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14.10.18

Caetano Veloso: "Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo"



Olavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo

CAETANO VELOSO

Olavo de Carvalho sugere em texto que, caso Bolsonaro se eleja, imediatamente à sua posse seus opositores sejam não apenas derrotados mas totalmente destruídos enquanto grupos, organizações e até indivíduos.

Ele diz que os que consideram Bolsonaro uma ameaça à democracia não estão lutando para vencer uma eleição e sim "pela sobrevivência política, social e até física". Isso é anúncio de autoritarismo matador.

Bolsonaro já disse que a ditadura matou pouco, já apareceu usando tripé de câmera como fuzil a metralhar petistas, já louvou o torturador e assassino coronel Brilhante Ustra. Quando atacado a faca por um maníaco, todos os outros concorrentes à presidência condenaram veementemente o atentado e seu autor; quando um eleitor seu matou um artista baiano que declarara voto no PT, Bolsonaro disse que não tinha nada a ver com isso.

Esse texto de Olavo anuncia uma escalada de ações violentas e conclama seus seguidores a perpetrá-las tão logo Bolsonaro chegue (se ele chegar) ao Alvorada.

É evidente que todo cidadão brasileiro que mereça esse nome –seja ele Fernando Henrique Cardoso, Roberto Carlos, Roberto Schwartz, Suzana Vieira, Chico Buarque, Luiz Tenório de Oliveira Lima, Letícia Sabatela, Fernando Haddad, Zezé de Camargo, Miriam Leitão ou ACM Neto – deve agir contra a possibilidade de eleição de Bolsonaro. A não ser que este desautorize publicamente o texto de Olavo. Único modo, aliás, de dar credibilidade a suas tentativas de amenizar o sentido de seus antigos brados.

Olavo, o sub-Heidegger do nosso sub-Hitler (ou sub-Spengler do nosso sub-Goebbels), diz que petistas, artistas, mídia, professores, jornalistas e intelectuais apelam a recursos ilícitos e imorais para obter vitória. No entanto, acabo de ler um texto em letras grandes, produzido pelos correligionários do capitão, que diz: "O PT QUEBRA IMAGENS, ESFREGA O CRUCIFIXO NOS ÓRGÃOS GENITAIS, URINAM (sic) NA BÍBLIA E AGORA QUER APOIO CATÓLICO".

Deve ser a milionésima fake-news expedida pela campanha bolsonarista. Olavo é figura histórica da anti-esquerda. Catequizou gerações de jovens brasileiros a um anticomunismo delirante e ressentido.

Faz décadas uma jovem conhecida minha tinha se convertido ao islamismo através dos ensinamentos de Olavo, seu carismático professor. A força dos parágrafos de Fritjof Schuon, autor que li fascinado, devem ter chegado com beleza aos ouvidos da moça, através das explanações brilhantes de Olavo. Mas desconfio de que o que o animava não era a beleza do Islã, sua tradição, sua riqueza espiritual. O que o entusiasmava eram as teocracias tardias que o desfiguram.

Olavo hoje posa nos EUA segurando arma pesada. Quão útil será sua cruzada para a indústria armamentista? É-se inocente útil mesmo quando se torna paranoicamente suspicaz. Para ele, o que há na aventura da modernidade é necessariamente o mal.

Intelectual erudito e mente insana, nem sabe que eu só sei de um caso de artista que masturbava-se com um crucifixo (ele o declarou em entrevista na TV) – e era justamente um que hoje aparece ao seu lado.

Eu nunca fui petista. Nunca fui comunista. Odeio ter ouvido de Dirceu que o caso não é de ganhar eleição mas de tomar o poder. Meu pai me ensinou a ser anti-stalinista e, vendo a discrepância entre a vida real dos trabalhadores e os planos das "vanguardas” políticas, aprendi a ser anti-leninista (diante das filas para ver a múmia de Lenin em Moscou, reafirmou-se meu desprezo: detesto o mais ínfimo resquício de culto à personalidade que ronda Lula). Mas farei o que me for possível para vencer o crescimento da desigualdade e, acima de tudo, defenderei os direitos da pessoa humana.

Considero o texto de Olavo incitação à violência. Convoco meus concidadãos a repudiá-lo. Ou vamos fingir que o candidato dele já venceu a eleição e, por isso, pode mandar matar quem não votou nele? Respeitarei como presidente quem quer que se eleja. Mas exijo dele que exiba compromisso com os direitos da pessoa humana e, como os outros cidadãos, rejeite o que foi sugerido por Olavo de Carvalho.




VELOSO, Caetano. "OLavo faz incitação à violência; convoco meus concidadãos a repudiá-lo". In: Folha de São Paulo, 14/10/2018.

7.2.14

Adriano Nunes: "Linchamentos e a banalização do mal"





Linchamentos e a banalização do mal


Que dizer ante a onda de linchamentos que anda ocorrendo nas cidades brasileiras? Vê-se que as pessoas estão usando o argumento hobbesiano de que "ninguém é obrigado (quando falta a proteção da lei) a deixar de proteger-se com todos os meios de que dispuser." não só ao pé da letra, como também ao corpo todo e ao espírito. Em primeiro, um aviso aos desavisados: não falta a proteção da lei. Se há precariedade na segurança pública, isso não justifica agir com as próprias mãos, num regresso à barbárie onde "bellum omnium contra omnes". A má administração não justifica a violência gratuita. Não se deve viver à luz da "subsombra desumana dos linchadores" . Não se deve tomar este ponto de fragilidade de uma administração estatal (seja ela qual for!) para justificar anarquia plena e desmedida. O próprio Hobbes constata solidamente que "qualquer governo é melhor que a ausência de governo." Não se deve justificar a nossa hipocrisia e nossa maldade, o nosso poder imanente de fazer o mal ao outro porque "mal com mal se paga". Ainda para crentes e não crentes, o ensino cristão de que devemos amar ao próximo como a nós mesmos deve imperar como se fosse o imperativo categórico mor de Immanuel Kant. Ou não se deve fazer jus ao termo "humano" definidor da espécie que abrange cada homem em particular?

Expressões como “bandido bom é bandido morto” soam como um violento atentado contra todos os direitos e garantias universais e individuais que foram conquistados ao longo do tempo. Tais ditos proclamam a violência explícita, a vingança privada. Não se trata de defender bandido: trata-se de dar à vida o valor que ela merece, seja a vida de quem for. E o argumento contrário de que “ e se fosse com você ou com um parente seu”, “se ele tivesse assassinado algum familiar seu”, não justifica o apedrejamento moderno, não dá crédito e licença para que se cometam arbitrariedades de fundo animalesco. Não se admite com o Estado Civil, isto é, onde deve haver, ao menos, o mínimo de convivência e tolerância, mas que, acima de tudo, impere a razão, este renovado espetáculo de crueldade. E não há razão para pagar violência com violência, morte com morte. No Estado Constitucional Brasileiro, no Código Penal, não há abertura para a pena de morte.

Esses acontecimentos brutais fazem-nos lembrar da carnificina que ocorria durante o apogeu do Império Romano, vislumbrada no Coliseu de Roma. Ali, a violência e a morte viravam espetáculo para a plateia sedenta de sangue. Mais de 6.000 animais foram assassinados ao ar livre. Milhares de gladiadores, criminosos e cristãos morreram para entretenimento do povo. Um período de brutalidade que durou 400 anos, mas que, agora, parece ressurgir, nas ruas, nova arena, para deleite de bárbaros que se dizem fazer justiça, que se declaram estabilizadores da ordem, advogados de acusação e juízes ao mesmo tempo, e executores. E quem for defender o criminoso (vítima de linchamento!), no exato momento do ato desumano, pode correr o risco de reviver o que acontecera com o monge Telemachus, em 404 d. C., quando entrara na arena romana, numa tentativa de separar dois gladiadores, e fora linchado até a morte pela plateia que assistia ao embate, pois a mesma se sentira ofendida porque o monge atrapalhara o duelo mortal entre os gladiadores.

Pior ainda é ver pessoas que se dizem culturalmente esclarecidas proferirem frases como "Tá com dó? Leva pra casa", numa agressão irônica àqueles que prezam pela supremacia da Constituição que proíbe claramente qualquer forma de tortura em seu artigo 5º, além , também, de garantir o direito à defesa jurídica pelos crimes cometidos, tendo assim declarado no mesmo  artigo, inciso LIV  que “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.

Talvez, esses defensores da vingança privada precisem ler  “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt, para entenderem o perigo de se propagar o mal. É permitido falar sem pensar. A Constituição garante. Mas adverte Hannah Arendt: “Agir e falar são ainda manifestações externas da vida humana; e esta só conhece uma atividade que, embora relacionada com o mundo exterior de muitas maneiras, não se manifesta nele necessariamente nem precisa ser ouvida nem vista nem usada nem consumida para ser real: a atividade de pensar.”


                                                                                                                                                                  Adriano Nunes



REFERÊNCIAS:


HOBBES, Thomas. Leviatã. Tradução de Rosina D'Angina. São Paulo: Martin Claret, 2012, p. 240.

VELOSO, Caetano. "O cu do mundo". Circuladô. Philips, 1991.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: texto constitucional promulgado em 5 de outubro de 1988, com as alterações determinadas pelas emendas constitucionais de revisão nº  1 a 6/94, pelas emendas constitucionais nº 1/92 a 73/2013 e pelo decreto legislativo nº 186/2008. Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2013.

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Celso Lafer. Rio de Janeiro: Forense, 2008, p. 106.

31.5.11

Sobre a recente entrevista de Slavoj Zizek




É interessantíssima a entrevista que Slavoj Zizek deu ao Miguel Conde, no caderno “Prosa e Verso”, de O Globo, de sábado passado.

Ninguém ignora que Zizek já defendeu, em diversos textos, a violência e mesmo o terror, já atacou a democracia, já defendeu Stalin, (“é melhor o pior terror stalinista do que a mais liberal democracia capitalista”, diz ele em “Iraque: a chaleira emprestada”), já defendeu a revolução, já defendeu o comunismo etc.

Agora, nessa entrevista, ele explica que o que entende por “totalidade” não é bem totalidade; por “violência” não é bem violência; por “democracia” não é bem democracia; por “revolução” não é bem revolução; por “comunismo” não é bem comunismo... Parece, então, que toda a fúria dele não passava de paradoxos para “épater les bourgeois”. Melhor assim: antes um comediante que um carrasco.

15.6.08

Sobre "Identidade e violência"

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 14 de junho de 2008:


Sobre "Identidade e violência"

NO LIVRO "Identidade e violência" (SEN, Amartya. Identity and Violence. London: W.W. Norton & Company, 2006) , o economista indiano Amartya Sen, detentor do Prêmio Nobel, chama atenção para os perigos da chamada "política da identidade".

Esta consiste em reduzir, para fins políticos, os seres humanos a membros de exatamente um grupo: seja de um sexo, de uma etnia, de uma nacionalidade, de uma classe social, de uma cultura, de uma religião etc.

Quando criança, Sen testemunhou a violência dos conflitos entre hindus e muçulmanos, nos anos 40, em que "os seres humanos complexos de janeiro subitamente se transformaram nos impiedosos hindus e nos ferozes muçulmanos de julho", o que resultou na morte de centenas de milhares de pessoas.

Os "artífices do ódio" que lideraram a carnificina haviam induzido as pessoas a pensarem nos membros da sua própria comunidade como apenas hindus e nos membros da outra comunidade como apenas muçulmanos, e vice-versa.

Contra a política da unidimensionalidade identitária, Sen defende o poder das identidades competitivas. "Posso ser ao mesmo tempo", diz, no que é sem dúvida uma auto-descrição, "asiático, cidadão indiano, bengali com ancestrais de Bangladesh, residente americano ou britânico, economista, filósofo amador, escritor, sanscritista, alguém que crê fortemente no secularismo e na democracia, homem, feminista, heterossexual, defensor dos direitos gays e lésbicos, praticante de um estilo de vida não-religioso, de background hindu, não-brâmane, descrente em vida depois da vida (e, caso interrogado, descrente em vida antes da vida também)". E complementa: "Isso é apenas uma pequena amostra das diversas categorias às quais posso simultaneamente pertencer".

De fato, muitas das teorias de cultura e civilização em voga no mundo de hoje convidam as pessoas a se verem em termos de uma única identidade. Sen se refere, em particular, por um lado, ao comunitarismo, que privilegia a identidade comunitária acima de todas as outras, e, por outro lado, às teses de Samuel Huntington sobre o pretenso conflito das civilizações.

Quanto ao comunitarismo, Sen pensa que, embora tenha surgido como uma tentativa de considerar os seres humanos de modo mais concreto e social, tende hoje, de modo insustentável, a considerar os seres humanos exclusivamente como membros de uma comunidade. Ora, isso significa ignorar que, em grande medida, somos capazes de escolher nossas crenças, associações e atitudes, e que devemos aceitar responsabilidade pelo que, ainda que implicitamente, escolhemos.


Já Huntington, partindo do princípio de que "de todos os elementos que definem as civilizações, o mais importante geralmente é a religião", acaba caindo numa unidimensionalidade identitária que, como todas, só se pode afirmar às custas da violentação dos fatos.

Assim, por exemplo, Sen observa que Huntington, ao descrever a Índia como uma "civilização hindu", ignora a importância do fato de que, excetuando-se a Indonésia e, marginalmente, o Paquistão, a Índia tem mais muçulmanos do que qualquer outro país do mundo.

Assim também, tentando confinar o pensamento dos membros de cada civilização nos marcos de uma identidade específica, finita, reificada, Huntington chega ao ponto de pretender que "as idéias de liberdade individual, democracia política, império da lei, direitos humanos e liberdade cultural são idéias européias, não idéias asiáticas, nem africanas, nem do Oriente Médio". Por trás de tais pretensões se encontra, sem dúvida, o pressuposto implícito de que a razão crítica pertence à "civilização ocidental".

Contra tal pressuposto, Sen cita o fato de que, já em 1590, o imperador indiano Akbar, muçulmano, afirmava que a fé não pode ter prioridade sobre a razão, argumentando que é por meio da razão que cada um deve justificar -e, se necessário, rejeitar- a fé que herdou.
Ademais, tendo sido atacado pelos tradicionalistas, favoráveis à fé instintiva, Akbar afirmou que a necessidade de cultivar a razão e rejeitar o tradicionalismo é tão patente que não necessita de argumentação, pois "se o tradicionalismo fosse certo, os profetas teriam apenas seguido os mais velhos (e não teriam apresentado novas mensagens)".

É a identidade racional de Akbar que aqui prevalece sobre a sua identidade muçulmana e tradicional: o que prova que Sen tem razão ao afirmar que somos consideravelmente livres para decidir o grau de prioridade que a cada momento atribuímos a cada uma das identidades que simultaneamente possuímos.

Parece-me auspicioso que justamente um oriental tenha escrito uma obra capaz de funcionar como um poderoso antídoto contra as tendências irracionalistas do pensamento ocidental contemporâneo.

14.11.07

Paulo Guedes: A estética fascista

O seguinte artigo de Paulo Guedes foi publicado em O Globo, segunda-feira, 12 de novembro de 2007:

A estética fascista

O rei Juan Carlos, da Espanha, mandou o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, calar a boca durante a Cúpula Ibero-Americana, em Santiago do Chile. Chávez acusara de fascista o ex-presidente do governo espanhol José María Aznar. Por mais simpatia que se tenha pelas intenções da "revolução bolivariana", os sintomas desta terrível doença política, o fascismo, estão mais próximos de Chávez do que ele pensa. Segundo Luis Dupeux, em "História cultural da Alemanha: 1919-1960" (1989), "a utilização de palavras de ordem e das manifestações de massa foram comuns aos nazistas e fascistas. Bem como a gradual interdição da imprensa por um conjunto de leis e decretos sempre assegurando a legalidade do sistema". Fechamento da RCTV?
"Na mais visual de todas as formas, o fascismo se apresenta por vívidas imagens: um demagogo discursando bombasticamente para uma multidão em êxtase; jovens desfilando em paradas; militantes espancando membros de alguma demonizada minoria. Nacionalismo, ataques a propriedades, recurso à violência, voluntarismo, antiintelectualismo, rejeição a soluções de compromisso, desprezo pela sociedade estabelecida foram características do fascismo", registra Robert Paxton, em "A anatomia do fascismo" (2005).
Prossegue o autor: "Os primeiros movimentos fascistas ostentavam também seu desprezo pelos valores burgueses, pelo "dinheiro, imundo dinheiro", atacando o capitalismo financeiro internacional com veemência. Prometeram expropriar os donos de loja em favor de artesãos, e os proprietários de terra em favor de camponeses. Exploraram as vítimas da industrialização rápida e da globalização, os perdedores da modernização, usando as técnicas de propaganda mais modernas. Política de massas, tentava apelar sobretudo às emoções, pelo uso de retórica intensamente carregada. O fascismo ajuda um povo a realizar seu destino. Repousa na união mística do líder com o destino histórico de seu povo, agora plenamente consciente de sua identidade e seu poder." Líder, povo, identidade e poder "bolivarianos"?
"Um artifício usado pelos fascistas eram as estruturas paralelas, tanto na ascensão quanto no exercício do poder. O Estado oficial e essas estruturas conferiam ao regime sua bizarra mistura de legalismo e de violência arbitrária." Chavistas atacando universitários?
"Tendo chegado ao poder na legalidade, líderes fascistas podiam exercê-lo apenas nos termos da Constituição. Seu poder era limitado. O golpe dos fascistas foi transformar um cargo constitucional em autoridade pessoal ilimitada, controlando por completo o Estado. Os Parlamentos perderam o poder, e as eleições foram substituídas por plebiscitos do tipo "sim ou não"."
E, a propósito do alerta do senador José Sarney para a possibilidade de um futuro confronto, e também da manchete segundo a qual os comandantes militares pressionam o Congresso por mais verbas para o reaparelhamento das Forças Armadas, adverte Paxton: "Parece ser regra geral que a guerra seja indispensável à manutenção do tônus muscular do fascismo. Pois o ápice da experiência estética fascista seria a guerra."