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15.8.19

Carlos Pena Filho: "Chope"




Chope


Na avenida Guararapes,
o Recife vai marchando.
O bairro de Santo Antonio,
tanto se foi transformando
que, agora às cinco da tarde,
mais se assemelha a um festim.
Nas mesas do Bar Savoy,
o refrão tem sido assim:
São trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.
Ah, mas se a gente pudesse
fazer o que tem vontade:
espiar o banho de uma,
a outra, amar pela metade
e daquela que é mais linda
quebrar a rija vaidade.
Mas como a gente não pode
fazer o que tem vontade,
o jeito é mudar a vida
num diabólico festim.
Por isso no Bar Savoy,
o refrão é sempre assim:
São trinta copos de chope,
são trinta homens sentados,
trezentos desejos presos,
trinta mil sonhos frustrados.




PENA FILHO,  Carlos. "Chope". In:_____. Livro geral. Olinda: Secretaria de Patrimônio e Cultura da Prefeitura de Olinda, s.d.

29.3.17

Carlos Pena Filho: "Primeiro poema no vazio"




Primeiro poema no vazio

Buscava tudo o que havia
de nunca mais encontrar
em sua face macia
em seu leve caminhar,
nas rotas claras do dia
nos verdes  sulcos do mar,
e de tudo quanto havia
de nunca mais encontrar
restou a forma vazia
suspensa no seu olhar
e a tênue melancolia
de quem não se soube achar
nas rotas claras do dia,
nos verdes sulcos do mar.



PENA FILHO, Carlos. "A vertigem lúcida". In:_____. Livro Geral. Olinda: Prefeitura de Olinda, 1959.

24.11.16

Carlos Pena Filho: "Olinda"




Olinda

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
A linha do horizonte.

As paisagens muito claras
Não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
Ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
Não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tão verdágua e não se sabe
A não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
Mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
No olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
Que possa haver nas vivendas
Das aves, nas áreas altas,
Muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
Não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
Nem há mar, nem céu, nem velas.

Quando a luz é muito intensa
É quando mais frágil é;
Planície, que de tão plana
Parecesse em pé.



PENA Filho, Carlos. "Olinda". In:_____. Livro Geral. Recife: UFPE, 1969.

29.3.16

Carlos Pena Filho: "Napoleão em Santa Helena"




Napoleão em Santa Helena
                                   a Syleno Ribeiro

Agora vejo, só, como convém
àquele que viveu sem intervalos,
o sol no largo e verde campo e, além,
o mar em torno onde não vão cavalos.

À note, cresce o sonho devastado,
ruína que à luz diária e vã se perde,
vendaval permanente e limitado
por esse mar enorme, inglês e verde.

Mas o sol de Austerlitz em meu ombro,
fúria de glória e pó que me atravessa,
lembra que o fim é nada, o puro assombro
só é devido a tudo que começa.



PENA Filho, Carlos. "Napoleão em Santa Helena". In:_____. Livro Geral. Olinda: Secretaria de Patrimônio e Cultura, s.d.

27.8.14

Carlos Pena Filho: "Elegia para a adolescência"




Elegia para a adolescência

E enfim descansaremos sob a verde
resistência dos campos escondidos.
Nem pensaremos mais no que há de ser de
nós que então seremos definidos.

No mar que nos chamou, no mar ausente,
simples e prolongado que supomos,
seremos atirados de repente,
puros e inúteis como sempre fomos.

Veremos que as vogais e as consoantes
não são mais que ornamentos coloridos,
fruto de nossas bocas inconstantes.

E em silêncio seremos transformados,
quando formos, serenos e perdidos,
além das coisas vãs precipitados.



PENA FILHO, Carlos. Livro geral. Edição de luxo. Organização e seleção de textos de Tania Carneiro Leão. Olinda: Prefeitura de Olinda, s.d.

28.10.13

Carlos Pena Filho: "As dádivas do amante"






As dádivas do amante


Deu-lhe a mais limpa manhã
que o tempo ousara inventar.
Deu-lhe até a palavra lã,
e mais não podia dar.

Deu-lhe o azul que o céu possuía
deu-lhe o verde da ramagem,
deu-lhe o sol do meio dia
e uma colina selvagem.

Deu-lhe a lembrança passada
e a que ainda estava por vir,
deu-lhe a bruma dissipada
que conseguira reunir.

Deu-lhe o exato momento
em que uma rosa floriu
nascida do próprio vento;
ela ainda mais exigiu.

Deu-lhe uns restos de luar
e um amanhecer violento
que ardia dentro do mar.

Deu-lhe o frio esquecimento
e mais não podia dar.




PENA FILHO, Carlos. Livro geral -- poemas. Org. e seleção de textos por Tânia Carneiro Leão. Recife: Liceu, 2004.

30.10.12

Carlos Pena Filho: "Pedro Álvares Cabral"





Pedro Álvares Cabral


O enorme céu que cobre mar e mágoas
e abriga os astros,
sustém meu claro sonho sobre as águas,
velas e mastros.

Um dia hei de encontrar terra ignota:
é assim quem sonha.
E se nenhuma houver em minha rota,
Que Deus a ponha.

Em meio ao longo mar não faço caso
dos dias meus,
Pois tenho a guiar-me o vento ou o puro acaso
e o acaso é Deus.



PENA FILHO, Carlos. Livro geral: poemas. Org. por Tânia Carneiro Leão. Recife: ed. da organizadora, 1999.

15.8.10

Carlos Pena Filho: "Para fazer um soneto"

Para Fazer um Soneto


Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo, Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse;
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.



PENA FILHO, Carlos. Melhores poemas. Recife: Global Editora, 2000.

7.8.09

Carlos Pena Filho: "A solidão e sua porta"





A solidão e sua porta


Quando mais nada resistir que valha
a pena de viver e a dor de amar
e quando nada mais interessar,
(nem o torpor do sono que se espalha).

Quando pelo desuso da navalha
a barba livremente caminhar
e até Deus em silêncio se afastar
deixando-te sozinho na batalha

a arquitetar na sombra a despedida
do mundo que te foi contraditório,
lembra-te que afinal te resta a vida

com tudo que é insolvente e provisório
e de que ainda tens uma saída:
entrar no acaso e amar o transitório.



PENA FILHO, Carlos. Livro geral. Olinda: Gráfica Vitória, 1977.

22.6.08

Carlos Pena Filho: "Soneto do desmantelo azul"

.

Soneto do Desmantelo Azul

Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos
e colori as minhas mãos e as tuas.

Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.

E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.

E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul. Azul.


De: PENA FILHO, Carlos. "A vertigem lúcida". In: Livro geral. Olinda: Gráfica Vitória, 1977.