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3.1.21

Rogério Batalha: "O vaqueiro"

 



O vaqueiro



em Miguel Couto

(onde nasci)

havia um vaqueiro chamado Diomedes


com suas quietudes, seus pés tristes

seus desertos, sua pele violeta

seus ruídos e pastos


o velho vaqueiro

tinha o verde como palácio

por oração, cavalos.







BATALHA, Rogério. "O vaqueiro". In_____. AZUL. Rio de Janeiro: Texto Território, 2016


11.10.20

Rogério Batalha: "Não há pontes de regresso"

 



Não há pontes de regresso



no primeiro

ciscar do dia

o galo anuncia


a inaudível

ciranda 

das coisas


à noite verde

sua morte amarela

ao jatobá verde

seu graveto seco.


o galo

anuncia


às labaredas

jovens

e velhos:


não há pontes de regresso.






BATALHA, Rogério. "Não há pontes de regresso"

17.8.20

Rogério Batalha: "Bom mesmo"




Bom mesmo


bom mesmo é vagabundear ruas
ouvir o balbuciar das gentes
fitar uma flor perdida no baldio.

(até que o mar e sua franja de espuma
molhe seus pés cansados
e a dor tombe diante do inesperado salto).

bom mesmo é vagabundear astros
perfumar-se nos antros dos enamorados.

depois ir ao encontro das moscas
bater um papo com seus brejos
perder o norte e o sul
pescar do céu seu mel azul.

então, por na vasilha do dia
o à toa e o em vão das horas.




BATALHA, Rogério. "Bom mesmo". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: Texto Território, 2016.


22.3.20

Rogério Batalha: "Inútil reclamar"




Inútil reclamar


inútil reclamar
se o que se foi é nuvem
que se enruga ao bel prazer
e como tal é viagem que não cessa.

inútil reclamar
se o corpo que é feito de trevas
e varandas
no fundo sempre se orna de esperanças.

inútil reclamar
se o que se perde se veste do bagaço do vivido
e é justamente daí – que reacende –
seu facho perdido.





BATALHA, Rogério. "Inútil reclamar". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

20.5.18

Rogério Batalha: "Não se ouvia barulho"



Não se ouvia barulho

não se ouvia barulho
quando a lua deu colo às minhas ruínas
quando um verso represou minhas enchentes
não se ouvia barulho
quando as pedras me adotaram como filho
não se ouvia barulho
quando o andarilho fitou os olhos tristes
de sua aldeia
não se ouvia barulho
sobre os trapos que devoravam
a criança síria
morta
numa praia deserta.




BATALHA, Rogério. "Não se ouvia barulho". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2016.

18.12.16

Rogério Batalha: "Na cavidade do dia"



Na cavidade do dia

na cavidade do dia
encontrei
minha poesia

(como quem encontra
certas frutas
que exalam mais forte
pouco antes da morte).

como se, da desordem,
do nada, ela brotasse:

não como um bicho que voa
não como coisa que flutua
mas como ruína que sonha
e penetra na própria busca.



BATALHA, Rogério: "Na cavidade do dia". In:_____. Azul. Rio de Janeiro: Texto Território, 2016.

28.8.15

Rogério Batalha: "a vida"





a vida

você
precisa
inventar

o

resto
deixa
que
o
sol
FECUNDA




BATALHA, Rogério. "a vida". In:_____. Exercício de nuvens. Rio de Janeiro: TextoTerritório, 2015.

26.5.14

Rogério Batalha: "a cidade me habita"





a cidade me habita tal qual parafuso, não pelo que
contém de casa, mas porque dá asas ao absurdo.



BATALHA, Rogério. Cidade fundida. Rio de Janeiro: Texto Território, 2014.

30.8.13

Rogério Batalha: "a passeata"






a passeata

entre olhos observo a passeata
(enquanto a pedra estilhaça)
(enquanto -em forma de navio-
uma sabiá apita e canta)
e a flâmula embaçada bica e balança
como uma batata que se assa
sob os lençóis da cama
pois, assim, a noite caía,
(sobre as minhas líquidas pupilas)
que, indagavam, diante da maresia:
um esqueleto se fuzila?




BATALHA, Rogério. "a passeata". Disponível no site Rogério Batalha, em http://rogeriobatalha.webmium.com/poemas, acessado em 30/08/2013.