante de Oliveira, que garantiria o restabelecimento das eleições diretas, não foi aprovada. A eleição indireta de Tancredo Neves em 1985 – uma alternativa para a retomada do poder popular – foi frustrada pelo seu falecimento nas semanas iniciais de seu mandato E, por fim, as sessões constituintes, entre 1987 e 1988, escancararam os abismos e as fissuras de um Brasil continental.


Passados os anos fullgás de transição democrática, vertiginosamente marcados pela intensidade e pela fugacidade das transformações que tomaram lugar nos campos da política, das subjetividades e do consumo, quem, de fato, ocupou as posições dominantes que possibilitaram a criação de um país? Não se trata de perguntarmos qual o perfil daqueles que foram às ruas pelas eleições diretas ou que torceram pela democracia, mas, sim, indagar sobre aqueles que conduziram o processo político e institucional nas instâncias executivas e legislativas. Um breve levantamento de dados nos dá algumas pistas das extensões da questão. Se olharmos atentamente as sessões de trabalho para a Constituição de 1988, apenas 4% de um quórum superior a 550 constituintes foi composto por mulheres. Quando realizamos um recorte racial, de políticos negros, havia menos de 2%. Diante dessas limitações, que não representam a pluralidade social do Brasil, a gente fez uma democracia a partir de quais bases?



NOTA

1. Declaração publicada na reportagem “Itamar Assumpção, a todo vapor”. Folha de S.Paulo, 29 de agosto de 1984, p. 40.

Stefan Georg: "Nacht-Gesang" / "Noturno": trad. por João Accioli

 



Noturno



Calmo e esquivo

longe de mim

vagar e errar

meu destino.


Tempestade e outono

Com a morte.

Brilho e maio

Com a vida.


O que fiz

O que sofri

O que pensei

O que sou:


fumo

que se esgarça

canto

que se acaba.








Nacht-Gesang 


Mild und trüb
  
Ist mir fern,  

Saum und Fahrt  

Mein Geschick.   



Sturm und Herbst  

Mit dem Tod, 

Glanz und Mai  

Mit dem Glück.   


Was ich tat,  

Was ich litt,  

Was ich sann,  

Was ich bin:   


Wie ein Brand  

Der verraucht,  

Wie ein Sang  

Der verklingt.







GEORG, Sefan. "Nachtgesang" / "Noturno". Trad. por João Accioli..In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janiero: Ediouro, s.d.


3.2.21

Rainer Maria Rilke: "Morge": trad. por Augusto de Campos

 



Morgue



Estão prontos, ali, como a esperar

que um gesto só, ainda que tardio,

possa reconciliar com tanto frio

os corpos e um ao outro harmonizar;


como se algo faltasse para o fim.

Que nome no seu bolso já vazio

há por achar? Alguém procura, enfim,

enxugar dos seus lábios o fastio:


em vão; eles só ficam mais polidos.

A barba está mais dura, todavia

ficou mais limpa ao toque do vigia,


para não repugnar o circunstante.

Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,

olham só para dentro, doravante.




Morgue



Da liegen sie bereit, als ob es gälte,

nachträglich eine Handlung zu erfinden,

die mit einander und mit dieser Kälte

sie zu versöhnen weiß und zu verbinden;

 

denn das ist alles noch wie ohne Schluß.

Was für ein Name hätte in den Taschen

sich finden sollen? An dem Überdruß

um ihren Mund hat man herumgewaschen:

 

er ging nicht ab; er wurde nur ganz rein.

Die Bärte stehen, noch ein wenig härter,

doch ordentlicher im Geschmack der Wärter,

 

nur um die Gaffenden nicht anzuwidern.

Die Augen haben hinter ihren Lidern

sich umgewandt und schauen jetzt hinein.









RILKE, Rainer Maria. "Morgue". In: CAMPOS, Augusto de. Coisas e anjos de Rilke.  São Paulo: Perspectiva, 2013.

30.1.21

Lêdo Ivo: "Soneto de Roma"

 



Soneto de Roma



Felizes os que chegam de mãos dadas

como se fosse o instante da partida

e entre as fontes que jorram a água clássica

dão em silêncio adeus à claridade.


No dourado crepúsculo da tarde

o que nos dividiu agora é soma

e a vida que te dei e que me deste

voa entre os pombos no fulgor de Roma.


Todo fim é começo. A água da vida

eterna e musical sustenta o instante

que triunfa da morte nas ruínas.


Como o verão sucede à neve fria

um sol final aquece o nosso amor,

devolução da aurora e luz do dia.





IVO, Lêdo. "Soneto de Roma". In:_____. "Noturno romano". In:_____. Poesia completa, 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.


28.1.21

Antonio Cicero: Hora

 



Hora

                                                                   Para Alex Varella

 

Ajax não pede a Zeus pela própria

vida mas sim que levante as trevas

e a névoa a cobri-lo e aos seus em Troia:

que tenha chegado a sua hora

sim! Mas não obscura: antes à plena

luz do dia e sua justa glória.

 




CICERO, Antonio. "Hora". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012

26.1.21

Rodrigo Garcia Lopes: "Le son et le sens"

 



Le son et le sens 


Nada foi perdido 

nada jamais tido 

entre a pedra e a perda 

entre o vidro e o vivido 

entre a onda e a sombra 

entre o ritmo e o rito 

entre o sonho e o sol 

não ficou vestígio. 


Só o som ficou 

entre a letra e o espírito 

no instante dito 

no ar sumido 

e este estar estrito 

e este silêncio escrito — 

tudo foi sentido







LOPES, Rodrigo Garcia. "Le son et le sens". In:_____. O enigma das ondas. São Paulo: Iluminuras, 2020.

23.1.21

Marco Lucchesi: "Beleza desnuda, cintilação"

 



Beleza desnuda, cintilação. A síntese intangível, acima das partes, da soma das partes. Não mais que lúcidos vestígios.

Ó sede que desenha os lábios da loucura.




LUCCHESI, Marco. "Beleza desnuda". In:_____.  Mal de amor. São Paulo: Patuá, 2018.

21.1.21

Charles Baudelaire: "De profundis clamavi": trad. por Júlio Castañon Guimarães

 



De profundis clamavi


Imploro-te piedade, meu único amor,

Do abismo onde me foi o coração lançado,

Triste universo e seu horizonte cerrado

Onde na noite nadam blasfêmia e horror;


Seis meses paira um sol frio nessa região,

Por seis outros a noite vem tudo ganhar;

É uma extensão mais nua que a terra polar;

– Nem animais, nem riachos, nem vegetação!


Ora, não há horror no mundo que ultrapasse

A gélida crueldade desse sol e a face

Dessa noite sem fim, ao Caos tão semelhante;


Tenho inveja da fera mais horripilante,

Que pode afundar num sono sem contratempo,

Tão lenta se desfia a urdidura do tempo!








De profundis clamavi


J'implore ta pitié, Toi, l'unique que j'aime,

Du fond du gouffre obscur où mon coeur est tombé.

C'est un univers morne à l'horizon plombé,

Où nagent dans la nuit l'horreur et le blasphème;


Un soleil sans chaleur plane au-dessus six mois,

Et les six autres mois la nuit couvre la terre;

C'est un pays plus nu que la terre polaire

— Ni bêtes, ni ruisseaux, ni verdure, ni bois!


Or il n'est pas d'horreur au monde qui surpasse

La froide cruauté de ce soleil de glace

Et cette immense nuit semblable au vieux Chaos;


Je jalouse le sort des plus vils animaux

Qui peuvent se plonger dans un sommeil stupide,

Tant l'écheveau du temps lentement se dévide!






BAUDELAIRE, Charles. "De profundis clamavi". In: As flores do mal. Trad. por Júlio Castañon Guimarães. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

19.1.21

Geraldo Holanda Cavalcanti: "Para findar"

 



Para findar


Que me resta dizer agora

que o desejo estrebucha

no corpo sem memória

que as palavras recolho

improferidas

para que o ouvido

não maculem

tornando ridículo

o que quisera belo?

Não olho no espelho de minhas mãos

que ao afago já não servem

Perdi as rédeas do sonho

e a beleza ora vejo

pela vidraça baça

de meus olhos sem lampejo







CAVALCANTI, Geraldo Holanda. "Para findar". In: Poesia reunida. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.

17.1.21

Casimiro de Brito: poemas "1" e "2" de "Ofício de oleiro"

 



1


O mundo não está frio

nem morto nem

indiferente

às formigas que brilham

na carne da pedra.




2


O barro desta luz

andrógina canto – 

barca de som

onde se alojam a febre, o sémen

do mar, aves

que não me canso

de invocar




BRITO, Casimiro de. Poemas "1" e "2" de "Ofício de oleiro". In:_____. Arte pobre. Leiria: Editorial Diferença, 2000.

14.1.21

Geraldo Carneiro: "O tal total"

 



o tal total


o amor é o tal total que move o mundo

a tal totalidade tautológica,

o como somos: nossos cromossomos

nos quais nunca se pertenceu ao nada:

só pertencemos ao tudo total

que nos absorve e sorve as nossas águas

e as nossas mágoas ficam revoando

como se revoltadas ao princípio,

àquele principício originário

onde era Orfeu, onde era Prometeu,

e continua sendo sempre lá

o cais, o never more, o nunca mais,

o tal do és pó e ao pó retornarás.





CARNEIRO, Geraldo. "O tal total". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

12.1.21

Weydson Barros Leal: "PARA JOSÉ MARIO PEREIRA"

 



PARA JOSÉ MARIO PEREIRA



No futuro, 

no silêncio de uma biblioteca de vozes

que ainda não sabemos nomear, 

um homem descobrirá que no Brasil - no tempo 

das pestes que inquietavam a ciência - 

um outro homem lia e gravava poemas

como uma cura fugaz. 

Terá sido um estranho ofício, pensará 

o descobridor, não fosse o alento 

que aqueles poemas podiam levar

ao seu redor antigo. 

No silêncio desse leitor de vozes, 

uma palavra restará guardada 

como uma incompreensão, 

e por um instante algo daquilo 

renovará a humanidade. 








LEAL, Weydson Barros. "PARA JOSÉ MARIO PEREIRA". 

10.1.21

Domício Proença Filho: "O poema"

 



O poema


Ali 

o fundo do poço. 

Ali 

o caminho novo.

Ali

a terra, o infinito,

a água, o ar e o fogo.

Ali

a luz, o mistério.

Ali 

o silêncio

e a palavra:

Ali

o risco do jogo.




PROENÇA FILHO, Domício. "O poema". In:_____. O risco do jogo. São Paulo: Prumo, 2013.

7.1.21

Eucanaã Ferraz: "18.05.1961"

 



18.05.1961



Nasci num lugar pobre,

onde o hospital era longe,

onde era longe a estrada

e os anjos não conheciam:


Nasci mês de maio, azul

de tardes macias,

de pai José,

mãe Maria.


Batizaram-me: Terra Prometida.

Terra pobre, onde a felicidade passa 

longe, mas daqui eu a vejo

e todo o meu corpo brilha.






FERRAZ, Eucanaã. "18.05.1961". In:_____.  Livro primeiro. Rio de Janeiro: Edições do autor, 1990. 

5.1.21

Carlos Nejar: "Nossa é a miséria"

 



Nossa é a miséria




Nossa é a miséria,

nossa é a inquietação incalculável,

nossa é a ânsia de mar e de naufrágios,

onde nossas raízes se alimentam.


Em vão lutamos

contra os grandes signos.


Seremos sempre

a mesma folhagem

de madrugada ausente.


O mesmo aceno imperceptível

entre a janela e o sonho.

A mesma lágrima

no mesmo rosto vazio.


A mesma frase

dentro dos mesmos olhos

sob a fonte.


Seremos sempre

a mesma dor oculta

nas árvores, no vento.


A mesma humilhação

diante da vida.

A mesma solidão

dentro da noite.


A mesma noite antiga

que separa

a semente do fruto

e amadurece

os lábios para a morte

como um rasto

de silêncio no mar.





NEJAR, Carlos "Nosssa é a miséria". In:_____. Livro de Silbion. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1963.


3.1.21

Rogério Batalha: "O vaqueiro"

 



O vaqueiro



em Miguel Couto

(onde nasci)

havia um vaqueiro chamado Diomedes


com suas quietudes, seus pés tristes

seus desertos, sua pele violeta

seus ruídos e pastos


o velho vaqueiro

tinha o verde como palácio

por oração, cavalos.







BATALHA, Rogério. "O vaqueiro". In_____. AZUL. Rio de Janeiro: Texto Território, 2016


1.1.21

Antonio Carlos Secchin: "Não, não era ainda a era da passagem"

 




Não, não era ainda a era da passagem

do nada ao nada, e do nada ao seu restante.

Viver era tanger o instante, era linguagem

de se inventar o visível, e era bastante.

Falar é tatear o nome do que se afasta.

Além da terra, há só o sonho de perdê-la.

Além do céu, o mesmo céu, que se alastra

num arquipélago de escuro e de estrela.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Não, não era ainda a era da passagem". In:_____. Todos os ventos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002.