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4.9.22

João Cabral de Melo Neto: "As nuvens"

 



As nuvens


As nuvens são cabelos

crescendo como rios;

são os gestos brancos

da cantora muda;


são estátuas em voo

à beira de um mar;

a flora e a fauna leves

de países de vento;


são o olho pintado

escorrendo imóvel;

a mulher que se debruça

nas varandas do sono;


são a morte (a espera da)

atrás dos olhos fechados;

a medicina, branca!

nossos dias brancos.





MELO NETO, João Cabral de. "As nuvens". In: GULLAR, Ferreira (org.). O prazer do poema. Uma antologia pessoal. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

19.9.21

João Cabral de Melo Neto: "Autocrítica"

 



Autocrítica


Só duas coisas conseguiram

(des)feri-lo até a poesia:

o Pernambuco de onde veio

e o aonde foi, a Andaluzia.

Um, o vacinou do falar rico

e deu-lhe a outra, fêmea e viva,

desafio demente: em verso 

dar a ver Sertão e Sevilha.






MELO NETO, João Cabral de. "Autocrítica". In:_____. "A escola das facas".  In: Poesia completa. Org. por Antonio Carlos Secchin. Lisboa: Glaciar, 2014.

13.7.14

João Cabral de Melo Neto: trecho de "O sim contra o sim"




O sim contra o sim

[...]
________________________

Miró sentia a mão direita
demasiado sábia
e que de saber tanto
já não podia inventar nada.

Quis então que desaprendesse
o muito que aprendera,
a fim de reencontrar
a linha ainda fresca da esquerda.

Pois que ela não pôde, ele pôs-se
a desenhar com esta
até que, se operando,
no braço direito ele a enxerta.

A esquerda (se não se é canhoto)
é mão sem habilidade:
reaprende a cada linha,
cada instante, a recomeçar-se.

Mondrian, também, da mão direita
andava desgostado;
não por ser ela sábia:
porque, sendo sábia, era fácil.

Assim, não a trocou de braço:
queria-a mais honesta
e por isso enxertou
outras mais sábias dentro dela.

Fez-se enxertar réguas, esquadros
e outros utensílios
para obrigar a mão
a abandonar todo improviso.

Assim foi que ele, à mão direita,
impôs tal disciplina:
fazer o que sabia
como se o aprendesse ainda.
______________________________

[...]


MELO NETO, João Cabral de. "Serial". In:_____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.





15.4.14

João Cabral de Melo Neto: "A rima..."






A rima é algo necessário. Valéry me convenceu de que, para se criar algo, é necessário um esforço. Um obstáculo diante do ser o obriga a muito mais esforço e faz com que ele atinja o seu extremo. Para mim, a rima é uma necessidade que precisa se impor.



MELO NETO, João Cabral de. In: ATHAYDE, Félix de. Ideias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: FBN - UMC - Nova Fronteira, 1998.

28.10.12

Aderbal Freire Filho: programa "Arte do Artista", da TV Brasil, com participação dos poetas Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz





Eis o programa da TV Brasil "Arte do Artista", dirigido e estrelado por Aderbal Freire Filho, de que, a convite dele, participamos eu e Eucanaã Ferraz:


16.3.12

João Cabral de Melo Neto: "Catar feijão"




Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
jogam-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na da folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com risco.


MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995.

29.10.10

Entrevista à Sibila

Está no ar a entrevista "A poesia não nasce das regras", que dei aos poetas Luis Dolhnikoff e Régis Bonvicino, da revista Sibila. O endereço é: http://www.sibila.com.br/index.php/critica/1338-a-poesia-nao-nasce-das-regras.

23.1.10

Eucanaã Ferraz no Maria Antonia




Nos “Encontros de Férias”, que estão tendo lugar no Centro Universitário Maria Antonia, da USP, o poeta EUCANAÃ FERRAZ estará, na próxima semana, de terça, dia 26, a quinta-feira, dia 28, das 20h às 22h30, orientando o curso VINICIUS DE MORAES E JOÃO CABRAL: O SIM CONTRA O SIM

O curso será sobre as particularidades das escritas de Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto, através de um exame sucinto do conjunto de suas obras, desenvolvidas com base em diferentes linhagens do modernismo. Partindo das características mais conhecidas de sua produção, o lirismo de Vinicius e a objetividade antilírica de Cabral, o curso evidencia um diálogo insuspeitado entre suas poéticas, definidoras de caminhos singulares para a poesia brasileira.

Programa

26 de janeiro
O modernismo depois do modernismo
dois passos iniciais: a religiosidade de Vinicius e o surrealismo de João Cabral. A técnica do verso livre trabalhada em diferentes direções.

27 de janeiro
Dos céus à “nuvem civil”
do fechamento místico ao humanismo solidário (Vinicius); do isolamento surrealista à ética coletiva e à política (Cabral). A forma como controle da emoção: métricas e rimas no soneto e na quadra.

28 de janeiro
O coração e a pedra
lirismo versus antilirismo, confissão versus construção. O experimentalismo de Vinicius e a subjetividade de Cabral: sinais trocados? A presença de suas obras na historiografia literária e suas contribuições para a poesia contemporânea.


Eucanaã Ferraz é poeta e professor de literatura brasileira da UFRJ. Publicou, entre outros, os livros de poemas Rua do mundo (2004) e Cinemateca (2008), o volume Vinicius de Moraes (2006), na coleção Folha Explica, e é um dos organizadores de Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (2004).

Vinicius de Moraes e João Cabral: o sim contra o sim
com Eucanaã Ferraz
26, 27 e 28 de janeiro
terça a quinta, 20 às 22h30
R$ 170

Inscrições
Centro Universitário Maria Antonia – 3° andar – sala de cursos
segunda a sexta das 10h às 18h

Informações
3255-7182 – ramal 32 e 33 – cursosma@usp.br

29.7.09

Eucanaã Ferraz: Curso no POP: "Bandeira, Drummond, Vinícius, Cabral: Poesia brasileira em quatro tempos"

.






Curso iniciando no dia 05 de agosto
Inscrições pelo tel. (21) 2286-3299 ou pelo site
www.polodepensamento.com.br

Propondo como principal exercício a leitura interpretativa de poemas, o curso investigará as principais vertentes, temas e procedimentos formais que definem as obras de quatro grandes poetas: Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes e João Cabral de Melo Neto. Da vasta fortuna crítica desses autores, serão enfocadas algumas abordagens consideradas essenciais para uma visão de conjunto ou para o entendimento de determinados aspectos.

4 aulas às quartas-feiras, das 19h30 às 21h30

05 de agosto
Manuel Bandeira – Os primeiros livros e a estética neo-simbolista. O diálogo com os vanguardistas de 22, especialmente Mário de Andrade e Oswald de Andrade. A infância como fonte de poesia. A simplicidade e o acabamento formal. A busca do essencial.

12 de agosto
Carlos Drummond de Andrade – Da inadaptação do sujeito poético à dimensão político-social de A rosa do povo. A emoção e seu contraponto: o humour. Minas e a “viagem na família”. Experimentação e metalinguagem. O amor, o erotismo, a grande cidade.

19 de agosto
Vinicius de Moraes – Os primeiros livros: religiosidade e transcendência mística. A busca por uma poesia terrena e solidária. Do verso-livre à metrificação e ao soneto. O amor e a mulher - do poema à cancão. Outros Vinicius: a morte e o grotesco.

26 de agosto
João Cabral de Melo Neto – do surrealismo à engenharia. Lirismo e antilirismo. As relações entre a poesia e a arquitetura moderna: máquinas de comover. Poesia e sociedade. Paisagens: Pernambuco e Sevilha.

Eucanaã Ferraz é professor de Literatura Brasileira na Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde se doutorou. Organizou, entre outros, de Caetano Veloso, Letra Só (2002) e O mundo não é chato, de Vinicius de Moraes, Poesia completa e prosa (2004) e a antologia Veneno antimonotonia (2005). Também é poeta, e publicou, entre outros títulos, Desassombro (2001), Rua do mundo (2004) e Cinemateca (2008).


POP-Pólo de Pensamento Contemporâneo
Rua Conde Afonso Celso, 103 - Jardim Botânico - CEP 22461-060
Tel. (21) 2286-3299 e 2286-3682

O POP - Polo de Pensamento Contemporâneo é um espaço de estudos, discussão e convívio, onde se realizam cursos, oficinas, palestras e eventos culturais.

17.5.09

Os perigos da espontaneidade

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 16 de maio.


Os perigos da espontaneidade

TANTO O poeta francês Paul Valéry quanto o nosso João Cabral de Melo Neto, que costumava citar o primeiro, desconfiavam de que tudo o que lhes chegasse espontaneamente, à maneira de inspiração, era eco de alguma coisa que houvessem lido, ouvido ou percebido de alguma maneira. Por isso, só confiavam no que resultasse de um trabalho rigoroso, que eliminasse tudo o que fosse alheio.

Concordo com isso. Na verdade, acho que há, sem dúvida, no próprio João Cabral, algo que não vem do trabalho e que poderia ser chamado de "inspiração". Entretanto, parece-me que ela ocorre principalmente durante o próprio trabalho, que, pondo o poeta ante problemas imprevisíveis, exige dele uma extraordinária abertura e receptividade para o aproveitamento criativo daquilo que o acaso, o inconsciente, o inesperado, enfim, oferecem. Como diz Heráclito, "aquele que não espera o inesperado não o encontra".

De todo modo, há poucos dias uma experiência me confirmou o fato de que muito do que nos vem espontaneamente não passa de eco. Ao escrever um verbete intitulado "Verso" para a revista "Serrote", falei, em determinado momento, do recurso poético chamado "enjambement" ou "cavalgamento" (a palavra francesa é tão mais usada entre nós do que a portuguesa que acabo de notar que meu corretor ortográfico marca esta como errada, e não aquela). Trata-se, como bem o define o "Aurélio", do "processo poético de pôr no verso seguinte uma ou mais palavras que completem o sentido do verso anterior". O exemplo aureliano são os belos versos de Camões:

Debaixo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.

Os poetas modernos usam mais o enjambement do que os clássicos. De fato, com o verso livre, a importância expressiva do enjambement aumentou. Querendo dar um exemplo disso, lembrei logo de alguns versos de um livro que iluminou minha adolescência, "A Rosa do Povo", de Carlos Drummond de Andrade, mestre absoluto do enjambement. Do poema "Consideração do Poema", por exemplo, lembrei dos seguintes:

Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakóvski.

O final do verso exige uma pausa na apreensão do poema pelo leitor. O primeiro verso parece conter um pensamento completo. Entretanto, o enjambement faz com que a sentença, não coincidindo com o verso, termine no verso seguinte: "chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus Maiakóvski".

Nesse poema, Drummond pretende estar sem-cerimoniosamente a pedir, aos poetas que admira, elementos com os quais compor seus próprios poemas. A Neruda ele pede a gravata. Ocorre que a gravata, fazendo um laço em torno do pescoço de quem a usa, é um item formal e convencional do vestuário masculino. Assim, metaforicamente, a gravata seria uma forma convencional que tornaria o poema um tanto preso, mas "composto", no sentido de socialmente aceitável. Uma forma fixa às vezes não passa disso. Contudo, a palavra "chamejante", do verso seguinte, muda tudo. Uma gravata chamejante já é o oposto de uma convenção: trata-se da convenção em chamas, e lembra a gravata amarela, usada provocativamente pelo poeta revolucionário Maiakóvski, cujo nome é a última palavra do verso.

Esse exemplo era bom, mas uma inspiração súbita, como uma lufada de ar, trouxe-me à mente outro, ainda melhor. Refiro aos versos de "A Flor e a Náusea" que dizem:

Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.

Aqui, evidentemente, enquanto o primeiro verso diz algo que parece motivo de felicidade, o segundo nos faz cair na realidade, transfigurando o sentido do primeiro verso para uma espécie de sonho passageiro. Esse efeito poético do enjambement não poderia ser obtido em prosa.

Incluí esse exemplo no verbete e me dei por satisfeito. Tinha sido um grande achado. Pois bem, ontem, tentando pôr em ordem os papéis que imprimo diariamente, seja de textos meus, seja de outros, tomei um susto quando me deparei com uma página de um artigo que eu havia recebido por e-mail no ano passado, em que exatamente esses dois versos eram citados como exemplo de enjambement.

Trata-se do ensaio "Do Começo ao Fim do Poema", do poeta Alberto Pucheu. Na época, eu não tinha tido tempo de o ler de cabo a rabo, de modo que o guardara para depois. Mas aquilo era coincidência demais. Com certeza eu tinha passado os olhos por aquele exemplo de enjambement e ele me ficara na cabeça. E mais uma vez me dei conta de como Cabral e Valéry tinham razão de desconfiar de tudo o que chega espontaneamente.

8.3.09

Vanguarda e fetiche

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 7 de março:


Vanguarda e fetiche


DE MANEIRA geral, as teses vanguardistas são verdadeiras na medida em que abrem caminhos, e falsas na medida em que os fecham. João Cabral de Melo Neto, por exemplo, julgava inferior a poesia que falasse "de coisas já poéticas", pois acreditava que a poesia devia procurar "elevar o não-poético à categoria de poético".

Essas teses se tornaram dogmas entre muitos jovens poetas. Ora, para começo de conversa, é questionável a tentativa de tomar a temática de uma obra de arte como base para pronunciar juízos estéticos sobre ela.

Tais teses não são verdadeiras senão pela metade. No caso mencionado, são verdadeiras porquanto afirmam que a poesia não precisa falar de coisas já poéticas; por outro lado, porquanto implicam proibir a poesia de falar de coisas já poéticas, são falsas.

Afinal, o que é uma coisa já poética senão uma coisa de que a poesia já falou ou de que já falou muito? E por que não poderia um poeta fazer excelente poesia ao falar de algo de que muitos outros poetas já tenham falado? Então Goethe não deveria ter escrito a sua obra-prima porque já houvera, antes dele, não sei quantos "Faustos"?

Jamais um grande poeta temeu abordar pela enésima vez um tema poético (Fausto, Ulisses, Orfeu, Narciso, a brevidade da vida, a juventude, a velhice, o sol, a noite, o amor, a saudade, a beleza etc.). Ele o aborda e é capaz de fazê-lo como se ninguém antes o tivesse feito: como se não fosse um tema poético. Só o poeta fraco quer fazer algo tão "novo" que não possa ser comparado com o que os grandes mestres do passado já fizeram. O poeta forte, longe de temer tal comparação, provoca-a.

É claro que ao que afirmar que os poetas fortes não temem tema algum, não tenho a menor intenção de insinuar que Cabral seja um poeta fraco. Cabral não temia coisa alguma: ele estava apenas, de acordo com o ethos vanguardista, proscrevendo aquilo que pensava haver superado.

Ao se opor aos temas poéticos tradicionais, Cabral estava reagindo contra preconceitos arraigados que haviam sido usados para desclassificar a sua própria produção poética. Sérgio Buarque de Hollanda relata que Domingos Carvalho da Silva, por exemplo, membro do grupo conhecido como Geração de 45, ao qual o próprio Cabral havia pertencido, "decretara que o bom verso não contém esdrúxulas (apesar de Camões), que a palavra "fruta" deve ser desterrada da poesia, em favor de "fruto", e a palavra "cachorro" igualmente abolida, em proveito de "cão'; e mais, que o oceano Pacífico (adeus Melville e Gauguin!) não é nada poético, bem ao oposto do que sucede com seu vizinho, o oceano Índico".

Ora, já na primeira estrofe de "Cão sem Plumas", João Cabral infringe dois desses tabus: "A cidade é passada pelo rio / como uma rua / é passada por um cachorro; / uma fruta / por uma espada".

O que ocorre é que se, antes do modernismo, determinadas formas haviam sido fetichizadas, isto é, se a elas (por exemplo, às rimas) atribuíam-se determinados poderes, o legado da vanguarda foi a desfetichização dessas formas tradicionais.

Mencionei um poeta que atribui às palavras "fruto", "cão" e "Oceano Índico" certa virtus poética da qual as palavras "fruta", "cachorro" e "Oceano Pacífico" são carentes. Ora, ao desencantar as formas encantadas, a vanguarda mostrou que na poesia ou no poético não existe prêt-à-porter à disposição do poeta, nestas ou naquelas formas fixas ou rimas ou metros ou palavras.

Inversamente, mostrou também que a poesia não é necessariamente incompatível com nenhuma forma determinada. Isso implica o reconhecimento de que a poesia se encontra somente em obras singulares, onde é o produto de uma combinação imprevisível e irreproduzível de fatores que não podem ser definidos a priori.

Mas essa descoberta é o resultado final da atividade das vanguardas: é o que ficou depois que elas terminaram o seu trabalho, isto é, depois que percorreram o caminho que nos trouxe da pré-modernidade à modernidade plena.

Esse caminho, porém, não foi uma linha reta. A história nunca é assim. Antes de desfetichizar as formas tradicionais, a vanguarda as manteve fetichizadas, porém inverteu o valor desse feitiço.

Se tradicionalmente as formas convencionais haviam sido as únicas formas admissíveis na poesia, a vanguarda passou a tomá-las como as únicas formas inadmissíveis na poesia. Foi assim que Cabral proscreveu justamente os temas tradicionalmente poéticos.

11.1.09

O poeta João Brossa no Brasil

O seguinte artigo – que consiste numa adaptação do relato que fiz para o Diário Catarinense da vinda do poeta Joan Brossa ao Brasil – foi publicado na minha coluna da Folha de São Paulo sábado, 10 de janeiro de 2009.


O poeta Joan Brossa no Brasil

EM DEZEMBRO de 1992, ao ser apresentado a Helena Severo, que no mês seguinte assumiria a Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, sugeri-lhe que, em vez de promover apenas shows internacionais de rock, a prefeitura apoiasse também ciclos internacionais de palestras sobre filosofia, arte, literatura etc.

Tendo gostado da ideia, ela me pediu que desenvolvesse um projeto nesse sentido, coisa que foi logo noticiada pela imprensa. Pouco tempo depois, recebi um telefonema de Ana Lúcia Magalhães Pinto, que dirigia a programação cultural do Banco Nacional, dizendo que havia lido a matéria nos jornais e que o Banco Nacional estava disposto a financiar essa iniciativa.

Convidei o poeta Waly Salomão para trabalhar comigo. Na época, João Cabral era amplamente considerado o maior poeta vivo do Brasil. Como Waly e eu o admirávamos imensamente, pensamos logo em incluí-lo no primeiro ciclo.

O nome de João nos lembrou o do seu velho amigo, Joan Brossa, com cuja obra havíamos nos familiarizado pouco tempo antes. Sabíamos que Cabral, quando cônsul em Barcelona, no final da década de 40 e no começo da de 50, havia influenciado um importante grupo de jovens artistas e poetas de Barcelona, inclusive Brossa. Lembramo-nos também de outro "João", o grande poeta americano John Ashbery. Como nos parecia que o mais difícil de tudo seria conseguir a participação do nosso Cabral, que a essa altura andava bastante recluso, começamos pelos outros. Enviamos cartas para Brossa e Ashbery, que concordaram em nos receber, e fomos pessoalmente persuadi-los a vir ao Brasil.

Quando chegamos, na hora marcada, ao edifício em que Brossa morava, em Barcelona, tocamos a campainha várias vezes, inutilmente. Ninguém respondeu ao interfone nem veio abrir a porta. Não havia porteiro. Ligamos de um telefone público para o seu apartamento, mas quem atendeu foi uma secretária eletrônica. Dissemos que estávamos ali, à porta, e nada. Desconfiamos que podia haver algum engano no endereço e indagamos por Brossa aos garçons de um bar, na esquina. Jamais tinham ouvido falar dele. Disseram-nos que por ali havia, de fato, vivido um poeta, alguns anos atrás, mas que já morrera. Sentimos-nos mergulhados em pleno surrealismo catalão. Pela última vez, ligamos para o número de Brossa e falamos com a secretária eletrônica. Usando toda a sua capacidade dramática, Waly apelou para o sentimentalismo: havíamos atravessado o oceano Atlântico, dois pobres poetas, só para encontrar o grande Joan Brossa. Que desolação voltar para casa sem ao menos trocar duas palavras com o nosso ídolo!

Já estávamos realmente a ir embora, quando percebemos, à porta do edifício dele, uma senhora. Sem jamais a ter visto antes, Waly correu a abraçá-la, e ela abriu os braços para acolhê-lo. Lembrei-me de uma cena do filme soviético "Quando Voam as Cegonhas". Essa senhora era a esposa de Brossa. Este estava arrependido de ter consentido em nos receber. Ela, porém, não tendo resistido ao rompante sentimental de Waly, decidira que, querendo ou não, seu marido nos receberia.

Quando lá chegamos, Brossa foi cordial, mas firme: não havia questão de vir ao Brasil, pois se sentia descentrado até quando ia de trem a Valencia (a meia hora de Barcelona). De todo modo, continuamos a conversar. Falamos dos poemas visuais dele, falamos de João Cabral, que ele adorava, falamos do mundo em geral. Em duas horas, ficamos amigos, despedimo-nos e fomos embora, conformados. Que fazer? Procurar outro poeta.

Mal chegamos ao hotel e tocava o telefone: Brossa já estava de malas prontas para vir ao Brasil conosco. Felicíssimos, explicamos a ele que o encontro não era naquela semana, mas dali a três meses.

Depois de Brossa, foi relativamente fácil conseguir Ashbery e Cabral. A noite dos três poetas no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio foi extraordinária. Todos eles disseram coisas surpreendentes e memoráveis. Mas vou descrever apenas a última coisa da noite, que foi a performance poética de Brossa.

Ele havia trazido um tinteiro e uma pena de avestruz. Molhou a pena no tinteiro e saiu do palco, ostensivamente, para escrever alguma coisa. Voltou, molhou novamente a pena e saiu. Fez isso mais uma vez, e trouxe dos bastidores um envelope fechado. Escolheu uma moça bonita na plateia -por acaso era a Renata Sorrah-, entregou-lhe o envelope e lhe pediu que o abrisse dali a três minutos. Os três minutos pareceram três horas. Ao abrir a carta, viu-se que nela estava escrito: FIM.

16.11.08

João Cabral e o verso livre

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 15 de novembro:



João Cabral e o verso livre

Em 1953, o poeta João Cabral de Melo Neto declarou em entrevista a seu colega, Vinícius de Moraes: “Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria para mim como banir a poesia do mundo moderno”.

Trinta e cinco anos depois, em 1988, ele afirmava a Mário César Carvalho que “uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele corno se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil”.

Como se explica tal inconsistência? Teria João Cabral mudado radicalmente de idéia sobre esse assunto? Certamente houve uma mudança. Creio, porém, que, por trás de uma mudança apenas superficial, encontra-se a profunda coerência da sua concepção de poesia.

Cabral costumava dividir os poetas em dois grupos. O primeiro é o daqueles para quem tudo o que não é espontâneo – logo, tudo o que dá trabalho, tudo o que é difícil – é falso. O segundo, no qual ele mesmo se colocava, é o daqueles para quem tudo o que é espontâneo – logo, tudo o que dispensa o trabalho, tudo o que é fácil – é falso. Para ele, o fácil e espontâneo jamais passava de eco ou repetição inconsciente de vozes alheias. Como se verá, tanto ao defender o verso livre em 1953 quanto ao atacá-lo, em 1988, ele estava tomando posição contra o fácil, espontâneo e repetitivo, e a favor do difícil, trabalhoso e único em poesia.

“O poeta”, disse Cabral uma vez em entrevista a Arnaldo Jabor, “é aquele que nunca aprende a escrever”. Poderíamos também dizer que o poeta é aquele que está sempre aprendendo a escrever. Nas palavras do famoso “O lutador”, de Drummond: “Lutar com palavras / É a luta mais vã. / Entanto lutamos / Mal rompe a manhã”. O poeta luta para dar forma a um poema, isto é, a um objeto estético memorável – ou seja, a um objeto que mereça existir em virtude de seus próprios méritos, independentemente de servir ou não servir para nada ulterior – feito de palavras.

A predileção pelo fácil e espontâneo pode manifestar-se de dois modos. Em primeiro lugar, ela pode manifestar-se como o desprezo por todo trabalho e toda técnica. A “poesia” fica assim reduzida à facilidade de uma expressão pessoal em que a língua é usada, não para dar forma a um objeto de palavras, mas para dizer alguma coisa. Assim, ela exprime, espelha ou repete a vida cotidiana. Não ocorre a luta com as palavras ou a produção de um objeto estético memorável.

Em segundo lugar, a predileção pelo fácil, espontâneo e repetitivo também se manifesta como o artesanato da escrita tradicional de versos. Através de estudo e exercício, o versejador é capaz de adquirir destreza em, entre outras coisas, escrever redondilhas ou decassílabos, rimar versos, compor em formas fixas etc. Com a prática, ele aprende, por exemplo, a improvisar sonetos adequados às mais diversas ocasiões. Para o versejador que atingiu mestria em determinadas técnicas, nada parece mais fácil ou espontâneo do que fazer um “poema”, através da repetição do que é convencionalmente “poético”. Tampouco nesse caso ocorre a luta com as palavras ou a produção de um objeto estético memorável.

No fundo, o problema de Cabral era evitar todo tipo de facilidade, e não, ao contrário do que as duas citações do início deste artigo possam ter levado a crer, opor-se ao verso metrificado ou ao verso livre. Cabral achou um modo próprio de driblar tanto a facilidade dos versos livres e sem rimas quanto a facilidade do uso convencional das técnicas tradicionais. Quando jovem, ele usava versos livres, mas de um modo que – como uma vez explicou a Carlos Carvalhosa – lhe desse tanto trabalho quanto como se fosse metrificado. Mais tarde, passou a usar métrica, mas procurando evitar os ritmos associados a ela; e, embora empregasse rimas, não as fazia perfeitas, mas toantes. Naturalmente, tais soluções foram úteis para ele, mas não são universalizáveis. Elas indicam, entretanto, que, na prática, ele não estava tão preocupado em rejeitar nem procedimentos tradicionais nem procedimentos experimentais, e que seria capaz de usar uns ou outros, na medida em que aumentassem, e não na medida em que aliviassem, a dificuldade do seu trabalho.

Frente às tendências contemporâneas a dissolver e diluir a poesia e a arte, talvez os poetas – e os artistas em geral – devam refletir sobre essas idéias de Cabral. Longe de rejeitar toda regra ou de apelar a regras que facilitem a elaboração ou a recepção da obra, será talvez mais produtivo que o artista imponha a si mesmo determinadas condições – pouco importa se por ele inventadas ou se tomadas de empréstimo à tradição – que, dificultando o seu trabalho, tomem-lhe mais tempo e exijam dele um maior esforço de pensamento, elaboração e criatividade.

11.10.08

João Cabral sobre o verso livre: em 1953 e 35 anos depois

João Cabral em 1953:

Acho o verso livre uma aquisição fabulosa e que é bobagem qualquer tentativa de volta às formas preestabelecidas. Abrir mão das aquisições da poesia moderna seria para mim como banir a poesia do mundo moderno. Pois a verdade é que a realidade presente é rica demais para caber nessas formas hoje requintadas e artificiais das épocas de estabilidade cultural.
Isso não se aplica, é claro, às formas da poesia popular que usam a métrica e a rima com absoluta liberdade, sem transformá-las em condição essencial e ponto de partida da criação poética.

(Entrevista a Vinícius de Moraes, Manchete, Rio de Janeiro, 27 de junho de 1953)


João Cabral em 1988:

(...) Uma das coisas fatais da poesia foi o verso livre. No tempo em que você tinha que metrificar e rimar, você tinha que trabalhar seu texto. Desde o momento em que existe o verso livre, todo o mundo acha de descrever a dor de corno dele corno se fosse um poema. No tempo da poesia metrificada e rimada, você tinha que trabalhar e tirava o inútil.

(Entrevista a Mário César Carvalho, Folha de S,Paulo, Folha Ilustrada, São Paulo, 24 de maio de 1988)



De: CABRAL de MELO NETO, J. ATHAÍDE, F. (Org.) Idéias fixas de João Cabral de Melo Neto. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

16.3.08

A visita a Cabral

Héber Sales pergunta como foi que convencemos João Cabral a participar do encontro do Banco Nacional de Idéias. Não foi tão difícil fazê-lo porque contávamos com dois trunfos. O primeiro era exatamente que seu grande amigo, Joan Brossa, já havia concordado em vir. O segundo era que Waly e eu tínhamos uma amiga em comum com Cabral: a Susana Moraes. Esta marcou uma visita de nós três ao poeta pernambucano, no apartamento dele, no bairro do Flamengo, no Rio. Cabral gostava muito de Susana. Não só ele a conhecia como a filha de seu querido Vinícius, quando ela era ainda uma menina, mas, no final da década de cinquenta, haviam ficado realmente amigos em Marseilles, no sul da França, em cujo consulado brasileiro tanto ele quanto o primeiro marido dela, Rodolfo Souza Dantas, serviam como diplomatas.

A visita foi uma delícia. Cabral estava proibido de beber, mas nos serviu whisky e, de vez em quando, escondido de Marly de Oliveira, sua mulher, dava uma bicada no copo da Susana. Ele estava muito alegre e nos contou várias histórias sobre o jovem Brossa. Narrava-as com muito humor, mas com o rosto sério. Ria por dentro. Uma das histórias ainda me faz pensar. Certa vez, ele e Brossa vinham pela rua, conversando, quando, sem mais nem menos, o poeta catalão começou a falar de modo desarticulado e a fazer gestos amalucados. Cabral só entendeu o que se passava quando percebeu que os avós de Brossa se aproximavam. É que este, embora já não fosse criança, continuava a ser sustentado por eles, que o consideravam deficiente mental: e ele fazia tudo para mantê-los nessa convicção.

Além de agradabilíssima, a visita, felizmente, foi um sucesso, pois Cabral concordou em participar do encontro.

11.3.08

Ashbery, Cabral e Brossa no MAM do Rio



Na foto de cima, a partir da esquerda, Waly Salomão, John Ashbery, João Cabral, Joan Brossa e eu, no encontro do Banco Nacional de Idéias, no MAM, em 1993. Na de baixo, Brossa saíu para fazer a sua performance.


Meu contato com Joan Brossa

Em 1993, Waly Salomão e eu trouxemos o poeta catalão Joan Brossa ao Brasil, para participar de uma mesa redonda com o poeta norte-americano John Ashbery e o brasileiro João Cabral de Melo Neto. Na semana passada, Victor da Rosa, mestrando em literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina, pediu-me que lhe enviasse, para publicar no suplemento cultural do jornal Diário Catarinense, um breve depoimento pessoal sobre meu contato com Brossa. Enviei-lhe o seguinte texto, publicado em 8 de março:

Em outubro de 1992, participei, com Waly Salomão, Luciano Figueiredo e Júlio Bressane, de uma mesa-redonda em Barcelona, por ocasião da inauguração da exposição da obra de Hélio Oticica na Fundação Antoni Tàpies. Lá mesmo vi, fiquei entusiasmado e comprei o catálogo de uma exposição, que havia tido lugar em Valencia, de poemas visuais de Joan Brossa. O texto de apresentação desse catálogo, de Victoria Combalía, menciona a importância de João Cabral de Melo Neto – que havia sido cônsul em Barcelona no final da década de 40 e no começo da de 50 – para Brossa, assim como para um grupo de jovens artistas e poetas de Barcelona. O próprio Tàpies, que havia sido um desses artistas, contou-nos várias histórias dessa época.

De volta ao Brasil, em dezembro, ao ser apresentado a Helena Severo, que havia sido nomeada secretária de Cultura do recém-eleito prefeito do Rio, Cesar Maia, sugeri que ela organizasse ciclos internacionais de conferências sobre literatura, arte e filosofia, que poderiam se intitular “Enciclopédia da Virada do Século/Milênio”. Para minha surpresa, dois dias depois ela declarava aos jornais que me convidaria para organizar os ciclos que eu lhe havia proposto. Dito e feito. Aceitei o convite e, poucas semanas depois, Ana Lúcia Magalhães Pinto, que dirigia a programação cultural do Banco Nacional, telefonou-me dizendo que havia lido a matéria nos jornais e que o Banco Nacional estava disposto a apoiar essa iniciativa, cujo nome então mudou para “Banco Nacional de Idéias”.

Chamei Waly para trabalhar junto comigo. Na época, João Cabral era sem dúvida o maior poeta brasileiro vivo. Como Waly e eu o admirávamos imensamente, pensamos logo em incluí-lo no primeiro ciclo que organizássemos. O nome de João nos lembrou seu velho amigo, Joan Brossa. Lembrei-me também de outro “João”, o grande poeta americano John Ashbery. Como nos parecia que o mais difícil de tudo seria conseguir a participação do nosso Cabral, que a essa altura andava bastante recluso, começamos pelos outros. Enviamos cartas para Brossa e Ashbery, que concordaram em nos receber, e viajamos para persuadi-los pessoalmente a vir ao Brasil.

Quando chegamos, na hora marcada, ao edifício em que Brossa morava, em Barcelona, tocamos a campainha várias vezes, inutilmente. Ninguém respondeu ao interfone nem veio abrir a porta. Não havia porteiro. Ligamos de um telefone público para o seu apartamento, mas quem atendeu foi uma secretária eletrônica. Dissemos que estávamos ali, à porta, e nada. Desconfiamos que podia haver algum erro no endereço, e indagamos por Brossa aos garçons de um bar, na esquina. Jamais tinham ouvido falar dele. Disseram-nos que por ali havia, de fato, vivido um poeta, alguns anos atrás, mas que já morrera. Sentimos-nos mergulhados em pleno surrealismo catalão. Pela última vez, ligamos para o número de Brossa e falamos com a secretária eletrônica. Usando toda a sua capacidade dramática, Waly apelou para o sentimentalismo: havíamos atravessado o oceano Atlântico, dois pobres poetas, só para encontrar o grande Joan Brossa. Que desolação voltar para casa sem ao menos trocar duas palavras com o nosso ídolo!

Já estávamos realmente a ir embora, quando percebemos, à porta do edifício dele, uma senhora. Sem jamais a ter visto antes, Waly correu a abraçá-la, e ela abriu os braços para acolhê-lo. Lembrei-me de uma cena do filme soviético “Quando voam as cegonhas”. Essa senhora era a esposa de Brossa. Este estava arrependido de ter consentido em nos receber. Ela, porém, não tendo resistido ao rompante sentimental de Waly, decidira que, querendo ou não, ele nos receberia.

Quando lá chegamos, Brossa foi logo cordial, mas firme: não havia questão de vir ao Brasil, pois se sentia descentrado até quando ia de trem a Valencia (a meia hora de Barcelona). De todo modo, continuamos a conversar. Falamos dos poemas visuais dele, falamos de João Cabral, que ele adorava, falamos do mundo em geral. Em duas horas, ficamos amigos, despedimo-nos e fomos embora, conformados. Que fazer? Procurar outro poeta. Mal chegamos ao hotel e tocava o telefone: Brossa já estava de malas prontas para vir ao Brasil conosco. Felicíssimos, explicamos a ele que o encontro não era naquela semana, mas dali a três meses.

Depois de Brossa, foi relativamente fácil conseguir Ashbery e Cabral. A noite dos três poetas no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio foi extraordinária. Todos eles falaram coisas surpreendentes e memoráveis. Mas vou descrever apenas a performance poética feita por Brossa. Ele havia trazido um tinteiro e uma pena de pato. Molhou a pena no tinteiro e saiu do palco, ostensivamente para escrever alguma coisa. Voltou, molhou novamente a pena e saiu. Fez isso mais uma vez, e trouxe dos bastidores um envelope fechado. Escolheu uma moça bonita na platéia – por acaso era a Renata Sorrah – entregou-lhe o envelope e lhe pediu que o abrisse dali a três minutos. Os três minutos pareceram três horas. Ao abrir a carta, estava escrito: FIM.

3.3.08

João Cabral de Melo Neto: Poema

O poema de Sá de Miranda, que começa com “O sol é grande [...]” lembrou-me o Soneto da maioridade, de Vinícius de Moraes, que aqui postei em 01/05/2007, que começa com os magníficos versos “O Sol, que pelas ruas da cidade / Revela as marcas do viver humano”, e me lembrou também o seguinte poema de João Cabral:




POEMA

Trouxe o sol à poesia
mas como trazê-lo ao dia?

No papel mineral
qualquer geometria
fecunda a pura flora
que o pensamento cria.

Mas à floresta de gestos
que nos povoa o dia,
esse sol de palavra
é natureza fria.

Ora, no rosto que, grave,
riso súbito abria,
no andar decidido
que os longes media,

na calma segurança
de quem tudo sabia,
no contato das coisas
que apenas coisas via,

nova espécie de sol
eu, sem contar, descobria:
não a claridade imóvel
da praia ao meio-dia,

de aérea arquitetura
ou de pura poesia:
mas o oculto calor
que as coisas todas cria.



De: CABRAL de MELO NETO, João. “Museu de tudo”. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p.414.

26.1.08

João Cabral de Melo Neto: O ovo de galinha

João Cabral de Melo Neto


O ovo de galinha

I

Ao olho mostra a integridade
de uma coisa num bloco, um ovo.
Numa só matéria, unitária,
maciçamente ovo, num todo.

Sem possuir um dentro e um fora,
tal como as pedras, sem miolo:
é só miolo: o dentro e o fora
integralmente no contorno.

No entanto, se ao olho se mostra
unânime em si mesmo, um ovo,
a mão que o sopesa descobre
que nele há algo suspeitoso:

que seu peso não é o das pedras,
inanimado, frio, goro;
que o seu é um peso morno, túmido,
um peso que é vivo e não morto.

II

O ovo revela o acabamento
a toda mão que o acaricia,
daquelas coisas torneadas
num trabalho de toda a vida.

E que se encontra também noutras
que entretanto mão não fabrica:
nos corais, nos seixos rolados
e em tantas coisas esculpidas

cujas formas simples são obra
de mil inacabáveis lixas
usadas por mãos escultoras
escondidas na água, na brisa.

No entretanto, o ovo, e apesar
de pura forma concluída,
não se situa no final:
está no ponto de partida.

III

A presença de qualquer ovo,
até se a mão não lhe faz nada,
possui o dom de provocar
certa reserva em qualquer sala.

O que é difícil de entender
se se pensa na forma clara
que tem um ovo, e na franqueza
de sua parede caiada.

A reserva que um ovo inspira
é de espécie bastante rara:
é a que se sente ante um revólver
e não se sente ante uma bala.

É a que se sente ante essas coisas
que conservando outras guardadas
ameaçam mais com disparar
do que com a coisa que disparam.

IV

Na manipulação de um ovo
um ritual sempre se observa:
há um jeito recolhido e meio
religioso em quem o leva.

Se pode pretender que o jeito
de quem qualquer ovo carrega
vem da atenção normal de quem
conduz uma coisa repleta.

O ovo porém está fechado
em sua arquitetura hermética
e quem o carrega, sabendo-o,
prossegue na atitude regra:

procede ainda da maneira
entre medrosa e circunspeta,
quase beata, de quem tem
nas mãos a chama de uma vela.



De: MELO NETO, João Cabral de. "Serial (1959-1961)". In: Obra completa. Nova Aguilar. 1995. p.302-304.

14.3.07

João Cabral sobre Theodor Adorno

Gosto muito do que, a partir de uma pergunta de Luiz Costa Lima, João Cabral -- no número a ele dedicado dos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, em 1996 -- declarou sobre Theodor Adorno. Não concordo, porém, com o que ele diz sobre Rilke. Terá realmente havido, no século XX, algum poeta maior do que o autor dos Neue Gedichte? Duvido. Mas eis o trecho a que me refiro:

Luiz Costa Lima: Infere-se do que Theodor Adorno declarou certa vez que, depois de Auschwitz, se tornou extremamente difícil escrever um poema (sua formulação por sinal era muito mais contundente). Você concorda que o mundo atual tornou difícil ou mesmo impõe uma prática distinta da tradição que se desenrola, digamos, de Petrarca a Rilke?

João Cabral: Não. Cada poeta reflete sua época. O mundo não parou depois de Rilke. Existem muitos poetas maiores que Rilke depois dele.

Marly de Oliveira: A propósito desta pergunta, você não teria algo a acrescentar a respeito da colocação de Adorno?

João Cabral:A afirmação do Adorno é uma boutade, porque o mundo não se detém e sempre foi violento. A poesia nasceu muito mais da infelicidade que da felicidade. Depois da Primeira Guerra houve grandes escritores, desde Valéry até os surrealistas.