Mostrando postagens com marcador Carlos Nejar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Carlos Nejar. Mostrar todas as postagens

5.1.21

Carlos Nejar: "Nossa é a miséria"

 



Nossa é a miséria




Nossa é a miséria,

nossa é a inquietação incalculável,

nossa é a ânsia de mar e de naufrágios,

onde nossas raízes se alimentam.


Em vão lutamos

contra os grandes signos.


Seremos sempre

a mesma folhagem

de madrugada ausente.


O mesmo aceno imperceptível

entre a janela e o sonho.

A mesma lágrima

no mesmo rosto vazio.


A mesma frase

dentro dos mesmos olhos

sob a fonte.


Seremos sempre

a mesma dor oculta

nas árvores, no vento.


A mesma humilhação

diante da vida.

A mesma solidão

dentro da noite.


A mesma noite antiga

que separa

a semente do fruto

e amadurece

os lábios para a morte

como um rasto

de silêncio no mar.





NEJAR, Carlos "Nosssa é a miséria". In:_____. Livro de Silbion. Porto Alegre: Difusão de Cultura, 1963.


20.11.18

Carlos Nejar: "Sem revolver o fogo"



     Sem revolver o fogo

     I

     Escrever a dor
     sem revolver o fogo,
     a envelhecida cinza.

     O que pode o amor
     com os dons aprisionados?

     Escrever
     a ferocidade das coisas.


2   Era preciso
     limo e pedra
     para te ver.
     Escrever a dor,
     Abandonar
     minha guitarra
     o sol.
     Um homem não respira
     sem o mundo à soleira.




NEJAR, Carlos. "Sem revolver o fogo". In:_____. A ferocidade das coisas; Um país, o coração. Palhoça: Unisul, 2015.

17.2.17

Carlos Nejar: "Soterrada, desvivente Amatrice"


Amatrice é uma cidade e comuna na província de Rieti, ao norte do Lazio (Itália central). Fica no centro da área agrícola do Gran Sasso e do Parque Nacional Monti della Laga. A cidade foi devastada por um forte terremoto em 24 de agosto de 2016.



Soterrada, desvivente Amatrice

à Maria Beltrão

Amatrice, o terremoto
na Itália, Amatrice:
a cidade não existe, é agosto,
os gritos, ritos, o relógio
parou, mortos, mortos,
não há  história
nas ruínas, nem
é abrigo o  terror.
E o fundo se abriu
e as casas entre ossos
de corpos, ossos
de pedras e velhas
velhas sonantes
sombras.

Amatrice e tremeu
a terra, tremeu
desabando a madrugada.
E o que resta dos escombros,
o que resta na inscrição
dos sonhos. O que resta,
com desolado pó, o negro
mel, a morte reina
e morre.




NEJAR, Carlos. "Soterrada, desvivente Amatrice". In: SARAPEGBE. Rivista di cultura e società del Brasile e altri mosaici. No URL http://www.sarapegbe.net/articolo.php?quale=121&tabella=nuovi_percorsi.

8.12.16

Carlos Nejar: Casida das coisas da alma



Casida das coisas da alma

As cinzas do amor só ardem
se na memória se abrasam.
Inda que as coisas em alma
se entendam pela metade.
Mas onde estender as asas
de um sonho que se entreabre?
O que é fogo amor acalma
e o que é centelha se apaga.
E se o sol se move em nada,
a luz é onda parada.
As cinzas do amor só ardem
onde a infância não se acaba.



NEJAR, Carlos. "Casida das coisas da alma". In:_____. Quarenta e nove casidas e um amor desabitado. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2016.

26.8.16

Carlos Nejar: "Luiz Vaz de Camões"




Luiz Vaz de Camões

Não sou um tempo
ou uma cidade extinta.
Civilizei a língua
e foi resposta em cada verso.
E à fome, condenaram-me
os perversos e alguns
dos poderosos. Amei
a pátria injustamente
cega, como eu, num
dos olhos. E não pôde
ver-me enquanto vivo.
Regressarei a ela
com os ossos de meu sonho
precavido? E o idioma
não passa de um poema
salvo da espuma
e igual a mim, bebido
pelo sol de um país
que me desterra. E agora
me ergue no Convento
dos Jerônimos o túmulo,
quando não morri.
Não morrerei, não
quero mais morrer.
Nem sou cativo ou mendigo
de uma pátria. Mas da língua
que me conhece e espera.
E a razão que não me dais,
eu crio. Jamais pensei
ser pai de tantos filhos.



NEJAR, Carlos. "Luiz Vaz de Camões". In:_____. Melhores poemas. Org. Léo Gilson Ribeiro. São Paulo: Global, 1997.


18.5.16

Carlos Nejar: "Canção do cego barqueiro"




Canção do cego barqueiro

Orelha vasta de água,
o que escutas
vem de onde?

Orelha de céu chegado;
caracol de vogais, rio,
o que escutas
vem de quando?

E as coisas parecem ver-nos,
se as estivermos amando.

Trouxe os meus dias pequenos
como ramos de jacintos.
E que possam compreender-me.
E eu a eles, por instinto.

Os dias grandes são poucos,
gloriosos, talvez extremos.
E os diamantes no fogo
duram, enquanto morremos.



NEJAR, Carlos. "Canção do cego barqueiro". In:_____. Canções. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.

11.1.16

Carlos Nejar: "Canção da vazante estrela"




Canção da vazante estrela

Apenas, irmãos, eu morro
no inchar da maré vazante.
Porque nasci muito antes,
nasci quando o horizonte.
Ouro passei pelo fogo,
fogo passei pelo sonho.
eu qualquer coisa podia,
até tocar as estrelas.
Mas talvez por desperdício,
sem me acabar, sou indício.
Vou conseguir escrevê-las.



NEJAR, Carlos. "Canção da vazante estrela". In:_____. Canções. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.