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10.1.23

Gastão Cruz: "O tempo a vida"

 



O TEMPO A VIDA



Não coincide o tempo com a vida

tão tarde o aprendemos


Fora dele vivida conhecemos

antes de nela entrarmos a saída


Num retrocesso intemporal vivemos

intemporal decerto é a nossa vida






CRUZ, Gastão. "O tempo a vida". In: Rua de Portugal. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.

15.7.21

Luís Miguel Nava: "Na pele"

 



Na pele



O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar

ao longo das falésias, o que sempre

me traz a exaltação desses rapazes que circulam

por Lisboa no verão.

O mar está-lhes na pele. Partilho

com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas

a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista

da pedra onde o mar vem largar a pele.





NAVA, Luís Miguel. "Na pele". In:_____. "Onde a nudez". In:_____. Poesia completa. 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa:  Publicações Dom Quixote, 2002.

1.3.21

Luís Miguel Nava: "Retrato"



retrato


A pele era o que de mais solitário havia no seu corpo.

Há quem, tendo--a metida

num cofre até às mais fundas raízes,

simule não ter pele, quando

de facto ela não está

senão um pouco atrasada em relação ao coração.

Com ele porém não era assim.

A pele ia imitando o céu como podia.

Pequena, solitária, era uma pele metida

consigo mesma e que servia

de poço, onde além de água ele procurara protecção.





NAVA, Luís Miguel. "Retrato". In:____. Poesia completa. 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa: Dom Quixote, 2002.

20.12.20

Gastão Cruz: "Leitura"

 



Leitura



Como quem liga outro

computador e ouve

um som já conhecido

tocarás o meu corpo


Só as mãos interpretam 

essa espécie de ruído

depois virão os lábios

ler o texto acendido





CRUZ, Gastão. "Leitura". In:_____. "Rua de Portugal". In:_____. Os poemas. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009.

31.12.19

Gastão Cruz: "Saio do sonho quando só da noite"




Saio do sonho quando só da noite


Saio do sonho quando só da noite
a cúpula do céu resta indecisa
cobrindo o dia como se precisa
nos espelhos da noite a noite fosse

A noite ainda guarda
o céu do dia
Na noite reflectida
é um réptil de luz a madrugada





CRUZ, Gastão. "Saio do sonho quando só da noite". In:_____. Os poemas. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009.
 

13.7.19

Gastão Cruz: "Corda"




Corda

Ninguém tem nome: apenas uma escura
corda de sons que prende o corpo e deixa
queimaduras na pele, esse é o preço
de ser nomeado porque o chamamento

de cada vez se torna mais ardente
até ser casa ou roupa ou outra pele
que fere o corpo e finalmente o veste
do nome que é o dele





CRUZ, Gastão. "Corda". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.

4.1.18

Gastão Cruz: "Chegada"


Chegada

Parece-me irreal que tenhas vindo,
quase irreconhecível: onde estava
o impossível
eco de vida, íngreme, o passado
tornado mais passado?

Parece-me real que tenhas ido
ser outro ser, distante desta praia
Reconheci-te?
A lua minguante
de agosto iluminou tua chegada.




CRUZ, Gastão. "Chegada". In:_____. Escarpas. Lisboa: Assirio & Alvim, 2010.


7.2.17

Gastão Cruz: "Ouro velho"




Ouro velho


Vou deitar-me na praia quando às três
da tarde está deserta

e o sol lembra o ouro
de outrora mas mais velho



CRUZ, Gastão. "Ouro velho". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.

9.11.16

Gastão Cruz: "Num café alta noite ao longe"



6

Num café alta noite ao longe
te revi a uma
mesa difusamente iluminada
sob a onda do escuro que era a noite
em outubro
saímos e segui-te até falarmos
dobrada a esquina duma praça
transformada
talvez já na curva da estrada



CRUZ, Gastão. "Num café alta noite ao longe". In:_____. Fogo. Porto: Assírio & Alvim, 2013.

11.9.16

Gastão Cruz: "Até tornar-se fogo"





Até tornar-se fogo

As carruagens cheias como praças
que se movem à luz geral do ensaio
repetem dia a dia a mesma viagem:

os versos partem para a humanidade
mas a humanidade para onde parte?
Sabemos as paragens em que saem

e entram os que irrompem pelo palco;
até tornar-se fogo há-de crescer
continuamente a luz mortal do ensaio




CRUZ, Gastão. "Até tornar-se fogo". In:_____. Óxido. Porto: Assírio & Alvim, 2015.



12.8.16

Gastão Cruz: "I. Há dias em que em ti talvez não pense"





I

Há dias em que em ti talvez não pense
a morte mata um pouco a memória dos vivos
é todavia claro e fotográfico o teu rosto
caído não na terra mas no fogo
e se houver dia em que não pense em ti
estarei contigo dentro do vazio





CRUZ, Gastão. "I - Há dias em que em ti talvez não pense". In:_____. Fogo. Porto: Assírio e Alvim, 2013.

20.3.16

Gastão Cruz: "Rainha da noite"




Rainha da noite


De que serve sonhar que não acabe
alguma tarde como o dia a vida

A madrugada rasga o céu do palco
nas árias da rainha suicida

Mas a noite da morte é que não abre
as veias dando o sangue a outro dia




CRUZ, Gastão. "Rainha da noite". In:_____. "O pianista". In:_____. Os poemas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.

15.7.15

Gastão Cruz: "Chegada"




Chegada

Parece-me irreal que tenhas vindo,
quase irreconhecível: onde estava
o impossível
eco de vida, íngreme, o passado
tornado mais passado?

Parece-me real que tenhas ido
ser outro ser, distante desta praia
Reconheci-te?
A lua minguante
de agosto iluminou tua chegada.



CRUZ, Gastão. "Chegada". In:_____. Escarpas. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

4.7.14

Gastão Cruz: "A colher"




A colher

Reabro uma
gaveta da infância
e encontro a colher em desuso caída
a sopa lentamente se escoando
no prato fundo:

a vida
em certos dias tinha a forma
daquele objecto antigo
tocando-me nos
lábios com um calor excessivo.



CRUZ, Gastão. "Repercussão". In:_____. Os poemas. Lisboa: Assírio e Alvim, 2009.

28.3.13

Gastão Cruz: 21: "Nas madrugdas de segunda-feira"






                       21

Nas madrugadas de segunda-feira
tinhas de regressar não sabíamos bem
a que fracção do tempo porque tudo
se sobrepunha
e éramos forçados a deter
o instante não por ser
belo, apenas por ser água
onde nunca ninguém duas vezes entraria




CRUZ, Gastão. Fogo. Porto: Assírio e Alvim, 2013.

28.11.12

Gastão Cruz: Ofício






No dia 24 do corrente, participei, no Fórum das Letras de Ouro Preto, de uma discussão com Eduardo Jardim intitulada "A poesia nasce da filosofia?", sob a mediação de Fabrício Marques. No início de sua interessante preleção, Eduardo Jardim citou o seguinte belo poema de Gastão Cruz: 



Ofício

Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe

Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe

Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.

          CRUZ, Gastão. "As palavras e as coisas". In:_____. Escarpas. Lisboa: Assírio e Alvim, 2010.

15.7.12

Gastão Cruz: "Na poesia"




Na poesia

Na poesia procuro uma casa onde o eco
existe sem o grito que todavia o gera




CRUZ, Gastão. "Rua de Portugal e outros lugares". In: Os poemas (1960-2006. Lisboa: Assírio & Alvim, 2009.

7.3.12

Gastão Cruz: "Memória"




Memória

A voz rouca da noite exprime a nossa
memória poderia dizer a
nossa história mas evito

o que possa
anular o sentido
do que procuro manter vivo




CRUZ, Gastão. Observação do verão. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.

27.1.12

Gastão Cruz: "Pedro Hestnes"





Pedro Hestnes

Passou a alguns metros de onde eu
estava; não o via
há anos e nem sei
qual a última vez que com ele falara

Não o reconheci de imediato e bastou
essa dúvida para criar um hiato
na linha dos olhares de repente cruzados
dentro da tarde; receara

decerto não ter sido por mim reconhecido
enquanto que eu não fora já a tempo
de lhe mostrar que o vira e me lembrava
do seu rosto mesmo que um pouco menos

luminoso que outrora; e um remorso
absurdo me tomou por ter perdido
esse olhar hesitante
no desconcerto breve de uma tarde



CRUZ, Gastão. Observação do verão. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.

5.1.12

Gastão Cruz: "Ramo"




Talvez eu não consiga quanto amo
ou amei teu ser dizer, talvez
como num mar que tu não vês
o meu corpo submerso seja o ramo
final que estendo já não sei a quem




CRUZ, Gastão. A moeda do tempo e outros poemas. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2009.