Mostrando postagens com marcador Manuel Bandeira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Manuel Bandeira. Mostrar todas as postagens

26.4.22

Manuel Bandeira: "Oceano"

 



OCEANO 


Olho a praia. A treva é densa. 

Ulula o mar, que não vejo, 

Naquela voz sem consolo, 

Naquela tristeza imensa 

Que há na voz do meu desejo. 


E nesse tom sem consolo 

Ouço a voz do meu destino: 

Má sina que desconheço, 

Vem vindo desde eu menino, 

Cresce quanto em anos cresço. 


– Voz de oceano que não vejo 

Da praia do meu desejo... 






BANDEIRA, Manuel. "Oceano". In:_____."A cinza das horas". In:_____ Estrêla da vida inteira. Poesias reunidas.Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1966.

19.12.21

Manuel Bandeira: "Tema e voltas"

 



Tema e voltas




Mas para quê

Tanto sofrimento

Se nos céus há o lento

Deslizar da noite?


Mas para quê

tanto sofrimento

Se lá fora o vento

É um canto na noite?



Mas para quê

tanto sofrimento

Se agora, ao relento,

Cheira a flor da noite?


Mas para quê

tanto sofrimento

Se o meu pensamento

É livre na noite?





BANDEIRA, Manuel. “Tema e voltas”. In:_____ “Belo belo”. In:_____ Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1967.

26.7.21

Manuel Bandeira: "A Antonio Nobre"

 



A Antônio Nobre



Tu que penaste tanto e em cujo canto

Há a ingenuidade santa do menino;

Que amaste os choupos, o dobrar do sino,

E cujo pranto faz correr o pranto:


Com que magoado olhar, magoado espanto

Revejo em teu destino o meu destino!

Essa dor de tossir bebendo o ar fino,

A esmorecer e desejando tanto...


Mas tu dormiste em paz como as crianças.

Sorriu a Glória às tuas esperanças

E beijou-te na boca... O lindo som!


Quem me dará o beijo que cobiço?

Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...

Eu, não terei a Glória... nem fui bom.




BANDEIRA, Manuel. "A Antônio Nobre". In: _____. "A cinza das horas". In:_____. Estrela da vida inteira -- poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.


28.4.21

Manuel Bandeira: "Mal sem mudança"

 



Mal sem mudança



Da América infeliz porção mais doente,

Brasil, ao te deixar, entre a alvadia

Crepuscular espuma, eu não sabia

Dizer se ia contente ou descontente.


Já não me entendo mais. Meu subconsciente

Me serve angústia em vez de fantasia,

Medos em vez de imagens. E em sombria

Pena se faz passado o meu presente.


Ah, se me desse Deus a força antiga,

Quando eu sorria ao mal sem esperança

E mudava os soluços em cantiga!


Bem não é que a alma pede e não alcança.

Mal sem motivo é o que ora me castiga,

E ainda que dor menor, mal sem mudança.





BANDEIRA, Manuel. "Mal sem mudança". In:_____. "Estrela da tarde". In:_____. Estrela da vida inteira. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.

30.8.20

Manuel Bandeira: "O cacto"




O cacto


Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bonde, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas privou a
                                                      [cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.






BANDEIRA, Manuel. "O cacto". In:______. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

21.4.20

Manuel Bandeira: "Cantiga"




Cantiga


Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.

Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.

Quero ser feliz
Na ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.





BANDEIRA, Manuel. "Cantiga". In:_____. "Estrela da manhã". In: Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

4.10.19

Manuel Bandeira: "Andorinha




Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
– “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...





BANDEIRA, Manuel. "Andorinha". In:_____. "Libertinagem". In:_____. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1966.

19.7.19

Manuel Bandeira: "Céu"




Céu

A criança olha
Para o céu azul.
Levanta a mãozinha.
Quer tocar o céu.

Não sente a criança
Que o céu é ilusão:
Crê que o não alcança,
Quando o tem na mão.





BANDEIRA, Manuel. "Céu". In:_____. "Belo belo". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

7.6.18

Mário Quintana: "O poema. I"; "O poema. II"



O poema. I

Um poema como um gole d'água bebido no escuro.
Como um pobre animal palpitando ferido.
Como pequenina moeda de prata perdida para sempre na floresta
[noturna.
Um poema sem outra angústia que a sua misteriosa condição de
[poema.

Triste.
Solitário.
Único.
Ferido de mortal beleza.




O poema. 2

O poema é uma pedra no abismo,
O eco do poema desloca os perfis:
Para bem das águas e das almas
Assassinemos o poeta..




QUINTANA, Mário. "O poema. I"; "O poema. II". In: BANDEIRA, Manuel. "Antologia". In: Apresentação da poesia brasileira, seguida de uma antologia. São Paulo: Cosanaify, 2009.

13.5.18

Manuel Bandeira: "Porquinho da Índia"




Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…

— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.




BANDEIRA, Maznuel. "Porquinho-da-Índia". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

17.3.18

Manuel Bandeira: "O último poema"



O último poema

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.




BANDEIRA, Manuel. "O último poema". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosac Naify, 2006.

5.8.17

Manuel Bandeira: "Soneto inglês nº2"



Soneto inglês nº2

Aceitar o castigo imerecido,
Não por fraqueza, mas por altivez.
No tormento mais fundo o teu gemido
Trocar num grito de ódio a quem o fez.
As delícias da carne e pensamento
Com que o instinto da espécie nos engana,
Sobpor ao generoso sentimento
De uma afeição mais simplesmente humana.
Não tremer de esperança e nem de espanto.
Nada pedir nem desejar senão
A coragem de ser um novo santo
Sem fé num mundo além do mundo. E então
    Morrer sem uma lágrima, que a vida
    Não vale a pena e a dor de ser vivida.



BANDEIRA, Manuel. "Soneto inglês nº2". In:_____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

7.8.16

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Manuel Bandeira"





Manuel Bandeira

Este poeta está
Do outro lado do mar
Mas reconheço a sua voz há muitos anos
E digo ao silêncio os seus versos devagar


Relembrando
O antigo jovem tempo tempo quando
Pelos sombrios corredores da casa antiga
Nas solenes penumbras do silêncio
Eu recitava
"As três mulheres do sabonete Araxá"
E minha avó se espantava


Manuel Bandeira era o maior espanto da minha avó
Quando em manhãs intactas e perdidas
No quarto já então pleno de futura
Saudade
Eu lia
A canção do "Trem de ferro"
E o "Poema do beco"


Tempo antigo lembrança demorada
Quando deixei uma tesoura esquecida nos ramos da cerejeira
Quando
Me sentava nos bancos pintados de fresco
E no Junho inquieto e transparente
As três mulheres do sabonete Araxá
Me acompanhavam
Tão visíveis
Que um eléctrico amarelo as decepava


Estes poemas caminharam comigo e com a brisa
Nos passeados campos da minha juventude
Estes poemas poisaram a sua mão sobre o meu ombro
E foram parte do tempo respirado.




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Manuel Bandeira". In:_____. "Brasil ou do outro lado do mar". In:_____. Obra poética. Org. por Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Caminho, 2011.

13.2.16

Manuel Bandeira: "Satélite"




Satélite

Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A lua baça
Paira
Muito cosmograficamente
Satélite.

Desmetaforizada,
Desmitificada,
Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e enamorados,
Mas tão somente
Satélite.

Ah! Lua deste fim de tarde,
Desmissionária de atribuições românticas;
Sem show para as disponibilidades sentimentais!

Fatigado de mais-valia,
gosto de ti, assim:
Coisa em si,
– Satélite.



BANDEIRA, Manuel. "Satélite". In:_____. "Estrela da Tarde". In:_____. Poesia completa e prosa em um volume. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

8.9.15

Manuel Bandeira: "Momento num café"




Momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.




BANDEIRA, Manuel. "Momento num cafe". In:_____. 50 poemas escolhidos pelo autor. São Paulo: Cosacnaify, 2006.

8.4.15

Jorge Carrera Andrade: "Morada terrestre": trad. Manuel Bandeira




Morada terrestre

Habito um castelo de cartas,
Uma casa de areia, um edifício no ar,
E passo os minutos esperando
O desmoronamento do muro, a chegada do raio,
O correio celeste com a última notícia,
A sentença que voa numa vespa,
A ordem como um látego de sangue
Dispersando ao vento uma cinza de anjos.
Então perderei minha morada terrestre
E me encontrarei nu novamente.
Os peixes, os astros,
Remontarão o curso de seus céus inversos.
Tudo que é cor, pássaro ou nome,
Volverá a ser apenas um punhado de noite,
E sobre os despojos de cifras e plumas
E o corpo do amor, feito de fruta e música,
Baixará por fim, como o sonho ou a sombra,
O pó sem memória.


ANDRADE, Jorge Carrera. "Morada terrestre". Trad. de Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. "Poemas traduzidos". In:_____. Estrela da vida inteira.Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.


Morada terrestre

Habito un edificio de naipes,
Una casa de arena, un castillo en el aire
Y paso los minutos esperando
El derrumbe del muro, la llegada del rayo,
El correo celeste con la final noticia,
La sentencia que vuela en una avispa,
La orden como un látigo de sangre
Dispersando en el viento una ceniza de ángeles.
Entonces perderé mi morada terrestre
Y me hallaré desnudo nuevamente.
Los peces, los luceros
Remontarán el curso de sus inversos cielos.
Todo lo que es color, pájaro o nombre
Volverá a ser apenas un puñado de noche,
Y sobre los despojos de cifras y de plumas
Y el cuerpo del amor, hecho de fruta y música,
Descenderá por fin, como el sueño o la sombra,
El polvo sin memoria.


ANDRADE, Jorge Carrera. "Morada terrestre". In:_____. Antologia de la poesia cosmica de Jorge Carrera Andrade. Org. de Fredo Arias de la Canal. México: Frente de Armación Hispanista, 2003. 

3.12.14

Manuel Bandeira: "O martelo"




O Martelo

As rodas rangem na curva
dos trilhos
Inexoravelmente.
Mas eu salvei do meu
naufrágio
Os elementos mais
cotidianos.
O meu quarto resume o
passado em todas as casas
que habitei.
Dentro da noite
No cerne duro da cidade
Me sinto protegido.
Do jardim do convento
Vem o pio da coruja.
Doce como um arrulho de
pomba.
Sei que amanhã quando
acordar
Ouvirei o martelo do
ferreiro
Bater corajoso o seu
cântico de certezas.



BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Aguilar, 1967.

26.10.14

Manuel Bandeira: "Antologia"




Antologia

A vida
Com cada coisa em seu lugar.
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou-me embora p’ra Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
— A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.



BANDEIRA, Manuel. "Estrela da tarde". In:____. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967.

22.8.14

Raimundo Correia: "Mal secreto"




Mal secreto

Se a cólera que espuma, a dor que mora
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;

Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!

Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!

Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!



CORREIA, Raimundo. In: BANDEIRA, Manuel (org.). Antologia dos poetas brasileiros da fase parnasiana. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938.

10.7.14

Friedrich Hölderlin: "Menschenbeifall" / "O aplauso dos homens": trad. Manuel Bandeira




Menschenbeifall

 Ist nicht heilig mein Herz, schöneren Lebens voll,
Seit ich liebe? Warum achtet ihr mich mehr,
Da ich stolzer und wilder,
Wortereicher und leerer war?

Ach! der Menge gefällt, was auf den Marktplatz taugt,
Und es ehret der Knecht nur den Gewaltsamen;
An das Göttliche glauben
Die allein, die es selber sind.



HÖLDERLIN, Friedrich. "Gedichte". In:_____. Sämtliche Werke und Briefe. München: Carl Hanser, 1970.



O aplauso dos homens

Não trago o coração mais puro e belo e vivo
Desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais
Quando era altivo e rude,
Palavroso e vazio?

Ah! só agrada à turba o tumulto das feiras;
Dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.
Só creem no divino
Os que o trazem em si.



HÖLDERLIN, Friedrich. "O aplauso dos homens". Trad. Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.M