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27.6.16

Jaime Gil de Biedma: "Recuerda" / "Recorda": trad. de José Bento




Recorda

Formosa vida que passou e parece
não passar mais...
                           Desde agora, aprofundo
sonhos na memória: e estremece
a eternidade do tempo lá no fundo.
E de repente um remoinho cresce:
sorve-me, arrasta-me, até que me afundo
numa gruta aonde vai, precipitado,
para sempre, sumindo-se, o passado.




Recuerda

Hermosa vida que pasó y parece
ya no pasar...
                         Desde este instante, ahondo
sueños en la memoria: se estremece
la eternidad del tiempo allá en el fondo.
Y de repente un remolino crece
que me arrastra sorbido hacia un trasfondo
de sima, donde va, precipitado,
para siempre sumiéndose el pasado.




BIEDMA, Jaime Gil de. "Recuerda" / "Recorda". In:_____. Antologia poética. Tradução por José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

29.11.15

Federico Garcia Lorca: "Soneto de la dulce queja" / "Soneto da doce queixa": trad. de José Bento




Soneto de la dulce queja

Tengo miedo a perder la maravilla
de tus ojos de estatua y el acento
que de noche me pone en la mejilla
la solitaria rosa de tu aliento.

Tengo pena de ser en esta orilla
tronco sin ramas; y lo que más siento
es no tener la flor, pulpa o arcilla,
para el gusano de mi sufrimiento.

Si tú eres el tesoro oculto mío,
si eres mi cruz y mi dolor mojado,
si soy el perro de tu señorío,

no me dejes perder lo que he ganado
y decora las aguas de tu río
con hojas de mi otoño enajenado.



Soneto da doce queixa

Assusta-me perder a maravilha
de teus olhos de estátua e o acento
que pela noite a face me polvilha
a erma rosa que há no teu alento.

Tenho pena de ser sobre esta orilha
tronco sem ramos, e a dor que sustento
é não ter eu a flor, polpa ou argila
pró verme de meu próprio sofrimento

se és meu tesouro oculto, que sitio,
se és minha cruz e meu sofrer molhado
e eu o cão preso de teu senhorio,

não me deixes perder o que me é dado:
vem decorar as águas do teu rio
com folhas de meu outono perturbado.




LORCA, Federico Garcia. "Soneto de la dulce queja"/"Soneto da doce queixa". In:_____. Antologia poética. Trad. de José Bento. Lisboa: Relógio d'Água, 1993.


19.4.15

Jaime Gil de Biedma: "La novela de un joven pobre" / "A novela de um jovem pobre": trad. de José Bento





O romance de um rapaz pobre

Chamava-se Pacífico,
Pacífico Ricaport,
de Santa Rita em Pampanga,
no centro de Luzón,

e ainda lhe restava
leve sotaque pampanguense
quando se impacientava
e nos momentos ternos,

precisamente ao recordar,
compadecido de si mesmo,
nos seus anos da capital,
sua infância camponesa,

nas noites de trabalho
— para cá do bem, do mal —
de tantos balcões de bares
da rua de Isaac Peral,

porque era pobre e tão sensível,
e bonito também, o que é pior,
sobretudo nestes países
sem industrialização,

e eram vagos seus recursos
tanto como as suas histórias,
e suas ditas e desditas
e suas chamadas telefónicas.

Quantas noites a suspirar
num local já tão vazio,
veio sentar-se junto a mim
e lhe ofereci um cigarrito.

Nessas horas miseráveis
em que nos fazem companhia
até as nódoas do nosso fato,
conversávamos da vida

e o pobre lamentava-se
do que faziam já com ele:
«Têm-me corrido a pontapés
de tantos quartos de hotel...»

Onde terás ido parar,
Pacífico, meu velho amigo,
hoje três anos mais velho?
Deves ter vinte e cinco.



La novela de un joven pobre

Se llamaba Pacífico,
Pacífico Ricaport,
de Santa Rita en Pampanga,
en el centro de Luzón,

y todavía le quedaba
un ligero acento pampangueño
cuando se impacientaba
y en los momentos tiernos,

precisamente al recordar,
compadecido de sí mismo,
desde sus años de capital
su infancia de campesino,

en las noches laborables
— más acá del bien y del mal —
de las barras de los bares
de la calle de Isaac Peral,

porque era pobre y muy sensible,
y guapo además, que es peor,
sobre todo en los países
sin industralización,

y eran vagos sus medios de vida
lo mismo que sus historias,
que sus dichas y desdichas
y sus llamadas telefónicas.

Cuántas noches suspirando
en el local ya vacío,
vino a sentarse a mi lado,
y le ofrecí un cigarrillo.

En esas horas miserables
en que nos hacen compañía
hasta las manchas de nuestro traje,
hablábamos de la vida

y el pobre se lamentaba
de lo que hacían con él:
«Me han echado a patadas
de tantos cuartos de hotel...»

Adónde habrás ido a parar,
Pacífico, viejo amigo,
tres años más viejo ya?
Debes tener veinticinco.



BIEDMA, Jaime Gil de. Antologia poética. Edição bilíngue. Trad. de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003. 

14.6.14

Jaime Gil de Biedma: "Amor más poderoso que la vida" / "Amor mais poderoso que a vida": trad. José Bento





Amor más poderoso que la vida

La misma calidad que el sol de tu país,
saliendo entre las nubes:
alegre y delicado matiz en unas hojas,
fulgor de un cristal, modulación
del apagado brillo de la lluvia.

La misma calidad que tu ciudad,
tu ciudad de cristal innumerable
idéntica y distinta, cambiada por el tiempo:
calles que desconozco y plaza antigua
de pájaros poblada,
la plaza en que una noche nos besamos.

La misma calidad que tu expresión,
al cabo de los años,
esta noche al mirarme:
la misma calidad que tu expresión
y la expresión herida de tus labios.

Amor que tiene calidad de vida,
amor sin exigencias de futuro,
presente del pasado,
amor más poderoso que la vida:
perdido y encontrado.
Encontrado, perdido...



Amor mais poderoso que a vida

A mesma qualidade que o sol no teu país,
a sair entre as nuvens:
alegre e delicado matiz numas folhas,
fulgor num vidro, modulação
do apagado brilho da chuva.

A mesma qualidade que a tua cidade,
tua cidade de vidro inumerável
idêntica e diferente, mudada pelo tempo:
ruas que desconheço e praça antiga
de pássaros povoada,
a praça em que uma noite nos beijámos.

A mesma qualidade que a tua expressão,
ao cabo dos anos,
esta noite ao fitar-me:
a mesma qualidade que a tua expressão
e a expressão ferida de teus lábios.

Amor que tem qualidade de vida,
amor sem exigência de futuro,
presente do passado,
amor mais poderoso do que a vida:
perdido e encontrado.
Encontrado, perdido...




BIEDMA, Jaime Gil de. "Poemas póstumos". In:_____. Antologia poética. Trad. de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

31.5.13

Jaime Gil de Biedma: "Canción para ese dia" / "Canção para esse dia": trad. de José Bento





Canción para ese día



He aquí que viene el tiempo de soltar palomas
en mitad de las plazas con estatua.
Van a dar nuestra hora. De un momento
a otro, sonarán campanas.

Mirad los tiernos nudos de los árboles
exhalarse visibles en la luz
recién inaugurada. Cintas leves
de nube en nube cuelgan. Y guirnaldas

sobre el pecho del cielo, palpitando,
son como el aire de la voz. Palabras
van a decirse ya. Oíd. Se escucha
rumor de pasos y batir de alas.




Canção para esse dia


Eis que chega o tempo de se soltar pombas
no meio das praças com estátua.
Vão dar a nossa hora. De um momento
a outro, irão ouvir-se badaladas.

Olhai os tenros nós das árvores
exalar-se visíveis na luz
recém-inaugurada. Leves fitas
pendem de nuvem em nuvem. E grinaldas

sobre o peito do céu, a palpitar,
são como o ar da voz. Palavras
vão ser já ditas. Escuta-se
rumor de passos e bater de asas.




BIEDMA, Jaime Gil de. Antologia poética. Seleção e tradução de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2013.

5.4.13

Jaime Gil de Biedma: "La calle Pandrossou" / " A rua Pandrossou: trad. de José Bento






La calle Pandrossou


Bienamadas imágenes de Atenas

En el barrio de Plaka,
junto a Monastiraki,
una calle vulgar con muchas tiendas.

Si alguno que me quiere
alguna vez va a Grecia
y pasa por allí, sobre todo en verano,
que me encomiende a ella.

Era un lunes de agosto
después de un año atroz, recién llegado.
Me acuerdo que de pronto amé la vida,
porque la calle olía
a cocina y a cuero de zapatos.





A rua Pandrossou

Bem-amadas imagens de Atenas


No bairro de Plaka
perto de Monastiraki,
uma rua vulgar com muitas lojas.

Se alguém que de mim gosta
um dia for à Grécia
e passar por ali, sobretudo no verão,
dê-lhe saudades minhas.

Era uma segunda-feira de agosto
depois de um ano atroz, recém chegado.
Lembro-me que de repente amei a vida,
porque a rua cheirava
a cozinha e a couro de sapatos.




BIEDMA, Jaime Gil de. Antologia poética. selecção e tradução de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

14.9.10

Jaime Gil de Biedma: "Happy ending": trad. de José Bento




Happy ending


Aunque la noche, conmigo,
no la duermas ya,
sólo el azar nos dirá
si es definitivo.

Que aunque el gusto nunca más
vuelve a ser el mismo,
en la vida los olvidos
no suelen durar.



Happy ending


Bem que de noite, comigo
tu não durmas já,
só o acaso nos dirá
se é definitivo.

Que embora o gosto nunca mais
volte a ser o antigo,
nunca na vida os olvidos
costumam durar.



BIEDMA, Jaime Gil de. "Moralidades". Antologia poética. Seleção e tradução de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

10.12.09

Jaime Gil de Biedma: "No volveré a ser joven" / "Não voltarei a ser jovem": tradução de José Bento





No volveré a ser joven

Que la vida iba en serio
uno lo empieza a comprender más tarde
-- como todos los jóvenes, yo vine
a llevarme la vida por delante.

Dejar huella quería
y marcharme entre aplausos
envejecer, morir, eran tan sólo
las dimensiones del teatro.

Pero ha pasado el tiempo
y la verdad desagradable asoma:
envejecer, morir,
es el único argumento de la obra.



Não voltarei a ser jovem

Que é certo a vida passa
só se começa a compreender mais tarde
– como todos os jovens, decidi
levar a minha vida por diante.

Deixar marca eu queria
e partir entre aplausos
– envelhecer, morrer, eram somente
as dimensões do teatro.

Porém passou o tempo
e a verdade mais amarga assoma:
envelhecer, morrer,
é o argumento único da obra.


BIEDMA, Jaime Gil de. "Poemas póstumos". Antologia poética. Edição bilingue. Seleção e tradução de José Bento. Lisboa: Cotovia, 2003.

28.1.09

César Vallejo: "Piedra negra sobre una piedra blanca" / "Pedra negra sobre uma pedra branca". Tradução de José Bento

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Pedra negra sobre uma pedra branca

Morrerei em Paris com aguaceiros,
num dia do qual já tenho a lembrança.
Morrerei em Paris – daqui não saio –
numa quinta-feira, como hoje, de outono.

Quinta-feira será, pois hoje, quinta-feira,
em que estes versos proso, dei os úmeros
à pouca sorte, e nunca como hoje
voltei, com todo o meu caminho, a ver-me só.

Morreu César Vallejo, espancavam-no
todos sem que lhes fizesse nada;
davam-lhe forte com um pau e forte

com uma corda também; são testemunhos
as quintas-feiras e os ossos úmeros,
a solidão, os caminhos, a chuva...



Piedra negra sobre una piedra blanca

Me moriré en París con aguacero,
un día del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré en París —y no me corro—
tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, jueves, que proso
estos versos, los húmeros me he puesto
a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,
con todo mi camino, a verme solo.

César Vallejo ha muerto, le pegaban
todos sin que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro

también con una soga; son testigos
los días jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminos...



De:
VALLEJO, César. “Poemas póstumos I”. In: Obra poética. Org. p. Américo Ferrari. Madrid; Paris; México; Buenos Aires; São Paulo; Rio de Janeiro; Lima: AllcaXX, 1996;

e:

VALLEJO, César. Antologia poética. Tradução de José Bento. Lisboa: Relógio D’Água, 1992.