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12.1.21

Weydson Barros Leal: "PARA JOSÉ MARIO PEREIRA"

 



PARA JOSÉ MARIO PEREIRA



No futuro, 

no silêncio de uma biblioteca de vozes

que ainda não sabemos nomear, 

um homem descobrirá que no Brasil - no tempo 

das pestes que inquietavam a ciência - 

um outro homem lia e gravava poemas

como uma cura fugaz. 

Terá sido um estranho ofício, pensará 

o descobridor, não fosse o alento 

que aqueles poemas podiam levar

ao seu redor antigo. 

No silêncio desse leitor de vozes, 

uma palavra restará guardada 

como uma incompreensão, 

e por um instante algo daquilo 

renovará a humanidade. 








LEAL, Weydson Barros. "PARA JOSÉ MARIO PEREIRA". 

11.2.15

Weydson Barros Leal: "O outro"




O outro

Algo em nós
nos
une e
nos invade.

Não sei
o que conta
nesse espelho
que nos
cabe.

Algo em nós
é uma ponte
ou uma
parte.

Algo em nós
é o outro
lado
que sabe.



LEAL, Weydson Barros. "O outro". In:_____. Os dias. Rio de Janeiro: Topbooks, 2014.

17.11.09

Weydson Barros Leal: "A praia"




A praia


Naquele tempo, o amor era um rio vertical
quando o corpo o bebia como uma boca marinha.
Os relógios não sabiam que suas espadas
contavam os mortos de cada farol, de cada
promessa, e que o tempo era só essa miragem -
a sede adiada da verdade. Ela perguntava:
"Você me ama ainda?", e tudo tremia
como um mapa de areia num barco de sal,
como um fogo esquecido na gruta do mar.
Às vezes, dizia: "Você nunca amou ninguém,
não sabe que o amor é uma coisa viva..."
Mas não via que o amor era o naufrágio
que alcançara a mesma praia
onde agora explodia a tempestade.



LEAL, Weydson Barros. A quarta cruz. Rio de Janeiro: Topbooks, 2009.

16.1.09

Weydson Barros Leal: "A ponte da Boa Vista, Recife"

.


A ponte da Boa Vista, Recife

Esta ponte não se curva
ante o império do rio:
seus braços de ferro
se erguem como trilhos
na partida de um trem subindo aos céus.

De longe,
a ausência do arco
une um lado a outro lado —
trança de espelhos
que no espaço se inscreve.

Grade que guarda o passeio —
gaiola aberta
peneirando a paisagem —
da Rua Nova à Imperatriz,
a menor distancia é a sua passagem.

Ponte das gentes, dos carros,
da visão de imensas flores:
gare de um céu que nos invade.



De: LEAL, Weydson Barros. "A ponte da Boa Vista, Recife" In: Poesia Sempre, nº 28, ano 15 /2008.