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6.9.17

António Barbosa Bacelar: "A uma ausência"



A uma ausência

Sinto-me sem sentir todo abrasado
No rigoroso fogo que me alenta;
O mal, que me consome, me sustenta;
O bem que me entretém me dá cuidado.

Ando sem me mover, falo calado,
O que mais perto vejo, se me ausenta,
E o que estou sem ver, mais me atormenta,
Alegro-me de ver-me atormentado.

Choro no mesmo ponto em que me rio,
No mor risco me anima á confiança,
Do que menos se espera estou mais certo;

Mas se de confiado desconfio,
É porque entre os receios da mudança
Ando perdido em mim como em deserto.



BACELAR, António Barbosa. "A uma ausência". In: SYLVA, Mathias Pereyra (org.). A Fénis renascida ou obras poéticas dos melhores engenhos portugueses. Ericeira: Officina de António Pedroszo Galrão, 1728.

31.12.16

António Barbosa Bacelar: "A variedade do mundo"




A variedade do mundo

Este nasce, outro morre, acolá soa
Um ribeiro que corre, aqui suave,
Um rouxinol se queixa brando e grave,
Um leão c'o rugido o monte atroa.

Aqui corre uma fera, acolá voa
C'o grãozinho na boca ao ninho, ua ave,
Um derruba o edifício, outro ergue a trave,
Um caça, outro pesca, outro enferroa.

Um nas armas se alista, outro as pendura,
Ao soberbo Ministro aquele adora,
Outro segue do Paço a sombra amada.

Este muda de amor, aquele atura.
Do bem, de que um se alegra, o outro chora.
Oh Mundo, oh sombra, oh zombaria, oh nada!



BACELAR, António Barbosa. "A variedade do mundo". In: REIS-SÀ, Jorge e LAGE, Rui (orgs.). Poemas portugueses. Antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao Séc. XXI. Porto: Porto Editora, 2009.