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13.12.13

António Ramos Rosa: "O momento de"





O momento de

Talvez seja o momento de.
Mesmo sem esperança. E ele escreve:
nenhum impulso para ti
neste espaço deserto.

Ele perscruta entre as pedras e as sombras.
Nada vê. Ignora. 0lha.
Que traços são estes,
qual a origem destas palavras nulas?

Ele escreve. O seu desejo é o desejo
de tornar habitável o deserto.


ROSA, António Ramos. A nuvem sobre a página. Lisboa: Dom Quixote, 1978.


24.9.13

António Ramos Rosa: "Poema dum funcionário cansado"






Poema dum funcionário cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só




ROSA, António Ramos. Poemas de António Ramos Rosa. Aprsentação, seleção, notas e sugestões para análise literária de Cristina Almeida Ribeiro. Lisboa: Editoral Comunicação, 1985.



13.3.10

António Ramos Rosa: "Quase se disse quase"




Quase se disse quase


Quase se disse quase
sobre os joelhos sob os muros
quase os dedos no murmúrio lento
quase na ferida a ferida lábio e língua

e foram dois na muralha sem cavalos
folha a folha deitados sob a sombra
e o verde crespo do sexo na boca
o esplendor obscuro entre as pernas claras

e foram um só na pedra branca
pela língua interior da terra e da folhagem




ROSA, António Ramos. As marcas no deserto. Lisboa: & Etc, 1978.

23.5.08

António Ramos Rosa: "Onde os deuses se encontram"

ONDE OS DEUSES SE ENCONTRAM


Não busques não esperes

Como procurar a nudez do simples?
Os deuses encontram-se no refúgio aberto sombreado

O círculo dilata-se e dilata-nos
O lugar revela-se no esplendor da luz

O mar levanta as suas lâmpadas brancas

Diz de novo a fascinante simplicidade

Diz agora as minúcias
deslumbrantes
arcos na areia insectos frutos

Tanta luz tanta sombra iluminada!