O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo", no sábado, 15 de maio:
A HISTÓRIA da filosofia clássica -e, em particular, da metafísica- ocidental pode ser entendida como o desenvolvimento gradual de uma crítica radical, feita pela razão, à autoridade tanto da tradição quanto do carisma. Descartes, por exemplo, como dizia Alexandre Koyré, preparou "a mais formidável arma de guerra contra a autoridade e a tradição". Kant afirmava que absolutamente tudo devia ser submetido à crítica, sob pena de perder a credibilidade.
Ora, quem acredita nas narrativas de intelectuais "pós-modernistas", como Foucault, Derrida, Deleuze ou Agamben, supõe que os filósofos clássicos e, sobretudo, Descartes produziram um pensamento conservador e repressivo.
Penso que, em grande parte, isso se deve à influência de Heidegger. É verdade que Deleuze não se refere tanto a ele quanto os outros acima citados, mas, ao tentar liquidar o conceito de sujeito, ele prossegue o gesto de Heidegger, como observa Agamben, para quem "a história das relações entre Heidegger e Deleuze -também via Blanchot, trâmite de muito heideggerianismo inconsciente na filosofia francesa contemporânea- ainda tem que ser feita".
Foi através de intelectuais franceses que Heidegger readquiriu, e até superou, seu prévio prestígio intelectual. Paradoxalmente -mas também compreensivelmente-, em parte isso talvez tenha a ver justamente com o feroz anticartesianismo do seu pensamento.
Suponho que não sejam poucos os estudantes franceses que se sintam oprimidos e enojados pelo consenso nacional e secular em torno de Descartes e pela obrigação de conhecer de trás para a frente as "Regras", o "Discurso", as "Meditações", os "Princípios". Heidegger os vinga, pois acusa Descartes de ter inaugurado a metafísica moderna da subjetividade.
Segundo Heidegger, a partir do cogito, de Descartes, o "eu" humano torna-se o único sujeito, para o qual todas as demais coisas são reduzidas a objetos. Concebido como autoconsciência, o sujeito é interiorizado e fechado, ou oposto ao mundo, exceto na medida em que este lhe possa ser instrumental.
Para Heidegger, essa instrumentalização do mundo, em que todas as coisas e, em última análise, os próprios seres humanos viram meros dispositivos, manifesta-se tanto no mundo terrorista do socialismo real e do nazismo quanto no que considera a desolação espiritual dos EUA.
Mas me parece que o namoro desses intelectuais franceses de esquerda com Heidegger tem, mais ainda, a ver com o fato de que, dadas as revelações sobre os regimes terroristas de Stálin, Mao Tsé-tung, Pol Pot etc., e dado o colapso da União Soviética, tenha-lhes parecido preferível abandonar de cabeça erguida o marxismo, trocando-o por um modo de pensar pretensamente ainda mais radical do que ele.
Com certeza, a filosofia de Heidegger lhes pareceu pelo menos tão capaz quanto a de Marx, tanto de diagnosticar (mas com maior "profundidade") a realidade (tida por eles como insuportável) do mundo capitalista e liberal em que vivemos, quanto de desprezá-la.
Além disso, é possível, com Heidegger, desdenhar (mas, igualmente, com argumentos mais "profundos") não só o que, desde o marxismo, esses intelectuais, em maior ou menor medida, já haviam considerado como o embuste da democracia, dos direitos humanos etc., mas também o humanismo, o conceito de homem, de sujeito, a razão.
De fato, Heidegger, por meio de um de seus famosos passes etimológicos, chega a tentar relativizar o conceito de razão ("ratio"), tal como empregado pela tradição filosófica, considerando-o como mais superficial do que o seu sinônimo alemão, ("Vernunft"), com o argumento infame de que este, derivado do verbo "vernehmen", "escutar", seria mais "auscultante" do que aquele...
A desqualificação da tradição filosófica não poderia mesmo deixar de se acompanhar de uma desqualificação da razão, uma vez que essa tradição consistiu exatamente no desdobramento da razão ao ponto máximo de sua ambição. Em Deleuze, Foucault e Derrida, o irracionalismo de esquerda é ainda envergonhado e não ousa dizer o seu nome.
Mas hoje, com Alain Badiou, por exemplo, ele é descarado. Vitalista, voluntarista e fideísta, como convém a um irracionalista, Badiou, emulando o apóstolo Paulo, prefere os acontecimentos milagrosos à racionalidade, a verdade dogmática à argumentação, a fé à razão.
E, segundo seu camarada Slavoj Zizek, "a força incomparável do pensamento de Badiou supera de longe tudo o que se publicou na França nos últimos anos". Pobre França!
Mostrando postagens com marcador Irracionalismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Irracionalismo. Mostrar todas as postagens
16.5.10
1.10.08
Entrevista à revista "Filosofia (da série "Ciência & Vida")
Em maio deste ano dei a seguinte entrevista a Mônica Serrano, da revista "Filosofia", da série "Ciência & Vida":
Feito de opostos
De que bases de linguagem / pensamento parte a relação filosofia/ poesia?
A filosofia e a poesia são dois empreendimentos extremos – e opostos – do espírito humano.
O discurso filosófico, na medida em que é filosófico, é proposicional. Isso quer dizer que ele afirma determinadas coisas e, ao fazê-lo, nega o oposto dessas coisas. Assim, os empiristas, por exemplo, afirmam que todo conhecimento provém da experiência. Já os racionalistas afirmam que nem todo conhecimento provém da experiência, pois, segundo eles, há coisas que podemos conhecer a priori. Ora, a afirmação dos empiristas contradiz – logo, nega – a dos racionalistas e vice-versa. Quando nos interessamos pelo conteúdo filosófico de determinado discurso, queremos saber o que é que ele afirma e o que é que ele nega, e queremos saber se o que ele afirma é, de fato, verdadeiro, e se o que ele nega é, de fato, falso.
Já o discurso poético, na medida em que é poético, não é proposicional, isto é, não afirma nem nega coisa alguma. Assim, o poema mais famoso de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, diz: “Tinha uma pedra no meio do caminho”. À primeira vista, trata-se de uma proposição que afirma determinada coisa: que afirma, isto é, que tinha uma pedra no meio do caminho. Na verdade, trata-se de uma pseudoproposição. Por que? Em primeiro lugar, porque não se pode saber exatamente o que é que essa pretensa proposição afirma e, consequentemente, não se pode saber se o que ela pretensamente afirma é verdadeiro ou falso. Tinha uma pedra no meio de que caminho? Quando? Em segundo lugar porque, de todo modo, ainda que fosse verdadeira ou falsa, sua verdade ou falsidade não teria a menor importância para a apreciação do poema. Que pensaríamos de alguém nos dissesse, por exemplo, que esse poema de Drummond é ruim porque, na verdade, não tinha pedra nenhuma no caminho? Acharíamos que tal pessoa fosse burra ou louca; ou, pelo menos, acharíamos que ela não soubesse o que é um poema. Em terceiro lugar, digamos que alguém escreva um poema dizendo o oposto do que esse diz, isto é: “Não tinha pedra alguma no meio do caminho”. Ainda que se trate de um bom poema, não acharemos que ele desminta o poema do Drummond. É que podemos apreciar igualmente um poema que, aparentemente, afirme X (seja lá o que for X) e um poema que, aparentemente, afirme não-X. E isso significa que, na verdade, nem um nem o outro afirma coisa alguma: nem um nem outro é proposicional.
Qual a importância dessa relação nas suas composições para Marina?
O que acabo de dizer significa, para mim, que o estado de espírito em que entro para pensar filosoficamente é inteiramente diferente do estado de espírito em que entro para escrever poesia. E considero letra de música algo da ordem da poesia. Quando escrevo poesia ou letra de música, uso tudo o que sei, todas as minhas potências: minha intuição, minha razão, meu intelecto, minha emoção, minha experiência, minha sensibilidade, meu senso de humor, minha cultura etc. Naturalmente, uso também o que sei de filosofia. Mas, nesse ponto, a filosofia não é mais importante do que as outras coisas que uso. Ela é apenas uma das coisas que fazem parte da minha vida.
Você continua com a atividade de letrista de música?
Sim. No último disco da Marina há algumas letras minhas. Uma delas, aliás, chamada “Três”, foi regravada tanto pela Adriana Calcanhotto quanto pela Ana Carolina.
Como você se descobriu letrista e qual a importância disso em sua vida?
Tornei-me letrista por acaso, graças à minha irmã, Marina. Ela é dez anos mais jovem do que eu e desde cedo começou a estudar violão. A certa altura, começou a compor músicas e, um belo dia, subtraiu um poema meu de uma gaveta e o musicou. Primeiro fiquei zangando com o fato de ela ter mexido nas minhas anotações, mas acabei gostando do resultado disso, isto é, da canção. A partir daí, mudamos o processo de composição. Como morávamos ambos na casa de nossos pais, passamos a compor em conjunto. Quando ela começava a bolar uma melodia, eu começava a escrever palavras que coubessem nessa melodia. A partir das primeiras frases, a música ia tomando forma, ela fazia mais um pedaço de música, eu fazia mais uns versos etc., até que a canção ficasse pronta. A música inspirava a letra, e a letra inspirava a música. Depois, quando cada qual foi morar na sua casa, passei a receber as melodias numa fita ou, de uns anos para cá, num cd, e a escrever os versos para preencher essas melodias, embora haja sempre momentos em que nos encontramos para conversar sobre o que está sendo feito.
Para mim, foi muito grande a importância de fazer letras de música, principalmente por duas razões. A primeira é que, embora eu escreva poemas desde adolescente, demorei a publicá-los. Primeiro, isso se deveu à timidez. Segundo, aconteceu de eu morar na Inglaterra, onde estudei filosofia, na mesma época em que estavam lá exilados Gilberto Gil e Caetano Veloso, com os quais fiz amizade. Nessa época, nem me ocorria escrever letra de música. Mas acontece que, na casa de Caetano e Gil, conheci também o poeta Haroldo de Campos e li as obras poéticas e teóricas dele, de seu irmão Augusto, e de Décio Pignattari. Tudo isso teve uma importância enorme na evolução da minha relação com a poesia. O que ocorre é que fiquei entusiasmado com o brilhantismo das teses concretistas. Excitou-me também o fato de que teses tão brilhantes e originais estivessem sendo elaboradas por brasileiros, pois o nosso país, em matéria de pensamento teórico, é notoriamente tímido. No entanto, a verdade é que, no que diz respeito à poesia, o que eu gostava realmente de ler e de escrever não eram (fora algumas exceções) poemas concretos, mas poemas discursivos, escritos em versos. Ademais, enquanto os concretistas valorizavam sobretudo a visualidade do poema, o importante para mim era a sua musicalidade. Produziu-se então o que chamo de conflito entre o meu intelecto e a minha sensibilidade. Fiquei inseguro em relação aos meus poemas. O efeito mais notável disso foi que, mesmo depois que voltei ao Brasil, demorei muito tempo para publicar o meu primeiro livro de poemas. O que me libertou dessa inibição foi justamente o fato de fazer letras de música que foram cantadas, gravadas, publicadas. Além disso, as restrições concretistas aos poemas em formas tradicionais não se aplicavam às canções: ao contrário, o próprio Augusto escrevera o seu admirável “Balanço da bossa” valorizando a música popular e os seus letristas. Só anos depois, quando eu já tinha elaborado um pensamento estético independente do concretismo (e que se encontra em parte exposto no meu livro “Finalidades sem fim”), comecei a publicar livros de poemas. Penso portanto sobre a relação entre música e poesia a partir dessas experiências e de minhas reflexões teóricas.
A segunda razão pela qual a atividade de letrista foi importante para mim é que ela me proporcionou a possibilidade de viver do meu trabalho artístico, coisa que teria sido impensável se eu escrevesse apenas poemas para serem lidos.
Dê-nos um exemplo de poesia clássica ou de letras tuas em que a relação poesia / espanto filosófico fica explícita.
Como eu disse, acho filosofia e poesia dois empreendimentos igualmente extremos – mas opostos – do espírito humano. Eu mesmo ora sou aprendiz de poeta, ora aprendiz de filósofo, nunca os dois ao mesmo tempo. A coisa se dá assim: o poeta vai embora quando o filósofo aparece; e quando o filósofo está presente, o poeta não aparece. Concordo, portanto, com Goethe, Guimarães Rosa e João Cabral, entre outros que dizem que a filosofia atrapalha a poesia. Nietzsche, que quis ser poeta e filósofo ao mesmo tempo, enlouqueceu, e não se sabe o que veio antes: a tentativa de ser as duas coisas ao mesmo tempo ou a loucura. Toda filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento é filosofia. Nietzsche é um grande pensador e está na moda, mas a verdade é que, ao contrário do que Deleuze afirmou, o pensamento dele não é nem sistemático, nem consistente, para que ele possa ser considerado um grande filósofo. Embora tenha grandes intuições, Nietzsche freqüentemente se contradiz, pois é um híbrido de poeta e filósofo.
Há como fazer uso da filosofia para criticar poesia ou qualquer tipo de arte? Vemos que em Finalidades sem fim você toca de alguma maneira neste assunto.
Sim , porque a estética faz parte da filosofia, e é possível desenvolver uma teoria da arte a partir de categorias estéticas. É Algumas obras filosóficas, como, por exemplo, a “Crítica do juízo”, de Kant, proporcionam instrumentos conceituais para se pensar a especificidade da obra de arte. O título do meu livro mesmo, “Finalidades sem fim”, vem do conceito de finalidade sem fim, que designa, para Kant, o fato de que o objeto belo tem a forma da finalidade – achamos que ele é o que devia ser – e, no entanto, não tem fim determinado, pois não nos é possível determinar o que é que ele devia ser. Outros conceitos estéticos de Kant são, por exemplo, o de desinteresse, o de universalidade sem conceito etc.
E como analisar movimentos artísticos a partir da filosofia?
Em “Finalidades sem fim” emprego categorias filosóficas para falar da arte de vanguarda, da poesia de Waly Salomão, do Tropicalismo, de Drummond, de Homero etc.
A questão da vanguarda, por exemplo, tem a ver com a questão da autonomia da arte, e esta, por sua vez, depende da autonomia do estético, que foi objeto da “Crítica do Juízo”, de Kant. A vanguarda histórica combateu a arte enquanto instituição, isto é, combateu a autonomia da arte, concebendo-a como um modo de esterilizar ou domesticar a arte. Isso, na verdade, deveu-se a uma compreensão demasiadamente estreita do estético. Nesse ponto, a meu ver, ela estava errada. Ora, essa discussão, que não cabe detalhar aqui, já é filosófica. O equívoco da vanguarda histórica, entretanto, não teve conseqüências puramente negativas. Ao contrário: como mostro em “Finalidades sem fim”, no próprio processo de combater a instituição da arte, ao romper as categorias, os gêneros e as formas artísticas tradicionais, a vanguarda histórica ajudou, na prática, a revelar o caráter convencional de tais categorias, gêneros e formas. Isso foi um feito extraordinário, que transformou definitivamente a concepção moderna de arte.
Por falar em vanguarda, como vc vê a vanguarda nas artes plásticas? A impressão que se tem é que a transgressão que marcou a arte contemporânea ficou presa no tempo enquanto que outros tipos de arte como a música abriram espaço para diferentes vertestes, permitindo diferentes expressões. Já as artes plásticas continuam na transgressão e não aceitam nada que fique fora desse contexto. Isso não é contraditório?
Penso que não há mais vanguarda em arte nenhuma. “Vanguarda”, de “avant-garde”, quer dizer o destacamento que vai à frente, abrindo caminho para o grosso do exército. De vanguarda foram portanto os artistas que abriram caminhos previamente fechados. Por exemplo, os primeiros músicos a fazer música atonal, os primeiros pintores a fazer pintura abstrata ou concreta etc. Abrir um caminho significa relativizar todos os caminhos que já estavam abertos. Essa relativização afeta todos os demais artistas, isto é, afeta o “grosso do exército”. Hoje, porém, não há mais caminhos interditados: logo, não há mais vanguarda. Ao mesmo tempo, os caminhos que já haviam sido abertos por gerações passadas continuam abertos. Houve uma época em que a vanguarda, ao mesmo tempo em que abria novos caminhos, queria fechar os antigos. Isso não vingou.
Assim, mesmo nas artes plásticas, não tenho a impressão de que a ideologia vanguardista da transgressão seja tão dominante quanto você sugere. Aqui mesmo no Brasil não se pode negar a importância de pintores como Daniel Senise, Beatriz Milhazes, Luciano Figueiredo, Ronaldo Rego Macedo, Artur Barrio etc.
Em seu livro Finalidades sem fim você afirma que a vanguarda cumpriu o seu papel e abriu novas possibilidades artísticas. Atualmente, o que há de novo na música/poesia/artes plásticas?
Em música, há o belíssimo disco da Adriana Calcanhotto, “Maré”; em poesia, o livro de Eucanaã Ferraz, “Cinemateca”; e em artes plásticas, a exposição de Luciano Figueiredo, “Tercetos”. Não são obras de vanguarda porque, como eu já disse, não há mais vanguarda. São simplesmente obras belíssimas, que acabam de sair, de três artistas que se encontram no que parece ser o acme, como diziam os gregos, no que parece ser o auge da sua maturidade artística.
Qual sua opinião sobre a filosofia ser matéria no ensino médio? Poderia opinar sobre a contribuição da cultura filosófica na educação?
Sou totalmente favorável. Por ser um pensamento crítico e radical, ilimitado, e questionar todos os pressupostos, a filosofia é capaz de funcionar como instrumento para aqueles que desejem pensar autonomamente.
Você acha que a filosofia na educação seria um caminho para despertar interesse na poesia?
Não. Por que o faria, se, como eu disse antes, filosofar é inteiramente diferente de fazer poesia? Como o faria, se a filosofia é pensamento abstrato e a poesia, concreto, de modo que, quando alguém filosofa, não faz poesia e, quando faz poesia, não filosofa? Penso que a filosofia na educação seria um caminho para despertar interesse na própria filosofia. A apreciação de poesia deve ser ensinada em outros cursos, de cursos de poesia mesmo ou de literatura, jamais no curso de filosofia.
Platão já considerava antiga a rixa entre a poesia e a filosofia. Foram Heidegger e a filosofia pós-estruturalista – que, na verdade, devia se chamar “filosofia neo-heideggeriana”, pois foi e é fortemente influenciada por Heidegger – que tentaram reconciliá-las. Mas é uma iniciativa destinada ao fracasso, pois, na medida em que é “filosófica”, a poesia perde sua densidade específica e, na medida em que é “poética”, a filosofia perde a sua incisividade.
De que vertentes filosóficas beberia para explicar/legitimar a homossexualidade? Recorreria a Foucault e Deleuze?
Não acho que seja necessário explicar ou legitimar a homossexualidade. Embora já tenha sido ilegal e perseguida -- e continue a sê-lo, em alguns países retrógrados -- a homossexualidade nunca deixou de ser uma expressão legítima de liberdade individual. E o que deve ser explicado não é a homossexualidade, mas a repressão a ela. Mas isso tem que ser feito tanto por uma crítica filosófica e sociológica da religião quanto através de conceitos psicanalíticos como os de Freud, Marcuse ou M.D. Magno, e não pelos pensamentos, no fundo obscurantistas, de Deleuze ou Foucault.
Você poderia explicar melhor o obscurantismo de Foucault nesse contexto?
Emprego a expressão “obscurantista” no sentido etimológico “de adversário das luzes da razão, inimigo do iluminismo”. Ora a História da loucura na época clássica, de Foucault, no fundo pretende ser, pelo avesso, uma história crítica da razão: e mais, uma história da razão ou da racionalidade ocidental, como se houvesse muitas razões particulares: como se a razão não fosse universal. Trata-se, portanto, de uma tentativa de relativizar a razão. Acontece que, como toda crítica provém da razão, qualquer tentativa de relativizar a razão só pode ser feita pela própria razão, que, ao reconhecer esse fato, automaticamente anula a relativização a que se submeteu. É o que, corretamente, faz a “Crítica da razão pura”, de Kant. Por não fazer o mesmo, escamoteando os paradoxos e as antinomias em que forçosamente recai, a crítica de Foucault resulta num empreendimento obscurantista, que reduz a razão a uma “luz despótica”. É verdade que a História da loucura é uma das primeiras obras de Foucault e que, mais tarde, ele começou a rever a sua posição em relação ao Iluminismo. Infelizmente, porém, ele morreu antes de poder realizar plenamente o que parecia estar a esboçar. E o fato é que, ainda em 1978, ele se extasiava com a “política com dimensão espiritual” da revolução islamista do aiatolá Khomeini, que, como se sabe, conduziu o Irã a um dos regimes mais obscurantistas do mundo. E note-se que, nos textos dessa época, Foucault usava a palavra “espiritual” no sentido vulgar de “religioso”.
Quanto a Deleuze, limito-me a lembrar que ele chegou a dizer que “a razão é sempre uma região recortada no irracional.[...] No fundo de toda razão [estão] o delírio, a deriva”.
O que é mais forte em vc a filosofia ou a poesia?
A poesia. Sublinho que considero a poesia mais importante para mim, e não de modo absoluto e universal. Outros podem achar a filosofia mais importante. Mas para mim a poesia é mais importante, em primeiro lugar porque, enquanto a filosofia resulta principalmente da atividade do meu intelecto, a poesia resulta, como eu disse acima, do uso, no mais alto grau, de todas as minhas faculdades: intelecto, intuição, emoção, experiência, sensibilidade, senso de humor, cultura etc. Ela é feita, portanto, do melhor de mim. Em segundo lugar porque, para pensar filosoficamente, eu me separo do objeto do meu pensamento e o considero abstratamente; já um poema é concreto, no sentido de ser ao mesmo tempo pensamento e linguagem, sujeito e objeto, eu e não-eu, sentido e som, conceito e imagem, etc. Identifico-me, portanto, infinitamente mais com um poema que eu faça do que com um ensaio de filosofia que eu escreva. Mas a verdade é que não me identifico apenas com os poemas que eu escreva, mas com todos os poemas de que gosto. Digo mais: sinto como se eu mesmo tivesse escrito todos os poemas de que gosto. Ora, eu jamais diria isso das obras de filosofia que admiro. No poema “Dita” acho que consegui exprimir a sensação que tenho ao ler um bom poema:
DITA
Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo, pondo à orelha a flor
da pele da palavras, justo quando
assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.
Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita
a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.
Quais são seus projetos atuais?
Publicar o meu novo livro de poemas e escrever um livro sobre poesia. Sobre o livro de poemas não sei falar. O livro sobre poesia, porém, será uma obra sistemática. Direi tudo o que sei – ou penso que sei – sobre o assunto: sobre as formas poéticas, sobre a leitura de poemas, sobre a vanguarda, sobre letras de música, sobre métrica, sobre recursos paronomásticos etc.
De:
Feito de opostos
De que bases de linguagem / pensamento parte a relação filosofia/ poesia?
A filosofia e a poesia são dois empreendimentos extremos – e opostos – do espírito humano.
O discurso filosófico, na medida em que é filosófico, é proposicional. Isso quer dizer que ele afirma determinadas coisas e, ao fazê-lo, nega o oposto dessas coisas. Assim, os empiristas, por exemplo, afirmam que todo conhecimento provém da experiência. Já os racionalistas afirmam que nem todo conhecimento provém da experiência, pois, segundo eles, há coisas que podemos conhecer a priori. Ora, a afirmação dos empiristas contradiz – logo, nega – a dos racionalistas e vice-versa. Quando nos interessamos pelo conteúdo filosófico de determinado discurso, queremos saber o que é que ele afirma e o que é que ele nega, e queremos saber se o que ele afirma é, de fato, verdadeiro, e se o que ele nega é, de fato, falso.
Já o discurso poético, na medida em que é poético, não é proposicional, isto é, não afirma nem nega coisa alguma. Assim, o poema mais famoso de Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, diz: “Tinha uma pedra no meio do caminho”. À primeira vista, trata-se de uma proposição que afirma determinada coisa: que afirma, isto é, que tinha uma pedra no meio do caminho. Na verdade, trata-se de uma pseudoproposição. Por que? Em primeiro lugar, porque não se pode saber exatamente o que é que essa pretensa proposição afirma e, consequentemente, não se pode saber se o que ela pretensamente afirma é verdadeiro ou falso. Tinha uma pedra no meio de que caminho? Quando? Em segundo lugar porque, de todo modo, ainda que fosse verdadeira ou falsa, sua verdade ou falsidade não teria a menor importância para a apreciação do poema. Que pensaríamos de alguém nos dissesse, por exemplo, que esse poema de Drummond é ruim porque, na verdade, não tinha pedra nenhuma no caminho? Acharíamos que tal pessoa fosse burra ou louca; ou, pelo menos, acharíamos que ela não soubesse o que é um poema. Em terceiro lugar, digamos que alguém escreva um poema dizendo o oposto do que esse diz, isto é: “Não tinha pedra alguma no meio do caminho”. Ainda que se trate de um bom poema, não acharemos que ele desminta o poema do Drummond. É que podemos apreciar igualmente um poema que, aparentemente, afirme X (seja lá o que for X) e um poema que, aparentemente, afirme não-X. E isso significa que, na verdade, nem um nem o outro afirma coisa alguma: nem um nem outro é proposicional.
Qual a importância dessa relação nas suas composições para Marina?
O que acabo de dizer significa, para mim, que o estado de espírito em que entro para pensar filosoficamente é inteiramente diferente do estado de espírito em que entro para escrever poesia. E considero letra de música algo da ordem da poesia. Quando escrevo poesia ou letra de música, uso tudo o que sei, todas as minhas potências: minha intuição, minha razão, meu intelecto, minha emoção, minha experiência, minha sensibilidade, meu senso de humor, minha cultura etc. Naturalmente, uso também o que sei de filosofia. Mas, nesse ponto, a filosofia não é mais importante do que as outras coisas que uso. Ela é apenas uma das coisas que fazem parte da minha vida.
Você continua com a atividade de letrista de música?
Sim. No último disco da Marina há algumas letras minhas. Uma delas, aliás, chamada “Três”, foi regravada tanto pela Adriana Calcanhotto quanto pela Ana Carolina.
Como você se descobriu letrista e qual a importância disso em sua vida?
Tornei-me letrista por acaso, graças à minha irmã, Marina. Ela é dez anos mais jovem do que eu e desde cedo começou a estudar violão. A certa altura, começou a compor músicas e, um belo dia, subtraiu um poema meu de uma gaveta e o musicou. Primeiro fiquei zangando com o fato de ela ter mexido nas minhas anotações, mas acabei gostando do resultado disso, isto é, da canção. A partir daí, mudamos o processo de composição. Como morávamos ambos na casa de nossos pais, passamos a compor em conjunto. Quando ela começava a bolar uma melodia, eu começava a escrever palavras que coubessem nessa melodia. A partir das primeiras frases, a música ia tomando forma, ela fazia mais um pedaço de música, eu fazia mais uns versos etc., até que a canção ficasse pronta. A música inspirava a letra, e a letra inspirava a música. Depois, quando cada qual foi morar na sua casa, passei a receber as melodias numa fita ou, de uns anos para cá, num cd, e a escrever os versos para preencher essas melodias, embora haja sempre momentos em que nos encontramos para conversar sobre o que está sendo feito.
Para mim, foi muito grande a importância de fazer letras de música, principalmente por duas razões. A primeira é que, embora eu escreva poemas desde adolescente, demorei a publicá-los. Primeiro, isso se deveu à timidez. Segundo, aconteceu de eu morar na Inglaterra, onde estudei filosofia, na mesma época em que estavam lá exilados Gilberto Gil e Caetano Veloso, com os quais fiz amizade. Nessa época, nem me ocorria escrever letra de música. Mas acontece que, na casa de Caetano e Gil, conheci também o poeta Haroldo de Campos e li as obras poéticas e teóricas dele, de seu irmão Augusto, e de Décio Pignattari. Tudo isso teve uma importância enorme na evolução da minha relação com a poesia. O que ocorre é que fiquei entusiasmado com o brilhantismo das teses concretistas. Excitou-me também o fato de que teses tão brilhantes e originais estivessem sendo elaboradas por brasileiros, pois o nosso país, em matéria de pensamento teórico, é notoriamente tímido. No entanto, a verdade é que, no que diz respeito à poesia, o que eu gostava realmente de ler e de escrever não eram (fora algumas exceções) poemas concretos, mas poemas discursivos, escritos em versos. Ademais, enquanto os concretistas valorizavam sobretudo a visualidade do poema, o importante para mim era a sua musicalidade. Produziu-se então o que chamo de conflito entre o meu intelecto e a minha sensibilidade. Fiquei inseguro em relação aos meus poemas. O efeito mais notável disso foi que, mesmo depois que voltei ao Brasil, demorei muito tempo para publicar o meu primeiro livro de poemas. O que me libertou dessa inibição foi justamente o fato de fazer letras de música que foram cantadas, gravadas, publicadas. Além disso, as restrições concretistas aos poemas em formas tradicionais não se aplicavam às canções: ao contrário, o próprio Augusto escrevera o seu admirável “Balanço da bossa” valorizando a música popular e os seus letristas. Só anos depois, quando eu já tinha elaborado um pensamento estético independente do concretismo (e que se encontra em parte exposto no meu livro “Finalidades sem fim”), comecei a publicar livros de poemas. Penso portanto sobre a relação entre música e poesia a partir dessas experiências e de minhas reflexões teóricas.
A segunda razão pela qual a atividade de letrista foi importante para mim é que ela me proporcionou a possibilidade de viver do meu trabalho artístico, coisa que teria sido impensável se eu escrevesse apenas poemas para serem lidos.
Dê-nos um exemplo de poesia clássica ou de letras tuas em que a relação poesia / espanto filosófico fica explícita.
Como eu disse, acho filosofia e poesia dois empreendimentos igualmente extremos – mas opostos – do espírito humano. Eu mesmo ora sou aprendiz de poeta, ora aprendiz de filósofo, nunca os dois ao mesmo tempo. A coisa se dá assim: o poeta vai embora quando o filósofo aparece; e quando o filósofo está presente, o poeta não aparece. Concordo, portanto, com Goethe, Guimarães Rosa e João Cabral, entre outros que dizem que a filosofia atrapalha a poesia. Nietzsche, que quis ser poeta e filósofo ao mesmo tempo, enlouqueceu, e não se sabe o que veio antes: a tentativa de ser as duas coisas ao mesmo tempo ou a loucura. Toda filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento é filosofia. Nietzsche é um grande pensador e está na moda, mas a verdade é que, ao contrário do que Deleuze afirmou, o pensamento dele não é nem sistemático, nem consistente, para que ele possa ser considerado um grande filósofo. Embora tenha grandes intuições, Nietzsche freqüentemente se contradiz, pois é um híbrido de poeta e filósofo.
Há como fazer uso da filosofia para criticar poesia ou qualquer tipo de arte? Vemos que em Finalidades sem fim você toca de alguma maneira neste assunto.
Sim , porque a estética faz parte da filosofia, e é possível desenvolver uma teoria da arte a partir de categorias estéticas. É Algumas obras filosóficas, como, por exemplo, a “Crítica do juízo”, de Kant, proporcionam instrumentos conceituais para se pensar a especificidade da obra de arte. O título do meu livro mesmo, “Finalidades sem fim”, vem do conceito de finalidade sem fim, que designa, para Kant, o fato de que o objeto belo tem a forma da finalidade – achamos que ele é o que devia ser – e, no entanto, não tem fim determinado, pois não nos é possível determinar o que é que ele devia ser. Outros conceitos estéticos de Kant são, por exemplo, o de desinteresse, o de universalidade sem conceito etc.
E como analisar movimentos artísticos a partir da filosofia?
Em “Finalidades sem fim” emprego categorias filosóficas para falar da arte de vanguarda, da poesia de Waly Salomão, do Tropicalismo, de Drummond, de Homero etc.
A questão da vanguarda, por exemplo, tem a ver com a questão da autonomia da arte, e esta, por sua vez, depende da autonomia do estético, que foi objeto da “Crítica do Juízo”, de Kant. A vanguarda histórica combateu a arte enquanto instituição, isto é, combateu a autonomia da arte, concebendo-a como um modo de esterilizar ou domesticar a arte. Isso, na verdade, deveu-se a uma compreensão demasiadamente estreita do estético. Nesse ponto, a meu ver, ela estava errada. Ora, essa discussão, que não cabe detalhar aqui, já é filosófica. O equívoco da vanguarda histórica, entretanto, não teve conseqüências puramente negativas. Ao contrário: como mostro em “Finalidades sem fim”, no próprio processo de combater a instituição da arte, ao romper as categorias, os gêneros e as formas artísticas tradicionais, a vanguarda histórica ajudou, na prática, a revelar o caráter convencional de tais categorias, gêneros e formas. Isso foi um feito extraordinário, que transformou definitivamente a concepção moderna de arte.
Por falar em vanguarda, como vc vê a vanguarda nas artes plásticas? A impressão que se tem é que a transgressão que marcou a arte contemporânea ficou presa no tempo enquanto que outros tipos de arte como a música abriram espaço para diferentes vertestes, permitindo diferentes expressões. Já as artes plásticas continuam na transgressão e não aceitam nada que fique fora desse contexto. Isso não é contraditório?
Penso que não há mais vanguarda em arte nenhuma. “Vanguarda”, de “avant-garde”, quer dizer o destacamento que vai à frente, abrindo caminho para o grosso do exército. De vanguarda foram portanto os artistas que abriram caminhos previamente fechados. Por exemplo, os primeiros músicos a fazer música atonal, os primeiros pintores a fazer pintura abstrata ou concreta etc. Abrir um caminho significa relativizar todos os caminhos que já estavam abertos. Essa relativização afeta todos os demais artistas, isto é, afeta o “grosso do exército”. Hoje, porém, não há mais caminhos interditados: logo, não há mais vanguarda. Ao mesmo tempo, os caminhos que já haviam sido abertos por gerações passadas continuam abertos. Houve uma época em que a vanguarda, ao mesmo tempo em que abria novos caminhos, queria fechar os antigos. Isso não vingou.
Assim, mesmo nas artes plásticas, não tenho a impressão de que a ideologia vanguardista da transgressão seja tão dominante quanto você sugere. Aqui mesmo no Brasil não se pode negar a importância de pintores como Daniel Senise, Beatriz Milhazes, Luciano Figueiredo, Ronaldo Rego Macedo, Artur Barrio etc.
Em seu livro Finalidades sem fim você afirma que a vanguarda cumpriu o seu papel e abriu novas possibilidades artísticas. Atualmente, o que há de novo na música/poesia/artes plásticas?
Em música, há o belíssimo disco da Adriana Calcanhotto, “Maré”; em poesia, o livro de Eucanaã Ferraz, “Cinemateca”; e em artes plásticas, a exposição de Luciano Figueiredo, “Tercetos”. Não são obras de vanguarda porque, como eu já disse, não há mais vanguarda. São simplesmente obras belíssimas, que acabam de sair, de três artistas que se encontram no que parece ser o acme, como diziam os gregos, no que parece ser o auge da sua maturidade artística.
Qual sua opinião sobre a filosofia ser matéria no ensino médio? Poderia opinar sobre a contribuição da cultura filosófica na educação?
Sou totalmente favorável. Por ser um pensamento crítico e radical, ilimitado, e questionar todos os pressupostos, a filosofia é capaz de funcionar como instrumento para aqueles que desejem pensar autonomamente.
Você acha que a filosofia na educação seria um caminho para despertar interesse na poesia?
Não. Por que o faria, se, como eu disse antes, filosofar é inteiramente diferente de fazer poesia? Como o faria, se a filosofia é pensamento abstrato e a poesia, concreto, de modo que, quando alguém filosofa, não faz poesia e, quando faz poesia, não filosofa? Penso que a filosofia na educação seria um caminho para despertar interesse na própria filosofia. A apreciação de poesia deve ser ensinada em outros cursos, de cursos de poesia mesmo ou de literatura, jamais no curso de filosofia.
Platão já considerava antiga a rixa entre a poesia e a filosofia. Foram Heidegger e a filosofia pós-estruturalista – que, na verdade, devia se chamar “filosofia neo-heideggeriana”, pois foi e é fortemente influenciada por Heidegger – que tentaram reconciliá-las. Mas é uma iniciativa destinada ao fracasso, pois, na medida em que é “filosófica”, a poesia perde sua densidade específica e, na medida em que é “poética”, a filosofia perde a sua incisividade.
De que vertentes filosóficas beberia para explicar/legitimar a homossexualidade? Recorreria a Foucault e Deleuze?
Não acho que seja necessário explicar ou legitimar a homossexualidade. Embora já tenha sido ilegal e perseguida -- e continue a sê-lo, em alguns países retrógrados -- a homossexualidade nunca deixou de ser uma expressão legítima de liberdade individual. E o que deve ser explicado não é a homossexualidade, mas a repressão a ela. Mas isso tem que ser feito tanto por uma crítica filosófica e sociológica da religião quanto através de conceitos psicanalíticos como os de Freud, Marcuse ou M.D. Magno, e não pelos pensamentos, no fundo obscurantistas, de Deleuze ou Foucault.
Você poderia explicar melhor o obscurantismo de Foucault nesse contexto?
Emprego a expressão “obscurantista” no sentido etimológico “de adversário das luzes da razão, inimigo do iluminismo”. Ora a História da loucura na época clássica, de Foucault, no fundo pretende ser, pelo avesso, uma história crítica da razão: e mais, uma história da razão ou da racionalidade ocidental, como se houvesse muitas razões particulares: como se a razão não fosse universal. Trata-se, portanto, de uma tentativa de relativizar a razão. Acontece que, como toda crítica provém da razão, qualquer tentativa de relativizar a razão só pode ser feita pela própria razão, que, ao reconhecer esse fato, automaticamente anula a relativização a que se submeteu. É o que, corretamente, faz a “Crítica da razão pura”, de Kant. Por não fazer o mesmo, escamoteando os paradoxos e as antinomias em que forçosamente recai, a crítica de Foucault resulta num empreendimento obscurantista, que reduz a razão a uma “luz despótica”. É verdade que a História da loucura é uma das primeiras obras de Foucault e que, mais tarde, ele começou a rever a sua posição em relação ao Iluminismo. Infelizmente, porém, ele morreu antes de poder realizar plenamente o que parecia estar a esboçar. E o fato é que, ainda em 1978, ele se extasiava com a “política com dimensão espiritual” da revolução islamista do aiatolá Khomeini, que, como se sabe, conduziu o Irã a um dos regimes mais obscurantistas do mundo. E note-se que, nos textos dessa época, Foucault usava a palavra “espiritual” no sentido vulgar de “religioso”.
Quanto a Deleuze, limito-me a lembrar que ele chegou a dizer que “a razão é sempre uma região recortada no irracional.[...] No fundo de toda razão [estão] o delírio, a deriva”.
O que é mais forte em vc a filosofia ou a poesia?
A poesia. Sublinho que considero a poesia mais importante para mim, e não de modo absoluto e universal. Outros podem achar a filosofia mais importante. Mas para mim a poesia é mais importante, em primeiro lugar porque, enquanto a filosofia resulta principalmente da atividade do meu intelecto, a poesia resulta, como eu disse acima, do uso, no mais alto grau, de todas as minhas faculdades: intelecto, intuição, emoção, experiência, sensibilidade, senso de humor, cultura etc. Ela é feita, portanto, do melhor de mim. Em segundo lugar porque, para pensar filosoficamente, eu me separo do objeto do meu pensamento e o considero abstratamente; já um poema é concreto, no sentido de ser ao mesmo tempo pensamento e linguagem, sujeito e objeto, eu e não-eu, sentido e som, conceito e imagem, etc. Identifico-me, portanto, infinitamente mais com um poema que eu faça do que com um ensaio de filosofia que eu escreva. Mas a verdade é que não me identifico apenas com os poemas que eu escreva, mas com todos os poemas de que gosto. Digo mais: sinto como se eu mesmo tivesse escrito todos os poemas de que gosto. Ora, eu jamais diria isso das obras de filosofia que admiro. No poema “Dita” acho que consegui exprimir a sensação que tenho ao ler um bom poema:
DITA
Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo, pondo à orelha a flor
da pele da palavras, justo quando
assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.
Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita
a vida ou se a incita ou se é bobagem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.
Quais são seus projetos atuais?
Publicar o meu novo livro de poemas e escrever um livro sobre poesia. Sobre o livro de poemas não sei falar. O livro sobre poesia, porém, será uma obra sistemática. Direi tudo o que sei – ou penso que sei – sobre o assunto: sobre as formas poéticas, sobre a leitura de poemas, sobre a vanguarda, sobre letras de música, sobre métrica, sobre recursos paronomásticos etc.
De:
6.4.08
A astúcia do diabo
O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da Ilustrada, da Folha de São Paulo, sábado, 5de abril de 2008:
A astúcia do diabo
NUM POEMA em prosa, Baudelaire põe em cena um pregador segundo o qual a mais admirável astúcia do Diabo é nos persuadir de que não existe. Não é difícil entender por que, se o capeta existir, terá interesse em nos fazer crer o contrário.
Em primeiro lugar, ele saberá que quem acredita que ele existe tende a acreditar que também Deus existe (o poeta João Cabral foi a exceção que confirma a regra), coisa que não lhe interessa. Além disso, provavelmente lhe parecerá mais fácil induzir à tentação as pessoas que sequer acreditam que ele exista do que as que o temem.
De todo modo, para uma pessoa que crê que o demo não só existe como que pretende, sob algum disfarce ou através de algum mandatário, persuadir-nos de que não existe, exatamente a persuasividade e a racionalidade de seus argumentos atestarão a sua origem diabólica. E tal pessoa pensará a mesma coisa sobre qualquer consideração que ponha em questão a existência de Deus. Sendo assim, argumento nenhum jamais poderá fazê-la duvidar dessas crenças. Com efeito, a astúcia de satanás é postulada exatamente para blindá-las contra o assalto de qualquer crítica.
Naturalmente aquilo que, do ponto de vista do crente, é força, do ponto de vista da razão é fraqueza. Para esta, tudo o que se imuniza à crítica, tudo o que se furta à prova é irracional. Racionais são a própria crítica, a abertura à crítica e tudo aquilo que, enfrentando a crítica – ainda que diabólica –, a ela sobreviva. Já o irracionalismo é – como a própria tese da astúcia do Diabo – a tentativa de desqualificar o racional.
Observe-se que, se a tese – ou melhor, se a falácia – da astúcia do Diabo caracteriza o arquiinimigo de Deus como aquele que argumenta e critica, isto é, como aquele que é racional, ela explicitamente caracteriza os crentes e, implicitamente, o próprio Deus, como irracionalistas. Na verdade, embora há tempos não seja essa a doutrina dominante da Igreja Católica, trata-se de uma tese perfeitamente compatível com algumas das concepções mais vetustas do Cristianismo. O apóstolo Paulo, por exemplo, regozija-se de que, segundo o profeta Isaías, Deus mesmo tenha afirmado: "Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes".
Ora, que a doutrina de uma religião possa ser irracionalista ou conter fortes elementos irracionalistas não é surpreendente, já que ninguém é religioso graças a considerações intelectuais, mas por outros motivos, como o desejo de comunidade.
Mais surpreendente é observar que diferentes variantes da falácia da astúcia do Diabo, adaptadas para os mais diferentes fins, tenham sido adotadas por pensadores laicos e modernos.
Em psicanálise, por exemplo, a denegação é a astúcia através da qual o analisando (análogo ao Diabo) nega a interpretação do analista (análogo ao crente). Ao fazê-lo, porém, ele inconscientemente a confirma, segundo o analista. O próprio Freud – tendo reconhecido que, desse modo, garante-se sempre o triunfo do analista, pois, quando o paciente o aprova, lhe dá razão, mas, quando o contradiz, trata-se apenas de um sinal de resistência, o que de novo lhe dá razão – explica que essa questão só se resolve na prática, no contexto concreto da análise.
Um exemplo mais grave é a tese de Heidegger de que o mundo moderno já se encontra tão destituído, do ponto de vista espiritual, que não consegue mais sequer perceber a falta de Deus como uma falta. Assim, do mesmo modo que o crente supõe que aquele que negue a existência do Diabo ou de Deus involuntariamente a confirma, Heidegger supõe que aquele que negue sentir falta de Deus com isso dá, também inconscientemente, ainda maior evidência da falta que Ele faz do que aquele que abertamente reconheça sentir falta d'Ele.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas considero especialmente interessante – por poder ser estendida a grande parte do pensamento marxista sobre ideologia – a afirmação de Adorno de que a aparente liberdade em vigor no mundo moderno torna mais difícil a percepção da servidão real em que se vive, a qual, com isso, é agravada. Isso quer dizer que aquele que, no mundo moderno, pretenda ser livre ou demonstrar a sua liberdade é ainda mais dominado do que quem já se considere escravo. Pelo mesmo raciocínio, quanto menos um pensmento se considere ideológico, tanto mais o será.
É assim que, há séculos, a falácia da astúcia do Diabo tenta in limine desqualificar qualquer objeção que se pretenda fazer ao irracionalismo a que ela no fundo serve.
A astúcia do diabo
NUM POEMA em prosa, Baudelaire põe em cena um pregador segundo o qual a mais admirável astúcia do Diabo é nos persuadir de que não existe. Não é difícil entender por que, se o capeta existir, terá interesse em nos fazer crer o contrário.
Em primeiro lugar, ele saberá que quem acredita que ele existe tende a acreditar que também Deus existe (o poeta João Cabral foi a exceção que confirma a regra), coisa que não lhe interessa. Além disso, provavelmente lhe parecerá mais fácil induzir à tentação as pessoas que sequer acreditam que ele exista do que as que o temem.
De todo modo, para uma pessoa que crê que o demo não só existe como que pretende, sob algum disfarce ou através de algum mandatário, persuadir-nos de que não existe, exatamente a persuasividade e a racionalidade de seus argumentos atestarão a sua origem diabólica. E tal pessoa pensará a mesma coisa sobre qualquer consideração que ponha em questão a existência de Deus. Sendo assim, argumento nenhum jamais poderá fazê-la duvidar dessas crenças. Com efeito, a astúcia de satanás é postulada exatamente para blindá-las contra o assalto de qualquer crítica.
Naturalmente aquilo que, do ponto de vista do crente, é força, do ponto de vista da razão é fraqueza. Para esta, tudo o que se imuniza à crítica, tudo o que se furta à prova é irracional. Racionais são a própria crítica, a abertura à crítica e tudo aquilo que, enfrentando a crítica – ainda que diabólica –, a ela sobreviva. Já o irracionalismo é – como a própria tese da astúcia do Diabo – a tentativa de desqualificar o racional.
Observe-se que, se a tese – ou melhor, se a falácia – da astúcia do Diabo caracteriza o arquiinimigo de Deus como aquele que argumenta e critica, isto é, como aquele que é racional, ela explicitamente caracteriza os crentes e, implicitamente, o próprio Deus, como irracionalistas. Na verdade, embora há tempos não seja essa a doutrina dominante da Igreja Católica, trata-se de uma tese perfeitamente compatível com algumas das concepções mais vetustas do Cristianismo. O apóstolo Paulo, por exemplo, regozija-se de que, segundo o profeta Isaías, Deus mesmo tenha afirmado: "Destruirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a inteligência dos inteligentes".
Ora, que a doutrina de uma religião possa ser irracionalista ou conter fortes elementos irracionalistas não é surpreendente, já que ninguém é religioso graças a considerações intelectuais, mas por outros motivos, como o desejo de comunidade.
Mais surpreendente é observar que diferentes variantes da falácia da astúcia do Diabo, adaptadas para os mais diferentes fins, tenham sido adotadas por pensadores laicos e modernos.
Em psicanálise, por exemplo, a denegação é a astúcia através da qual o analisando (análogo ao Diabo) nega a interpretação do analista (análogo ao crente). Ao fazê-lo, porém, ele inconscientemente a confirma, segundo o analista. O próprio Freud – tendo reconhecido que, desse modo, garante-se sempre o triunfo do analista, pois, quando o paciente o aprova, lhe dá razão, mas, quando o contradiz, trata-se apenas de um sinal de resistência, o que de novo lhe dá razão – explica que essa questão só se resolve na prática, no contexto concreto da análise.
Um exemplo mais grave é a tese de Heidegger de que o mundo moderno já se encontra tão destituído, do ponto de vista espiritual, que não consegue mais sequer perceber a falta de Deus como uma falta. Assim, do mesmo modo que o crente supõe que aquele que negue a existência do Diabo ou de Deus involuntariamente a confirma, Heidegger supõe que aquele que negue sentir falta de Deus com isso dá, também inconscientemente, ainda maior evidência da falta que Ele faz do que aquele que abertamente reconheça sentir falta d'Ele.
Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas considero especialmente interessante – por poder ser estendida a grande parte do pensamento marxista sobre ideologia – a afirmação de Adorno de que a aparente liberdade em vigor no mundo moderno torna mais difícil a percepção da servidão real em que se vive, a qual, com isso, é agravada. Isso quer dizer que aquele que, no mundo moderno, pretenda ser livre ou demonstrar a sua liberdade é ainda mais dominado do que quem já se considere escravo. Pelo mesmo raciocínio, quanto menos um pensmento se considere ideológico, tanto mais o será.
É assim que, há séculos, a falácia da astúcia do Diabo tenta in limine desqualificar qualquer objeção que se pretenda fazer ao irracionalismo a que ela no fundo serve.
6.2.07
Entrevista a Francisco Bosco, para a Cult
Aproveito para postar neste blog alguns artigos e entrevistas que, embora já publicados em periódicos, ou bem eu gostaria que tivessem um pouco mais de circulação, ou bem não puderam aparecer integralmente, por questão de espaço. Assim, a seguir, publico a entrevista que dei à revista CULT nº 106, de outubro de 2006. Alguns de seus temas, como o das eleições, já passaram, mas a maior parte continua atual. Orgulho-me do fato de que o poeta e ensaísta Francisco Bosco, que muito admiro, me tenha introduzido aos leitores com palavras tão generosas.
Antonio Cicero é autor de alguns dos mais belos poemas da poesia brasileira contemporânea, os quais só se tornaram públicos, em livro, tardiamente, quando do lançamento de Guardar (Record: 1997), que venceria naquele ano o Prêmio Nestlé de Literatura. A este volume seguiu-se, em intervalo felizmente curto para os leitores, sua nova reunião de poemas, A Cidade e os Livros (Record: 2000). Cicero também vem contribuindo, desde o final da década de 1970, inicialmente com a irmã, a cantora Marina Lima, e depois também junto a diversos outros compositores, com algumas das mais belas canções da música brasileira. Mas esse poeta de dicção sóbria e elegante, de versos a um tempo clássicos e contemporâneos, profundos e superficiais, nítidos e delicados é também um filósofo contundente e cortante, para quem a filosofia não pode perder de vista que sua tarefa fundamental é intervir politicamente, pelo exercício crítico da razão, no mundo. A partir da publicação dos ensaios de O Mundo Desde o Fim (Francisco Alves:1995), Antonio Cicero mostrou-se um intérprete experimentado e original do Brasil e seus impasses, da modernidade e seus paradoxos. No ano passado, Cicero lançou uma nova reunião de ensaios, Finalidades Sem Fim (Companhia das Letras: 2005), em que traz a público sobretudo uma perspectiva da relação entre vanguardas e modernidade que não é menos que incontornável para o debate contemporâneo sobre esses problemas. É o pensamento desse personagem brilhante da cultura brasileira que a CULT ora oferece a seus leitores, em entrevista em que Cicero fala de política e democracia, comenta o saldo do governo Lula, dispara contra os ataques que a racionalidade e a modernidade (no fundo, para ele, uma coisa só) vêm sofrendo no mundo inteiro, discorre sobre as vanguardas, esclarece algumas questões polêmicas da arte contemporânea e fala sobre seu novo livro de poemas. O leitor poderá comprovar que, subjacente a tudo, o que rege esse pensamento é um imperativo da liberdade, contra os que abertamente a atacam e contra aqueles que, pensando estarem defendendo-a, estão no fundo agindo como seus inimigos. Francisco Bosco
CULT - Vamos começar falando de seu livro mais recente, Finalidades Sem Fim (Companhia das Letras, 2005). Nele, você defende que “o fim da vanguarda não é o fim da modernidade, mas, ao contrário, a sua plena realização”. Gostaria de que você explicasse, primeiramente, por que não pode haver, hoje, uma arte de vanguarda; e, em seguida, por que essa própria impossibilidade, ao invés de decretar o fim da modernidade, como muitos pensam, atesta a sua “plena realização”.
ANTONIO CICERO - Não pode mais haver arte de vanguarda porque a vanguarda já cumpriu sua função e nem precisa nem pode fazê-lo mais de uma vez. Como se sabe, “vanguarda”, de “avant-garde”, significava originalmente o destacamento adiantado, precursor, que indicava o caminho pelo qual se daria o progresso do grosso do exército. A idéia de vanguarda pressupõe, portanto, a de progresso. De que progresso se trata, no caso da arte? Não existe progresso propriamente artístico ou estético. Quem é melhor, por exemplo, do que Homero, que conhecemos como o primeiro poeta, do ponto de vista cronológico, do Ocidente?
Por outro lado – para ficarmos no exemplo da poesia – é possível haver progresso cognitivo, permitido principalmente graças ao emprego da escrita. Esse progresso pode ser considerado como uma espécie de desprovincianização ou cosmopolitização da poesia. Trata-se do reconhecimento de que as formas tradicionais de se fazer poesia não são as únicas possíveis; de que podemos empregar formas inventadas em culturas diferentes da nossa (como, por exemplo, o haicai); de que podemos recuperar formas antigas (como a sextina), de que podemos inventar novas formas (como o faz a poesia concreta): trata-se, portanto, do reconhecimento de que não podemos a priori excluir nenhuma forma, nenhuma experimentação. Isso significa também reconhecer que a poesia não se encontra em técnica nenhuma: que ela não consiste em técnica nenhuma. Ora, foi a vanguarda que acelerou o processo que nos obrigou a esse reconhecimento. Ao chegarmos a esse ponto, porém, ela já cumpriu a sua função e só lhe resta deixar de existir.
Ainda há, é claro, poesia experimental. Em certo sentido, uma vez que a poesia não é uma técnica, toda poesia de verdade é experimental: mas mesmo a poesia que se considera mais propriamente experimental, por pesquisar novas linguagens, novas técnicas etc., já deixou de ser de vanguarda, pois se encontra apenas ao lado, mas não à frente, nem sequer do ponto de vista cognitivo, das outras formas, todas igualmente legítimas, de poesia.
Pois bem, uma das características da modernidade é exatamente a desprovincianização, comopolitização e universalização do mundo: as vanguardas (às vezes involuntariamente) levaram a cabo esse processo na esfera das artes. Assim, tendo cumprido sua missão, elas deixaram de existir.
CULT - Em Teoria da vanguarda, Peter Bürger afirma que as vanguardas são um movimento de contestação da “instituição arte”, o que difere essencialmente de apenas uma ruptura com princípios estéticos de um momento histórico imediatamente anterior. Trata-se de uma tentativa de reconectar a arte com a praxis vital, desligamento que teria ocorrido, progressivamente, segundo Bürger, com o advento da burguesia e a perda da função social da arte. O que você pensa sobre isso?
AC - Em primeiro lugar, penso que Bürger comete um erro ao identificar a vanguarda, basicamente, com o dadaísmo e o surrealismo e, em particular, com o momento anti-arte desses movimentos, desprezando os vários modernismos: ou pior, anacronicamente relegando-os a um momento histórico anterior. Onde ficam, por exemplo, o simbolismo, o expressionismo, o suprematismo, o construtivismo? Mesmo o cubismo, que ele cita, no fundo não cabe no esquema dele, pois não contesta a instituição arte. A vanguarda que Adorno defende, por exemplo – Kafka, Schönberg, Beckett –, nada tem a ver com a dele. E que dizer dos “nossos” Mallarmé, Pound, Joyce?
A verdade é que as vanguardas foram várias e apenas uma parte pequena, embora ruidosa, dela foi anti-arte. De todo modo, independentemente das intenções que tiveram, parece-me que, ao contrário do que supõe Bürger, um dos resultados cognitivos da atuação contraditória das vanguardas acabou sendo exatamente a realização plenamente autoconsciente da autonomia da arte, que, embora descoberta pelo pensamento filosófico desde Kant, não havia sido incorporada pelo pensamento propriamente artístico antes dessa atuação.
De todo modo, penso que a autonomia da arte foi uma descoberta (não uma invenção) da filosofia moderna. É verdade que, entre as condições para que ela pudesse ser percebida, estavam o colapso da hegemonia do pensamento cristão, por um lado, e o impulso do pensamento crítico, por outro; e que isso, por sua vez, torna-se possível a partir do ressurgimento do individualismo e da vida urbana, do crescimento da burguesia, da decadência do feudalismo, da reforma, do humanismo etc. Essas são, aliás, também as condições para o surgimento da ciência moderna. Pois bem, assim como não se pode dizer que, em conseqüência da pressuposição dessas condições, a ciência moderna seja ideológica, tampouco se pode dizer que a autonomia da arte o seja.
A autonomia da arte significa que ela não pode ser confundida com a vida, nem ser posta a serviço dela ou de qualquer outra coisa. É necessário que haja uma esfera da atividade humana que valha por si, isto é, que seja capaz de instrumentalizar todas as demais, sem ser, ela mesma, enquanto tal, instrumentalizável. Essa é a esfera da arte. São aqueles que não gostam de arte, aqueles que querem explorar a arte, os parasitas – religiosos, políticos, mercantis – da arte, que lhe querem atribuir uma função social. A esse propósito, costumo lembrar o extraordinário título de um livro de Carlos Drummond de Andrade: A vida passada a limpo. Dizer que a poesia é a vida passada a limpo é dizer que a vida é o rascunho da poesia. Isso significa que o fim da vida é virar poesia. Por essa razão, longe de ser um meio (por exemplo, um meio de “expressão” ou de “comunicação”) para o poeta enquanto poeta, a poesia é o seu fim. Ora, dado que o fim subordina os meios, e não vice-versa, não é o poeta que instrumentaliza a poesia, mas a poesia que instrumentaliza todo o intelecto, toda a sensibilidade, toda a intuição, toda a razão, toda a experiência, todo o vocabulário, todo o conhecimento, todo o senso de humor, toda a cultura do poeta.
Assim, numa época em que “tempo é dinheiro” (ou poder), a poesia se compraz em esbanjar o tempo do poeta. Mas o poema em que a poesia esbanjou o tempo do poeta é aquele que também dissipará o tempo do leitor ideal, que se permite flanar pelas linhas dos poemas que merecem uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não-linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. E esse jogo livre das faculdades vale por si e não em virtude de qualquer outra coisa: o seu valor é imanente.
CULT - Pergunto-me se essa sua defesa intransigente da autonomia da arte não implica a afirmação da “pureza” da arte e da estética e, em conseqüência, se ela não recai num extremo formalismo.
AC - Não, porque não há uma faculdade especificamente estética. Na arte, o conteúdo é forma e a forma é conteúdo. Assim como o artista usa todas as suas faculdades para produzir a obra, assim também aquele que a aprecia esteticamente usa, para tanto, todas as faculdades de que dispõe. Como eu disse, a razão, o intelecto, a sensibilidade, a intuição, o humor etc.: tudo entra em jogo, quando se julga uma obra de arte. Quando leio um poema, por exemplo, não ponho entre parênteses a política, tal como se manifesta naquela obra; entretanto, a política se converte em apenas um dos elementos através dos quais julgo aquela obra: e ela é mediatizada por todos os demais, que, por sua vez, são por ela mediatizados.
CULT - No ensaio “Poesia e paisagens urbanas” você afirma, em determinado ponto, que “o poeta moderno – e ‘moderno’ aqui quer dizer: que vive depois que a experiência da vanguarda se cumpriu – é capaz de empregar as formas que bem entender para fazer os seus poemas...” Isso significa que agora vale tudo?
AC - Não. O que isso significa é simplesmente o reconhecimento do fato de que não se pode, a priori, determinar o que é que vai valer e o que é que não vai valer como poema; ou o que é que vai valer e o que é que não vai valer num poema. E é evidente que não se pode determinar a priori (mas jamais se pôde, de fato) o que é que vai valer como um poema bom e o que é que não vai valer como tal. A verdade é que não há critérios abstratos e universais para determinar se um poema é bom ou não é. É preciso examinar caso por caso. Temos que inventar os critérios do juízo de cada poema. É de fato assim e é assim que deve ser.
CULT - Mas há quem diga, por exemplo, que uma forma tão gasta quanto a do soneto não pode mais ser usada, a não ser ironicamente. O que você pensa disso?
AC - Não posso aceitar nem mesmo essa regra. Há algumas décadas, afirmava-se peremptoriamente que o soneto estava morto. Afinal, trata-se de uma forma desenvolvida na Idade Média, sete ou oito séculos atrás, e prodigamente usada e abusada, em todas as línguas européias modernas. Como poderia resistir ao novo mundo do telégrafo, do telefone, da televisão? Mas hoje é impossível negar a qualidade e a atualidade dos sonetos de Paulo Henriques Britto, por exemplo. Para explicar essa incongruência, apela-se então, ad hoc, à ironia: os sonetos de Paulo Henriques Britto seriam exceções, graças à ironia. Pois bem, os sonetos de PHB foram escritos uns sete séculos depois dos de Petrarca. Em 1985, uns quinze anos antes dos sonetos de PHG, mas ainda uns sete séculos depois de Petrarca, Jorge Luiz Borges publicou inúmeros sonetos, que são verdadeiras obras-primas, no seu livro Los conjurados. Serão irônicos? Não mais do que toda a obra de Borges. Em todo caso, não são nada irônicos em relação ao soneto enquanto forma. Alguns anos antes, mas ainda uns sete séculos depois de Petrarca, Drummond publicara, sem ironia, outros tantos sonetos que também são obras-primas. Um pouco antes, mas também séculos depois de Petrarca, Rilke, Yeats, Mallarmé... e assim por diante. Como se pode decretar que não surgirão sonetos extraordinários nos próximos anos? Ou decretar como devem ser para serem aceitos? É claro que há sonetos e sonetos, e que quase todos os sonetos são ruins. Mas a verdade é que quase todos os poemas são ruins. Por que essa mania de cagar regras? A única regra necessária é: julgue-se caso por caso, e sempre a posteriori.
CULT - Outra questão importante de seu livro é aquela sobre a relação entre poesia e filosofia. A contrapelo de uma forte tendência do século XX, que é a da mistura dos gêneros, você defende uma nítida delimitação entre a filosofia e a poesia. Por quê?
AC - O questionamento dos gêneros artísticos é inevitável, pois faz parte do processo moderno de crítica e questionamento de tudo o que não se justifique racionalmente. Do mesmo modo, é exatamente porque não se justifica racionalmente exigir que determinado preceito seja seguido, na feitura de um poema, que não podemos excluir nenhuma forma a priori. Tudo o que não se justifica racionalmente, tudo o que se baseia meramente em convenção ou tradição é para nós, modernos, preconceito. Assim ocorre com os gêneros artísticos. Entretanto, nem tudo é arte. Existem também a vida prática, a ciência, a filosofia, a tecnologia, a moral, a política, a religião... E a tentativa de reduzir tudo à mesma coisa (como confundir religião e política, ciência e religião, política e ciência, moral e religião etc.) não apenas não é racional, mas é nociva. Ela só se justificaria se essas distinções fossem meros produtos da convenção ou da tradição. Mas não é assim. Essas distinções são também racionais. Enquanto, por exemplo, num poema, um enunciado funciona como um objeto estético, de modo que, enquanto poema, ele não cumpre nenhuma função prática (que importa, para quem lê “No meio do caminho” se algum dia houve realmente uma pedra no caminho de Drummond?), fora da poesia os enunciados normalmente funcionam como atos que cumprem funções práticas, tais como interrogar, ordenar, agradecer, informar, orientar, afirmar etc. Assim, dizer que filosofia e poesia são a mesma coisa é ou bem atribuir funções práticas à poesia (o que atenta contra a autonomia da arte que aqui defendo, de modo que, a meu ver, prejudica a poesia) ou bem retirar as funções práticas – cognitivas e racionais – da filosofia (o que conduz ao irracionalismo e incorre em autocontradição performativa, pois a afirmação de que a filosofia não é capaz de conhecer coisa alguma, sendo de natureza filosófica, nega a sua própria pretensão cognitiva).
CULT - Diferentemente do que se passa com a literatura, em que, apesar da insularidade do português, o Brasil possui obras de indisputável valor e reconhecimento internacional (como as de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector), parece não haver uma produção filosófica original no Brasil. Muniz Sodré argumenta que uma tal originalidade estaria numa certa “historiosofia” brasileira, que incluiria as obras de Gilberto Freyre, Sergio Buarque, etc. O que você pensa a respeito?
AC - Penso que toda filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento – nem mesmo todo pensamento profundo – é filosofia. Temos grandes pensadores nas áreas das artes, da literatura, da história etc., mas não devemos escamotear as nossas fraquezas: o fato é que não ainda não temos uma tradição filosófica e devemos nos esforçar para construí-la.
CULT - Você pratica a filosofia, o poema e a letra de música; como é a convivência desses três registros díspares na sua produção? Em algum momento é uma relação conturbada? Há alguma dessas práticas que lhe dá maior prazer? Você se sente mais filósofo, mais poeta, mais letrista - ou não existe essa espécie de centro?
AC - A relação é muitas vezes conturbada, porque cada uma dessas coisas exige o meu tempo, e este é cada vez mais escasso. A prática que me dá maior prazer é a de fazer um poema. E é a que exige mais de mim. A de filosofia, porém, é mais urgente, porque representa uma intervenção, em última análise, política, no mundo. É como se eu tivesse obrigação moral de dizer o que penso ter compreendido através do pensamento filosófico. A prática de fazer letra de música é diferente porque, no meu caso, ela só pode ser feita com um parceiro. Considero-me privilegiado por ter parceiros que são meus amigos e que admiro imensamente, como Marina Lima, Adriana Calcanhotto, João Bosco, Lulu Santos, Orlando Moraes. Mas é claro que não tenho tanta liberdade quanto quando escrevo um poema, já que a letra é feita para fazer parte de uma canção. Por um lado, é um trabalho mais fácil, porque a melodia e as idéias do próprio parceiro sobre a canção a ser feita podem ajudar a desencadear o processo de composição; por outro lado, é mais difícil, justamente por envolver outra pessoa. Quanto a me considerar mais isto ou aquilo, considero-me poeta, em primeiro lugar.
CULT - Assim como há, para você, uma diferença fundamental entre poesia e filosofia, há também quanto ao poema e a letra de música? Quando você escreve um poema ou uma letra, são técnicas distintas que estão em jogo?
AC - A principal diferença é, naturalmente, que a letra é heterotélica (tem seu fim fora de si, na canção), enquanto o poema é autotélico (tem seu fim em si próprio). As técnicas são diferentes porque, normalmente, faço uma letra para uma melodia já existente. Por um lado, levo em conta o clima geral da melodia, que me sugere logo algumas idéias; por outro lado, essa melodia funciona como uma forma fixa, que me obriga a determinada métrica, determinado ritmo etc. O que importa, quando faço uma letra, é que ela contribua para a produção de uma grande canção, e não que seja um grande poema.
CULT - Sua poesia é clara, nítida, você trabalha muitas vezes com formas fixas, é um admirador declarado do poeta latino Horácio, lê grego antigo e até homérico; pode-se dizer que, sem prejuízo de sua contemporaneidade, Antonio Cicero é um poeta clássico?
AC - Na verdade, sou a última pessoa a querer qualificar a minha produção poética, pois entendo as qualificações como restritivas. No caso de “clássico”, um outro problema me inibiria: é que entendo a palavra no sentido definido por Naphta, personagem de A montanha mágica, de Thomas Mann. Segundo ele, clássico é o ponto em que uma idéia chega à sua culminância. Nesse sentido, seria até cabotino que eu me chamasse de clássico. Por outro lado, mesmo não me qualificando de clássico, é verdade que amo a literatura e as línguas clássicas, que não considero estrangeiras, mas nossas. Acho que latim e grego deviam voltar a fazer parte do currículo primário.
CULT - Você estudou lógica em sua formação filosófica, tem em Kant talvez sua principal referência filosófica e define-se como um racionalista liberal. A política mundial, entretanto, está polarizada por fundamentalismos religiosos e ameaçada por populistas obtusos com ideologias retrógradas. Você acha que o mundo está se tornando cada vez mais irracional?
AC - Em certo sentido, sim. Mas penso que o irracionalismo contemporâneo é principalmente uma reação às possibilidades de liberdade que o mundo contemporâneo oferece. Por medo da sociedade aberta, busca-se refúgio em comunidades fechadas, como as religiosas. E uma sociedade é tanto mais fechada quanto mais irracional, pois a racionalidade é, em princípio, aberta e universal. É um equívoco pensar que exista um conflito entre o Ocidente, ou os valores do Ocidente e os valores islâmicos, por exemplo. O conflito que há é entre a modernidade (que não é ocidental ou oriental, mas universal) e a pré- ou anti-modernidade, que pode ser muçulmana, cristã (como no sul dos Estados Unidos) etc. Dentro dos Estados Unidos mesmos, esse conflito é muito grave. Com o governo Bush, uma parcela relativamente pequena, porém totalmente inescrupulosa da burguesia norte-americana, sob a liderança das corporações petrolíferas e armamentistas, e aliada às maiores cadeias de televisão, rádio e da imprensa do país, procura destruir os fundamentos da sociedade aberta e os direitos individuais, e promover o obscurantismo religioso, como caminho para a instauração de um governo plutocrático descarado e cínico. Tentam, por exemplo, arruinar o sistema de checks and balances que mantinha separados os poderes executivo, legislativo e judiciário. Este último está sendo objeto de uma campanha de desmoralização tremenda, posta em prática pelo governo Bush e pela imprensa de direita. Para cumprir sua agenda anti-moderna, o governo Bush tem como aliados objetivos os terroristas muçulmanos. Não acredito em inevitabilidade histórica. Até pouco tempo, era senso comum na esquerda que os democratas e republicanos eram farinha do mesmo saco. Hoje, é claro que a diferença entre o governo Clinton e o governo Bush não poderia ser maior. Penso que a racionalidade – como a ciência – tende a se impor porque ela é o chão onde se quebram as ilusões que acabam por cair, pois, ao contrário destas, ela não é nada de particular ou contingente, mas algo de universal e necessário; entretanto, não é impossível que os irracionalistas consigam destruir o mundo.
CULT - Você afirma que “o paradoxo do Brasil está em, sendo capaz de oferecer a prefiguração da solução de alguns problemas que poucos países conseguem efetivamente enfrentar, não ter conseguido efetivamente enfrentar alguns problemas que muitos outros países já resolveram total ou parcialmente”. Você acha que, quanto a este paradoxo, o Brasil mudou nesses últimos anos de economia mais estável e consolidação da democracia?
AC - Acho que tem melhorado, mas muito lentamente.
CULT - Como você avalia o governo Lula? Você votou nele nas últimas eleições? Pretende votar na de agora?
AC - O PT tinha tornado o governo Fernando Henrique quase inoperante, fazendo incessantemente denúncias incomprovadas porém paralisantes, e bloqueando todas as reformas que se faziam necessárias e que, ao chegar ao poder, o próprio Lula tentaria realizar. Era a política do “quanto pior, melhor”. Indignado com essa política, que prejudicava o Brasil como um todo, votei no Serra, no primeiro turno. Depois, comecei a achar que, se o Serra ganhasse o segundo turno, haveria uma radicalização imensa no PT, pois ganhariam força os militantes que, acusando a democracia de ser puramente formal, e alegando que “as elites brasileiras” jamais deixariam um operário chegar a ser presidente, queriam, no fundo, promover uma guerra civil. Além disso, seria ainda mais difícil para o Serra governar do que havia sido para o FH.
Pareceu-me então, primeiro, que a experiência de ter um presidente de origem operária seria realmente importante para consolidar a democracia brasileira; segundo, que a sua vitória enfraqueceria essas correntes anti-legalistas no interior do PT; terceiro, que ele teria maior capacidade de governar do que o Serra. Votei, então, no Lula.
Quanto ao governo dele, tenho sentimentos contraditórios. Não posso senão aplaudir o fato de que ele tenha conseguido, segundo todas as pesquisas, reduzir significativamente – embora ainda pouco – a pobreza e a desigualdade social no Brasil. Aplaudo também o fato de que ele tenha conseguido fazer isso sem abrir mão de continuar a controlar a inflação. Para mim, isso é muito importante, pois sou de uma geração que conheceu o horror da inflação descontrolada.
Por outro lado, é claro que fiquei indignado com o mensalão. Quero crer, porém, que ele foi concebido principalmente por membros daquela corrente do PT que despreza a democracia formal e que me parece ter saído enfraquecida com esse episódio.
Quanto às próximas eleições, eu talvez votasse no Serra, se ele fosse candidato; mas não voto no Alkmin, cujas ligações com a Igreja Católica não são claras, para mim. Convencido de que os pontos positivos do governo Lula são maiores do que os negativos, vou provavelmente votar nele. A única coisa que me deixa receoso é essa idéia golpista de convocar uma constituinte. Acho que ele devia publicamente voltar atrás, nessa questão. Tenho horror à idéia de uma democracia plebiscitária, isto é, de uma ditadura da maioria. Não devemos nos esquecer de que as ditaduras de Mussolini, de Hitler, de Stalin e de Pol Pot eram apoiadas pela maioria, logo, nesse sentido, “democráticas”. A razão nem sempre está com a maioria: pode estar até com um homem só. Por isso, o que é realmente imprescindível numa democracia não são as eleições nem o governo da maioria, mas o império da lei, a abertura da sociedade, os direitos civis, a liberdade e a pluralidade da imprensa.
CULT - O que você acha do Estatuto de Igualdade Racial?
AC - Sou inteiramente contra. Não há raças humanas. Os norte-americanos brancos racionalizaram e oficializaram o seu racismo com base na crença nas ficções que são as raças biológicas. Os próprios movimentos anti-racistas americanos acreditaram nessas ficções e nelas se basearam. Por isso, pensam que o racismo é um fenômeno universal, e que negar que ele exista seja uma forma mais insidiosa de praticá-lo. Aqui, nunca se acreditou propriamente em raça. Reconhecemos apenas diferenças epidérmicas entre as pessoas. Por isso, as raças nunca foram oficializadas, o que é bom; e isso facilitou a miscigenação, o que tornou ainda mais inaplicável o conceito de raça. Como eu digo no meu ensaio “Brasil feito brasa”, no Brasil, ao contrário do que se dá nos Estados Unidos, a exceção é o negro, o branco ou o índio que se considere "puro". Pode dizer-se que, aqui, cada ser humano parece resultar de uma combinação singular de características de cada uma dessas e de outras raças. Longe de significar homogeneização racial, isso sugere que, no limite, cada brasileiro tende a ser a expressão de uma raça individual. Esse oximoro exprime o fato de que, através não da redução, mas da multiplicação das diferenças, entrevê-se no Brasil, a longo prazo, a pulverização -- ou melhor, a dissolução -- racial. Devemos fazer campanhas anti-racistas, não com base na ficção da existência de raças, mas, ao contrário, na demonstração de que crer em tais ficções não é coisa digna de uma pessoa inteligente. Mas, principalmente, devemos promover a eliminação de qualquer pretensão racista, através do aprofundamento das políticas que contribuam para reduzir as desigualdades sociais – que, estas sim, são inteiramente reais – e através de investimentos maciços que, efetivamente, universalizem o acesso a uma educação elementar e média de qualidade.
15. Fale sobre o seu novo livro de poemas.
Diferentemente dos outros, comecei esse livro com um título, que no entanto, talvez seja modificado: Prova. É que esse foi o título do primeiro poema que escrevi para ele. Também diferentemente dos outros, fiz um projeto para esse livro, de modo a poder solicitar a Bolsa Vitae, para escrevê-lo. De fato, felizmente, fui contemplado com essa bolsa, sem a qual não creio que tivesse podido terminá-lo tão cedo. O livro me parece ter ficado muito diferente dos outros, mas não sei dizer bem em que sentido. Não planejei essa diferença. Não sou de planejar. Gosto de deixar o poema se descobrir para mim e de tratar o acaso como se fosse o destino. Mas o fato é que eles foram ficando diferentes. Alguns, por exemplo, são mais longos do que o que era normal para mim. Alguns são mais narrativos. Não dá para falar muito, porque, sinceramente, não sei bem falar sobre os meus próprios poemas.
Antonio Cicero é autor de alguns dos mais belos poemas da poesia brasileira contemporânea, os quais só se tornaram públicos, em livro, tardiamente, quando do lançamento de Guardar (Record: 1997), que venceria naquele ano o Prêmio Nestlé de Literatura. A este volume seguiu-se, em intervalo felizmente curto para os leitores, sua nova reunião de poemas, A Cidade e os Livros (Record: 2000). Cicero também vem contribuindo, desde o final da década de 1970, inicialmente com a irmã, a cantora Marina Lima, e depois também junto a diversos outros compositores, com algumas das mais belas canções da música brasileira. Mas esse poeta de dicção sóbria e elegante, de versos a um tempo clássicos e contemporâneos, profundos e superficiais, nítidos e delicados é também um filósofo contundente e cortante, para quem a filosofia não pode perder de vista que sua tarefa fundamental é intervir politicamente, pelo exercício crítico da razão, no mundo. A partir da publicação dos ensaios de O Mundo Desde o Fim (Francisco Alves:1995), Antonio Cicero mostrou-se um intérprete experimentado e original do Brasil e seus impasses, da modernidade e seus paradoxos. No ano passado, Cicero lançou uma nova reunião de ensaios, Finalidades Sem Fim (Companhia das Letras: 2005), em que traz a público sobretudo uma perspectiva da relação entre vanguardas e modernidade que não é menos que incontornável para o debate contemporâneo sobre esses problemas. É o pensamento desse personagem brilhante da cultura brasileira que a CULT ora oferece a seus leitores, em entrevista em que Cicero fala de política e democracia, comenta o saldo do governo Lula, dispara contra os ataques que a racionalidade e a modernidade (no fundo, para ele, uma coisa só) vêm sofrendo no mundo inteiro, discorre sobre as vanguardas, esclarece algumas questões polêmicas da arte contemporânea e fala sobre seu novo livro de poemas. O leitor poderá comprovar que, subjacente a tudo, o que rege esse pensamento é um imperativo da liberdade, contra os que abertamente a atacam e contra aqueles que, pensando estarem defendendo-a, estão no fundo agindo como seus inimigos. Francisco Bosco
CULT - Vamos começar falando de seu livro mais recente, Finalidades Sem Fim (Companhia das Letras, 2005). Nele, você defende que “o fim da vanguarda não é o fim da modernidade, mas, ao contrário, a sua plena realização”. Gostaria de que você explicasse, primeiramente, por que não pode haver, hoje, uma arte de vanguarda; e, em seguida, por que essa própria impossibilidade, ao invés de decretar o fim da modernidade, como muitos pensam, atesta a sua “plena realização”.
ANTONIO CICERO - Não pode mais haver arte de vanguarda porque a vanguarda já cumpriu sua função e nem precisa nem pode fazê-lo mais de uma vez. Como se sabe, “vanguarda”, de “avant-garde”, significava originalmente o destacamento adiantado, precursor, que indicava o caminho pelo qual se daria o progresso do grosso do exército. A idéia de vanguarda pressupõe, portanto, a de progresso. De que progresso se trata, no caso da arte? Não existe progresso propriamente artístico ou estético. Quem é melhor, por exemplo, do que Homero, que conhecemos como o primeiro poeta, do ponto de vista cronológico, do Ocidente?
Por outro lado – para ficarmos no exemplo da poesia – é possível haver progresso cognitivo, permitido principalmente graças ao emprego da escrita. Esse progresso pode ser considerado como uma espécie de desprovincianização ou cosmopolitização da poesia. Trata-se do reconhecimento de que as formas tradicionais de se fazer poesia não são as únicas possíveis; de que podemos empregar formas inventadas em culturas diferentes da nossa (como, por exemplo, o haicai); de que podemos recuperar formas antigas (como a sextina), de que podemos inventar novas formas (como o faz a poesia concreta): trata-se, portanto, do reconhecimento de que não podemos a priori excluir nenhuma forma, nenhuma experimentação. Isso significa também reconhecer que a poesia não se encontra em técnica nenhuma: que ela não consiste em técnica nenhuma. Ora, foi a vanguarda que acelerou o processo que nos obrigou a esse reconhecimento. Ao chegarmos a esse ponto, porém, ela já cumpriu a sua função e só lhe resta deixar de existir.
Ainda há, é claro, poesia experimental. Em certo sentido, uma vez que a poesia não é uma técnica, toda poesia de verdade é experimental: mas mesmo a poesia que se considera mais propriamente experimental, por pesquisar novas linguagens, novas técnicas etc., já deixou de ser de vanguarda, pois se encontra apenas ao lado, mas não à frente, nem sequer do ponto de vista cognitivo, das outras formas, todas igualmente legítimas, de poesia.
Pois bem, uma das características da modernidade é exatamente a desprovincianização, comopolitização e universalização do mundo: as vanguardas (às vezes involuntariamente) levaram a cabo esse processo na esfera das artes. Assim, tendo cumprido sua missão, elas deixaram de existir.
CULT - Em Teoria da vanguarda, Peter Bürger afirma que as vanguardas são um movimento de contestação da “instituição arte”, o que difere essencialmente de apenas uma ruptura com princípios estéticos de um momento histórico imediatamente anterior. Trata-se de uma tentativa de reconectar a arte com a praxis vital, desligamento que teria ocorrido, progressivamente, segundo Bürger, com o advento da burguesia e a perda da função social da arte. O que você pensa sobre isso?
AC - Em primeiro lugar, penso que Bürger comete um erro ao identificar a vanguarda, basicamente, com o dadaísmo e o surrealismo e, em particular, com o momento anti-arte desses movimentos, desprezando os vários modernismos: ou pior, anacronicamente relegando-os a um momento histórico anterior. Onde ficam, por exemplo, o simbolismo, o expressionismo, o suprematismo, o construtivismo? Mesmo o cubismo, que ele cita, no fundo não cabe no esquema dele, pois não contesta a instituição arte. A vanguarda que Adorno defende, por exemplo – Kafka, Schönberg, Beckett –, nada tem a ver com a dele. E que dizer dos “nossos” Mallarmé, Pound, Joyce?
A verdade é que as vanguardas foram várias e apenas uma parte pequena, embora ruidosa, dela foi anti-arte. De todo modo, independentemente das intenções que tiveram, parece-me que, ao contrário do que supõe Bürger, um dos resultados cognitivos da atuação contraditória das vanguardas acabou sendo exatamente a realização plenamente autoconsciente da autonomia da arte, que, embora descoberta pelo pensamento filosófico desde Kant, não havia sido incorporada pelo pensamento propriamente artístico antes dessa atuação.
De todo modo, penso que a autonomia da arte foi uma descoberta (não uma invenção) da filosofia moderna. É verdade que, entre as condições para que ela pudesse ser percebida, estavam o colapso da hegemonia do pensamento cristão, por um lado, e o impulso do pensamento crítico, por outro; e que isso, por sua vez, torna-se possível a partir do ressurgimento do individualismo e da vida urbana, do crescimento da burguesia, da decadência do feudalismo, da reforma, do humanismo etc. Essas são, aliás, também as condições para o surgimento da ciência moderna. Pois bem, assim como não se pode dizer que, em conseqüência da pressuposição dessas condições, a ciência moderna seja ideológica, tampouco se pode dizer que a autonomia da arte o seja.
A autonomia da arte significa que ela não pode ser confundida com a vida, nem ser posta a serviço dela ou de qualquer outra coisa. É necessário que haja uma esfera da atividade humana que valha por si, isto é, que seja capaz de instrumentalizar todas as demais, sem ser, ela mesma, enquanto tal, instrumentalizável. Essa é a esfera da arte. São aqueles que não gostam de arte, aqueles que querem explorar a arte, os parasitas – religiosos, políticos, mercantis – da arte, que lhe querem atribuir uma função social. A esse propósito, costumo lembrar o extraordinário título de um livro de Carlos Drummond de Andrade: A vida passada a limpo. Dizer que a poesia é a vida passada a limpo é dizer que a vida é o rascunho da poesia. Isso significa que o fim da vida é virar poesia. Por essa razão, longe de ser um meio (por exemplo, um meio de “expressão” ou de “comunicação”) para o poeta enquanto poeta, a poesia é o seu fim. Ora, dado que o fim subordina os meios, e não vice-versa, não é o poeta que instrumentaliza a poesia, mas a poesia que instrumentaliza todo o intelecto, toda a sensibilidade, toda a intuição, toda a razão, toda a experiência, todo o vocabulário, todo o conhecimento, todo o senso de humor, toda a cultura do poeta.
Assim, numa época em que “tempo é dinheiro” (ou poder), a poesia se compraz em esbanjar o tempo do poeta. Mas o poema em que a poesia esbanjou o tempo do poeta é aquele que também dissipará o tempo do leitor ideal, que se permite flanar pelas linhas dos poemas que merecem uma leitura ao mesmo tempo vagarosa e ligeira, auscultativa e conotativa, prospectiva e retrospectiva, linear e não-linear, imanente e transcendente, imaginativa e precisa, intelectual e sensual, ingênua e informada. E esse jogo livre das faculdades vale por si e não em virtude de qualquer outra coisa: o seu valor é imanente.
CULT - Pergunto-me se essa sua defesa intransigente da autonomia da arte não implica a afirmação da “pureza” da arte e da estética e, em conseqüência, se ela não recai num extremo formalismo.
AC - Não, porque não há uma faculdade especificamente estética. Na arte, o conteúdo é forma e a forma é conteúdo. Assim como o artista usa todas as suas faculdades para produzir a obra, assim também aquele que a aprecia esteticamente usa, para tanto, todas as faculdades de que dispõe. Como eu disse, a razão, o intelecto, a sensibilidade, a intuição, o humor etc.: tudo entra em jogo, quando se julga uma obra de arte. Quando leio um poema, por exemplo, não ponho entre parênteses a política, tal como se manifesta naquela obra; entretanto, a política se converte em apenas um dos elementos através dos quais julgo aquela obra: e ela é mediatizada por todos os demais, que, por sua vez, são por ela mediatizados.
CULT - No ensaio “Poesia e paisagens urbanas” você afirma, em determinado ponto, que “o poeta moderno – e ‘moderno’ aqui quer dizer: que vive depois que a experiência da vanguarda se cumpriu – é capaz de empregar as formas que bem entender para fazer os seus poemas...” Isso significa que agora vale tudo?
AC - Não. O que isso significa é simplesmente o reconhecimento do fato de que não se pode, a priori, determinar o que é que vai valer e o que é que não vai valer como poema; ou o que é que vai valer e o que é que não vai valer num poema. E é evidente que não se pode determinar a priori (mas jamais se pôde, de fato) o que é que vai valer como um poema bom e o que é que não vai valer como tal. A verdade é que não há critérios abstratos e universais para determinar se um poema é bom ou não é. É preciso examinar caso por caso. Temos que inventar os critérios do juízo de cada poema. É de fato assim e é assim que deve ser.
CULT - Mas há quem diga, por exemplo, que uma forma tão gasta quanto a do soneto não pode mais ser usada, a não ser ironicamente. O que você pensa disso?
AC - Não posso aceitar nem mesmo essa regra. Há algumas décadas, afirmava-se peremptoriamente que o soneto estava morto. Afinal, trata-se de uma forma desenvolvida na Idade Média, sete ou oito séculos atrás, e prodigamente usada e abusada, em todas as línguas européias modernas. Como poderia resistir ao novo mundo do telégrafo, do telefone, da televisão? Mas hoje é impossível negar a qualidade e a atualidade dos sonetos de Paulo Henriques Britto, por exemplo. Para explicar essa incongruência, apela-se então, ad hoc, à ironia: os sonetos de Paulo Henriques Britto seriam exceções, graças à ironia. Pois bem, os sonetos de PHB foram escritos uns sete séculos depois dos de Petrarca. Em 1985, uns quinze anos antes dos sonetos de PHG, mas ainda uns sete séculos depois de Petrarca, Jorge Luiz Borges publicou inúmeros sonetos, que são verdadeiras obras-primas, no seu livro Los conjurados. Serão irônicos? Não mais do que toda a obra de Borges. Em todo caso, não são nada irônicos em relação ao soneto enquanto forma. Alguns anos antes, mas ainda uns sete séculos depois de Petrarca, Drummond publicara, sem ironia, outros tantos sonetos que também são obras-primas. Um pouco antes, mas também séculos depois de Petrarca, Rilke, Yeats, Mallarmé... e assim por diante. Como se pode decretar que não surgirão sonetos extraordinários nos próximos anos? Ou decretar como devem ser para serem aceitos? É claro que há sonetos e sonetos, e que quase todos os sonetos são ruins. Mas a verdade é que quase todos os poemas são ruins. Por que essa mania de cagar regras? A única regra necessária é: julgue-se caso por caso, e sempre a posteriori.
CULT - Outra questão importante de seu livro é aquela sobre a relação entre poesia e filosofia. A contrapelo de uma forte tendência do século XX, que é a da mistura dos gêneros, você defende uma nítida delimitação entre a filosofia e a poesia. Por quê?
AC - O questionamento dos gêneros artísticos é inevitável, pois faz parte do processo moderno de crítica e questionamento de tudo o que não se justifique racionalmente. Do mesmo modo, é exatamente porque não se justifica racionalmente exigir que determinado preceito seja seguido, na feitura de um poema, que não podemos excluir nenhuma forma a priori. Tudo o que não se justifica racionalmente, tudo o que se baseia meramente em convenção ou tradição é para nós, modernos, preconceito. Assim ocorre com os gêneros artísticos. Entretanto, nem tudo é arte. Existem também a vida prática, a ciência, a filosofia, a tecnologia, a moral, a política, a religião... E a tentativa de reduzir tudo à mesma coisa (como confundir religião e política, ciência e religião, política e ciência, moral e religião etc.) não apenas não é racional, mas é nociva. Ela só se justificaria se essas distinções fossem meros produtos da convenção ou da tradição. Mas não é assim. Essas distinções são também racionais. Enquanto, por exemplo, num poema, um enunciado funciona como um objeto estético, de modo que, enquanto poema, ele não cumpre nenhuma função prática (que importa, para quem lê “No meio do caminho” se algum dia houve realmente uma pedra no caminho de Drummond?), fora da poesia os enunciados normalmente funcionam como atos que cumprem funções práticas, tais como interrogar, ordenar, agradecer, informar, orientar, afirmar etc. Assim, dizer que filosofia e poesia são a mesma coisa é ou bem atribuir funções práticas à poesia (o que atenta contra a autonomia da arte que aqui defendo, de modo que, a meu ver, prejudica a poesia) ou bem retirar as funções práticas – cognitivas e racionais – da filosofia (o que conduz ao irracionalismo e incorre em autocontradição performativa, pois a afirmação de que a filosofia não é capaz de conhecer coisa alguma, sendo de natureza filosófica, nega a sua própria pretensão cognitiva).
CULT - Diferentemente do que se passa com a literatura, em que, apesar da insularidade do português, o Brasil possui obras de indisputável valor e reconhecimento internacional (como as de Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector), parece não haver uma produção filosófica original no Brasil. Muniz Sodré argumenta que uma tal originalidade estaria numa certa “historiosofia” brasileira, que incluiria as obras de Gilberto Freyre, Sergio Buarque, etc. O que você pensa a respeito?
AC - Penso que toda filosofia é pensamento, mas nem todo pensamento – nem mesmo todo pensamento profundo – é filosofia. Temos grandes pensadores nas áreas das artes, da literatura, da história etc., mas não devemos escamotear as nossas fraquezas: o fato é que não ainda não temos uma tradição filosófica e devemos nos esforçar para construí-la.
CULT - Você pratica a filosofia, o poema e a letra de música; como é a convivência desses três registros díspares na sua produção? Em algum momento é uma relação conturbada? Há alguma dessas práticas que lhe dá maior prazer? Você se sente mais filósofo, mais poeta, mais letrista - ou não existe essa espécie de centro?
AC - A relação é muitas vezes conturbada, porque cada uma dessas coisas exige o meu tempo, e este é cada vez mais escasso. A prática que me dá maior prazer é a de fazer um poema. E é a que exige mais de mim. A de filosofia, porém, é mais urgente, porque representa uma intervenção, em última análise, política, no mundo. É como se eu tivesse obrigação moral de dizer o que penso ter compreendido através do pensamento filosófico. A prática de fazer letra de música é diferente porque, no meu caso, ela só pode ser feita com um parceiro. Considero-me privilegiado por ter parceiros que são meus amigos e que admiro imensamente, como Marina Lima, Adriana Calcanhotto, João Bosco, Lulu Santos, Orlando Moraes. Mas é claro que não tenho tanta liberdade quanto quando escrevo um poema, já que a letra é feita para fazer parte de uma canção. Por um lado, é um trabalho mais fácil, porque a melodia e as idéias do próprio parceiro sobre a canção a ser feita podem ajudar a desencadear o processo de composição; por outro lado, é mais difícil, justamente por envolver outra pessoa. Quanto a me considerar mais isto ou aquilo, considero-me poeta, em primeiro lugar.
CULT - Assim como há, para você, uma diferença fundamental entre poesia e filosofia, há também quanto ao poema e a letra de música? Quando você escreve um poema ou uma letra, são técnicas distintas que estão em jogo?
AC - A principal diferença é, naturalmente, que a letra é heterotélica (tem seu fim fora de si, na canção), enquanto o poema é autotélico (tem seu fim em si próprio). As técnicas são diferentes porque, normalmente, faço uma letra para uma melodia já existente. Por um lado, levo em conta o clima geral da melodia, que me sugere logo algumas idéias; por outro lado, essa melodia funciona como uma forma fixa, que me obriga a determinada métrica, determinado ritmo etc. O que importa, quando faço uma letra, é que ela contribua para a produção de uma grande canção, e não que seja um grande poema.
CULT - Sua poesia é clara, nítida, você trabalha muitas vezes com formas fixas, é um admirador declarado do poeta latino Horácio, lê grego antigo e até homérico; pode-se dizer que, sem prejuízo de sua contemporaneidade, Antonio Cicero é um poeta clássico?
AC - Na verdade, sou a última pessoa a querer qualificar a minha produção poética, pois entendo as qualificações como restritivas. No caso de “clássico”, um outro problema me inibiria: é que entendo a palavra no sentido definido por Naphta, personagem de A montanha mágica, de Thomas Mann. Segundo ele, clássico é o ponto em que uma idéia chega à sua culminância. Nesse sentido, seria até cabotino que eu me chamasse de clássico. Por outro lado, mesmo não me qualificando de clássico, é verdade que amo a literatura e as línguas clássicas, que não considero estrangeiras, mas nossas. Acho que latim e grego deviam voltar a fazer parte do currículo primário.
CULT - Você estudou lógica em sua formação filosófica, tem em Kant talvez sua principal referência filosófica e define-se como um racionalista liberal. A política mundial, entretanto, está polarizada por fundamentalismos religiosos e ameaçada por populistas obtusos com ideologias retrógradas. Você acha que o mundo está se tornando cada vez mais irracional?
AC - Em certo sentido, sim. Mas penso que o irracionalismo contemporâneo é principalmente uma reação às possibilidades de liberdade que o mundo contemporâneo oferece. Por medo da sociedade aberta, busca-se refúgio em comunidades fechadas, como as religiosas. E uma sociedade é tanto mais fechada quanto mais irracional, pois a racionalidade é, em princípio, aberta e universal. É um equívoco pensar que exista um conflito entre o Ocidente, ou os valores do Ocidente e os valores islâmicos, por exemplo. O conflito que há é entre a modernidade (que não é ocidental ou oriental, mas universal) e a pré- ou anti-modernidade, que pode ser muçulmana, cristã (como no sul dos Estados Unidos) etc. Dentro dos Estados Unidos mesmos, esse conflito é muito grave. Com o governo Bush, uma parcela relativamente pequena, porém totalmente inescrupulosa da burguesia norte-americana, sob a liderança das corporações petrolíferas e armamentistas, e aliada às maiores cadeias de televisão, rádio e da imprensa do país, procura destruir os fundamentos da sociedade aberta e os direitos individuais, e promover o obscurantismo religioso, como caminho para a instauração de um governo plutocrático descarado e cínico. Tentam, por exemplo, arruinar o sistema de checks and balances que mantinha separados os poderes executivo, legislativo e judiciário. Este último está sendo objeto de uma campanha de desmoralização tremenda, posta em prática pelo governo Bush e pela imprensa de direita. Para cumprir sua agenda anti-moderna, o governo Bush tem como aliados objetivos os terroristas muçulmanos. Não acredito em inevitabilidade histórica. Até pouco tempo, era senso comum na esquerda que os democratas e republicanos eram farinha do mesmo saco. Hoje, é claro que a diferença entre o governo Clinton e o governo Bush não poderia ser maior. Penso que a racionalidade – como a ciência – tende a se impor porque ela é o chão onde se quebram as ilusões que acabam por cair, pois, ao contrário destas, ela não é nada de particular ou contingente, mas algo de universal e necessário; entretanto, não é impossível que os irracionalistas consigam destruir o mundo.
CULT - Você afirma que “o paradoxo do Brasil está em, sendo capaz de oferecer a prefiguração da solução de alguns problemas que poucos países conseguem efetivamente enfrentar, não ter conseguido efetivamente enfrentar alguns problemas que muitos outros países já resolveram total ou parcialmente”. Você acha que, quanto a este paradoxo, o Brasil mudou nesses últimos anos de economia mais estável e consolidação da democracia?
AC - Acho que tem melhorado, mas muito lentamente.
CULT - Como você avalia o governo Lula? Você votou nele nas últimas eleições? Pretende votar na de agora?
AC - O PT tinha tornado o governo Fernando Henrique quase inoperante, fazendo incessantemente denúncias incomprovadas porém paralisantes, e bloqueando todas as reformas que se faziam necessárias e que, ao chegar ao poder, o próprio Lula tentaria realizar. Era a política do “quanto pior, melhor”. Indignado com essa política, que prejudicava o Brasil como um todo, votei no Serra, no primeiro turno. Depois, comecei a achar que, se o Serra ganhasse o segundo turno, haveria uma radicalização imensa no PT, pois ganhariam força os militantes que, acusando a democracia de ser puramente formal, e alegando que “as elites brasileiras” jamais deixariam um operário chegar a ser presidente, queriam, no fundo, promover uma guerra civil. Além disso, seria ainda mais difícil para o Serra governar do que havia sido para o FH.
Pareceu-me então, primeiro, que a experiência de ter um presidente de origem operária seria realmente importante para consolidar a democracia brasileira; segundo, que a sua vitória enfraqueceria essas correntes anti-legalistas no interior do PT; terceiro, que ele teria maior capacidade de governar do que o Serra. Votei, então, no Lula.
Quanto ao governo dele, tenho sentimentos contraditórios. Não posso senão aplaudir o fato de que ele tenha conseguido, segundo todas as pesquisas, reduzir significativamente – embora ainda pouco – a pobreza e a desigualdade social no Brasil. Aplaudo também o fato de que ele tenha conseguido fazer isso sem abrir mão de continuar a controlar a inflação. Para mim, isso é muito importante, pois sou de uma geração que conheceu o horror da inflação descontrolada.
Por outro lado, é claro que fiquei indignado com o mensalão. Quero crer, porém, que ele foi concebido principalmente por membros daquela corrente do PT que despreza a democracia formal e que me parece ter saído enfraquecida com esse episódio.
Quanto às próximas eleições, eu talvez votasse no Serra, se ele fosse candidato; mas não voto no Alkmin, cujas ligações com a Igreja Católica não são claras, para mim. Convencido de que os pontos positivos do governo Lula são maiores do que os negativos, vou provavelmente votar nele. A única coisa que me deixa receoso é essa idéia golpista de convocar uma constituinte. Acho que ele devia publicamente voltar atrás, nessa questão. Tenho horror à idéia de uma democracia plebiscitária, isto é, de uma ditadura da maioria. Não devemos nos esquecer de que as ditaduras de Mussolini, de Hitler, de Stalin e de Pol Pot eram apoiadas pela maioria, logo, nesse sentido, “democráticas”. A razão nem sempre está com a maioria: pode estar até com um homem só. Por isso, o que é realmente imprescindível numa democracia não são as eleições nem o governo da maioria, mas o império da lei, a abertura da sociedade, os direitos civis, a liberdade e a pluralidade da imprensa.
CULT - O que você acha do Estatuto de Igualdade Racial?
AC - Sou inteiramente contra. Não há raças humanas. Os norte-americanos brancos racionalizaram e oficializaram o seu racismo com base na crença nas ficções que são as raças biológicas. Os próprios movimentos anti-racistas americanos acreditaram nessas ficções e nelas se basearam. Por isso, pensam que o racismo é um fenômeno universal, e que negar que ele exista seja uma forma mais insidiosa de praticá-lo. Aqui, nunca se acreditou propriamente em raça. Reconhecemos apenas diferenças epidérmicas entre as pessoas. Por isso, as raças nunca foram oficializadas, o que é bom; e isso facilitou a miscigenação, o que tornou ainda mais inaplicável o conceito de raça. Como eu digo no meu ensaio “Brasil feito brasa”, no Brasil, ao contrário do que se dá nos Estados Unidos, a exceção é o negro, o branco ou o índio que se considere "puro". Pode dizer-se que, aqui, cada ser humano parece resultar de uma combinação singular de características de cada uma dessas e de outras raças. Longe de significar homogeneização racial, isso sugere que, no limite, cada brasileiro tende a ser a expressão de uma raça individual. Esse oximoro exprime o fato de que, através não da redução, mas da multiplicação das diferenças, entrevê-se no Brasil, a longo prazo, a pulverização -- ou melhor, a dissolução -- racial. Devemos fazer campanhas anti-racistas, não com base na ficção da existência de raças, mas, ao contrário, na demonstração de que crer em tais ficções não é coisa digna de uma pessoa inteligente. Mas, principalmente, devemos promover a eliminação de qualquer pretensão racista, através do aprofundamento das políticas que contribuam para reduzir as desigualdades sociais – que, estas sim, são inteiramente reais – e através de investimentos maciços que, efetivamente, universalizem o acesso a uma educação elementar e média de qualidade.
15. Fale sobre o seu novo livro de poemas.
Diferentemente dos outros, comecei esse livro com um título, que no entanto, talvez seja modificado: Prova. É que esse foi o título do primeiro poema que escrevi para ele. Também diferentemente dos outros, fiz um projeto para esse livro, de modo a poder solicitar a Bolsa Vitae, para escrevê-lo. De fato, felizmente, fui contemplado com essa bolsa, sem a qual não creio que tivesse podido terminá-lo tão cedo. O livro me parece ter ficado muito diferente dos outros, mas não sei dizer bem em que sentido. Não planejei essa diferença. Não sou de planejar. Gosto de deixar o poema se descobrir para mim e de tratar o acaso como se fosse o destino. Mas o fato é que eles foram ficando diferentes. Alguns, por exemplo, são mais longos do que o que era normal para mim. Alguns são mais narrativos. Não dá para falar muito, porque, sinceramente, não sei bem falar sobre os meus próprios poemas.
Assinar:
Postagens (Atom)