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27.10.17
Horácio: Carmen IV.I / Ode IV.1: trad. por Pedro Braga Falcão
Ode IV.1
De novo moves, Vênus, guerras
há tanto interrompidas? Poupa-me, rogo-te, rogo-te.
Já não sou quem era, no reinado
da boa Cínara. Deixa, cruel mãe
dos doces Desejos,
de vergar com suaves ordens um homem empedernido
que já quase cinco décadas viveu.
Vai, para onde te reclamam as doces preces dos jovens.
Mais a tempo te irás divertir
para casa de Paulo Máximo,
nos teus purpúreos cisnes voando,
se inflamar procuras um coração que te convenha.
E depois de assaz se ter rido
ao triunfar sobre os sumptuosos presentes do rival,
perto dos lagos albanos
uma estátua de mármore colocará sob um telhado de cedro.
Aí, ao nariz te há-de chegar
o perfume de muitos incensos, deleitar-te-ás
com as melodias conjuntas da lira,
da tíbia de Berecinto, e também da siringe.
Ai, duas vezes por dia,
rapazes com gentis virgens, louvando tua divindade,
três vezes no chão hão-de bater
com o cândido pé, como é costume dos Sálios.
Quanto a mim, nem mulheres,
o nem rapazes, nem a crédula esperança num amor recíproco
me agradam, nem as ébrias rixas,
nem cingir a testa com frescas flores.
Mas então por que, ah, Ligurino,
porque escorre por minha face rara lágrima?
Por que, a meio de uma palavra,
cai minha eloquente língua no indecoroso silêncio?
Em noturnos sonhos
ora te tenho cativo, ora a ti voando te sigo
através do campo de Marte,
a ti, cruel, através das volúveis águas.
HORÁCIO. Ode IV.1. In:_____. Odes. Trad. por Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008.
Carmen IV.I
Intermissa, Venus, diu
rursus bella moves? Parce precor, precor.
Non sum qualis eram bonae
sub regno Cinarae. Desine, dulcium
mater saeva Cupidinum,
circa lustra decem flectere mollibus
iam durum imperiis: abi,
quo blandae iuvenum te revocant preces.
Tempestiuius in domum
Pauli purpureis ales oloribus
comissabere Maximi,
si torrere iecur quaeris idoneum;
namque et nobilis et decens
et pro sollicitis non tacitus reis
et centum puer artium
late signa feret militiae tuae,
et, quandoque potentior
largi muneribus riserit aemuli,
Albanos prope te lacus
ponet marmoream sub trabe citrea.
Illic plurima naribus
duces tura, lyraque et Berecyntia
delectabere tibia
mixtis carminibus non sine fistula;
illic bis pueri die
numen cum teneris virginibus tuum
laudantes pede candido
in morem Salium ter quatient humum.
Me nec femina nec puer
iam nec spes animi credula mutui
nec certare iuvat mero
nec vincire novis tempora floribus.
Sed cur heu, Ligurine, cur
manat rara meas lacrima per genas?
Cur facunda parvm decoro
inter verba cadit lingua silentio?
Nocturnis ego somniis
iam captum teneo, iam volucrem sequor
te per gramina Martii
campi, te per aquas, dure, volubilis.
HORACE. Carmen IV.I. In:_____. Odes and Epodes. Org. por Paul Shorey. Chicago: Benj. H. Sanborn & Co., 1919.
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Poema
9.1.17
Horácio: Ode III.i: trad. Pedro Braga Falcão
III.i
Odeio o vulgo profano, e mantenho-o longe;
guardai um silêncio sagrado: como sacerdote
das musas para virgens e rapazes odes
nunca antes ouvidas canto.
Os temíveis reis dominam o seu povo,
Júpiter governa esses mesmos reis,
ele, glorioso no triunfo sobre os Gigantes,
com sua sobrancelha tudo fazendo mover.
Pode até ser que um homem nos sulcos suas árvores
disponha mais vastamente que outro; que um candidato,
de sangue mais nobre, até ao Campo desça,
adversário de um outro melhor no carácter
e na reputação; que outro homem um maior séquito tenha
de clientes; a Necessidade contudo, com imparcial lei,
a sorte dos grados e dos humildes tira:
a vasta urna agita o nome de todos.
Àquele sobre cujo ímpio pescoço pende
a nua espada, não mais os sicilianos festins
doces sabores lhe requintarão,
nem o canto das aves e da cítara
lhe trará o sono. O suave sono não despreza
as humildes casas dos homens do campo,
nem as umbrosas margens de um rio,
nem Tempe agitada pelos Zéfiros.
Quem mais do que o suficiente não deseja,
não o inquieta o revolto mar, nem o feroz
ataque do poente Arcturo,
nem os Cabritos quando surgem,
nem as vinhas pelo granizo zurzidas, nem a traiçoeira
quinta, quando a árvore se queixa ora das águas,
ora das estrelas que queimam os campos,
ora dos iníquos invernos.
Sentem os peixes que o mar se aperta quando à água
enormes pedras são lançadas; para aqui repetidamente
arremessa o empreiteiro com seus escravos
o formigão, e o senhor farto de terra:
mas o Medo e as Ameaçasscalam por onde
o patrão trepa, e a negra Inquietude a sua posição
na trirreme de bronze não abandona,
postando-se atrás do cavaleiro.
Mas se nem o mármore frígio, nem as vestes de púrpura,
brilhando mais que uma estrela, nem a vinha
de Falemo e o costo de Aquémenes
podem valer aquele que sofre,
porque hei-de erigir, em novo e sublime estilo,
um átrio com invejandas portas?
Porque hei-de trocar o meu vale sabino
por mais laboriosas riquezas?
III.i
Odi profanum volgus et arceo.
favete linguis: carmina non prius
audita Musarum sacerdos
virginibus puerisque canto.
regum timendorum in proprios greges,
reges in ipsos imperium est Iovis,
clari Giganteo triumpho,
cuncta supercilio moventis.
est ut viro vir latius ordinet
arbusta sulcis, hic generosior
descendat in campum petitor,
moribus hic meliorque fama
contendat, illi turba clientium
sit maior: aequa lege Necessitas
sortitur insignis et imos,
omne capax movet urna nomen.
destrictus ensis cui super inpia
cervice pendet, non Siculae dapes
dulcem elaborabunt saporem,
non avium citharaeque cantus
somnum reducent: somnus agrestium
lenis virorum non humilis domos
fastidit umbrosamque ripam,
non Zephyris agitata tempe.
desiderantem quod satis est neque
tumultuosum sollicitat mare
nec saevus Arcturi cadentis
impetus aut orientis Haedi,
non verberatae grandine vineae
fundusque mendax, arbore nunc aquas
culpante, nunc torrentia agros
sidera, nunc hiemes iniquas.
contracta pisces aequora sentiunt
iactis in altum molibus: huc frequens
caementa demittit redemptor
cum famulis dominusque terrae
fastidiosus; sed Timor et Minae
scandunt eodem quo dominus, neque
decedit aerata triremi et
post equitem sedet atra Cura.
quodsi dolentem nec Phrygius lapis
nec purpurarum sidere clarior
delenit usus nec Falerna
vitis Achaemeniumque costum,
cur invidendis postibus et novo
sublime ritu moliar atrium?
cur valle permutem Sabina
divitias operosiores?
HORÁCIO. Odes. Trad. Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008.
HORATIUS Flaccus, Q. Opera. E.C. Wickham e H.W. Garrott (orgs.). Oxford: Oxford Classical Texts, 1912.
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Poema
25.9.16
Horácio: Ode 2.14: Trad. de José Agostinho de Macedo
Ode 2.14
Fogem os anos, Póstumo, apressados;
Religiosa Piedade em vão procura
Deter os passos da Velhice e Morte;
Não lhe suspende os golpes.
Inda que intentes aplacar com sangue
De tríplice Hecatombe os dias todos,
O inflexível Plutão, surdo a teus votos,
As Parcas não suspende.
O Triplicado Gerião, e a Tício
Nas tristes ondas prende; à Terra quantos
Devem sustento seu, ou Reis, ou Povo,
Têm de passar a Estige.
Em vão se evita a Guerra, em vão fugimos
Do Adriático Mar as ondas roucas;
Debalde temos medo ao Sul no Outono,
Que os corpos nos ataca.
Do sinuoso Cocito e negro as ondas
Perguiçosas e a vil Prole de Dânao
E do Eólio Sisifo a pena eterna
Verá todo vivente.
Deve deixar-se a Terra, a Casa, a Esposa,
E das que amaste em vida árvores tantas
Nenhuma seguirá rápido Dono,
Mais que o odiado Cipreste.
Então consumirá pródigo Herdeiro
Prenhes Tonéis do Cécubo espumante,
Que ora, tão resguardado e cauteloso,
A cem chaves ferrolha[s].
Com profusão no rico pavimento
O Vinho entornará, mais generoso
Que o Falemo Licor que espuma e corre
Nas Pontifícias Mesas.
Ode 2.14
Eheu fugaces, Postume, Postume,
labuntur anni nec pietas moram
rugis et instanti senectae
adferet indomitaeque morti,
non si trecenis quotquot eunt dies,
amice, places inlacrimabilem
Plutona tauris, qui ter amplum
Geryonen Tityonque tristi
conpescit unda, scilicet omnibus,
quicumque terrae munere vescimur,
enaviganda, sive reges
sive inopes erimus coloni.
frustra cruento Marte carebimus
fractisque rauci fluctibus Hadriae,
frustra per autumnos nocentem
corporibus metuemus Austrum:
visendus ater flumine languido
Cocytos errans et Danai genus
infame damnatusque longi
Sisyphus Aeolides laboris,
linquenda tellus et domus et placens
uxor, neque harum quas colis arborum
te praeter invisas cupressos
ulla brevem dominum sequetur.
absumet heres Caecuba dignior
servata centum clavibus et mero
tinguet pavimentum superbo,
pontificum potiore cenis.
HORÁCIO. "Ode 2.14". Trad. de José Agostinho de Macedo. In:_____. ACHCAR, Francisco. "Antologia". In: Lírica e lugar comum. Alguns temas de Horácio e sua presença em português. São Paulo: EDUSP, 1994.A
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Poema
15.1.14
Horácio: Ode I.xxxviii
Ao reler a tradução que, anos atrás, fiz da Ode I.xxxviii de Horácio, achei-a fraca.
Acabo de fazer outra, que penso ser um pouco melhor. Ei-la:
Ode I.xxxviii
Odeio, rapaz, ostentações persas
e não me agradam coroas de tília;
deixa de procurar em pleno inverno
rosas serôdias.
Que te sirva de enfeite o simples mirto
é o que desejo: nem de ti, a servir,
destoa o mirto, nem de mim, a beber
sob harta vinha.
Carmen I.xxxviii
Persicos odi, puer, adparatus,
displicent nexae philyra coronae,
mitte sectari, rosa quo locorum
sera moretur.
simplici myrto nihil adlabores
sedulus curo: neque te ministrum
dedecet myrtus neque me sub arta
vite bibentem.
HORACE. The odes. Org. por Kenneth Quinn. London: Macmillan, 1985.
23.10.12
Horácio: Ode I.5 / Para Pirra: trad. Haroldo de Campos
Para Pirra
Quem, Pirra
agora
se lava em rosas
(pluma e latex)
na rosicama do
teu duplex?
Quem,
onda a onda,
do teu cabelo
desfaz a trança
platino-blonda?
Pobre coitado
inocente inútil
vai lamentar-se
para toda a vida.
Um deus volúvel
mais do que a brisa
muda em mar negro
seu lago azul.
Pensava que eras
dócil-macia
toda ouro mel.
Não és. Varias.
(Ah quem se fia
no fútil brilho
desse ouropel!)
Eu, por meu turno,
todo ex-aluno,
esta oferenda
ao deus Netuno
padripotente
no teu vestíbulo
deixo suspensa
(vide a legenda):
VMIDA AINDA
A TVNICA
CAMPOS, Haroldo de. "Para Pirra". Apud ACHCAR, Francisco. Lírica e lugar comum. Alguns temas de Horácio e sua presença em português. São Paulo: Edusp, 1994.
Ode I.5
Quis multa gracilis te puer in rosa
perfusus liquidis urget odoribus
grato, Pyrrha, sub antro?
cui flavam religas comam
simplex munditiis? heu quotiens fidem
mutatosque deos flebit et aspera
nigris aequora ventis
emirabitur insolens,
qui nunc te fruitur credulus aurea,
qui semper vacuam, semper amabilem
sperat, nescius aurae
fallacis. miseri, quibus
intemptata nites: me tabula sacer
votiva paries indicat uvida
suspendisse potenti
vestimenta maris deo.
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Poema
12.8.10
Horácio: Ode I.xxxviii / trad. de Pedro Braga Falcão
Dos Persas, rapaz, odeio os requintes,
desagradam-me as coroas entrelaçadas
com a fibra da tília. Desiste de procurar
[os lugares
onde tardia a rosa se demora.
De nada me interessa que tu, zeloso,
[te esforces
por algo ao simples mirto acrescentar. Não te
[fica mal o mirto,
nem a ti, meu servo, nem a mim, que agora
à sombra da videira bebo.
Persicos odi, puer, adparatus,
displicent nexae philyra coronae,
mitte sectari, rosa quo locorum
sera moretur.
simplici myrto nihil adlabores
sedulus curo: neque te ministrum
dedecet myrtus neque me sub arta
vite bibentem.
HORÁCIO. Odes. Tradução de Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008.
7.2.10
Carpe diem
O seguinte artigo, publicado no sábado, 6 de fevereiro, na minha coluna da “Ilustrada”, da Folha de São Paulo, desenvolve algumas anotações que eu já tinha postado aqui no blog. Aqui publico na íntegra os poemas que, no jornal, publiquei apenas parcialmente:
"Carpe diem"
UM DOS poemas mais famosos do poeta romano Horácio é a ode 1.11. Nela, dirigindo-se a uma personagem feminina, Leucônoe, o poeta lhe diz que não procure adivinhar o futuro:
Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.
[Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.]
A frase "carpe diem" tornou-se um aforismo epicurista e um tema poético a que inúmeros poetas recorrem. No Brasil, por exemplo, Gregório de Matos, imitando um famoso poema de Góngora, diz, em soneto dedicado a uma "discreta e formosíssima Maria":
Discreta e formosíssima Maria,
Enquanto estamos vendo a qualquer hora
Em tuas faces a rosada Aurora,
Em teus olhos e boca o Sol, e o Dia:
Enquanto com gentil descortesia
O ar, que fresco Adônis te namora,
Te espalha a rica trança voadora,
Quando vem passear-te pela fria:
Goza, goza da flor da mocidade,
Que o tempo trata a toda ligeireza
E imprime em toda flor sua pisada.
Ó não aguardes que a madura idade
Te converta essa flor, essa beleza,
Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada.
O soneto mencionado de Góngora, uma obra-prima, é o seguinte:
Mientras por competir con tu cabello,
oro bruñido al sol relumbra en vano;
mientras con menosprecio en medio el llano
mira tu blanca frente el lilio bello;
mientras a cada labio, por cogello,
siguen más ojos que al clavel temprano;
y mientras triunfa con desdén lozano
del luciente cristal tu gentil cuello;
goza cuello, cabello, labio y frente,
antes que lo que fue en tu edad dorada
oro, lilio, clavel, cristal luciente,
no sólo en plata o viola troncada
se vuelva, mas tú y ello juntamente
en tierra, en humo, en polvo, en sombra, en nada.
O poeta Mário Faustino escreveu o seguinte belíssimo soneto chamado "Carpe Diem":
Que faço deste dia, que me adora?
Pegá-lo pela cauda, antes da hora
Vermelha de furtar-se ao meu festim?
Ou colocá-lo em música, em palavra,
Ou gravá-lo na pedra, que o sol lavra?
Força é guardá-lo em mim, que um dia assim
Tremenda noite deixa se ela ao leito
Da noite precedente o leva, feito
Escravo dessa fêmea a quem fugira
Por mim, por minha voz e minha lira.
(Mas já de sombras vejo que se cobre
Tão surdo ao sonho de ficar — tão nobre.
Já nele a luz da lua — a morte — mora,
De traição foi feito: vai-se embora.)
Mas Horácio, em outra ode igualmente famosa, a 3.30, afirma que suas Odes sobreviverão às milenàrias pirâmides:
Erigi um monumento mais duradouro que o bronze,
mais alto do que a régia construção das pirâmides
que nem a voraz chuva, nem o impetuoso Áquilo
nem a inumerável série dos anos,
nem a fuga do tempo poderão destruir.
Nem tudo de mim morrerá, de mim grande parte
escapará a Libitina: jovem para sempre crescerei
no louvor dos vindouros, enquanto o pontífice
com a tácita virgem subir ao Capitólio.
Dir-se-á de mim, onde o violento Áufido brama,
onde Dauno pobre em água sobre rústicos povos reinou,
que de origem humilde me tornei poderoso,
o primeiro a trazer o canto eólio aos metros itálicos.
Assume o orgulho que o mérito conquistou
e benévola cinge meus cabelos,
Melpómene, com o délfico louro.
[Exegi monumentum aere perennius
regalique situ pyramidum altius,
quod non imber edax, non aquilo impotens
possit diruere aut innumerabilis
annorum series et fuga temporum.
non omnis moriar multaque pars mei
vitabit Libitinam: usque ego postera
crescam laude recens, dum Capitolium
scandet cum tacita virgine pontifex:
dicar, qua violens obstrepit Aufidus
et qua pauper aquae Daunus agrestium
regnavit populorum, ex humili potens
princeps Aeolium carmen ad Italos
deduxisse modos. sume superbiam
quaesitam meritis et mihi Delphica
lauro cinge volens, Melpomene, comam.]
A própria admiração que a ode continua a suscitar, parecendo confirmar o vaticínio de Horácio, aumenta essa admiração.
Ou seja, enquanto na ode 1.11 o poeta recomenda ignorar o futuro, na ode 3.30 ele exalta o futuro dos seus poemas. Que haja uma contradição aqui não é nenhum problema. Diferentemente dos textos teóricos, os poéticos podem contradizer-se, ainda que sejam do mesmo autor, sem que, com isso, sofram o menor arranhão.
Se ambos forem bons, então, ao ler o primeiro, concordamos inteiramente com ele; ao ler o segundo, é com este que concordamos inteiramente, sem deixar de continuar a concordar com o primeiro. Ambos podem ser profundamente verdadeiros ou reveladores. Um poema é capaz de contradizer a si próprio e ser uma obra-prima: ele pode até ter que se contradizer, como o "Odeio e Amo" ("Odi et amo"), de Catulo, para vir a ser uma obra-prima.
De todo modo, o poeta Haroldo de Campos escreveu um magnífico poema, intitulado "Horácio Contra Horácio", que diz:
ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante           a ruína           a desmemória
Não só, portanto, aos poetas é lícito contradizerem-se uns aos outros ou a si próprios, tanto em diferentes poemas quanto no mesmo poema, como tais contradições podem constituir o motivo de um poema.
Observo, porém, que a ode 1.11 pode também ser lida de modo que não necessariamente contradiga a ode 3.30. Digamos que a concepção de poesia subjacente à ode 3.30 seja que, dado que o grande poema vale por si, ele é, em princípio, indiferente às contingências do tempo. Sendo assim, não se concebe um tempo em que tal poema venha a caducar.
Logo, mesmo reconhecendo a possibilidade de que os textos se percam, talvez a verdadeira razão do orgulho de Horácio seja o fato de que suas odes intrinsecamente merecem existir. Isso quer dizer que elas merecem existir AGORA.
E merecem existir agora, seja quando for agora: seja quando for que alguém diga ou pense: "agora". É desse modo que, precisamente ao celebrar "o instante a ruína a desmemória", o poema se faz eterno agora. Nesse sentido, apreciá-lo é colher o dia: "carpere diem".
20.12.09
Haroldo de Campos: "horácio contra horácio"
Haroldo de Campos – que no entanto não só admirava a Ode III.XXX, mas também a traduziu – prefere supor, ao menos no poema "horácio contra horácio", uma contradição entre o carpe diem e a aspiração da Ode III.XXX. Reconheço tratar-se de uma interpretação perfeitamente legítima, mas, para mim, o que em última análise justifica sua adoção é exatamente o fato de ter resultado nesse magnífico poema:
horácio contra horácio
ergui mais do que o bronze ou que a pirâmide
ao tempo resistente um monumento
mas gloria-se em vão quem sobre o tempo
elusivo pensou cantar vitória:
não só a estátua de metal corrói-se
também a letra os versos a memória
— quem nunca soube os cantos dos hititas
ou dos etruscos devassou o arcano?
o tempo não se move ou se comove
ao sabor dos humanos vanilóquios —
rosas e vinho — vamos! — celebremos
o instante       a ruína       a desmemória
CAMPOS, Haroldo de. Crisantempo: No espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 2004.
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18.12.09
Ainda sobre as odes de Horácio
Na Ode III.XXX de Horácio, postada na segunda-feira, dia 15, o poeta diz que seus poemas, inclusive, é claro, essa ode mesma, não serão destruídos pela fuga dos tempos.
Já na Ode I.XI, que postei em 18/05/2009, e que é a origem do conceito de “carpe diem” (“colhe o dia”), o eu lírico recomenda à sua amante, Leucônoe: “Colhe o dia, minimamente crédula no porvir”.
Ou seja, enquanto em III.XXX ele fala do futuro dos seus poemas, em I.XI ele recomenda ignorar o futuro. Que houvesse uma contradição aqui não seria nenhum problema: um poema pode contradizer o outro, sem que nenhum dos dois sofra o menor arranhão. Se ambos forem bons, então, ao ler o primeiro, concordamos inteiramente com ele; ao ler o segundo, é com este que concordamos inteiramente, sem deixar de continuar a concordar com o primeiro. Ambos podem ser profundamente verdadeiros ou reveladores. Um poema é capaz se contradizer a si próprio e ser uma obra prima: ele pode até ter que se contradizer para vir a ser uma obra prima.
De todo modo, não sei sequer se essas duas odes de Horácio realmente se contradizem. Penso que a concepção da poesia que preside a Ode III.XXX é que, dado que os grandes poemas valem por si, eles são inteiramente indiferentes às contingências do tempo. Em princípio, portanto, não haverá tempo em que já não valham. O que interessa é que eles sempre merecem existir agora: seja quando for agora. Apreciá-los é sempre colher o dia: carpere diem. No fundo, portanto, parece-me não haver contradição entre essas duas odes. Algo nesse sentido manifesta-se no meu poema “História”, do livro “A cidade e os livros”, que se refere diretamente à ode XXX.:
[...]
Tudo que há no mundo some:
Babilônia, Tebas, Acra.
Que o mais impecável verso
breve afunda feito o resto
(embora mais lentamente
que o bronze, porque mais leve)
sabe o poeta, e não o ignora
ao querê-lo eterno agora.
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16.12.09
Sobre a Ode de Horácio postada ontem
A ode de Horácio que postei ontem é, com razão, considerado um dos maiores poemas líricos de todos os tempos. Horácio diz que seus poemas durarão mais que as pirâmides do Egito e que ele crescerá no louvor dos vindouros. A segunda parte já sabemos ser verdadeira, de modo que, enquanto houver civilização, então, ainda que a erosão causada pela água e pela chuva tenha destruído as pirâmides, as Odes de Horácio – inclusive esta – continuarão de pé. E a verdade é que isso já se sabia na época em que esses poemas foram escritos. Pela evidência da sua deslumbrante beleza, as Odes desde sempre mereceram viver eternamente.
O poema, entretanto, pode oferecer algumas dificuldades ao leitor moderno, principalmente por citar pessoas e lugares hoje esquecidos por quase todo o mundo. Pois bem, a edição (da editora Cotovia) da excelente tradução de Pedro Braga Falcão que utilizei – e que recomendo enfaticamente – é aparelhada com notas que indicam o sentido das referências mais importantes. Abaixo, reproduzo as notas referentes à ode III.XXX. Os números à direita correspondem aos versos em que elas ocorrem.
3 Áquilo: Vento do norte.
7 Libitina: Deusa romana que assistia às cerimónias funerárias.
9 Capitólio.. O Capitólio é, para os Romanos, o símbolo da eternidade de Roma (cf. Vergílio, Eneida IX. 448 e s.): enquanto estiver de pé, Roma sobreviverá. A "Virgem" é a vestal que sobe ao Capitólio para orar pelo bem da cidade; está em silêncio devido à sua solene tarefa.
10 Áufido: O maior rio da Apúlia (actualmente o rio Ofanto), região onde Horácio nasceu. O poeta subtilmente vaticina que na sua terra será para sempre celebrado,
11 Dauno: O mítico fundador da Dáunia (cf. I. 22. 13, n.), mais uma referência à terra natal de Horácio. O rei é "pobre em água" devido à aridez e secura da região.
13 O Primeiro: Horácio foi de facto (exceptuando dois carmina de Catulo, escritos no metro sáfico, nomeadamente o 11 e o 51) o primeiro poeta latino a escrever sistematicamente nos metros da lírica grega eólia, representada por Safo e por Alceu.
16 Melpómene: Esta musa foi por Horácio associada à poesia lírica (cf. I. 24. 3), e não à tragédia, como é costume.
O poema, entretanto, pode oferecer algumas dificuldades ao leitor moderno, principalmente por citar pessoas e lugares hoje esquecidos por quase todo o mundo. Pois bem, a edição (da editora Cotovia) da excelente tradução de Pedro Braga Falcão que utilizei – e que recomendo enfaticamente – é aparelhada com notas que indicam o sentido das referências mais importantes. Abaixo, reproduzo as notas referentes à ode III.XXX. Os números à direita correspondem aos versos em que elas ocorrem.
3 Áquilo: Vento do norte.
7 Libitina: Deusa romana que assistia às cerimónias funerárias.
9 Capitólio.. O Capitólio é, para os Romanos, o símbolo da eternidade de Roma (cf. Vergílio, Eneida IX. 448 e s.): enquanto estiver de pé, Roma sobreviverá. A "Virgem" é a vestal que sobe ao Capitólio para orar pelo bem da cidade; está em silêncio devido à sua solene tarefa.
10 Áufido: O maior rio da Apúlia (actualmente o rio Ofanto), região onde Horácio nasceu. O poeta subtilmente vaticina que na sua terra será para sempre celebrado,
11 Dauno: O mítico fundador da Dáunia (cf. I. 22. 13, n.), mais uma referência à terra natal de Horácio. O rei é "pobre em água" devido à aridez e secura da região.
13 O Primeiro: Horácio foi de facto (exceptuando dois carmina de Catulo, escritos no metro sáfico, nomeadamente o 11 e o 51) o primeiro poeta latino a escrever sistematicamente nos metros da lírica grega eólia, representada por Safo e por Alceu.
16 Melpómene: Esta musa foi por Horácio associada à poesia lírica (cf. I. 24. 3), e não à tragédia, como é costume.
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Pedro Braga Falcão
15.12.09
Horácio: Ode XXX do livro III: traduzida por Pedro Braga Falcão

Texto em latim:
HORACE. The Odes. Edited with introduction, revised text and commentary by Kenneth Quinn. London: MacMillan Education, 1985.
Tradução portuguesa:
HORÁCIO. Odes. Tradução de Pedro Braga Falcão. Lisboa: Cotovia, 2008.
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Pedro Braga Falcão,
Poema
18.5.09
Horácio: Ode I.11
.
Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.
Não interrogues, não é lícito saber a mim ou a ti
que fim os deuses darão, Leucônoe. Nem tentes
os cálculos babilônicos. Antes aceitar o que for,
quer muitos invernos nos conceda Júpiter, quer este último
apenas, que ora despedaça o mar Tirreno contra as pedras
vulcânicas. Sábia, decanta os vinhos, e para um breve espaço de tempo
poda a esperança longa. Enquanto conversamos terá fugido despeitada
a hora: colhe o dia, minimamente crédula no porvir.
Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.
24.7.08
Horácio: Ode I.38
Eis a Ode I.38, de Horácio, seguida da tradução que ousei fazer:
Persicos odi, puer, adparatus,
displicent nexae philyra coronae,
mitte sectari, rosa quo locorum
sera moretur.
simplici myrto nihil adlabores
sedulus curo: neque te ministrum
dedecet myrtus neque me sub arta
vite bibentem.
Odeio, rapaz, ostentações persas
e não me agradam coroas de tília;
deixa de procurar em pleno inverno
rosas serôdias.
Que te baste de enfeite o simples mirto
é o que desejo: nem de ti servindo
destoa o mirto, nem de mim, sob farta
vide bebendo.
Persicos odi, puer, adparatus,
displicent nexae philyra coronae,
mitte sectari, rosa quo locorum
sera moretur.
simplici myrto nihil adlabores
sedulus curo: neque te ministrum
dedecet myrtus neque me sub arta
vite bibentem.
Odeio, rapaz, ostentações persas
e não me agradam coroas de tília;
deixa de procurar em pleno inverno
rosas serôdias.
Que te baste de enfeite o simples mirto
é o que desejo: nem de ti servindo
destoa o mirto, nem de mim, sob farta
vide bebendo.
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