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8.7.21

Lêdo Ivo: "A inspiração"

 



A inspiração


Não creio na inspiração

essa bruxa radiosa

que sopra a canção

e te faz alegre ou triste.

Mas que ela existe, existe!





IVO, Lêdo. "A inspiração", In:_____. "O soldado raso". In:_____.  Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

17.4.21

Lêdo Ivo: "O dia inacabado"

 



O dia inacabado



Como todos os homens, sou inacabado. 

Jamais termino de ser. 

Após a noite breve um longo amanhecer 

me detém no umbral do dia. 

Perco o que ganho no sonho e no desejo 

quando a mim mesmo me acrescento. 

Toda vez que me somo, subtraio-me, 

uma porção levada pelo vento. 

Incompleto no dia inacabado, 

livre de ser ainda como e quando, 

sigo a marcha das plantas e das estrelas. 

E o que me falta e sobra é o meu contentamento. 




IVO, Lêdo. "O dia inacabado". In:_____. Mormaço.  Rio de Janeiro: Contra Capa, 2013.



30.1.21

Lêdo Ivo: "Soneto de Roma"

 



Soneto de Roma



Felizes os que chegam de mãos dadas

como se fosse o instante da partida

e entre as fontes que jorram a água clássica

dão em silêncio adeus à claridade.


No dourado crepúsculo da tarde

o que nos dividiu agora é soma

e a vida que te dei e que me deste

voa entre os pombos no fulgor de Roma.


Todo fim é começo. A água da vida

eterna e musical sustenta o instante

que triunfa da morte nas ruínas.


Como o verão sucede à neve fria

um sol final aquece o nosso amor,

devolução da aurora e luz do dia.





IVO, Lêdo. "Soneto de Roma". In:_____. "Noturno romano". In:_____. Poesia completa, 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.


17.7.20

Lêdo Ivo: "Carta da Inglaterra"




Carta da Inglaterra

Abra sua porta
à imaginação.
Nenhum sonho fique
do lado de fora.

Caído o crepúsculo
sonhe e seja tudo,
rosa de mil pétalas
aberta na sombra.

Quem se multiplica
não sofre o vexame
de só ser um só.

Eis que o sol se esconde.
Múltiplo atravesso
as pontes de Londres.




IVO, Lêdo. "Carta da Inglaterra". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa: 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

30.5.20

Lêdo Ivo: "A palavra final"




A palavra final


Falo como as plantas.
Digo como as pedras.

Clamo como o réptil,
o miasma e o verme.

Quantas vozes tenho
quando estou calado?

Meu silêncio é a voz
vinda do outro lado

onde a escuridão
dispensa as palavras

a fala espantada
de quem sabe e cala.




IVO, Lêdo. "A palavra final". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

12.1.20

Lêdo Ivo: "Depois do jogo"




Depois do jogo


Urge escolher
ou tudo ou nada.
A noite escura
ou a alvorada.

Atrás de tudo
há sempre o nada,
a rosa negra
evaporada.

Quando termina
o jogo sujo
e embaralhado

do tudo ou nada
o nada é tudo
e tudo é nada.




IVO, Lêdo.  "Depois do jogo". In:_____. Antologia poética. Org. de Albano Martins. Porto: Afrontamento, 2012.

14.11.19

Lêdo Ivo: "O espinho"




O espinho


Caluniado espinho na haste da rosa,
a ninguém ferirás nesta manhã
em que a rosa vermelha, a rosa airosa
oferta a sua vida à vida vã.

Neste dia de sol tudo é passagem.
E mesmo a eternidade é um caminho,
coito de luz e sombra, na viagem
entre o dia e a noite, a rosa e o espinho.




IVO, Lêdo. "O espinho". In:_____. "Plenilùnio". In:_____. Poesia completa: 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

25.6.18

Lêdo Ivo: "O homem vivo"



O homem vivo

Felicito-me a mim mesmo por ser transitório.
Sempre tive medo da eternidade,
esse grande cão obscuro que me farejava as pernas
e me seguia sem morder.

Aguardando a morte como quem espera uma carta
trazida por um estafeta divino,
nada tenho para as festas do dia seguinte.
Toda a minha vida foi este esperar sem fim.

Entre o sono e o mar total, na paisagem celeste,
soltei minha pandorga.
Vi o farol da minha terra, e minha infância inteira
estirada em cem léguas diante do mar.

Nada quero de ti, Morte, nem mesmo as recompensas de outro lado
com que amenizas o fim dos que muito sofreram.
Dá-me apenas o sono inteiriço dos que morrem
e são levados à terra dos pés juntos.

Que a vida seja um sonho, e os sonhos sejam sonhos
do sonho desdobrado dos que vivem.
Efêmero, bate no tempo um coração solitário
e a sombra da terra é pouca para escondê-lo.



IVO, Lêdo. "O homem vivo". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

23.4.17

Lêdo Ivo: "Soneto de ninar"



Soneto de ninar

Dorme, oceano.
Minha canção te embala
na treva lacerada
pelas constelações.

Dorme, doce terra impura.
Minha canção te cinge,
leve gesto de amor
na escuridão.

Dorme, vento
que suspende as árvores
no ar.

Durmam até as pedras
repousadas e felizes
em seu sono de pedra.



IVO, Lêdo. "Soneto de ninar". In:_____. "Crepúsculo civil". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

21.12.16

Lêdo Ivo: "Queixa do editor de poesia"




Queixa do editor de poesia

"Poesia não se vende,
ninguém a entende!"
-- suspira o editor.
Poesia! Poesia!
Ninguém te entende.
És como a morte e o amor.



IVO, Lêdo. "Queixa do editor de poesia". In:_____. Antologia poética. Org. de Albano Martins. Porto: Afrontamento, 2012.

10.12.15

Lêdo Ivo: "A saudação"




A saudação

Todo anonimato
tem os seus limites.
O melhor disfarce
não esconde nada.

Usar uma máscara
a ninguém evita
ser reconhecido
em plena avenida.

Segredo e silêncio
são engano e vento.
Quando à noite passo

pela praça, a estátua
desce o pedestal
e me cumprimenta.



IVO, Lêdo. "A saudação". In:_____. Antologia poética. Porto: Edições Afrontamento, 2012.

12.3.14

Lêdo Ivo: "Soneto"




Soneto

À doce sombra dos cancioneiros
Em plena juventude encontro abrigo.
Estou farto do tempo, e não consigo
Cantar solenemente os derradeiros.

Versos de minha vida, que os primeiros
Foram cantados já, mas sem o antigo
Acento de pureza ou de perigo
De eternos cantos, nunca passageiros.

Sôbolos rios que cantando vão
A lírica imortal do degredado
Que, estando em Babilônia, quer Sião,

Irei, levando uma mulher comigo,
E serei, mergulhado no passado,
Cada vez mais moderno e mais antigo.




IVO, Lêdo. "Soneto". In: CAMPOS, Paulo Mendes (org). Forma e expressão do soneto. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, s.d.

20.5.13

Lêdo Ivo: "O ganhador"






O ganhador


Tudo o que ganhei se desfez no ar como uma metáfora.
Agora só guardo o que perdi:
O vento que soprava na colina
A neve que caía no aeroporto
E o teu púbis dourado, o teu púbis dourado.

    Ivo, Lêdo. "O rumor da noite". In:_____. Poesia completa. 1940-2004. Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

26.4.13

Lêdo Ivo: "Esperando a alvorada"







Esperando a alvorada

O pensamento é nada e o canto é tudo.
E toda vez que penso fico mudo
sem poder dizer nada ou dizer tudo
que se oculta no nada em que me penso
quando penso e sou nada, sendo tudo.





IVO, Lêdo. Aurora. Versão bilingue, traduzida para o espanhol por Martín Lopez-Vega. Madrid: Editorial Pre-Textos, 2013.

23.12.12

Lêdo Ivo: "O portão"






O portão




O portão fica aberto o dia inteiro

mas à noite eu mesmo vou fechá-lo.

Não espero nenhum visitante noturno

a não ser o ladrão que salta o muro dos sonhos.

A noite é tão silenciosa que me faz escutar

o nascimento dos mananciais nas florestas.

Minha cama branca como a via-láctea

é breve para mim na noite negra.

Ocupo todo o espaço da mundo. Minha mão desatenta

derruba uma estrela e enxota um morcego.

O bater de meu coração intriga as corujas

que, nos ramos dos cedros, ruminam o enigma

do dia e da noite paridos pelas águas.

No meu sonho de pedra fico imóvel e viajo.

Sou o vento que apalpa as alcachofras

e enferruja os arreios pendurados no estábulo.

Sou a formiga que, guiada pelas constelações,

respira os perfumes da terra e do oceano.

Um homem que sonha é tudo o que não é:

o mar que os navios avariaram,

o silvo negro do trem entre fogueiras,

a mancha que escurece o tambor de querosene.

Se antes de dormir fecho o meu portão

no sonho ele se abre. E quem não veio de dia

pisando as folhas secas dos eucaliptos

vem de noite e conhece o caminho, igual aos mortos

que todavia jamais vieram, mas sabem onde estou

— coberto por uma mortalha, como todos os que sonham

e se agitam na escuridão, e gritam as palavras

que fugiram do dicionário e foram respirar o ar da noite que cheira a jasmim

e ao doce esterco fermentado.

os visitantes indesejáveis atravessam as portas trancadas

e as persianas que filtram a passagem da brisa e me rodeiam.

Ó mistério do mundo! Nenhum cadeado fecha o portão da noite.

Foi em vão que ao anoitecer pensei em dormir sozinho

protegido pelo arame farpado que cerca as minhas terras

e pelos meus cães que sonham de olhos abertos.

À noite, uma simples aragem destrói os muros dos homens.

Embora o meu portão vá amanhecer fechado

sei que alguém o abriu, no silêncio da noite,

e assistiu no escuro ao meu sono inquieto.





IVO, Lêdo. "A noite misteriosa". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

14.7.09

Lêdo Ivo: "Soneto da porta"

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Soneto da porta

Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.



De: IVO, Lêdo. "Plenilúnio". In: Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.

7.12.08

Lêdo Ivo: "Valsa fúnebre de Hermengarda

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Valsa fúnebre de Hermengarda

Eis-me junto à tua sepultura, Hermengarda,
para chorar a carne pobre e pura que nenhum de nós viu apodrecer.

Outros viriam lúcidos e enlutados,
porém eu venho bêbado, Hermengarda, eu venho bêbado.
E se amanhã encontrarem a cruz de tua cova jogada ao chão
não foi a noite, Hermengarda, nem foi o vento.
Fui eu.

Quis amparar a minha embriaguez à tua cruz
e rolei ao chão onde repousas
coberta de boninas, triste embora.

Eis-me junto à tua cova, Hermengarda,
para chorar o nosso amor de sempre.
Não é a noite, Hermengarda, nem é o vento.
Sou eu.




De: IVO, Lêdo. "As imaginações". In: Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.