Mostrando postagens com marcador Inês Pedrosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Inês Pedrosa. Mostrar todas as postagens

26.9.20

Jorge de Sousa Braga: "Poema de amor"

 



Poema de amor


Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno

e quase ia morrendo com o receio de que ele não

te coubesse no dedo.




BRAGA, Jorge de Sousa. "Poema de amor". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005.


17.2.20

Inês Pedrosa: "Escrever num tempo de barbárie"


Um amigo me enviou o link para uma entrevista em que, em determinado ponto, a grande escritora portuguesa Inês Pedrosa me elogia. Claro que fiquei orgulhosíssimo! Mas juro que não foi por causa do elogio, mas sim porque toda a entrevista é muito brilhante, que resolvi aqui colocar aqui o tal link. O entrevistador é Álvaro Alves de Faria e a entrevista foi publicada pela Revista Caliban. Eis o link:

8.3.17

Inês Pedrosa: "Porque não há nada em vez de tudo?"


Publico a seguir o belo texto da conferência que a grande romancista portuguesa Inês Pedrosa pronunciou no festival literário Correntes d'Escritas em 25 de fevereiro do corrente ano. 




Tema da mesa: “Por que não há nada em vez de tudo?”
  
          O que é tudo? O que é nada? O que é em vez de? Vivemos, como assinalou Milan Kundera, no planeta da inexperiência: as nossas vidas são um rascunho contínuo, que um dia acaba. Poucos conseguem verdadeiramente fazer da certeza da morte a ciência da vida. Viver cada dia como se fosse o ultimo seria demasiado triste. Mas viver cada dia como o dia único que de facto é far-nos-ia sentir muito mais felizes do que, em geral, sabemos ser. A espécie humana é biologicamente desejante. Lembro-me daquela criança que atroava o café com a sua birra. Perguntavam-lhe o que queria: um sumo, um refrigerante, um leite com chocolate, uma água. A tudo a criança dizia que não, cada vez mais desesperada. Acabou por se explicar, gritando: «Eu quero uma coisa que não haja!».
          Todos somos aquele menino filósofo. Todos queremos uma coisa que não haja em vez das múltiplas coisas que existem. E se tivéssemos tido a sorte genética da Nicole Kidman ou do Marcelo Mastroianni? E se tivéssemos o talento e a riqueza de Tolstoi? E se eu tivesse nascido homem num país rico? O “e se” é, por si só, um tesouro, se conseguirmos apontá-lo para o futuro particular e não para o passado genérico: e se eu escrevesse um romance que captasse o não-dito do meu tempo? E se eu valorizasse o amor que tenho? E se eu fizesse alguma coisa pelos que sofrem ao meu lado? E se eu me dedicasse a corrigir uma injustiça concreta? E se eu deitasse para o lixo todos os sentimentos comparativos e me concentrasse em ser apenas, num superlativo solitário, o melhor que posso ser?    
          Os estrangeiros em turismo dizem que nos falta, demasiadas vezes, a capacidade de dar valor ao que há. Queixamo-nos quando chove, porque está frio, e quando faz sol, porque o calor é excessivo. Nunca estamos bem, e parece que esse apego ao mal-estar faz parte de nós. No entanto, raras vezes nos ocorre aproveitar essa incomodidade permanente para ir à procura de qualquer coisa que ainda não haja. Imobilizamo-nos a olhar para o que há, nas mãos de outros – e tornamo-nos estátuas falantes do ressentimento. Em alguns casos, esfolamo-nos niponicamente a trabalhar para conseguir aumentar aquilo que há – é a isso que, em geral, se chama ambição. E o que fazemos ao sonho das coisas que não há? Espero que nunca cheguemos à anorexia onírica das japonesas solteiras que passam o ano a trabalhar para gozarem a semana de férias a que têm direito nos bailes de Janeiro em Viena de Áustria, nos braços ilusórios de fantasmáticos príncipes loiros. Há agências de viagens em Tóquio especializadas nesta espécie de sonho cinderélico, que faz as vezes de desejo. Escreveu Slavoj Zizek (em Bem-vindo ao Universo do Real!): «A traição do desejo tem um nome: felicidade.»
          Neste mundo em que o hedonismo se tornou lei, as pessoas sentem-se culpadas quando não conseguem fruir o prazer – e assim morre o desejo, motor da singularidade humana. Amália Rodrigues, que sabia de desejo pelo menos tanto como Schopenhauer ou Barthes, sintetizou em meia dúzia de versos este problema político central – porque o desejo é o gatilho erótico de todas as revoluções, pessoais ou intercontinentais. Escreveu Amália (e cito): «Já não temos fome, mãe / mas já não temos também / o desejo de a não ter / Já não sabemos sonhar / Já andamos a enganar / o desejo de morrer.»
          Os condenados dos campos da morte do nazismo reuniam-se nas infectas e geladas latrinas para sussurrarem uns aos outros textos literários. Não tinham nada a não ser esse tudo das palavras que os arredavam – mais uma hora, mais um dia – do desespero da desumanização radical. Não só não é bárbaro escrever poesia depois do Holocausto, ao contrário do que afirmou Theodor Adorno, como é cada vez mais necessário escrever e ler, ter o atrevimento de pensar tudo o tempo todo, para que não renasçam das cinzas novas formulações dessa barbárie. 
          O genocídio organizado como indústria que o nazismo promoveu é ontologicamente incomparável. Significa isto que não tem equivalências, porque fazer com que uma coisa seja equivalente a outra é integrá-la, aceitá-la como possível dentro de um determinado sistema, normalizá-la. Dizer, como disse corajosamente Hannah Arendt, que os totalitarismos se afirmam através da banalização do mal não é a mesma coisa do que instituir o mal como facto banal. Temos de aprender a distinguir, pensar cada situação no seu específico contexto para não nos deixarmos cair nas areias movediças da indignação indiferenciada. É dessas areias que nascem os monstros que anestesiam e paralisam os indignados genéricos, arrastando-os para a resignação diante do mal. A intolerância que hoje sentimos rugir resulta de uma submissão à tolerância. Quando consideramos a mutilação genital feminina ou a amputação da mão de um ladrão como actos culturalmente justificados, isto é, quando nos abstemos de agir contra a existência desses actos, resguardando-nos sob o simpático guarda-chuva da tolerância, estamos a permitir a sua continuidade, ou seja, a favorecer o princípio da intolerância. O ensaio mais fulgurante que conheço sobre estas questões comparativas, fundamentais para a compreensão do estado do mundo, é o ensaio de Antonio Cicero intitulado Da Atualidade do Conceito de Civilização, onde o filósofo afirma, e cito: «a civilização está em maior grau presente onde os direitos civis sejam formalmente reconhecidos e materialmente respeitados, e na medida em que o sejam.» A razão humana, a luz do cogito de Descartes, que se identifica com a própria capacidade de duvidar é, diz-nos Antonio Cicero, o grande fundamento civilizacional – do qual continuamos tão distantes hoje, com a nossa intolerável tolerância, como há cinco séculos, com o seu reverso, a intolerável intolerância dos nossos antepassados. Ousemos olhar para lá do nosso cercado e pensar todas as coisas como se nunca tivessem sido pensadas – só a esta acção despojada e genuinamente empenhada se pode chamar pensamento. Ousemos sair do regime tenebrosamente confortável do «tudo é relativo e nada podemos fazer» para esta outra pergunta: entre o tudo e o nada, que são a vida e a morte, o que posso eu fazer?  «Chegamos ao ponto de nos alegrarmos com uma liberdade que nasce do estéril, que vem do destruído», escreveu Ignacio de Loyola Brandão, na terrível distopia de Não Verás País Nenhum, um fantástico romance do qual a realidade se aproxima sinuosa e festivamente.     

          A criança que grita para que a deixem querer uma coisa que não haja é a musa de todos os livros, a musa de todos os desejos que circulam em nós, pedindo apenas a graça de continuar em movimento, para lá da infantil desilusão das felicidades alcançadas. Essa coisa que nos fascina porque não há pode ser um átomo ou o transporte molecular, um romance, uma música, uma pintura – mas frequentemente é apenas e só a coisa que há ou julgamos haver na mão, na cabeça, na casa dos outros. Quando confinamos o absoluto do sonho ao relativo da comparação, ele deixa de ser viagem interestelar e torna-se casebre prisional. Imagino um mundo de sonhos incomparáveis, onde as estrelas fossem elementos do céu e não adereços da crítica literária jornalística, a ambição uma corrida de cada um com os seus íntimos e inalienáveis sonhos, e o sucesso a capacidade de descobrir o novo dentro do velho conhecido, isto é, a mais perfeita das artes e aquela em que nos temos mostrado mais imperfeitos – o amor.   

Inês Pedrosa

16.9.16

Shakespeare: "T'is the time's plague" / "A tragédia deste tempo": trad. Inês Pedrosa



'T'is the time's plague when madmen lead the blind.

SHAKESPEARE, William. King Lear, act IV, scene I.


A tragédia deste tempo é que os loucos conduzem os cegos.

SHAKESPEARE, William, King Lear, act IV, scene I. In: Pedrosa, Inês (org. e trad.). As lições de vida de William Shakespeare. Alfragide: Dom Quixote, 2016.





22.4.14

Luís Miguel Nava: "Paixão"






Paixão

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais longínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.



NAVA, Luís Miguel. "Paixão". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

2.10.13

Jorge de Sousa Braga: "Poema de amor"





Poema de amor

Esta noite sonhei oferecer-te o anel de Saturno
e quase ia morrendo com o receio de que ele não
                      te coubesse no dedo.




BRAGA, Jorge de Sousa. "Poema de amor". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

5.9.11

Casimiro de Brito: "Cuidado. O amor"





Cuidado. O amor
é um pequeno animal
desprevenido, uma teia
    que se desfia
pouco a pouco. Guardo
    silêncio
para que possam ouvi-lo
    desfazer-se.



BRITO, Casimiro de. "Cuidado. O amor". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

1.4.11

Inês Pedrosa: "Bethânia e as virgens deserdadas"




O seguinte artigo da importante escritora portuguesa Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa, foi publicado ontem no jornal Estado de São Paulo:


Bethânia e as virgens deserdadas

Durante os breves dias que passei agora no Brasil, pasmei com a ferocidade da campanha contra um projeto de poesia de Maria Bethânia. O meu pasmo foi subindo de degrau em degrau a cada hora de cada um dos cinco dias e terminou num miradouro de indignação. Parece-me útil dar a ver aos brasileiros o panorama feio que os meus portugueses olhos divisaram – amo demasiado o Brasil para poder ficar fora dele mesmo quando ele me deixa fora de mim, mas temo que assim não aconteça com corações mais turísticos do que o meu.

O coro de virgens ofendidas com a verba que o Ministério da Cultura autoriza a captar para o projeto de Bethânia ( um milhão e trezentos mil reais) é patético por diversas razões, a primeira das quais é a suposição cândida de que, a não ser investido na divulgação de poesia de língua portuguesa a que Bethânia se propõe, esse dinheiro seria canalizado para escolas, hospitais e o escambau. Verdade seja que a lista dos projetos aprovados pelo Ministério da Cultura inclui muita coisa que, vista de fora, me parece o escambau. Em Portugal, a Lei do Mecenato não funciona, porque o conceito de desenvolvimento através das artes ainda não conseguiu furar a massa cinzenta dos empresários lusitanos. Por isso, os apoios à cultura saem directamente do bolso dos contribuintes, o que os torna sempre polémicos e sujeitos à conspiração das invejas organizadas – a mais eficiente organização do país.

Eu tinha a ilusão de que o Brasil não era assim – via o Brasil virado para o futuro, incompatível com o ressentimento. Ainda quero ver, porque o Brasil onde eu moro e quero cada vez mais morar é povoado por artistas que se inspiram mutuamente, estudiosos ousados, enfim, gente que não perde tempo a envenenar-se e a envenenar os outros. Pobres puritanos da moral alheia: a grana que patrocinará Bethânia nunca serviria para pagar outras coisas. Porquê? Porque Bethânia não é uma coisa qualquer. O que ela faz tem repercussão. Possui um talento e uma voz únicos. Aguentem-se.

Porque será que só o projeto de Bethânia é sujeito ao escrutínio da maledicência? Porque Bethânia é uma estrela – de fato. Enche quantas vezes quiser as maiores salas de espetáculos de Portugal, da Europa e de várias partes do mundo. Porque o Ministério da Cultura do Brasil a subsidia? Não: porque tem um percurso internacionalmente reconhecido. Como cidadã da gloriosa pátria da língua portuguesa – a única pátria em que, tal como Fernando Pessoa, me reconheço – agradeço-lhe diariamente o seu trabalho de muitas décadas em prol da poesia e dos poetas desta língua, de Pessoa a Guimarães Rosa, de Vinicius de Moraes a José Régio, de Sophia de Mello Breyner Andresen a João Cabral de Melo Neto. Se me tornei, ainda adolescente, leitora de José Régio, a ela o devo. O meu fascínio por Pessoa começou com a voz dela. E foi dela que recebi o primeiro estímulo para a descoberta da sublime literatura brasileira. Não há muitos cantores populares por esse mundo que se dediquem, de um modo contínuo, a este trabalho pioneiro e pedagógico. Penso que a visível subida do nível cultural do Brasil nas últimas décadas deve muito a Maria Bethânia. E tenho a certeza que a literatura portuguesa tem uma dívida imensa para com ela – toda a minha geração foi tocada pelos seus poetas, mesmo ou sobretudo quando, aos vinte anos, ia ouvi-la apenas para encontrar consolo para a vertigem das paixões mal sucedidas.

A 8 de Março de 2010 fui ao Rio de Janeiro para, em nome da Casa Fernando Pessoa e em parceria com o Instituto Moreira Salles, galardoar Maria Bethânia e Cleonice Berardinelli com a Ordem do Desassossego, então instituída. Quisémos que a primeira atribuição dessa Ordem fosse uma homenagem ao Brasil e a essas duas heroínas da divulgação da obra de Fernando Pessoa. Pouco depois, Bethânia foi a Portugal fazer um show e contactou-me, dizendo que queria oferecer um recital de poesia de língua portuguesa na Casa Fernando Pessoa. E ofereceu – sim, gratuitamente, escandalizem-se, oh virgens! – um espetáculo belíssimo, concebido, encenado e realizado por ela, aliando interpretação e canto, com uma inteligentíssima seleção dos maiores poetas de Portugal e do Brasil. As paredes da Casa iam estourando, tal a multidão e o deslumbramento.

Nessa ocasião, Bethânia falou-me da sua vontade de levar pelo interior do Brasil e de Portugal um conjunto de espetáculos destes, exclusivamente dedicados à poesia. Que Bethânia ou alguém próximo dela ( porque Bethânia nem sequer é praticante da religião das redes virtuais) tenha acrescentado a esse projeto a circulação dos poemas ditos na internet, parece-me uma excelente e eficaz ideia. Sim, opulentos invejosos, já há muita poesia na net – mas não dita e encenada por Bethânia. A voz e o critério dela chegam mais longe, movem mais almas – é isso que não se lhe perdoa. Caetano já o disse, numa crónica coruscante, no “Globo”. Mas eu quero repeti-lo, porque não sou irmã dela – amo-a, sim, como comecei a amá-lo a ele, desde a mais tenra juventude e sem os conhecer de parte alguma nem saber onde ficava Santo Amaro da Purificação, de onde ambos vieram, sem patrocínios nem padrinhos, para acrescentar luz e força às nossas vidas. Amo-os porque as suas vozes e os seus dons criativos me fizeram e fazem acreditar que o mundo pode ser um lugar mais belo e mais sábio. O Brasil está a dar certo porque eles – e muitos outros como eles, e uma multidão com eles – assim o quiseram. E isso só não vê quem não quer – ou não é capaz – de ver.

6.12.09

Inês Pedrosa: "Sexo oral"




Sexo oral


Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos, que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora
                                                           [os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus
                                                            [olhos.
O tempo estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na
                                                            [vitrine,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.




Inês Pedrosa
9 de julho de 2007

1.3.09

Em Portugal

Há duas semanas participei das Correntes d'Escritas, um encontro de escritores de expressão ibérica que tem lugar anualmente em Póvoa de Varzim, no norte de Portugal, a poucos quilômetros do Porto. Os brasileiros eram, além de mim, Adriana Lisboa, Amílcar Bettega, Daniel Galera, Eucanaã Ferraz, Ivan Juqueira, João Paulo Cuenca, Ledo Ivo, Luiz Antonio de Assis Brasil, Luis Fernando Veríssimo e Moacyr Scliar. “Dias lindos, pouco frio, e não envergonhamos a pátria”, como resumiu Veríssimo na sua coluna de O Globo.

Tanto em Póvoa quanto, depois, em Lisboa, lancei a edição portuguesa do meu ensaio filosófico O mundo desde o fim. Tenho a impressão de que os livros de filosofia conseguem realizar a proeza de vender ainda menos que os de poesia. Por essa e outras razões, sou muito grato aos meus editores – tanto ao brasileiro quanto ao português – por terem ousado publicar esse livro. São ambos meus queridos amigos: Carlos Leal, da editora Francisco Alves, do Rio, e Jorge Reis-Sá, da editora Quasi, de Vila Nova de Famalicão.

Em Lisboa, meu livro foi lançado na mesma ocasião em que Eucanaã Ferraz lançou o seu Cinemateca, também pela Quasi. O poeta Gastão Cruz apresentou o livro de Eucanaã e a escritora Inês Pedrosa, diretora da Casa Fernando Pessoa, onde se deu o lançamento, o meu.

Esses lançamentos de Lisboa foram a primeira realização do Projeto Transatlântica. Promovido pela Casa Fernando Pessoa em conjunto com a jornalista e guionista Beth Ritto, Transatlântica se propõe a “revelar talentos e promover a troca de informações entre artistas, escritores, produtores, artistas plásticos, cineastas, designers, editores, jornalistas, gente que vive, cria e transforma a realidade através da cultura e suas várias interpretações. Transatlântica é uma mostra itinerante sobre o que acontece de melhor e mais criativo na produção cultural do Brasil e Portugal”.

A seguir publico uma crônica de Inês Pedrosa – publicada no Expresso, de Lisboa, em 25 de fevereiro de 2009 – que captura muito bem o espírito das Correntes d’Escrita. Além disso, como Inês é uma grande escritora, são muito importantes para mim as palavras generosas com as quais, nessa mesma crônica, ela recomenda o meu livro O mundo desde o fim.


O milagre das "Correntes d'Escritas"

A ideia de que a cultura é um ornamento, um luxo que serve estatutos e vaidades, tem sido um acelerador das crises económicas em Portugal. Não só desta, que tem a vantagem de ser de importação - a malta não tem culpa, o poderoso mundo global e capitalista é que fez esta maldade. A modernidade é indissociável da consciência da crise - e o fulgurante filósofo que é Antonio Cicero prova-nos ("O mundo desde o fim", ensaio imperdível, edição Quasi) que estamos ainda e sempre na modernidade - os pós-modernismos são publicidade mal informada.

As "Correntes d'Escritas", festival anual de literatura ibero-americana realizado na Póvoa de Varzim, têm vindo a ser definidas como um "milagre" pela extraordinária mobilização de públicos que alcançam. Este ano, de 11 a 14 de Fevereiro, celebraram a sua décima edição com um número impressionante de participantes (128) - e um sucesso de público estrondoso. As sessões, no auditório municipal (300 lugares) estavam sempre abarrotadas - com gente de pé, ou enchendo as escadas - fosse às 10h30 ou às 22 horas. E o que se passava nessas sessões? Conversas ou palestras em torno de livros, do que nos move para os livros, do que encontramos neles. Simplesmente isto: escritores falando de livros - e veio gente de muitas partes do país para assistir a estas conversas, para ouvir os escritores que já conhece dos livros, ou para conhecer novos escritores. Que tipo de gente? Leitores. De várias idades e escalões sociais. Ao lado do auditório, uma livraria sempre cheia, onde muitos livros também esgotaram rapidamente.

Nem sempre foi assim: nos primeiros anos, o auditório não enchia. Mas os poucos que vinham gostavam tanto que passaram a palavra. E a organização foi mobilizando a população local, os professores, as escolas.

Poetas como os brasileiros Antonio Cicero e Eucanaã Ferraz regressavam, este ano, das sessões nas escolas (que as "Correntes" sempre promovem) surpreendidos com a qualidade das perguntas dos alunos, que, de facto, conheciam as suas obras. Na Póvoa não acontece essa vergonha, tão habitual, de um escritor ser convidado a falar perante uma turma que nunca leu um livro seu - apenas se limitou a imprimir a biografia do convidado da Internet. A única maneira de entusiasmar os jovens pela leitura é dar-lhes os livros a ler. Ajudá-los a descobrir o sentido de cada palavra. Demasiadas vezes, o escritor descobre, no local, que apenas está ali para encher o programa de actividades escolares - um nome para dourar um relatório. É contra esta concepção de cultura, postiça, decorativa, abusadora, que se desenham iniciativas como as "Correntes d'Escritas". A partir do trabalho insano, da carolice e do amor aos livros de alguns.

A Manuela Ribeiro e o Francisco Guedes, que são a alma criadora das "Correntes", trabalharam com persistência - essa persistência que tanto tem faltado, nos últimos anos, a nível governamental, no investimento cultural em Portugal. Não adianta fazer grandes eventos sem sequência, foguetórios frágeis - mas a política cultural oficial tem-se resumido a isso: na melhor das hipóteses, uma inconsequência de conferências tonitruantes, de esclarecidos para esclarecidos, uma confirmação interpares das excelências mútuas. O esforço de internacionalização da cultura portuguesa que na segunda metade da década de noventa se fez, com Manuel Maria Carrilho como ministro da Cultura, não teve continuidade - o que significa que morreu. O que as "Correntes d'Escritas" vieram demonstrar é que os livros, a literatura, são contagiosos - e mudam, de facto, a vida das pessoas. De todas as maneiras: dos encontros nas "Correntes" nasceram, pelo menos, dois casamentos. A música do mar azul e bravo, irrompendo pelas varandas do hotel que alberga o evento, é uma fonte de inesgotáveis inspirações.

Os milagres tecem-se de uma constelação de vontades, um sentido do encontro feito da atenção aos pormenores, de modo a que cada um se sinta, simultaneamente, acolhido e livre. É esse o segredo das "Correntes d'Escritas": criar um espaço de encontro descontraído, em que escritores, editores, jornalistas e simples leitores podem conversar sem cerimónias. As noites das "Correntes" enchem-se de histórias e risos, cumplicidades rápidas que nos darão alento para os dias futuros, para as horas de solidão em busca da palavra exacta ou de um bocado de mar que acenda o silêncio da noite.

Inês Pedrosa



In: Expresso. Lisboa, 25 de fevereiro de 2009

5.8.08

Inês Pedrosa: "O império do anticonvencional"

O seguinte artigo de Inês Pedrosa foi publicado no Expresso, de Lisboa, sábado, 2 de agosto de 2008:


O império do anticonvencional


COMO ESCUTAR o som cristalino de uma gargalhada numa sociedade que vive sob o jugo atroador do humor obrigatório? No século XIX era de bom tom exibir socialmente um tédio imenso, como uma espécie de manto de veludo que nos erguia acima dos gozos e das preocupações do comum dos mortais. É curioso observar como essa pose serve ainda de escudo visível a grupos bem definidos e opostos entre si - uma certa direita ultraconservadora, e uma certa esquerda auto-intelectualizante. Une-os uma mesma consciência atávica de superioridade. Escreve Antonio Cicero numa das suas iluminadoras crónicas, no jornal "Folha de São Paulo" (12/7/2008): "Não vejo superioridade nenhuma na pessoa cronicamente entediada. Se alguém, para parecer superior, precisa fingir estar entediada, é porque, na verdade, se sente inferior. Seu ar entediado é uma tentativa de se vingar dessa inferioridade. Por outro lado, uma pessoa que esteja sempre ou quase sempre genuinamente entediada não pode deixar de ser, em primeiro lugar, entediante: ela é entediada exactamente porque se entedia a si própria."

Porém, o espírito futurista, cibernético, arrasador, que o novo milénio impôs como moda conduziu-nos a um novo império, só aparentemente mais criativo e lúcido do que o do tédio: o do riso generalizado. Houve um tempo em que só as actrizes de telenovela diziam, quando entrevistadas, que o que mais apreciavam num homem era essa coisa indefinível e chique, adornada por uns fumos de inteligência, a que se dá o nome de "sentido de humor". Agora os homens também já perderam a vergonha de mentir (ou, até, a genuína noção de que mentem) e respondem, olhos nos olhos, que sim, a mulher ideal é a rainha do "sentido de humor" - muito embora a Scarlett Johansson continue a ter mais procura do que a Oprah Winfrey, romanticamente falando.

Subentende-se que o riso é, por si só, uma forma sofisticada de inteligência - e toda a gente se ri de tudo, o tempo inteiro. Os militantes do humor partilham com os aristocratas do tédio uma visão catastrófica do mundo - e, como bem sublinha Antonio Cicero, "o mundo é sempre o mundo contemporâneo". Tudo está mal - menos quem denuncia o mal, colocando-se assim imediatamente acima dele. "Vivemos sob o império da convenção da anticonvenção", observa o filósofo francês Alain Finkielkraut, numa entrevista em que, com a extrema lucidez que é seu timbre, analisa as causas e as consequências da ditadura do humor no Ocidente contemporâneo. Inserida num imperdível dossiê sobre o Humor na Literatura, publicado na edição de Julho-Agosto da revista "Magazine Littéraire", esta conversa alerta-nos para o adormecimento anímico a que o riso contínuo conduz - uma insensibilização progressiva, que faz do mundo uma imensa caricatura, uma realidade virtual, desumanizada, em que os sentimentos das pessoas (desde que essas pessoas sejam outras pessoas, não aquelas que estão a rir) são menosprezados. Assim, tudo o que é sério perde a seriedade - a começar pelos políticos, que são a representação exponencial do sério. O humor todo-poderoso aí está para os derreter, insultando-os, vasculhando-lhes fragilidades, truncando-lhes frases e imagens, transformando-os em bonecos de vudu - George Bush é o exemplo mais evidente deste trabalho de irrisão, e não é certamente por ser o mais acéfalo líder da Terra: que diremos, por exemplo, de Khadafi ou de Ahamadinejad? Nesses casos o humor surge embrulhado no celofane protector das "outras culturas". É contra a sua própria cultura que o actual maremoto de humor actua, num terrorismo de bombista suicida.

Finkielkraut diz-nos, por exemplo, isto: "Os anos 60 deixaram-nos uma visão das relações entre o indivíduo e o mundo, através da qual aquele exerce sem limites a sua autovalorização. A pessoa que exibe sem o menor pudor a sua vida sexual convence-se de que está a fazer qualquer coisa de extremamente corajoso. Dito de outra forma, é a ausência de lucidez sobre a sociedade actual, é a tendência à automistificação, que torna tanta gente inapta para o humor. (...) O que é incomodativo na autoficção não é apenas a mistura entre o fictício e o vivido, mas a ideia de que esta aventura, tal como a de Rousseau, nunca teve exemplo. Um autor envolvido neste empreendimento deveria, pelo contrário, ter consciência da sua banalidade. Hoje, o elogio automistificador da vivacidade do Maio de 1968 não tolera a menor mistificação. A iconoclastia de 68 adquiriu o estatuto de incontestável. Os iconoclastas transformaram-se em ícones. Quando Daniel Cohn-Bendit pede que esqueçamos o Maio de 68, fá-lo em nome de uma revolta que, precisamente, teria por vocação obedecer ao mesmo paradigma. Se esta iniciativa me inquieta, é porque a consagração da juventude acompanha a emergência e o triunfo do riso bárbaro."

Os Hugos Chávez deste mundo já perceberam, intuitivamente, o extraordinário poder do riso como estratégia de dominação. Quem ri, contínua e indiferenciadamente, não analisa nem contesta. Acresce que o riso comove, conduz à desculpa. É tempo de percebermos que este humor absolutista não tem graça nenhuma.

2.9.07

Inês Pedrosa: "Eduardo"

Sábado, 25 de agosto, faleceu um dos intelectuais mais brilhantes do nosso tempo: o português Eduardo Prado Coelho. Leio com admiração os seus textos desde quando eu estudava no Instituto de Filosofia da UFRJ. Em fevereiro do ano passado, tive o prazer e o privilégio de conhecê-lo e de conversar longamente com ele em Portugal, nas Correntes d’Escritas de Póvoa de Varzim, em Portugal. Publico a seguir a belíssima crônica que a escritora Inês Pedrosa lhe dedicou em sua coluna do jornal Expresso, ontem, sábado, 1 de setembro:


Eduardo

Sobre o teu caixão, um girassol aberto. Disseram-me que o gesto veio da Teresa Belo – tu terás sorrido, e o Ruy Belo floriu contigo nesse sorriso, estendendo-te a mão. Uma das tuas heranças são as amigas, várias, escolhidas a dedo – em geral, mulheres fortes, radiosas como girassóis, com as quais conversavas infinitamente de tudo e de nada. Mulheres que riem. No fundo, invejavam-te tanto esse dom de gerar e manter amizades longas com mulheres como os outros todos – a erudição, a inteligência plástica, a escrita iluminante, o sentido de humor, o prazer de viver, a capacidade de organização, a liberdade da palavra, a visibilidade. E invejavam-te descaradamente o dom da paixão retribuída, que possuías em alto grau. Uma vez, um escritor perguntou-te: «Como é que você faz para ter tanto sucesso com as mulheres quando eu, que sou um homem bonito, não consigo ter nem metade?» Ter-lhe-ás respondido, segundo me contaste: « Não sei, é de facto estranho. O melhor será perguntar-lhes a elas». Fulminante, com uma gargalhada elegantíssima. Também isso te perdoavam pouco: a gargalhada, a elegância.
As mulheres gostavam de conversar contigo porque tu sabias dançar de tema para tema, misturar o sério e o risível, o sublime e o quotidiano. Os homens ainda não são educados para deslizar assim entre os diversos níveis da existência. Tinhas uma curiosidade insaciável e genuinamente democrática: tudo te interessava. Transitavas entre pessoas e artes sem preconceitos de espécie nenhuma – estavas sempre disponível para a alegria da descoberta e do encantamento. Revelaste e estimulaste muitíssimos talentos, sem nunca adoptares a pose tutelar do pai ou do padrinho latino – antes pelo contrário, entregavas-te ao prazer de admirar, que é uma jóia rara, no nosso Portugal de hierarquias, vénias e trocas de favores.
Uma figura grada convocou-te certa vez para um encontro à chuva, e, depois de te deixar marinar bastante no meio de uma praça, lá veio dizer ao que vinha: queria que tu mexesses uns cordelinhos para que lhe atribuíssem um Prémio prestigiado e chorudo. Respondeste que nem membro do júri eras, mas a figura insistia que o teu poder de influência resolveria isso. Eu pasmava com a tua bonomia diante destes assaltos permanentes. Porque continuavas a disponibilizar a mesma atenção – nem mais, nem menos – para o trabalho das múltiplas pessoas que te tentavam usar como SOS-Promoção. Eras generoso a fundo perdido, e fazias disso a tua riqueza: o que vivias, o que conhecias, o que aprendias. Pessoalmente, invejava-te sobretudo a capacidade de esquecer as ofensas. «Não é que perdoe, é que esqueço genuinamente. Não tenho arquivo para as coisas más, o que é que eu hei-de fazer?». E tornavas a rir. Era esse talento para o esquecimento o que te impedia de envelhecer. Dizia Manuel Alberto Valente ao «Público», na bela e dolorosa edição que esse teu jornal de sempre te dedicou, que foste o grande intelectual da geração dele. O pior é que eu olho para a geração seguinte, a minha geração, e também não vejo ninguém como tu, capaz de fazer a ponte entre a universidade, as artes (todas as artes) e a vida, capaz de dar o corpo pelas causas (recordo-te muito doente, no Inverno passado, numa tarde gelada, no Rossio, recolhendo assinaturas para o movimento de cidadãos em prol da interrupção voluntária da gravidez), capaz de estar em tudo, e tão intensamente, como tu. Sendo simultaneamente, como tu eras, como tu és – porque os textos não morrem – um cintilante escritor.
Várias vezes me pareceu que aquilo que escrevias sobre obras alheias era melhor do que a obra em si. E tu, modestamente, incentivavas-me a que olhasse outra vez. Eu olhava – e, se nem sempre consegui gostar do que tu gostavas, consegui pelo menos descobrir novas dimensões e estímulos nas tuas razões. Tinhas um cânone estético bem definido, mas de forma alguma estanque – pouco te perdoavam, aliás, uma coisa e outra. E tu, nas tintas. A frontalidade foi o único traço que senti alterar-se em ti, com o tempo – em particular nos últimos anos: como se a ronda da morte te levasse a escolher palavras cada vez mais directas e límpidas. Essa liberdade paga-se, claro –há pouco tempo telefonaras-me perguntando se não me importaria de a ir ao tribunal atestar do teu bom carácter.
Creio que essa liberdade indomável te terá vedado o acesso a cargos que terias servido na perfeição – ocorrem-me vários, desde Ministro da Cultura a director de programas da RTP. As tuas incessantes ideias e o teu modo comunicante de viver teriam sido muito úteis ao país – os dez anos em que foste conselheiro cultural em Paris marcaram uma projecção exponencial da cultura portuguesa em França.
Consola-me saber que não sofreste. Que apenas adormeceste, ao lado da mulher que amavas, depois de mais um dia feliz. Sem incomodar ninguém – como era teu timbre. Se me pedissem uma definição humana para a suavidade, eu dizia o teu nome. Eduardo Prado Coelho. E continuarei a evocar o teu riso, as tuas palavras, o teu exemplo, como se rodasse um inesgotável girassol.

Inês Pedrosa

14.6.07

Inês Pedrosa: O lance do poema

Peço desculpas aos caríssimos frequentadores deste blog por não ter sido capaz, nos últimos dez dias, de fazer novas postagens ou de responder aos inúmeros comentários sobre o artigo “Poesia e filosofia”. É que, após pronunciar uma conferência em Lisboa, a convite da Fundação Gulbenkian, intitulada “Da atualidade do conceito de civilização”, fui ver amigos na França e na Bélgica, de modo que tanto me ficou escasso o tempo para escrever quanto precário o meu acesso à Internet. Espero, nos próximos dias, recuperar o tempo perdido.

Entrementes, reproduzo aqui, com muito orgulho, o artigo que a brilhante escritora portuguesa Inês Pedrosa publicou na sua coluna do jornal Expresso, de Lisboa, no dia 2 de junho.


Inês Pedrosa
O lance do poema

Pobres leitores deste rico Ocidente atulhado em bugigangas de papel disfarçadas de livros, tralha iletrada embrulhada em talha dourada: quereis saber quem sois? Quereis conhecer o fundo infinito do vosso ser sem fundo? Nos poetas o encontrareis. É para isso, e para vós, que eles trabalham. Não falo só nem particularmente dos fazedores de versos, pois há muito quem verseje sem que se veja um vero sopro que sério seja nesse versejar. Nem é de sério sisudo que falo, que os há empalados em dicionários e prontuários de arte, máquinas de regurgitar. Falo dos poetas convocados pela palavra, em prosa ou verso, ficção ou ensaio, não dos seus muitos e muito fáceis imitadores – aqueles costureiros do tempo que, com um retalho de real (uma frase de autocarro, uma linha de teoria, um alinhavo cinéfilo), mais um laivo de turismo virtual e um pó de humor de manual, fazem volume de estilistas – seja na versão compacta da feijoada paradigmática para triunfo académico ou na versão leve da salada histórica para consumo endémico.

O que é um poema? É algo para guardar. Essa foi a primeira coisa que aprendi com o brasileiro António Cícero, esplendoroso poeta
(também ensaísta, como é próprio dos poetas, sendo o ensaio a tempestade que prolonga o relâmpago do poema) da língua portuguesa – e das outras todas, porque a poesia é babélica. Só não dá por isto quem vive com o ouvido da alma curvado, por excesso de reverência para com a língua inglesa.

Explica-nos António Cícero no primeiro poema do seu livro «Guardar» ( edições Quasi, 2002): «Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não/ se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista. / Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto/ é, iluminá-la ou ser por ela iluminado./(...) Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro/ Do que pássaros sem vôos./(...) Por isso o lance do poema: / Por guardar-se o que se quer guardar». A segunda coisa que aprendi com António Cícero foi a sair. O português do Brasil possui aliás o substantivo «saideira», que não existe em Portugal, este país que sabe exilar-se mas nunca soube sair. Os poemas contêm o dom de atraírem outros poemas, como ímans, e assim me acode de repente o poema daquela científica canção de Chico Buarque chamada «Trocando em Miúdos: «Eu bato o portão sem fazer alarde/ eu levo a carteira de identidade/ uma saideira, muita saudade (...)». No último poema de «A Cidade e os Livros» (edições Quasi, 2006), Cícero escreve: «Largar o cobertor, a cama, o / medo, o terço, o quarto, largar/ toda simbologia e religião; largar o/ espírito, largar a alma, abrir a/ porta principal e sair. Esta é/ a única vida e contém inimaginável/ beleza e dor. Já o sol,/ as cores da terra e o/ ar azul – o céu do dia – /mergulharam até a próxima aurora; a/ noite está radiante e Deus não/ existe nem faz falta. (...)». Os poemas de António Cícero são vertiginosos, sábios, simples e autênticos como espelhos. São também, muitas vezes, carnalmente eruditos, viajam pelo interior do tempo para mostrar a face actual, quotidiana, de Ícaro e Dédalo e Prometeu. No prefácio de «A Cidade e os Livros» José Miguel Wisnik sublinha: « Uma dicção clássica, grega e latina, capaz de odes e nênia, acha o ponto exato da ruína eternamente contemporânea». Wisnik é, além de arguto ensaísta, um inspiradíssimo músico – actuará no próximo dia 29 na Culturgest, em Lisboa, espectáculo que recomendo vivamente. António Cícero deu ontem uma lição acerca «Da actualidade do conceito de civilização», no ciclo «O Estado do Mundo» da Fundação Gulbenkian – o melhor da cultura brasileira começa a desembarcar regularmente em Portugal.

A terceira coisa que aprendi com António Cícero foi a reivindicar o direito ao juízo de valor, e, em particular, ao juízo estético. Na introdução ao seu prodigioso volume de ensaios «Finalidades sem Fim» (edições Quasi, 2007), Cícero esclarece que tais juízos são «uma exigência da própria poesia». Utilizo aqui o adjectivo «prodigioso» com toda a sua artilharia semântica: neste espaço não cabe o desossar de um livro de 300 páginas, pelo que o adjectivo serve de exortação a que corram a comprá-lo – mesmo que não vejam a utilidade da poesia (o livro também é sobre isso), ou da música, ou da pintura, ou sequer da filosofia. Cícero tem a arte de tornar claras as coisas obscuras e de caminhar, serenamente, contra as evidências, conduzindo-nos a descobrir que «muitas vezes o óbvio é meramente o impensado» (p. 91). O seu léxico é transparente e o seu espírito uma biblioteca de Alexandria. O primeiro e o terceiro ensaios do livro – «Poesia e Paisagens Urbanas» e «O Tropicalismo e a MPB» – oferecem-nos reflexões inteligentíssimas sobre o mito da vanguarda. O segundo e o quarto – «A falange de máscaras de Waly Salomão» e «Drummond e a modernidade», dão uma surra revigorante nos dogmatismos crípticos. Os outros, girando em torno desse diamante central intitulado «Poesia e Filosofia», são investigações tão minuciosas quanto surpreendentes sobre essa finalidade sem fim que, no trilho de Kant, Cícero persegue: a beleza.