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25.9.21

Mário Quintana: "Poeminha do contra"

 



Poeminha do contra


Todos estes que aí estão

atravancando o meu caminhho,

Eles passarão.

Eu passarinho!




QUINTANA, Mário. "Poeminha do contra". In: COHN, Sérgio (org.). Poesia.br: modernismo. Rio de Janeiro:Beco do Azougue, 2012.


24.3.21

Mário Quintana: "LXXIII Da Realidade"

 



LXXIII Da Realidade


O sumo bem só no ideal perdura...

Ah! quanta vez a vida nos revela

Que "a saudade da amada criatura"

É bem melhor do que a presença dela...





QUINTANA, Mário. "LXXIII Da Realidade" In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012.

27.2.20

Mário Quintana: "Canção da janela aberta"




Canção da janela aberta


Passa nuvem, passa estrela,
Passa a lua na janela...

Sem mais cuidados na terra,
Preguei meus olhos no Céu.

E o meu quarto, pela noite
Imensa e triste, navega...

Deito-me ao fundo do barco,
Sob os silêncios do Céu.

Adeus, Cidade Maldita,
Que lá se vai o teu Poeta.

Adeus para sempre, Amigos...
Vou sepultar-me no Céu!






QUINTANA, Mário. “Canção da janela aberta”. In: MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix, 2012.

7.6.18

Mário Quintana: "O poema. I"; "O poema. II"



O poema. I

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta
[noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de
[poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.




O poema. 2

O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta..




QUINTANA, Mário. "O poema. I"; "O poema. II". In: BANDEIRA, Manuel. "Antologia". In: Apresentação da poesia brasileira, seguida de uma antologia. São Paulo: Cosanaify, 2009.

21.2.18

Mário Quintana: "Das utopias"



Das utopias

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A mágica presença das estrelas!



QUINTANA, Mário. "Das utopias". In:_____. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

12.12.17

Mário Quintana: "Aula inaugural"



Aula inaugural

É verdade que na Ilíada não havia tantos heróis como na guerra
                                                                             [do Paraguai…
Mas eram bem falantes
E todos os seus gestos eram ritmados como num balé
Pela cadência dos metros homéricos.
Fora do ritmo, só há danação.
Fora da poesia, não há salvação.
A poesia é dança e a dança é alegria.
Dança, pois, teu desespero, dança
Tua miséria, teus arrebatamentos,
Teus júbilos
E,
Mesmo que temas imensamente a Deus,
Dança como David diante da Arca da Aliança;
Mesmo que temas imensamente a morte
Dança diante da tua cova.
Tece coroas de rimas…
Enquanto o poema não termina
A rima é como uma esperança
Que eternamente se renova.
A canção, a simples canção, é uma luz dentro da noite.
(Sabem todas as almas perdidas…)
O solene canto é um archote nas trevas.
(Sabem todas as almas perdidas…)
Dança, encantado dominador de monstros,
Tirano das esfinges,
Dança, Poeta.
E sob o aéreo, o implacável, o irresistível ritmo de teus pés,
Deixa rugir o Caos atônito…



QUINTANA, Mário. "Aula inaugural". In:_____. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

18.10.17

Mário Quintana: "O poeta começa o dia"



O poeta começa o dia

Pela janela atiro meus sapatos, meu ouro, minha alma ao meio da rua.
Como Harum-al-Raschid, eu saio incógnito, feliz de desperdício...
Me espera o ônibus o horário a morte - que importa?
Eu sei me teleportar: estou agora
Em um Mercado Estelar... e olha!
Acabo de trocar
- em meio aos ruídos da rua -
alheio aos risos da rua -
todas as jubas do Sol
por uma trança da Lua!



QUINTANA, Mário. "O poeta começa o dia". In:_____. Nova antologia poética. 2ª ed. Rio de Janeiro: Codecri, 1981. 

23.7.15

Mário Quintana: "As covas"





As covas

O bicho,
quando quer fugir dos outros,
faz um buraco na terra.

O homem,
para fugir de si,
fez um buraco no céu.



QUINTANA, Mário. "As covas". In:_____. Nova antologia poética. Rio de Janeiro: Codecri, 1981.

5.9.14

Mário Quintana: "S.O.S."




S.O.S.

O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar.
Quem a encontra
Salva-se a si mesmo...



QUINTANA, Mário. "S.O.S.". In: CALCANHOTTO, Adriana (organização e ilulstrações). Haicai do Brasil. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

13.3.13

Mário Quintana: "As coisas"






As coisas


O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
é, acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
- Essas coisas que parece
não terem beleza
nenhuma
- é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!





QUINTANA, Mário. A cor do invisível. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012







10.1.13

Mário Quintana: "Emergência"






Emergência

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
– para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.



QUINTANA, Mário. "Emergência". In: MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

3.3.10

Mário Quintana: "Do amoroso esquecimento"




Do amoroso esquecimento

Eu agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?




QUINTANA, Mário. Espelho mágico. Porto Alegre: Editora do Globo, 1951.