21.6.21

Régis Bonvicino: "Suor"

 



Suor

 


O mar o mormaço o meio-dia

um cão se delicia

nas ondas do mar

verde, a mata


verde avança

no rochedo

o esqueleto de um peixe

na areia da praia


a brisa

o que tenho a dizer?

o que ela diz

 

o rouco marulho das ondas

sim

e nada além de ser



                                                                              Trindade,       1/2003       



BONVICINO, Régis. "Suor". In:_____. "Remorso do cosmos (de ter vindo ao sol). In:_____. Até agora: poemas reunidos. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.


19.6.21

Carlos Drummond de Andrade: "lembrete"

 



lembrete


Se procurar bem, você acaba encontrando

não a explicação (duvidosa) da vida,

mas a poesia (inexplicável) da vida




ANDRADE, Carlos Drummond de. "lembrete". In:_____. "Corpo". In:_____. Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.


16.6.21

Charles Baudelaire: "Correspondances" / "Correspondências": trad. por Ivan Junqueira

 



Correspondências



A Natureza é um templo onde vivos pilares 

Deixam filtrar não raro insólitos enredos; 

O homem o cruza em meio a um bosque de segredos 

Que ali o espreitam com seus olhos familiares. 


Como ecos longos que à distância se matizam 

Numa vertiginosa e lúgubre unidade, 

Tão vasta quanto a noite e quanto a claridade, 

Os sons, as cores e os perfumes se harmonizam. 


Há aromas frescos como a carne dos infantes, 

Doces como o oboé, verdes como a campina, 

E outros, já dissolutos, ricos e triunfantes, 


Com a fluidez daquilo que jamais termina, 

Como o almíscar, o incenso e as resinas do Oriente, 

Que a glória exaltam dos sentidos e da mente. 






Correspondances



La Nature est un temple où de vivants piliers 

Laissent parfois sortir de confuses paroles; 

L'homme y passe à travers des forêts de symboles 

Qui l'observent avec des regards familiers. 


Comme de longs échos qui de loin se confondent 

Dans une ténébreuse et profonde unité, 

Vaste comme la nuit et comme la clarté, 

Les parfums, les couleurs et les sons se répondent. 


Il est des parfums frais comme des chairs d'enfants, 

Doux comme les hautbois, verts comme les prairies, 

–  Et d'autres, corrompus, riches et triomphants, 


Ayant l'expansion des choses infinies, 

Comme l'ambre, le musc, le benjoin et l'encens, 

Qui chantent les transports de l'esprit et des sens. 





BAUDELAIRE, Charles. "Correspondances" / "Correspondências". In:_____. As flores do mal. Trad. de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.


13.6.21

Luis Olavo Fontes: "meu amor de soslaio"




meu amor de soslaio


Faz tanto calor no Rio de Janeiro

que é bom sentir essa neve

partir do seu olhar.




FONTES,  Luis Olavo. "meu amor de soslaio". In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. Antologia [1976]. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

 

11.6.21

Eugénio de Andrade: "Regressar ao corpo, entrar nele"

 



Regressar ao corpo, entrar nele

sem receio da insurreição da carne.

Nenhuma boca é fria,

mesmo quando atravessou


o inverno. Uma boca é imortal

sobre outra boca: diamante

aceso, estrela aberta

quando a luz irrompe, invade


ombros, peitos, coxas, nádegas, falos.

Despertos, puros no seu pulsar,

aí os tens: esplendorosos,

duros.





ANDRADE, Eugénio de. "Regressar ao corpo, entrar nele". In:_____. "Branco no branco". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Org. por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

9.6.21

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "O nosso amor parecia uma história de fadas"

 



O nosso amor parecia uma história de fadas

o encanto girava que nem em quatro rodas

depois as rodas deram umas guinadas

e descambou tudo num conto de fodas.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "O nosso amor parecia uma história de fadas". In:_____. Malva 62: uma recolha de poemas breves. São Paulo: Escrituras, 2011.

7.6.21

Sylvio Back: "ante"

 



ante


ante a lágrima arredia

ante a súplica da alma


ante a lassidão pétrea

ante a colossal tontura


ante o rumor derruído

ante o nervo sanguíneo


ante o agudo alvéolo

ante o áspero clarão


ante o iniludível flerte

ante o inaudível falsete


a esperança é grotesca





BACK, Sylvio. "ante". In:_____. "A maior diversão" (inédito). In:_____. Silenciário: obra reunida. Florianópolis: Editora da UFSC, 2021.


5.6.21

Vera Casa Nova: "Meu poema é feito"

 

Os poemas do belo livro Versos oblíquos ou a obliquidade do tempo, de Vera Casa Nova, são, como ela mesma diz, feitos como conversas com a poesia de diversos poetas. Resolvi, aqui, postar um poema que conversa com a poesia de Hölderlin.




Meu poema é feito

de restos -- 

de mim, da memória

de outros poetas --

o passado de leitura

o presente de leitora

vão abrindo

caminhos

para os versos acontecerem.

Partilho aqui e ali

um verso bem feito

ou mal feito

nos espaços da paixão 

pela poesia.





NOVA, Vera Casa. "Meu poema é feito". In:_____. Versos oblíquos ou a obliquidade do tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2021.

3.6.21

Antonio Carlos Secchin: "Carta aos pais"

 



Carta aos pais



Vem de um sonho distante

o que aqui celebro novamente:

o amor e seu motor incessante

que incendeia de luz toda a gente.

Catorze de janeiro sessenta vezes

ainda assim não é bastante:

tudo que parecia tão antigo

ressurge na força deste instante.

Sessenta vezes ser feliz inteiro,

por inteiro ser companheiro e amante.

Mil novecentos e quarenta e sete,

clara memória, afeto transbordante

que gerou Carlos, Antonio e Cristina,

ao abrigo do vento e da vida errante.

Regy e Sives, tanta alegria de ver

que vale viver, se viver intensamente

é ação recomeçada em cada dia,

para que cada dia se reinvente.

Nossa herança maior - os pais

que sabem nos chamar para o futuro,

pais que não são de antigamente,

pois o que eles fazem do passado

é trazê-lo sempre perto do presente.

Pais, queridos pais, sessenta anos

aqui se condensam diante de nós,

e, mesmo que nossa voz não cante

tanto quanto se presume,

que agora, então, se proclame

a conta incontornável

deste amor que número nenhum resume.

O tempo, que é velho e que é infante,

nesta hora entra na sala, lentamente.

Aproxima-se de Sives e Regy,

e vê que o par, de tão perfeito e tão constante,

já se tornou eterno nessas bodas,

que, como o casal, são de puro diamante.







SECCHIN, Antonio Carlos. "Carta aos pais". In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.

1.6.21

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Terror de te amar"

 



Terror de te amar



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo


Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.







ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Terror de te amar". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005.

30.5.21

Giuseppe Ungaretti: "Veglia" / "Vigília": trad. de Geraldo Holanda Cavalcanti




 Vigília


Cima Quattro, 23 de dezembro de 1915


Uma noite inteira

jogado ao lado

de um companheiro

massacrado

com a boca

arreganhada

voltada para a lua cheia

com a convulsão

de suas mãos

entranhada

no meu silêncio

escrevi

cartas cheias de amor


Nunca estive

tão

aferrado à vida





Veglia


Cima Quattro il 23 dicembre 1915


Un'intera nottata

buttato vicino

a un compagno

massacrato

con la sua bocca

digrignata

volta al plenilunio

con la congestione

delle sue mani

penetrata

nel mio silenzio

ho scritto

lettere piene d'amore


Non sono mai stato

tanto

attaccato alla vita




UNGARETTI, Giuseppe. "Veglia" / "Vigília". In_____. "Il porto sepolto" / "O porto sepulto". In:_____. Poemas. Seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: edUSP, 2017.


28.5.21

Adriano Nunes: "Sem precisar de uma palavra"

 



Sem precisar de uma palavra



e, além, os fenícios, as fendas

da fala, a ferrugem intacta

do que se foi, do que seria

se existisse mesmo a alegria


de, através de desenhos, signos,

símbolos, letras e caracteres

diversos, entregar-te os sonhos

todos, de uma só vez, pra sempre,


e, pra sempre, ficar-me à tez

da existência, por muito ama-te.

Mas são só sombras e silêncios


de grafite todo o mistério 

de haver amor, de amar o amor,

sem precisar de uma palavra.




NUNES, Adriano. "Sem precisar de uma palavra". In:_____. Laringes de grafite. Porto Alegre: Vidráguas, 2012. 

25.5.21

Michelangelo Buonarroti: "Veggio nel tuo bel viso, signor mio" / "Vejo no teu belo rosto, senhor meu"




Vejo no teu belo rosto, senhor meu 


    Vejo no teu belo rosto, senhor meu,

o que mal posso narrar nesta vida:

a alma, de carne ainda vestida,

com ele muitas vezes subiu a Deus.

    E se o vulgo maldoso, néscio e cruel,

aquilo que sente, em outrem aponta e indica,

não aprecio menos o intenso querer

o amor, a fé e honestos desejos.

    Àquela piedosa fonte, onde nascemos todos,

a olhos cordatos, mais que tudo se parece

tamanha beleza que ao redor se vê.

    Nem outra prova temos nem outros frutos

do céu na terra; e quem te ama com fé

ascende a Deus, e julga bem doce a morte.




Veggio nel tuo bel viso, signor mio


    Veggio nel tuo bel viso, signor mio,

quel che narrar mal puossi in questa vita:

l'anima, della carne ancor vestita,

con esso è già più volte ascesa a Dio.

    E se 'l vulgo malvagio, isciocco e rio,

di quel che sente, altrui segna e addita,

non è l'intensa voglia men gradita,

l'amor, la fede e l'onesto desio.

    A quel pietoso fonte, onde siàn tutti,

s'assembra ogni beltà che qua si vede

più c'altra cosa alle persone accorte;

    né altro saggio abbiàn né altri frutti

del cielo in terra; e chi v'ama con fede

trascende a Dio e fa dolce la morte.






BUONARROTI,  Michelangelo. "Veggio nel tuo bel viso, signor mio" / "Vejo no teu belo rosto, senhor meu". In:_____. Poemas. Trad. por Nilson Moulin. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1994.





23.5.21

Percy Bysshe Shelley: "A dirge" / "Uma nênia": trad. por Adriano Scandolara

 



Uma nênia



Tufão, que tanto geme,

  luto ao canto mudo;

se, ao vento à noite, freme,

  negro, o céu profundo;

    tormenta em vãos lamentos,

    sarçal curvado aos ventos,

    a furna e mar violentos, ―

urram o error do mundo!





A dirge



Rough wind, that moanest loud

  Grief too sad for song;

Wild wind, when sullen cloud

  Knells all the night long;

    Sad storm whose tears are vain,

    Bare woods, whose branches strain,

    Deep caves and dreary main,

Wail, for the world's wrong!







SHELLEY, Percy Bysshe. "A dirge" / "Uma nênia". In:_____. Prometeu desacorrentado e outros poemas. Trad. por Adriano Scandolara. Belo Horizaonte: Autêntica Editora, 2015. 

20.5.21

Nelson Ascher: "É isto?"

 



É isto?



Estou, mas onde?

Quem é que existo?

Entrei sem visto

e, até que o bonde


chegue imprevisto,

brinco de esconde-

esconde. É isto?

Ninguém responde.


Durmo desperto

e, em desconcerto

quando o consigo,


me desacordo

do desacordo

de um si consigo.




ASCHER, Nelson. "É isto?" In:_____. Parte alguma: poesia (1997-2004). São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

18.5.21

Eucanaã Ferraz: "Rápidos e vão embora"

 



Rápidos e vão embora



Dizem nada como um dia após

o outro


como se o dia seguinte viesse

inevitável um remédio


um diamante mas há dias em que

o dia após o outro não é nada


mais que um dia idêntico

ao de ontem


um dado

com todos os lados o mesmo relógio


magro desses que nos devoram

rápidos e vão embora o diabo o dá


o diabo o leva

o dia seguinte


pode ser só a res-

saca ou aquele em que desaba


a catástrofe um dia após o outro dizem

como se nos ensinassem a nadar:


os braços assim, à frente, o outro

agora o outro, isso,


e lá vamos nós adiante braçadas

contra o calendário


até que – às vezes é assim

morremos hoje – um após


o outro virão dias

e dias sem nós


sem que nunca venha

o dia do juízo.






FERRAZ, Eucanaã. "Rápidos e vão embora". In:_____. Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

15.5.21

Oswald de Andrade: "Pronominais"

 



Pronominais


Dê-me um cigarro

Diz a gramática

Do professor e do aluno

E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco

Da Nação Brasileira

Dizem todos os dias

Deixa disso camarada

Me dá um cigarro








ANDRADE, Oswald. "Pronominais". In: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

13.5.21

Júlio Castañon Guimarães: "Geografia"

 



Geografia


sombras ancestrais

claras manhãs

em que margem?

ainda que a memória esbata as horas

o que  há são espaços perdidos

uma casa

uma viagem

cabelos soltos em minhas mãos




GUIMARÃES, Júlio Castañon. "Geografia". In: FÉLIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte, 1998.


11.5.21

Salgado Maranhão: "Tambores"

 



Tambores

                    Para Elton Medeiros


Sou da terra

dos tambores que falam.

E guardo no corpo a memória

que acorda o silêncio.


Eu vi a lua descer

para assistir minha mãe

dançar.


a camponesa que amava

latim.


eu vi a mão preta açoitar

o tambor; eu ouvi

roncar a madeira sagrada:


o rito da voz ancestral

antes do cogito e da parabólica.






MARANHÃO, Salgado. "Tambores". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris.

8.5.21

Paulo Henriques Britto: "XII". Da série Caderno

 



XII



Confinado num corpo

de dúbia propriedade

provido de um contorno

muito bem delineado,


procura na palavra

(por mais escarnecida)

a possibilidade

de uma quase saída


rumo a um outro eu

novo do cerne à casca

ou então, faute de mieux,

a uma boa máscara.




BRITTO, Paulo Henriques. "XII" da série Caderno. In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

6.5.21

Geraldo Carneiro: "Miragem em abismo"

 



Miragem em abismo


não sei de que tecido é feito o ser.

meus planos sonhos enganos

se tecem na fábrica da vida

e se destecem na arquitetura do caos.

vou criando edifícios em que me

                                           demoro

e de onde salto em busca de não sei.

meu ser é parte dessa miragem

                                           em abismo

um espelho em que me não vejo

e em me não vendo acendo a chama

que se chama desejo.


 talvez do outro lado exista um cais.

sei que sempre existe certa distância

                                          entre mim

e o circo da minha circunstância

 


CARNEIRO, Geraldo. "Miragem em abismo". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

4.5.21

Antonio Carlos Secchin. "Linha de fundo"

 



Linha de fundo


Assim meio jogado pra escanteio,

volto ao poema, este local do crime.

Mas é o desprezo que melhor exprime

aquilo que no verso eu trapaceio.

Se nada do que digo me define,

cópia pirata de um desejo alheio,

revelo a ti, leitor, o que eu anseio:

um abutre no cadáver do sublime.

A matéria é talvez muito indigesta,

me obriga a convocar um mutirão

para acabar com toda aquela festa

de pétalas e plumas de plantão.

Memória derrubada pelo vento,

quero aqui só lembrar o esquecimento.





SECCHIN, Antonio Carlos. "Linha de fundo". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.

2.5.21

Adriano Espínola: "A cebola"

 



A cebola



Cortá-la camada

por camada

até chegar


ao centro.


((Ao bulbo do nada

do eu mais

dentro)).


Não chorar.




ESPÍNOLA,  Adriano. "A cebola". In: SABINO, Paulo (org.). A estante dos poetas. Antologia. Rio de Janeiro: Ibis Libris, 2020.



29.4.21

Lançamento de "Silenciário": obra poética reunida de Sylvio Back

 

EdUFSC – Release 

 

Lançamento nacional de “Silenciário”:

  obra poética reunida de Sylvio Back

 

Afirmando no prefácio de "Silenciário", obra poética reunida de Sylvio Back (lançamento nacional no próximo dia 03 de maio), que "o autor realiza experiência única no panorama da cultura brasileira", o poeta e escritor, Adriano Espínola, dá o mote desta bela e rara publicação da EdUFSC (Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, 431 págs. 2021).

E completa para enaltecer a fusão da "expertise de cineasta à de poeta", onde, mesmo diante da morte, para Back o cinema é a "maior diversão", por sinal, título do florilégio de trinta e seis inéditos que abre o livro.

Antenada aos tempos da horrível pandemia que nos assola, a EdUFSC está brindando o público amante de poesia e de literatura com "Silenciário", tanto no formato de e-book, desde já na íntegra com acesso gratuito pelo link

https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/221419/Silenciario-ebook%209fev21.pdf?sequence=1

como na versão impressa através do link

https://editora.ufsc.br/2021/03/25/em-breve-silenciario-de-sylvio-back/

Para ler

"Silenciário", que traz inspirada capa do designer, Luiz Antonio Solda, compila obras que remontam aos últimos trinta anos, desde a estreia do poeta em "Moedas de Luz" (1988), a "Yndio do Brasil - Poemas de Filme" (1995), "Eurus" (2004), "Traduzir é poetar às avessas (Langston Hughes por Sylvio Back), de 2005; ao mais recente, "Kinopoems" (2006/2014).

A destacar que Sylvio Back, "hoje um dos principais cultores do poema erótico no Brasil”, segundo Adriano Espínola, teve publicado em "Quermesse" (Topbooks, RJ, 2013) todos seus livros nessa vertente, inclusive os inéditos que dão o título ao conjunto. 

O autor

Sylvio Back, 83, é cineasta, poeta, roteirista e escritor. Filho de imigrantes hún­garo e alemã, nascido em Blumenau (SC), acaba de receber o título de “Doutor Honoris Causa”, concedido pela Universidade Federal de Santa Catarina, por sua obra cinematográfica e literária dedicada à arte e à cultura brasileiras.

Ex-jornalista e crí­tico de cinema, em 1962 inicia-se na direção cinematográfica, tendo escrito, realizado e produzido até hoje trinta e oito filmes – curtas, médias e doze longas-metragens: "Lance Maior" (1968), "A Guerra dos Pe­lados" (1971), "Ale­luia, Gretchen" (1976), "Revo­lução de 30" (1980), "Repú­blica Gua­rani" (1982), "Guerra do Bra­sil" (1987), "Rádio Auriverde" (1991), "Yndio do Brasil" (1995), "Cruz e Sousa – O Poeta do Des­terro" (1999), "Lost Zweig" (2003), "O Contestado – Restos Mortais" (2010), e "O Universo Graciliano" (2013).

Tem publicados vinte e cinco livros (poesia, contos, ensaios) e os argu­men­tos/roteiros de dez de seus longas metragens citados.

Com 77 láureas nacionais e internacionais, Sylvio Back é um dos mais premiados cineastas do Brasil.

Contatos com o autor: 21-2522.4574.


28.4.21

Manuel Bandeira: "Mal sem mudança"

 



Mal sem mudança



Da América infeliz porção mais doente,

Brasil, ao te deixar, entre a alvadia

Crepuscular espuma, eu não sabia

Dizer se ia contente ou descontente.


Já não me entendo mais. Meu subconsciente

Me serve angústia em vez de fantasia,

Medos em vez de imagens. E em sombria

Pena se faz passado o meu presente.


Ah, se me desse Deus a força antiga,

Quando eu sorria ao mal sem esperança

E mudava os soluços em cantiga!


Bem não é que a alma pede e não alcança.

Mal sem motivo é o que ora me castiga,

E ainda que dor menor, mal sem mudança.





BANDEIRA, Manuel. "Mal sem mudança". In:_____. "Estrela da tarde". In:_____. Estrela da vida inteira. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

26.4.21

Sosígenes Costa: "Tornou-se o por-do-sol um nobre entre os rapazes"

 



Tornou-me o por-do-sol um nobre entre os rapazes


Queima sândalo e incenso o poente amarelo

perfumando a vereda, encantando o caminho.

Anda a tristeza ao longe a tocar violoncelo.

A saudade no ocaso é uma rosa de espinho.


Tudo é doce e esplendente e mais triste e mais belo

e tem ares de sonho e cercou-se de arminho.

Encanto! E eis que já sou o dono de um castelo

de coral com porões de pedra e cor de vinho.


Entre os tanques dos reis, o meu tanque é profundo.

Entre os ases da flora, os meus lírios lilases

Meus pavões cor de rosa os únicos do mundo.


E assim sou castelão e a vida fez-se oásis

pelo simples poder, ó por-do-sol fecundo,

pelo simples poder das sugestões que trazes.




COSTA, Sosígenes. "Tornou-se o por-do-sol um nobre entre os rapazes". In:_____. Obra poética. São Paulo: Cultrix; (Brasília): 1978.

24.4.21

Giuseppe Ungaretti: "IN MEMORIA" / "IN MEMORIAM": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti

 



IN MEMORIAM

Locvizza, 30 de setembro de 1916



Chamava-se

Moammed Sceab


Descendente

de emires de nômades

suicida

porque não tinha mais

Pátria


Amou a França

e mudou de nome


Foi Marcel

mas não era francês

e já não sabia

viver

na tenda dos seus

onde se escuta a cantilena

do Alcorão

saboreando um café


E não sabia

desatar

o canto

do seu abandono


Acompanhei-o

junto com a dona da pensão

onde vivíamos

em Paris

do número 5 da rue des Carmes

esquálido beco em declive


Descansa

no cemitério de Ivry

subúrbio que parece

sempre

em dia

de

decomposta feira


E talvez apenas eu

saiba ainda

que viveu





IN MEMORIA

Locvizza il 30 settembre 1016



Si chiamava

Moammed Sceab


Discendente

di emiri di nomadi

suicida

perché non aveva più

Patria


Amò la Francia

e mutò nome


Fu Marcel

ma non era Francese

e non sapeva più

vivere

nella tenda dei suoi

dove si ascolta la cantilena

del Corano

gustando un caffè


E non sapeva

sciogliere

il canto

del suo abbandono


L’ho accompagnato

insieme alla padrona dell’albergo

dove abitavamo

a Parigi

dal numero 5 della rue des Carmes

appassito vicolo in discesa.


Riposa

nel camposanto d’Ivry

sobborgo che pare

sempre

in una giornata

di una

decomposta fiera


E forse io solo

so ancora

che visse






UNGARETTI, Giuseppe. "IN MEMORIA" / "IN MEMORIAM". In:_____. Poemas. Org. e trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti. São Paulo: Edusp, 2017.

22.4.21

Antonio Cicero: "Síntese"

 



Síntese







PAI MÃE

CÉU CHÃO

MÃE CÉU

PAI XÃO






CICERO, Antonio. "Síntese". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

20.4.21

Ferreira Gullar: "Perplexidades"

 


Perplexidades



a parte mais efêmera

                   de mim

é esta consciência de que existo


e todo o existir consiste nisto


é estranho!

e mais estranho

              ainda

              me é sabê-lo

e saber

que esta consciência dura menos

que um fio de meu cabelo


e mais estranho ainda

             que sabê-lo

é que

         enquanto dura me é dado

         o infinito universo constelado

         de quatrilhões e quatrilhões de estrelas

sendo que umas poucas delas

posso vê-las

                  fulgindo no presente do passado





GULLAR, Ferreira. "Perplexidades". In:_____, "De alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. 

17.4.21

Lêdo Ivo: "O dia inacabado"

 



O dia inacabado



Como todos os homens, sou inacabado. 

Jamais termino de ser. 

Após a noite breve um longo amanhecer 

me detém no umbral do dia. 

Perco o que ganho no sonho e no desejo 

quando a mim mesmo me acrescento. 

Toda vez que me somo, subtraio-me, 

uma porção levada pelo vento. 

Incompleto no dia inacabado, 

livre de ser ainda como e quando, 

sigo a marcha das plantas e das estrelas. 

E o que me falta e sobra é o meu contentamento. 




IVO, Lêdo. "O dia inacabado". In:_____. Mormaço.  Rio de Janeiro: Contra Capa, 2013.



15.4.21

Arnaldo Antunes: "apenas"








apenas




dis
pensa



o que pensa



.











               diz
          apenas                                 



          o indis




                     .
                     







                  



         pensável   














ANTUNES, Arnaldo. "apenas". In:_____. Algo antigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.













12.4.21

Dylan Thomas: "In my craft or sullen art" / "Neste meu ofício ou arte": trad. de Augusto de Campos

 



Neste meu ofício ou arte



Neste meu ofício ou arte

Soturna e exercida à noite

Quando só a lua ulula

E os amantes se deitaram

Com suas dores em seus braços,

Eu trabalho à luz que canta

Não por glória ou pão, a pompa

Ou o comércio de encantos

Sobre os palcos de marfim

Mas pelo mero salário

Do seu coração mais raro.


Não para o orgulhoso à parte

Da lua ululante escrevo

Nestas páginas de espuma

Nem aos mortos como torres

Com seus rouxinóis e salmos

Mas para os amantes, braços

Cingindo as dores do tempo,

Que não pagam, louvam, nem

Sabem do meu ofício ou arte.



In my craft or sullen art



In my craft or sullen art

Exercised in the still night

When only the moon rages

And the lovers lie abed

With all their griefs in their arms,

I labour by singing light

Not for ambition or bread

Or the strut and trade of charms

On the ivory stages

But for the common wages

Of their most secret heart.


Not for the proud man apart

From the raging moon I write

On these spindrift pages

Nor for the towering dead

With their nightingales and psalms

But for the lovers, their arms

Round the griefs of the ages,

Who pay no praise or wages

Nor heed my craft or art.





THOMAS, Dylan. "In my craft or sullen art" / "Neste meu ofício ou arte". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.).  Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006.

9.4.21

Johann Wolfgang von Goethe: "Beherzigung" / "Recomendação": trad. por Amélia de Rezende Martins

 




Recomendação


Ai, que deve o homem esperar?

É melhor ficar inerte?

É melhor viver sem leme?

A algum amor se aferrar?

Deve em tenda residir?

Ou uma casa edificar?

Deve-se fiar em rocha,

Tão sujeita a vacilar?

A cada um o seu tanto...

Cada qual rume, com fé,

Pense onde se fixar

E não caia estando em pé.




Beherzigung


Ach, was soll der Mensch verlangen?

Ist es besser, ruhig bleiben?

Klammernd fest sich anzuhangen?

Ist es besser, sich zu treiben?

Soll er sich ein Häuschen bauen?

Soll er unter Zelten leben?

Soll er auf die Felsen trauen?

Selbst die festen Felsen beben.

Eines schickt sich nicht für alle!

Sehe jeder, wie er's treibe,

Sehe jeder, wo er bleibe,

Und wer steht, daß er nicht falle!




Goethe, Johann Wolfgang von. "Beherzigung / "Recomendação". Trad. por Amélia de Rezende Martins. In: CAMPOS, Geir. O livro de ouro da poesia alemã (em alemão e português). Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.


7.4.21

Federico García Lorca: "Despedida": trad. por William Agel de Melo




Despedida


Se eu morrer,

deixai o balcão aberto.


    O menino chupa laranjas.

(Do meu balcão eu o vejo.)


    O segador sega o trigo.

(Desde meu balcão e o sinto.)


    Se eu morrer,

deixai o bacão aberto!





Despedida



Si muero,

dejad el balcón abierto.


    El niño come naranjas.

(Desde mi balcón lo veo).


    El segador siega el trigo.

(Desde mi balcón lo siento).


     ¡Si muero,

dejad el balcón abierto!





LORCA, Federico García. "Despedida". In:_____. "Canciones / Canções". In:_____. Obra poética completa. Trad. de William Agel de Melo. São Paulo: Martins Fontes Editora, 1987.

5.4.21

Diego Petrarca: "Alice ri"

 



Alice ri



Eu quero ir

com Alice

lá dentro de uma nuvem cheia

que nunca chove

Eu quero ir

com Alice

lá onde o tempo

só serve pra voar


e onde o sol

só desce

pra tomar

banho de mar


Eu quero ir

com Alice

lá onde a estrela

namora o passarinho


e onde é privilégio

se sentir sozinho


Eu quero ir

com Alice

lá onde os anjos

criam as aparências


e onde só exista Deus

nas coincidências


Com Alice

eu quero ir

eu quero rir




PETRARCA, Diego. "Alice ri". In:_____. Carnaval subjetivo. Porto Alegre: Class, 2018.


3.4.21

Waly Salomão: "Clandestino"

 



Clandestino


para Adriana Calcanhotto



vou falar por enigmas

apagar as pistas visíveis

cair na clandestinidade.

descer de pára-quedas

/camuflado/

numa clareira clandestina

da mata atlântica.


já não me habita mais nenhuma utopia

animal em extinção,

quero praticar poesia

– a menos culpada de todas as ocupações.


já não me habita mais nenhuma utopia.

meu desejo pragmático-radical

é o estabelecimento de uma reserva de ecologia

– quem aqui diz estabelecimento diz ESCAVAÇÃO –

que arrancará a erva daninha do sentido ao pé-da-letra,

capinará o cansanção dos positivismos e literalismos,

inseminará e disseminará metáforas,

cuidará da polinização cruzada,

cultivará hibridismos bolados pela engenharia genética,

adubará e corrigirá a acidez do solo,

preparará a dosagem adequada de calcário,

utilizará o composto orgânico

excrementado

pelas minhocas fornicadoras cegas

e propagará plantas por alporque

ou por enxertia.


já não me habita mais nenhuma utopia.


sem recorrer

ao carro alegórico:

olhar o que é,

como é, por natureza, indefinido.

quero porque quero o êxtase,

uma réplica reversora da república de Platão

agora expulsando para sempre a não-poesia

da metamorfose do mundo.


já não me habita mais nenhuma utopia.

bico do beija-flor suga glicose.

no camarão

em flor.


(de um livro em preparação, sem nome fixo)





SALOMÃO, Waly. "Clandestino". In:_____ "Pescados vivos". In:_____ Poesia total. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.

1.4.21

Ricardo Silvestrin: "Sacos"

 



Sacos



Estamos repletos de inutilidades,

suas, minhas,

inutilidades de família,

de valor inestimável.


Quinquilharias, ninharias,

boiando no pó, atiradas em caixas,

envelopes rasgados, gavetas.


Ninguém se arrisca a botar fora

esses tesouros de um reino perdido

entre os guardados.


Em quantos sacos de lixo,

sacos grandes de cem litros,

vai caber todo o passado?






SILVESTRIN, Ricardo. "Sacos". In:_____. "Outros cantos". In:_____. Carta aberta ao Demônio\. Porto Alegre: Libretos, 2021.

31.3.21

Conversa de Antonio Cicero com Luís Caetano sobre poesia e filosofia






Como eu, Antonio Cicero, a convite e sob a direção literária de Jorge Reis-Sá, acabo de publicar em Lisboa, na Coleção Plural da Imprensa Nacional de Portugal, três livros de poesia num só volume, com o nome de Guardar a cidade e os livros porventura, o excelente programa  A Ronda da Noite, da RTP -- Rádio e Televisão de Portugal -- pôs no ar uma conversa sobre poesia e filosofia que tive com Luis Caetano, o grande autor e apresentador de programas culturais. Ouçam: A Ronda da Noite


28.3.21

Carlos Cardoso: "Espanto"

 



 Espanto



Releio os meus versos

e me aterrorizo com o que faço.


Como pude escrevê-los?


Como me deixei expor

como um quadro na parede

em diferentes formas de estar ali

no plano

e sublinhado por tudo que é subjetivo?


Vontade de voltar a ser criança

e brincar de pique-esconde e lambuzar-me

de mariola e rapadura derretida,


por baixo da cama

jogar as folhas de papel,

doar minha lapiseira

a uma entidade filantrópica

e guardar tudo que sou,


deixar os meus rastros contados, 

fotografados e mostrados 

somente para minha memória,


e no espanto me desintegrar.





CARDOSO, Carlos. "Espanto". In:_____. Melancolia. Rio de Janeiro: Record, 2019.

26.3.21

Friedrich Hölderlin: "Buonaparte": trad. Antonio Cicero

 



Buonaparte


Vasos sagrados são os poetas,

Onde o vinho da vida, o espírito

Dos heróis se conserva;


O espírito desse jovem, porém,

Tão rápido, como não quebraria

Se o quisesse prender, o vaso?


Que o poeta o deixe intacto como o espírito da natureza,

Em tal matéria torna-se aprendiz o mestre.


No poema ele não pode viver e ficar:

Ele vive e fica no mundo.





Buonaparte


Heilige Gefäße sind die Dichter,

Worin des Lebens Wein, der Geist

Der Helden, sich aufbewahrt,


Aber der Geist dieses Jünglings,

Der schnelle, müßt er es nicht zersprengen,

Wo es ihn fassen wollte, das Gefäß?


Der Dichter laß ihn unberührt wie den Geist der Natur,

An solchem Stoffe wird zum Knaben der Meister.


Er kann im Gedichte nicht leben und bleiben,

Er lebt und bleibt in der Welt.





HÖLDERLIN, Friedrich „Buonaparte“. In:_____. Sämtliche Werke und Briefe.Vol.1. München: Carl Hanser Verlag, 1970,.

24.3.21

Mário Quintana: "LXXIII Da Realidade"

 



LXXIII Da Realidade


O sumo bem só no ideal perdura...

Ah! quanta vez a vida nos revela

Que "a saudade da amada criatura"

É bem melhor do que a presença dela...





QUINTANA, Mário. "LXXIII Da Realidade" In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012.

22.3.21

Antonio Cicero: "O Livro de Sombras de Luciano Figueiredo"

 



O livro de sombras de Luciano Figueiredo

 

1

 

Para onde vou, de onde vim?

Não sei se me acho ou me extravio.

Ariadne não fia o seu fio

à frente, mas sim atrás de mim.

Não será a saída um desvio

e o caminho o verdadeiro fim ?

 

2

 

Não é hora de regressos

Não é hora

 

3

 

É certo que me perco em sombras

e que, isolado em minha ilha,

já não me atingem as notícias

dos jornais a falar de bolsas,

modas, cidades que soçobram,

crimes, imitações da vida

ou da morte televisiva,

quadrilhas, teias penelópicas

de horrores ou de maravilhas

que dia a dia se desfiam

e fiam sem princípio ou fim

novíssimas novas artísticas,

científicas, estatísticas...

 

E há na noite quente um jasmim.

 

4

 

É aqui, mais real que as notícias, na própria

matéria, na dobradura de uma folha

em que se refolha este meu coração

babilônico, na configuração

da mancha gráfica sobre a tessitura

do papel tensionado, ou onde se apura

o lusco- fusco produzido por linhas

e entrelinhas, entre o preto e o branco e o cinza,

onde cada ideia, cada ponto e vírgula

dos trabalhos e das noites se confunde

com miríades de pontos de retícula

e meios-tons de clichês, entre o passado

que jamais está passado e alguns volumes,

linhas e planos apenas esboçados,

que súbito os elementos mais dispersos

se articulam, claro-escuro filme negro,

entre a pura matemática, o acaso

e a arte (esta árvore já foi vestido

de mulher) onde o delírio é mais preciso,

transparece o meu jornal imaginário.

 

5

 

Para onde vou, de onde vim?

Não sei se me acho ou me extravio.

Ariadne não fia o seu fio

à frente, mas sim atrás de mim.

Não será a saída um desvio

E o caminho o verdadeiro fim?






CICERO, Antonio. "O Livro de Sombras de Luciano Figueiredo". In:_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.






 









20.3.21

Arthur Rimbaud: "Le buffet" / "O armário": trad. de Ivo Barroso

 



O armário



Grande armário esculpido: o carvalho sombreado,

Muito antigo, adquiriu esse ar de bom dos idosos;

E, aberto, o armário espraia em sua sombra ao lado,

Como um jorro de vinho, odores capitosos;


Repleto, é uma babel de velhas velharias,

Recendentes lençóis encardidos, fustões

De infante ou feminis, as rendas alvadias

E os xales das avós pintados de dragões;


– Em ti podem-se achar os medalhões as mechas,

Os retratos, a flor ressequida que fechas,

Cujo perfume lembra o dos frutos dormidos.


– Ó armário de outrora, as histórias que exortas

E amarias contar, com teus roucos gemidos,

Quando se abrem de leve as tuas negras portas.








Le buffet




C'est un large buffet sculpté ; le chêne sombre,

Très vieux, a pris cet air si bon des vieilles gens ;

Le buffet est ouvert, et verse dans son ombre

Comme un flot de vin vieux, des parfums engageants ;



Tout plein, c'est un fouillis de vieilles vieilleries,

De linges odorants et jaunes, de chiffons

De femmes ou d'enfants, de dentelles flétries,

De fichus de grand'mère où sont peints des griffons ;



– C'est là qu'on trouverait les médaillons, les mèches

De cheveux blancs ou blonds, les portraits, les fleurs sèches

Dont le parfum se mêle à des parfums de fruits.



– Ô buffet du vieux temps, tu sais bien des histoires,

Et tu voudrais conter tes contes, et tu bruis

Quand s'ouvrent lentement tes grandes portes noires.







RIIMBAUD,  Arthur. "Le buffet" / "O armário". In:_____. Poesia completa. Trad. de Ivo Barroso. Rio de Janeiro: Topbooks, 1995. 
 


18.3.21

Giuseppe Ungaretti: "I ricordi" / "As lembranças": trad. por Geraldo Holanda Cavalcanti

 



As lembranças


As lembranças, infinito inútil,

Mas sós e unidas contra o mar, intacto

Em meio a estertores infinitos…


O mar,

Voz de uma grandeza livre,

Mas inocência inimiga nas lembranças,

Rápido em apagar as doces pegadas

De um pensamento fiel…


O mar, suas blandícias acidiosas

Quão ferozes e quão, quão esperadas,

E no momento da agonia,Sempre presente, renovada sempre,

No pensamento atento, a agonia…


As lembranças,

Revolver em vão

A areia que se move

Sem pesar sobre a areia,

Breves ecos prolongados,

Mudos, ecos de adeuses

De instantes que pareceram felizes…







I ricordi


I ricordi, un inutile infinito

Ma soli e uniti contro il mare, intatto

In mezzo a rantoli infiniti..


Il mare,

Voce d’una grandezza libera,

Ma innocenza nemica dei ricordi,

Rapido a cancellare le orme dolci

D’un pensiero fedele…


Il mare, le sue blandizie accidiose

Quanto feroci e quanto, quanto attese,

E alla loro agonia,

Presente sempre, rinnovata sempre

Nel vigile pensiero l’agonia..


I ricordi,

Il riversarsi vano

Di sabbia che si muove

Senza pesare sulla sabbia,

Echi brevi protratti,

Senza voce echi degli addii

A minuti che parvero felici…







UNGARETTI, Giuseppe. "I ricordi" / "As lembranças". In:_____. Poemas. Seleção e Tradução de Geraldo Holanda Cavalcanti. Prefácio de Alfredo Bosi. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2017.


16.3.21

Jorge Reis-Sá: "David Bowie [heroes]"

 



David Bowie

[Heroes]


Não é do pai que falo -- do amigo. Das conversas 

que ficaram por cumprir porque a morte se interpôs 

e as não permitiu. Do Lancia Delta que eu achava nos 

idos anos noventa o carro mais lindo do mundo e que 

ele, sapiente, retorquiu numa viagem luminosa


é demasiado semelhante a uma carrinha. O meu pai 

não gostava de carrinhas. Mas não é dele que falo – 

do amigo. Aquele que à entrada da salinha me via 

vibrar como David Bowie a cantar I, I wish you could 

swim, like dolphins, like dolphins can swim, vestido


de verde-alface. O David Bowie é o único homem 

no mundo a quem um fato verde-alface fica bem. 

O meu pai o único que consegue ficar para sempre 

à entrada da salinha.





REIS-SÁ, Jorge. "David Bowie [Heroes]". In:_____. Pátio. Rio de Janeiro: Jaguatirica, 2020. 

14.3.21

Antonio Carlos Secchin: Soneto de Lúcia

 



             Soneto de Lúcia



Luzes lançam-se agora na ribalta

Sobre a querida Lúcia, que, no meio

De uma guerra, nos leva a um devaneio:

Sonhar que a vida pode ser mais alta.

Venha ao Leblon, Marcel, chegue, Rimbaud,

Conosco se irmanando nesta ceia.

Nós somos, pois a arte nos salvou,

Ulisses sem naufrágio de sereia.

Vagamos, marinheiros veteranos,

Ainda assim ansiosos na aventura

De renascer além de tantos danos,

Festejando a alegria do que dura.

     E, revogadas as leis em contrário,

     Um viva à diva, em seu aniversário.




Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 2021

Antonio Carlos Secchin

12.3.21

Bertolt Brecht: "Hier standen die alten Mauren" / "Aqui ficavam os antigos mouros"




Aqui ficavam os antigos mouros


Aqui ficavam os antigos mouros

E miravam longamente o mar

Dizendo, reinos sã morredouros

E o nosso está para se acabar.


E o que os muros diziam é inconteste

Pois não sobrou um para contar;

E agora, onde ficavam, está Brecht

E ele mira longamente o mar.




Hier standen die alten Mauren


Hier standen die alten Mauren

Und shcauten aufs Meer hinaus

Und sagten, nun kann's nicht mehr lang dauern

Und dann ist's mit uns aus.


Und damit hatten die Mauren recht;

Denn jetzt ist's mit ihnen aus

Und da, wo sie standen, steht jetzt der Brecht

Und schaut aufs Meer hinaus




BRECHT, Bertolt. "Hier standen die alten Mauren" / "Aqui ficavam os antigos mouros". In: Poesia. Introdução e tradução. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.






9.3.21

Lord Byron: Poem 72 of Canto III of Childe Harold / "Poema 72 do Canto III de Childe Harold: trad. por Augusto de Campos

 


Do Canto III


                      72


Não vivo por mim mesmo. Sou só um

Elo do que me cerca, mas se a altura

Das montanhas enleva-me, o zum-zum

Das cidades humanas me tortura.

A criação só errou na criatura

Presa à carne, onde paro, relutante,

Buscando, libertada a alma pura,

Mesclar-me ao céu, aos montes, ao ondeante

Plaino do oceano, às estrelas, e ir adiante.







From Canto III



                          72



I live not in myself, but I become 

Portion of that around me; and to me 

High mountains are a feeling, but the hum 

Of human cities torture: I can see 

Nothing to loathe in nature, save to be 

A link reluctant in a fleshly chain, 

Class’d among creatures, when the soul can flee, 

And with the sky, the peak, the heaving plain 

Of ocean, or the stars, mingle, and not in vain. 








BYRON, George Gordon. "72 from Canto III of Chlde Harold" / "72 do Canto III de Childe Harold..In:_____. Entreversos. Trad. de Augusto de Campos. São Paulo: Unicamp, 2009.




6.3.21

W.B. Yeats: "The coming of wisdom with time" / "Com o tempo a sabedoria": trad. por José Agostinho Baptista

 



Com o tempo a sabedoria



Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;

Ao longo dos enganadores dias da mocidade,

Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;

Agora posso murchar no coração da verdade.




The coming of wisdom with time



Though leaves are many, the root is one;

Through all the lying days of my youth

I swayed my leaves and flowers in the sun;

Now I may wither into the truth.




YEATS, W.B. "The coming of wisdom with time" /  "Com o tempo a sabedoria". In:_____. Uma antologia. Org. e trad. por José Agostinho Baptista. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.




3.3.21

Antonio Cicero: "La Capricciosa"

 



La Capricciosa

 

In memoriam

Roberto Correia Lima, meu irmão

 

É claro que estou exposto

eu como todos os outros

animais às intempéries

que cedo ou tarde nos ferem;

mas aqui a noite, seda,

suavemente me enleia:

espelhos olhares vinhos

uvas cachos rosas risos

e ali, do lado de lá

das lâminas de cristal

tão tranquila e cintilante

quanto o céu, sonha a cidade.

 

Desperta-me um celular:

a morte também tem arte.




CICERO, Antonio. "La Capricciosa". In:-_____. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012.

1.3.21

Luís Miguel Nava: "Retrato"



retrato


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo--a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada em relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procurara protecção.





NAVA, Luís Miguel. "Retrato". In:____. Poesia completa. 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

26.2.21

Yves Bonnefoy: "Le pont de fer" / "A ponte de ferro": trad. por Mário Laranjeira

 



A ponte de ferro



Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua

Onde andava eu criança um pântano estagnado

Retângulo pesado de morte ao céu negro.


Desde então a poesia

Separou de outras águas suas águas,

Beleza alguma, ou cor a vão reter,

Por ferro ela angustia-se e por noite.


Nutre um longo

Pesar de margem morta, uma ponte de ferro

Lançada à outra margem mais noturna ainda

É sua só memória e só real amor.





Le pont de fer



Il y a sans doute toujours au bout d'une longue rue

Où je marchais enfant une mare d'huile,

Un rectangle de lourde mort sous le ciel noir.


Depuis la poésie

A séparé ses eaux des autres eaux.

Nulle beauté nulle couleur ne la retiennent,

Elle s'angoisse pour du fer et de la nuit.


Elle nourrit

Un long chagrin de rive morte, un pont de fer

Jeté vers l'autre rive encore plus nocturne

Est sa seule mémoire et son seul vrai amour.



BONNEFOY,, Yves. "Le pont de fer" / "A ponte de ferro". In: LARANJEIRA, Mário. Poetas de França hoje. 1945-1995. São Paulo: Edusp, 1996. 



23.2.21

Stefan Georg: "Lied" / "Cantiga": trad. por Olympio Monat da Fonseca

 



Cantiga



Nas janelas onde outrora contigo

A paisagem da noite contemplava,

Brilham estranhos lumes.

O caminho ainda começa da porta


Onde, sem olhares para trás,

Um dia rumaste ao vale.

Mas a lua, quando tornou,

Tua pálida face fez erguer:


Então, era já demasiado tarde para um apelo.

Sombras, silêncio, ar pesado – 

Afogam minha casa.

Levaste contigo toda alegria.






Lied



Fenster wo ich einst mit dir

Abends in die landschaft sah

Sind nun hell mit fremdem licht.


Pfad noch läuft vom tor wo du

Standest ohne umzuschaun

Dann ins tal hinunterbogst.


Bei der kehr warf nochmals auf

Mond dein bleiches angesicht..

Doch es war zu spät zum ruf.


Dunkel -- schweigen -- starre luft

Sinkt wie damals um das haus.

Alle freude nahmst du mit.





GEORG, Stefan. "Lied" / "Cantiga". Trad. por Olympio Monat da Fonseca. In: CAMPOS, Geir (org.). O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.


21.2.21

Murilo Mendes: "Jogo"

 


Jogo


Cara ou coroa?

Deus ou o demônio

O amor ou o abandono

Atividade ou solidão.


Abre-se a mão, coro

Deus e o demônio

O amor e o abandono

Atividade e solidão.





MENDES, "Jogo". In_____. Poesias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

18.2.21

Constantinos Caváfis: "Desfecho": trad. por José Paulo Paes

 



Desfecho


No meio de temores e receios,

com olhos pávidos, com mente perturbada,

buscamos até a exaustão um plano que pudesse

nos pôr a salvo do real

perigo que tão sinistramente nos rondava.

Enganamo-nos, porém, não está a caminho:

eram falsas as notícias

(ou não ouvimos bem ou não as compreendemos).

Outro desastre, que nem imaginávamos,

cai de repente, torrencial, por sobre nós,

despreparados — já não há mais tempo — e leva-nos.







CAVÁFIS, Constantinos. "Desfecho". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

16.2.21

Eugénio de Andrade: "Litania"

 



Litania



O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;


o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece


navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror,


são a grande razão, a única razão.





ANDRADE, Eugénio de. "Litania". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguessa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

14.2.21

Homenagem aos noventa anos do poeta Augusto de Campos

 Hoje o grande poeta Augusto de Campos faz 90 anos. Para comemorar esse esplêndido fato, vários poetas lhe fizeram uma bela homenagem, que teve o design e a direção de arte do poeta André Vallias. Eis o link para essa merecida homenagem:

https://erratica.com.br/ac90 






12.2.21

Arnaldo Antunes: "valha"

 



valha



valha o que amo 

não porque amo

mas pelo que me faz

amar



valha por si

não por mim



pelo que si

lencia



não 

por meu sim





ANTUNES, Arnaldo. "valha". In:_____.  algo antigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.


9.2.21

Rose Ausländer: "Mutterland" / "Mátria": trad. por Rosvitha Friesen Blume e Markus J. Weininger

 



Mátria


Minha pátria morreu

eles a sepultaram

no fogo


Eu vivo 

em minha mátria

palavra






Mutterland


Mein Vaterland ist tot

sie haben es begraben

im Feuer


Ich lebe

in meinem Mutterland

Wort.




AUSLÄNDER, Rose. "Mutterland" / "Mátria. In: BLUME, Rosvitha Friesen; WEININGER, Markus J. (organização e tradução). Seis décadas de poesia alemã, do pós-guerra ao início do século XXI. Antologia bilingue. Florianópolis: Editora da UFSC, 2012.