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6.9.20

Paul Éluard: "Un vivant parle pour les morts" / "Um que está vivo fala para os mortos": trad. por Maria Gabriel Llansol




Um que está vivo fala para os mortos


Doce futuro, esse olho zarolho sou eu,

Esse ventre aberto e esses nervos em franja

Sou eu, presa dos vermes e dos corvos,

Filho do nada como se é filho de rei.


Em breve vou perder minha aparência:

Eu estou na terra em vez de estar sobre ela,

O meu coração desperdiçado voa com a poeira,

Só tenho sentido por total inexistência.






Un vivant parle pour les morts


Doux avenir cet oeil crevé c'est moi

Ce ventre ouvert et ces nerfs en lambeaux

C'est moi sujet des vers et des corbeaux

Fils du néant comme est fils de roi



J'aurai bientôt perdu mon apparence

Je suis en terre au lieu d'être sur terre

Mon coeur gâché vole avec la poussière

Je n'ai de sens que par complète absence






ÉLUARD, Paul. "Un vivant parle pour les morts" / "Um que está vivo fala para os mortos". In:_____. ÚLtimos poemas de amor. Trad. por Maria Gasbriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água, 2002.

23.3.19

Paul Éluard: "Nusch": trad. por Maria Gabriela Llansol




Nusch

Os sentimentos aparentes
A leveza de abordagem
A cabeleira das carícias

Sem cuidados sem cuidar o mal
Teus olhos são entregues ao que vêem
Reflectidos por aquilo que olham

Confiança de cristal
Entre dois espelhos
De noite teus olhos extraviam-se
Para reunir ao desejo o despertar.






Nusch


Les sentiments apparents
La légèreté d’approche
La chevelure des caresses

Sans soucis sans soupçons
Tes yeux sont livrés à ce qu’ils voient
Vus par ce qu’ils regardent.

Confiance de cristal
Entre deux miroirs
La nuit tes yeux se perdent
Pour joindre l’éveil au désir.






ÉLUARD, Paul. "Nusch". In:_____. Derniers poèmes d'amour/Últimos poemas de amor. Trad. por Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água Editores, 2002.

11.11.17

Arthur Rimbaud: "Antique" / "Alta antiguidade": trad. de Maria Gabriela Llansol



Alta antiguidade

Gracioso filho de Pã! Em torno de tua fronte coroada de pequenas flores e bagas, teus olhos, esferas preciosas, irrequietos movem-se. Maculadas de borras castanhas, cavam-se as tuas faces. Teus dentes carnívoros brilham. Teu peito assemelha-se a uma cítara, campainhas sonoras correm-te pelos braços louros. O coração bate-te nesse ventre onde dorme o sexo macho e fêmea. Passeia-te à noite balançando docemente essa coxa, essa segunda coxa e essa perna esquerda.



Antique

Gracieux fils de Pan ! Autour de ton front couronné de fleurettes et de baies tes yeux, des boules précieuses, remuent. Tachées de lies brunes, tes joues se creusent. Tes crocs luisent. Ta poitrine ressemble à une cithare, des tintements circulent dans tes bras blonds. Ton cœur bat dans ce ventre où dort le double sexe. Promène-toi, la nuit, en mouvant doucement cette cuisse, cette seconde cuisse et cette jambe de gauche.




RIMBAUD, Arthur. "Antique" / "Alta antiguidade". In:_____: "Illuminations" / "Iluminações". In:_____. O rapaz raro. Iluminações e poemas. Trad. de Maria Gabriela Llansol. Lisboa: Relógio D'Água, 1998.

9.10.16

Paul Éluard: "Anneau de paix" / "Anel de paz": trad. Maria Gabriela Llansol




Anneau de paix

J'ai passé les portes du froid
Les portes de mon amertume
Pour venir embrasser tes lèvres

Ville réduite à notre chambre
Où l'absurde marée du mal
Laisse une écume rassurante

Anneau de paix je n'ai que toi
Tu me réapprends ce que c'est
Qu'un être humain quand je renonce

A savoir si j'ai des semblables.



Anel de paz

Passei as portas do frio
Pelas portas da minha amargura
Para vir beijar teus lábios

Cidade reduzida ao nosso quarto
Onde a absurda maré do mal
Deixa uma espuma tranquilizante

Anel de paz só te tenho a ti
Ensinas-me e volto a saber
O que é um ser humano e a desistir

De saber se tenho semelhantes.




ÉLUARD, Paul. "Anneau de paix" / "Anel de paz". Trad. por Maria Gabriela Llansol. In:_____. Últimos poemas de amor. / Derniers poèmes d'amour. Lisboa: Relógio d'Água, 2002