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17.2.20

Inês Pedrosa: "Escrever num tempo de barbárie"


Um amigo me enviou o link para uma entrevista em que, em determinado ponto, a grande escritora portuguesa Inês Pedrosa me elogia. Claro que fiquei orgulhosíssimo! Mas juro que não foi por causa do elogio, mas sim porque toda a entrevista é muito brilhante, que resolvi aqui colocar aqui o tal link. O entrevistador é Álvaro Alves de Faria e a entrevista foi publicada pela Revista Caliban. Eis o link:

28.7.18

Evando Nascimento: "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas"



Assistam ao vídeo da bela palestra pronunciada pelo escritor, pensador e professor universitário Evando Nascimento, na ABL, intitulada "Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas". Essa conferência fez parte do ciclo de conferências intitulado "Poesia e Filosofia", que concebi e coordenei no mês de julho.


24.7.18

Conferência de Evando Nascimento na ABL

A Academia Brasileira de Letras encerra o Ciclo de Conferências que, a convite da Acadêmica Ana Maria Machado, concebi para o mês de julho de 2018, com a palestra do  escritor, pensador e professor universitário Evando Nascimento. O tema escolhido foi Uma literatura pensante: Pessoa, Clarice e as plantas. Tenho certeza de que será interessantíssimo.

O evento está programado para quinta-feira, dia 26 de julho, às 17h30min, no Teatro R. Magalhães Jr., Avenida Presidente Wilson 203, Castelo, Rio de Janeiro. Entrada franca.


20.2.18

Curso "Estudos Narrativos", ministrado pelo professor William Soares



Neste primeiro semestre de 2018 o poeta e professor William Soares ministrará o curso “Estudos Narrativos” no Programa de Pós-Graduação Interdisciplinar em Linguística Aplicada da Faculdade de Letras da UFRJ. O curso será dividido em cinco módulos nos quais serão explorados elementos tais como a estrutura narrativa, a narrativa como instrumento de análise do discurso, narrativas em entrevistas, narrativas escritas e orais, narrativas como performance, narrativas em contextos diversos e o princípio narrativo em educação.
O curso acontecerá na Faculdade de Letras da UFRJ às quintas-feiras entre 09:00 e 12:30. Para mais detalhes vejam o programa abaixo:


6.12.17

José Mário Pereira: "O que é um texto literário bom?"



O que é um texto literário bom?

É aquele que se lê com agrado e que convoca à reflexão. Um bom autor maneja bem os recursos de sua língua, e dialoga ao mesmo tempo com a tradição e com os seus contemporâneos.



PEREIRA, José Mário. Entrevista à revista Cândido. Curitiba: Biblioteca Pública do Paraná, dezembro de 2017.

18.8.17

Entrevista de Antonio Cicero ao Canal Curta



O excelente Canal Curta acaba de postar no You Tube trechos de uma entrevista que fez comigo por ocasião do lançamento do meu livro mais recente, A poesia e a crítica. Ei-los:

11.2.17

Antonio Cicero: "Tzvetan Todorov libertou a literatura dos asfixiantes jogos formais"

O seguinte artigo meu foi publicado hoje em O Globo:



Tzvetan Todorov libertou a literatura dos asfixiantes jogos formais



Conheci pessoalmente Tzvetan Todorov em 1995, quando, convidado por mim e pelo poeta Waly Salomão, ele participou de um ciclo de conferências que organizamos em São Paulo. Desde então, reencontrei-o várias vezes em Paris, e trouxe-o ao Rio em 2011, para participar do ciclo de conferências “Forma e sentido contemporâneo: Poesia”, que organizei no centro cultural Oi Futuro Flamengo.

Era uma delícia conversar com Todorov, pois ele foi um dos intelectuais mais abertos a novas ideias e menos dogmáticos que conheci. Penso que isso talvez se devesse ao fato de que ele tinha intimamente conhecido o totalitarismo e sido vítima do dogmatismo. Foi certamente por isso que ele combateu, cada vez mais, aqueles que considerava os “inimigos íntimos” da democracia, como o populismo, o ultraliberalismo e o messianismo.

Mas é interessante como esse seu horror ao totalitarismo e ao dogmatismo já fica bem claro quando examinamos a evolução, ao longo de sua vida, de sua relação com a literatura.

Todorov nasceu em Sófia, na Bulgária, em 1939. Pelo menos desde 1946, isto é, quando ele tinha sete anos, a Bulgária passou a fazer parte dos países da Cortina de Ferro. 

O controle político e ideológico do Partido Comunista sobre toda a sociedade ficou então sendo total. Todorov conta que, quando entrou para a Universidade de Sófia para estudar letras, em 1956, apenas metade do que se ensinava nos cursos de literatura era erudição; a outra metade não passava de propaganda ideológica marxista-leninista.

Ao final do quinto ano de universidade, era necessário redigir uma monografia de fim de curso. Para fazê-lo sem se curvar à ideologia dominante, Todorov resolveu “abordar a própria materialidade do texto, suas formas linguísticas”, como ele mesmo veio a explicar muito mais tarde, em seu extraordinário livro “A literatura em perigo”.

Em 1963, tendo terminado seu Mestrado em Filologia pela Universidade de Sófia, ele emigrou para a França, onde estudou com Roland Barthes. Em 1965, Todorov organizou o livro “Teoria da literatura”, compilação de obras que revelou à França e, de maneira geral, ao Ocidente, a existência de uma notável escola de análise literária russa, cujos expoentes ficaram célebres como os “formalistas russos”. A partir de então, publicando obras como “Literatura e significação”, ele ficou conhecido como semiólogo e estruturalista.

Entretanto, vivendo na França, país que respeitava as liberdades individuais, de modo que o conteúdo das obras, isto é, o pensamento e os valores que elas continham não se encontravam mais “aprisionados numa coleira ideológica preestabelecida”, Todorov verificou que não tinha mais razão para se dedicar exclusivamente ao estudo da matéria verbal dos textos.

Ele pôde então considerar a totalidade forma/conteúdo de cada obra literária e criticar a tendência – produzida, em parte, exatamente pelas modas estruturalistas a que ele próprio fora associado – a reduzir os estudos literários aos métodos linguísticos e estilísticos, deixando de lado a compreensão geral dos textos e de suas relações com o mundo.

Para Todorov, todos os métodos são bons, desde que não se tornem o fim, mas apenas o meio de captar a verdade da obra. O sentido da literatura é ampliar nosso universo, apresentando-nos novas maneiras de apreender o mundo. 

Assim, diz ele, em “A literatura em perigo”, que devemos “libertar a literatura do espartilho asfixiante em que está presa, feito de jogos formais, queixas niilistas e ‘umbiguismo’ solipsista. Isso poderia, por sua vez, levar a crítica a percorrer horizontes mais amplos,  retirando-a do gueto formalista que interessa apenas a outras críticas, proporcionando a ela a abertura para o grande debate de ideias do qual participa todo conhecimento do homem”. 

5.5.12

Nicolás Gomez Dávila: de "Sucesivos escolios a un texto implícito"




Salvo nos primeiros momentos de entusiasmo revolucionário, a maioria da população, em todo país e em toda época, pertence à centro-direita.

***

A inveja costuma ser a verdadeira mola das indignações morais.

***

O público rarmente elogia um livro porque o admire, geralmente o admira porque o elogiam.



DÁVILA, Nicolás Gomez. Sucesivos escolios a un texto implícito. Barcelona: Altera, 2002.

4.3.12

Johann Wolfgang von Goethe: De "Wilhelm Meisters Wanderjahre"




Os autores mais originais dos últimos tempos são originais, não por produzirem algo novo, mas apenas porque são capazes de dizer as coisas que dizem como se elas nunca antes houvessem sido ditas.


Die originalsten Autoren der neusten Zeit sind es nicht deswegen, weil sie etwas Neues hervorbringen, sondern allein weil sie fähig sind, dergleichen Dinge zu sagen, als wenn sie vorher niemals wären gesagt gewesen.



GOETHE, Johann Wolfgang von. Wilhelm Meisters Wanderjahre. In:_____. Werke. Berlin: Direcmedia, 1998.

21.8.11

Nicolás Gómez Dávila: de "Sucesivos escolios a un texto implícito"




A ciência enriquece a inteligência; a literatura enriquece a personalidade inteira.

*

Comunicação ou expressão não são fins, mas meramente meios da obra de arte.

*

Quando apontamos alto não há público capaz de saber se acertamos.



DÁVILA, Nicolás Gómez. Sucesivos escólios a un texto implícito. Barcelona: Áltera, 2002.

8.11.09

A questão dos valores




O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, no dia 31 de outubro (sábado). Normalmente, eu o teria postado aqui no dia 1º de novembro, mas simplesmente me esqueci. Agradecendo a Flávio por me ter chamado atenção para esse esquecimento, posto-o hoje.



A questão dos valores


FALANDO DE obras literárias, a influente crítica norte-americana Barbara Herrnstein Smith afirma que "o valor de uma entidade para um sujeito individual, assim como o seu preço no mercado, é também o produto da dinâmica de um sistema econômico, especificamente da economia pessoal constituída pelas necessidades, pelos interesses e recursos – biológicos, psicológicos, materiais e empíricos – do sujeito".

Se fosse assim, dado que as necessidades, os interesses e os recursos dos indivíduos são bastante diversos, seria inadmissível afirmar simplesmente que uma obra fosse melhor e mais memorável do que outra. "Melhor e mais memorável para quem?", Herrnstein Smith perguntaria. "Com que direito considerar o poema "Os Lusíadas", digamos, melhor ou mais memorável que a canção "A Eguinha Pocotó", quando muita gente prefere esta?"

À pergunta sobre se não há juízos mais valiosos do que outros, ela responderia que também o valor do juízo ou da opinião de uma pessoa varia com as necessidades, os interesses e os recursos de cada uma das pessoas que o avaliam. "O valor -o "ser boa" ou "ser ruim'- de uma avaliação", diz ela, "como de qualquer outra coisa (inclusive qualquer outro tipo de enunciado), é ele próprio contingente, logo, não é uma questão de seu "valor-verdade" abstrato, mas da eficácia com que desempenha várias funções desejadas/desejáveis para as várias pessoas que em algum momento se envolvam concretamente com ele".

Aparentemente, Herrnstein Smith nem sequer se dá conta de que, ao dizer tais coisas, incorre em paradoxos que solapam suas próprias teses. Com efeito, aplicando-se o que ela diz a suas teses, deve-se dizer que elas não podem ter um valor-verdade "abstrato", isto é, não podem ser simplesmente verdadeiras. No máximo, têm alguma eficácia no desempenho de algumas funções desejadas/desejáveis para as várias pessoas que em algum momento se envolvam concretamente com elas.

O mais estranho é que essa atitude de desprezo em relação à verdade e a qualquer valor – atitude que poderia ao menos ter o efeito benigno de conduzi-la à humildade que lhe conviria – súbito converte-se, ao contrário, em petulância pseudocientificista e pseudodesmistificadora, às vezes bem grosseira.

Tentando, por exemplo, atacar a tese do caráter desinteressado do juízo estético, Herrnstein Smith afirma que "uma contabilidade estrita de qualquer uma dessas atividades aparentemente gratuitas levaria, mais cedo ou mais tarde, à sua utilidade biológica e/ou ao seu valor para a sobrevivência (e sem dúvida a algo muito parecido com "necessidades animais'). [...] Fazê-lo aparentemente produz um lucro a longo prazo, em termos de desenvolvimento cognitivo, flexibilidade comportamental e, portanto, preparo biológico, e nossa tendência geral a praticá-las é, muito provavelmente, produto de mecanismos evolutivos".

Ou seja, embora seus argumentos constituam uma malsucedida tentativa de solapar a possibilidade de qualquer conhecimento verdadeiro, Herrnstein Smith aceita piamente as teses vulgares do determinismo biologista mais rasteiro e questionável, apto a fazer qualquer marxista sério morrer de vergonha, e as toma por aríetes capazes de demolir a "Crítica do Juízo".

Pergunto-me que pertinaz preconceito positivista leva hoje tantos professores de literatura a preferir sempre dar a razão às mais rasas das "ciências cognitivas", psicologias, sociologias ou antropologias, contra a filosofia.

Ao leitor que -para falar como a própria Barbara Herrnstein Smith- queira investigar quais são os interesses capazes de conduzir alguém a pensar como ela, recomendo a leitura de Arthur Schopenhauer, que explica, por exemplo, que a obra de arte "só fala a cada um segundo a medida de seu próprio valor intelectual; razão pela qual precisamente as obras mais excelentes de cada arte, as produções mais nobres do gênio devem permanecer um livro eternamente fechado à estúpida maioria dos seres humanos, inacessíveis a eles, deles separadas por um largo abismo. [...] É verdade que mesmo os mais tolos deixam as grandes obras valerem por confiarem na autoridade, para não trair a sua própria fraqueza: porém por dentro estão sempre prontos a exprimir o seu juízo condenatório, desde que lhes seja permitido esperar que podem fazê-lo sem se desmascarar: e então descarregam com deleite seu ódio há muito represado contra tudo o que é grande e belo e que, jamais lhes tendo dito coisa alguma, por isso mesmo humilhou-os, e contra os seus realizadores".

16.7.09

Nicolás Gómez Dàvila: de "Sucesivos escolios a un texto implícito"

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A história dos gêneros literários admite explicações sociológicas.
A história das obras não as admite.

*

A única superioridade que não corre o risco de encontrar uma superioridade nova que a ofusque é a do estilo.

*

As influências não enriquecem senão os espíritos originais.



De: GÓMEZ DÁVILA, Nicolás. Sucesivos escolios a un texto implícito. Barcelona: Áltera, 2002.

8.2.09

Os estudos literários e o cânone

O seguinte artigo foi publicado na minha coluna da "Ilustrada", da Folha de São Paulo, sábado, 7 de fevereiro.


Os estudos literários e o cânone

COMO MUITOS outros críticos literários contemporâneos, Terry Eagleton pensa que "o chamado 'cânone literário', a 'grande tradição' inquestionada da 'literatura canônica', precisa ser reconhecido como um constructo, modelado por pessoas particulares, por razões particulares, em determinado momento".

Apesar de presunçosa, é na verdade ingênua a afirmação de Eagleton. A ironia da referência entre aspas à "grande tradição" é impotente: queira-se ou não, o cânone literário é uma grande tradição. Deve-se dizer, porém, que ela está longe de ser inquestionada ou inquestionável. Ao contrário, essa tradição se construiu e se mantém hoje, entre outras coisas, através do questionamento e por causa dele.

Trata-se de um constructo, sem dúvida, desde que se retire dessa palavra qualquer conotação de arbitrariedade, uma vez que não pode ser considerado arbitrário aquilo que, tendo se submetido à crítica incessante e implacável, sobrevive. O cânone nada tem a ver com as coisas que são "modeladas por pessoas particulares, por razões particulares, em determinado momento". Essas, produzidas por sociedades fechadas, são impostas à força. Só por cegueira ideológica pode alguém pretender que seja assim a sociedade moderna.

Eagleton se considera marxista. A certa altura, ele comenta que "Karl Marx se preocupara com a questão de saber por que a arte grega conservava um "encanto eterno", embora as condições sociais que a haviam produzido já tivessem passado há muito tempo".

Normalmente, o texto em que Marx assim fala é tomado como uma prova da grandeza do autor de "O Capital", que teria preferido reconhecer uma dificuldade da sua teoria a tentar encaixar toda a arte do mundo no leito de Procusto da ideologia ou da "superestrutura". Desse modo, Marx teria preservado o seu -o nosso- direito de amar a beleza da arte do passado.

Não é o que pensa Eagleton. Mais marxista que Marx, ele vê nisso uma fraqueza, e pergunta: "Como podemos saber que [a arte grega] permanecerá "eternamente" encantadora, se a história ainda não terminou?" Segundo ele, se, por exemplo, uma descoberta arqueológica nos obrigasse a reconhecer que as preocupações das audiências originais da tragédia grega eram inteiramente alheias às nossas, poderíamos deixar de apreciá-las.

Ora, quem verdadeiramente ama um poema – como Marx, por exemplo, ama os poemas de Homero – ama-o porque considera que ele lhe pertence e lhe diz respeito de um modo extremamente íntimo: porque intimamente conhece e, em reciprocidade, sabe ser conhecido pelo poema que ama. Conhecer desse modo um poema e amá-lo é tê-lo pela expressão acabada de alguma dimensão fundamental do próprio ser.

Pergunto-me: como é possível que Eagleton suponha que, seja qual for a novidade de uma revelação arqueológica, ela possa ser maior e mais importante que a revelação oferecida pelos próprios textos das tragédias? Pensemos em "Édipo Rei", por exemplo. Como ele é capaz de imaginar que "Édipo Rei", ou "Prometeu Acorrentado", ou "As Bacantes", ou qualquer uma das grandes tragédias possa ser ofuscada ou anulada por uma descoberta arqueológica?

A resposta é clara: ele pensa assim porque não tem uma relação vital com a poesia; porque, para ele, a poesia não vale por si. É evidente que tal modo de se relacionar com a poesia não pode resultar de uma decisão intelectual. Ao contrário: a decisão intelectual sobre o valor (ou a ausência de valor) da poesia é que é resultado da relação real que o leitor estabelece com ela. Não é porque decide que a poesia não tem valor que ele deixa de ter uma relação vital com ela: é antes porque não tem uma relação vital com a poesia que ela não tem valor para ele.

Na verdade, estou sem dúvida exagerando no que diz respeito a Eagleton. Com certeza a poesia tem algum valor para ele. Está longe, evidentemente, de ser um valor imanente e vital, como para Marx. Creio que para Eagleton, como para muitos, um poema ou uma tragédia têm o valor de um documento histórico como qualquer outro. Ora, basicamente o que interessa saber sobre um documento histórico são duas coisas: se ele é autêntico e o que representou para as pessoas que o produziram ou dele se serviram. Ele se reduz a um índice ou sintoma de uma relação social. Daí a importância atribuída à arqueologia.

Infelizmente, é essa a relação com a literatura que parece determinar a atitude ante o cânone que hoje predomina no campo dos estudos literários acadêmicos "posmodernos" e/ou marxistas.

24.10.08

Paul Valéry: sobre a literatura

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Há pessoas que buscam na literatura a recordação de suas emoções, ou as emoções mesmas; ou o reforço ou o esclarecimento de suas próprias emoções.

Quanto a mim, não necessito nem de tais reforços nem de tais explicações, nem sobretudo da recordação, do ricordo de minhas emoções – pois das minhas emoções só amo as que não precisam ser recordadas nem reforçadas nem esclarecidas.

Aos livros, peço: ou o esquecimento, ser outro – e consequentemente nenhuma profundidade; ou o armamento do meu espírito, o armamento não do indivíduo; – mas visões que não tive e que podem enriquecer o meu arsenal – meios suscetíveis de me engrandecer – ou de me economizar erros ou tempo –

É nisso que os romances sobre o amor me entediam – perder tempo acerca de uma perda de tempo e perdê-lo em análises que já sei que não valem nada, sendo ou demasiadamente particulares ou demasiadamente arbitrárias por essência.



De: VALÉRY, Paul. "Ego". In: Cahiers I. Paris: Gallimard, 1973.

4.2.08

James Joyce: de A portrait of the artist as a young man

Vê-se a forma épica mais simples emergir da literatura lírica quando o artista se prolonga e se debruça sobre si mesmo como o centro de um acontecimento épico e essa forma progride até que o centro da gravidade emocional esteja eqüidistante do próprio artista e dos outros. A narrativa deixa de ser puramente pessoal. A personalidade do artista passa à narração mesma, fluindo e refluindo em torno das pessoas e da ação como um mar vital. É fácil ver esse progresso naquela velha balada inglesa Turpin Hero, que começa na primeira pessoa e termina na terceira. Alcança-se a forma dramática quando a vitalidade que fluiu e revolveu em torno de cada pessoa preenche toda pessoa com tamanha força vital que ela assume uma vida estética própria e intangível. A personalidade do artista, inicialmente um grito ou uma cadência ou um tom e depois uma narrativa fluida e tremeluzente, acaba por se refinar a ponto de deixar de existir, impessoalizando-se, por assim dizer. A imagem estética na forma dramática é a vida purificada na imaginação humana e dela reprojetada. Cumpre-se o mistério da estética, como o da criação material. O artista, como o Deus da criação, continua dentro ou atrás ou além e acima da sua manufatura, invisível, refinado a ponto de deixar de existir, indiferente, aparando as unhas.

2.9.07

Inês Pedrosa: "Eduardo"

Sábado, 25 de agosto, faleceu um dos intelectuais mais brilhantes do nosso tempo: o português Eduardo Prado Coelho. Leio com admiração os seus textos desde quando eu estudava no Instituto de Filosofia da UFRJ. Em fevereiro do ano passado, tive o prazer e o privilégio de conhecê-lo e de conversar longamente com ele em Portugal, nas Correntes d’Escritas de Póvoa de Varzim, em Portugal. Publico a seguir a belíssima crônica que a escritora Inês Pedrosa lhe dedicou em sua coluna do jornal Expresso, ontem, sábado, 1 de setembro:


Eduardo

Sobre o teu caixão, um girassol aberto. Disseram-me que o gesto veio da Teresa Belo – tu terás sorrido, e o Ruy Belo floriu contigo nesse sorriso, estendendo-te a mão. Uma das tuas heranças são as amigas, várias, escolhidas a dedo – em geral, mulheres fortes, radiosas como girassóis, com as quais conversavas infinitamente de tudo e de nada. Mulheres que riem. No fundo, invejavam-te tanto esse dom de gerar e manter amizades longas com mulheres como os outros todos – a erudição, a inteligência plástica, a escrita iluminante, o sentido de humor, o prazer de viver, a capacidade de organização, a liberdade da palavra, a visibilidade. E invejavam-te descaradamente o dom da paixão retribuída, que possuías em alto grau. Uma vez, um escritor perguntou-te: «Como é que você faz para ter tanto sucesso com as mulheres quando eu, que sou um homem bonito, não consigo ter nem metade?» Ter-lhe-ás respondido, segundo me contaste: « Não sei, é de facto estranho. O melhor será perguntar-lhes a elas». Fulminante, com uma gargalhada elegantíssima. Também isso te perdoavam pouco: a gargalhada, a elegância.
As mulheres gostavam de conversar contigo porque tu sabias dançar de tema para tema, misturar o sério e o risível, o sublime e o quotidiano. Os homens ainda não são educados para deslizar assim entre os diversos níveis da existência. Tinhas uma curiosidade insaciável e genuinamente democrática: tudo te interessava. Transitavas entre pessoas e artes sem preconceitos de espécie nenhuma – estavas sempre disponível para a alegria da descoberta e do encantamento. Revelaste e estimulaste muitíssimos talentos, sem nunca adoptares a pose tutelar do pai ou do padrinho latino – antes pelo contrário, entregavas-te ao prazer de admirar, que é uma jóia rara, no nosso Portugal de hierarquias, vénias e trocas de favores.
Uma figura grada convocou-te certa vez para um encontro à chuva, e, depois de te deixar marinar bastante no meio de uma praça, lá veio dizer ao que vinha: queria que tu mexesses uns cordelinhos para que lhe atribuíssem um Prémio prestigiado e chorudo. Respondeste que nem membro do júri eras, mas a figura insistia que o teu poder de influência resolveria isso. Eu pasmava com a tua bonomia diante destes assaltos permanentes. Porque continuavas a disponibilizar a mesma atenção – nem mais, nem menos – para o trabalho das múltiplas pessoas que te tentavam usar como SOS-Promoção. Eras generoso a fundo perdido, e fazias disso a tua riqueza: o que vivias, o que conhecias, o que aprendias. Pessoalmente, invejava-te sobretudo a capacidade de esquecer as ofensas. «Não é que perdoe, é que esqueço genuinamente. Não tenho arquivo para as coisas más, o que é que eu hei-de fazer?». E tornavas a rir. Era esse talento para o esquecimento o que te impedia de envelhecer. Dizia Manuel Alberto Valente ao «Público», na bela e dolorosa edição que esse teu jornal de sempre te dedicou, que foste o grande intelectual da geração dele. O pior é que eu olho para a geração seguinte, a minha geração, e também não vejo ninguém como tu, capaz de fazer a ponte entre a universidade, as artes (todas as artes) e a vida, capaz de dar o corpo pelas causas (recordo-te muito doente, no Inverno passado, numa tarde gelada, no Rossio, recolhendo assinaturas para o movimento de cidadãos em prol da interrupção voluntária da gravidez), capaz de estar em tudo, e tão intensamente, como tu. Sendo simultaneamente, como tu eras, como tu és – porque os textos não morrem – um cintilante escritor.
Várias vezes me pareceu que aquilo que escrevias sobre obras alheias era melhor do que a obra em si. E tu, modestamente, incentivavas-me a que olhasse outra vez. Eu olhava – e, se nem sempre consegui gostar do que tu gostavas, consegui pelo menos descobrir novas dimensões e estímulos nas tuas razões. Tinhas um cânone estético bem definido, mas de forma alguma estanque – pouco te perdoavam, aliás, uma coisa e outra. E tu, nas tintas. A frontalidade foi o único traço que senti alterar-se em ti, com o tempo – em particular nos últimos anos: como se a ronda da morte te levasse a escolher palavras cada vez mais directas e límpidas. Essa liberdade paga-se, claro –há pouco tempo telefonaras-me perguntando se não me importaria de a ir ao tribunal atestar do teu bom carácter.
Creio que essa liberdade indomável te terá vedado o acesso a cargos que terias servido na perfeição – ocorrem-me vários, desde Ministro da Cultura a director de programas da RTP. As tuas incessantes ideias e o teu modo comunicante de viver teriam sido muito úteis ao país – os dez anos em que foste conselheiro cultural em Paris marcaram uma projecção exponencial da cultura portuguesa em França.
Consola-me saber que não sofreste. Que apenas adormeceste, ao lado da mulher que amavas, depois de mais um dia feliz. Sem incomodar ninguém – como era teu timbre. Se me pedissem uma definição humana para a suavidade, eu dizia o teu nome. Eduardo Prado Coelho. E continuarei a evocar o teu riso, as tuas palavras, o teu exemplo, como se rodasse um inesgotável girassol.

Inês Pedrosa

21.7.07

Lewis Carroll: Através do espelho

“Ninguém está na estrada”, disse Alice.
“Ah se eu tivesse olhos assim”, o rei observou num tom irritado. “Ser capaz de ver Ninguém! E, além disso, a uma tal distância! Ora, o máximo que consigo com essa luz é ver pessoas de verdade!”

“I see nobody on the road”, said Alice.
“I only wish I had such eyes”, the King remarked in a fretful tone. “To be able to see Nobody! And at that distance too! Why, it’s as much as I can do to see real people, by this light.


CARROLL, L. "Through the looking -glass". With an introduction and notes by M. Gardner. In: _____. The annotated Alice. Lewis Carroll. New York: Penguin, 1970. P.279.

12.7.07

Richard Porson: Filosofia natural

Referindo-se á seguinte anedota sobre o classicista do século XVII, Richard Porson, o crítico americano Paul Elmer More declarou: “À embriaguez de Porson devemos, é preciso reconhecer, o mais profundo enunciado de pessimismo que jamais escapou de lábios humanos”.



Filosofia natural

Certa noite, encontrava-se em seu estado habitual. Querendo apagar sua vela e vendo, como se diz ocorrer aos inebriados, duas chamas lado a lado onde havia apenas uma, três vezes dirigiu seus passos cambaleantes à imagem errada e três vezes soprou sem efeito, pois o inexistente não pode ser extinto. Ante isso, afastou-se, equilibrou-se e pronunciou o veredicto: “Maldita seja a natureza das coisas!”


Cit. in: CAIRNS, H. (Org.). The limits of art. Poetry and prose chosen by ancient and modern critics. New York: Pantheon Books, 1948. P. 1005.

Natural philosophy

He was in his customary state one night. Wishing to blow out his candle, and seeing, as is said to be the way of the inebriated, two flames side by side where there was only one, he three times directed his swaying steps to the wrong image, and three times blew, with no effect, for the non-existent cannot be extinguished. Whereupon he drew back, balanced himself, and gave verdict: “Damn the nature of things!”


he drew back,

11.7.07

Anatole France: Le jardin d'Épicure (trecho)

Embora eu jamais jogue e não tenha a menor intenção de fazer qualquer apologia do jogo de azar, acho admirável, por razões puramente estéticas, o seguinte texto de Anatole France:



Os jogadores jogam como os amantes amam, como os ébrios bebem, necessária, cegamente, sob o império de uma força irresistível. Há seres devotados ao jogo, como há seres devotados ao amor. Quem inventou a história daqueles dois marinheiros possuídos pelo furor do jogo? Naufragaram e só escaparam à morte após terríveis aventuras, pulando para o dorso de uma baleia. Assim que lá se encontraram, tiraram dos bolsos seus dados e seus fritilos e se puseram a jogar. Eis uma história mais verdadeira que a verdade. Cada jogador é um desses marinheiros. E com certeza há no jogo algo que remexe todas as fibras dos audazes. Não é uma volúpia medíocre tentar a sorte. Não é um prazer sem embriaguez provar num segundo meses, anos, uma vida inteira de esperança. Eu não tinha nem dez anos quando o sr. Grépinet, meu professor da nona, leu-nos em sala de aula a fábula do Homem e do Gênio. No entanto, recordo-a melhor do que se a tivesse escutado ontem. Um gênio dá a um menino um novelo e lhe diz: “Este fio é o dos teus dias. Toma-o. Quando quiseres que o tempo escoe para ti, puxa o fio: teus dias passarão rápidos ou lentos segundo desenroles o novelo rápida ou morosamente. Enquanto não tocares no fio, ficarás na mesma hora da tua existência.” O menino tomou o fio; puxou-o primeiro para se tornar homem, depois para se casar com a noiva amada, depois para ver crescerem os seus filhos, depois para conseguir empregos, lucros, honrarias, para superar as preocupações, evitar as mágoas, as doenças vindas com a idade, enfim – que fazer? – para terminar uma velhice importuna. Tinha vivido quatro meses e seis dias desde a visita do gênio.

Pois bem, que é o jogo senão a arte de obter num segundo as mudanças que o destino só produz normalmente em muitas horas e mesmo em muitos anos, a arte de acumular num único instante as emoções esparsas na lenta existência dos outros homens, o segredo de viver a vida inteira em alguns minutos, enfim, o novelo do gênio? O jogo é um corpo a corpo com o destino. É o combate de Jacó com o anjo, o pacto do dr. Fausto com o diabo. Joga-se dinheiro – dinheiro, quer dizer, a possibilidade imediata, infinita. Talvez a carta que se vai virar, a bilha que está a correr dê ao jogador parques e jardins, campos e vastos bosques, e castelos a elevar no céu suas torres pontudas. Sim, essa pequena bilha que corre contém em si hectares de boa terra e tetos de ardosia cujas chaminés esculpidas se refletem no Loire; encerra tesouros de arte, maravilhas do gosto, jóias prodigiosas, os mais belos corpos do mundo, almas, mesmo, que nem se imaginavam venais, todas as condecorações, todas as honras, toda a graça e todo o poder da terra. Que digo? Encerra mais que isso: encerra o sonho. E você quer que eu não jogue? Se o jogo só fizesse mostrar esperanças infinitas, se só mostrasse o sorriso dos seus olhos verdes, seria amado com menos furor. Mas tem unhas de diamante, é terrível, dá, quando lhe compraz, a miséria e a vergonha; eis porque é adorado.

A atração do perigo está no fundo de todas as grandes paixões. Não há volúpia sem vertigem. O prazer mesclado ao medo embriaga. E que há de mais terrível que o jogo? Ele dá, ele toma; suas razões não são as nossas razões. Ele é mudo, cego e surdo. Ele pode tudo. É um deus.

É um deus. Tem seus devotos e seus santos que o amam pelo que é, não pelo que promete, e que o adoram quando os golpeia. Se os despoja cruelmente, imputam a culpa a si mesmos, não a ele.

“Joguei mal”, dizem.

Acusam-se e não blasfemam.



Em: FRANCE, Anatole. Le jardin d’Épicure. Paris: Calmann-Lévy, Éditeurs, 1923. P. 14-18.



Les joueurs jouent comme les amoureux aiment, comme les ivrognes boivent, nécessairement, aveuglément, sous l'empire d'une force irrésistible. Il est des êtres voués au jeu, comme il est des êtres voués à l'amour. Qui donc a inventé l'histoire de ces deux matelots possédés de la fureur du jeu? Ils firent naufrage et n'échappèrent à la mort, après les plus terribles aventures, qu'en sautant sur le dos d'une baleine. Aussitôt qu'ils y furent, ils tirèrent de leur poche leurs dés et leurs cornets et se mirent à jouer. Voilà une histoire plus vraie que la vérité Chaque joueur est un de ces matelots-là. Et certes, il y a dans le jeu quelque chose qui remue terriblement toutes les fibres des audacieux. Ce n'est pas une volupté médiocre que de tenter le sort. Ce n'est pas un plaisir sans ivresse que de goûter en une seconde des mois, des années, toute une vie de crainte et d'espérance. Je n'avais pas dix ans quand M. Grépinet, mon professeur de neuvième, nous lut en classe la fable de l'Homme et le Génie. Pourtant je me la rappelle mieux que si je l'avais entendue hier. Un génie donne à un enfant un peloton de fil et lui dit : « Ce fil est celui de tes jours. Prends-le. Quand tu voudras que le temps, s'écoule pour toi, tire le fil : tes jours se passeront rapides ou lents selon que tu auras dévidé le peloton vite ou longuement. Tant que tu ne toucheras pas au fil, tu resteras à la même heure de ton existence. » L'enfant prit le fil; il le tira d'abord pour devenir un homme, puis pour épouser la fiancée qu'il aimait, puis pour voir grandir ses enfants, pour atteindre les emplois, le gain, les honneurs, pour franchir les soucis, éviter les chagrins, les maladies venues avec l'âge, enfin, hélas! pour achever une vieillesse importune. II avait vécu quatre mois et six jours depuis la visite du génie.

Eh bien! le jeu, qu'est-ce donc sinon l'art d'amener en une seconde les changements que la destinée ne produit d'ordinaire qu'en beaucoup d'heures et même en beaucoup d'années, l'art de ramasser en un seul instant les émotions éparses dans la lente existence des autres hommes, le secret de vivre toute une vie en quelques minutes, enfin le peloton de fil du génie? Le jeu, c'est un corps-à-corps avec le destin. C'est le combat de Jacob avec l'ange, c'est le pacte du docteur Faust avec le diable. On joue de l'argent, - de l'argent, c'est-â-dire la possibilité immédiate, infinie. Peut-être la carte qu'on va retourner, la bille qui court donnera au joueur des parcs et des jardins, des champs et de vastes bois, des châteaux élevant dans le ciel leurs tourelles pointues. Oui, cette petite bille qui roule contient en elle des hectares de bonne terre et des toits d'ardoise dont les cheminées sculptées se reflètent dans la Loire; elle renferme les trésors de l'art, les merveilles du goût, des bijoux prodigieux, les plus beaux corps du monde, des âmes, même, qu'on ne croyait pas vénales, toutes les décorations, tous les honneurs, toute la grâce et toute la puissance de la -terre. Que dis-je? elle renferme mieux que cela; elle en renferme le rêve. Et vous voulez qu'on ne joue pas? Si encore le jeu ne faisait que donner des espérances infinies, s'il ne montrait que le sourire de ses yeux verts on l'aimerait avec moins de rage. Mais il a des ongles de diamant, il est terrible, il donne, quand il lui plait, là misère et la honte; c'est pourquoi on l'adore.

L'attrait du danger est au fond de toutes les grandes passions. Il n'y a pas de volupté pans vertige. Le plaisir mêlé de peur enivre. Et quoi de plus terrible que le jeu? Il donne, il prend; ses raisons ne sont point nos raisons. Il est muet, aveugle et sourd. Il peut tout. C'est un dieu.

C'est un dieu. Il a ses dévots et ses saints qui l'aiment pour lui-même, non pour ce qu'il promet, et qui l'adorent quand il les frappe. S'il les dépouille cruellement, ils en imputent la faute à eux-mômes, non à lui.

« J'ai mal joué », disent-ils.

Ils s'accusent et ne blasphèment pas.

25.4.07

Michel Tournier: Robinson pensa sobre o dinheiro

Eis uma tradução minha (e, em baixo, o original) de um trecho absolutamente delicioso do livro de Michel Tournier, Vendredi ou les limbes du Pacifique. Robinson, o personagem principal, anota em seu Log-book o seguinte:


Avalio hoje a loucura e a maldade dos que caluniam essa instituição divina: o dinheiro! O dinheiro espiritualiza tudo o que toca, trazendo-lhe uma dimensão ao mesmo tempo racional – mensurável – e universal – pois um bem monetizado torna-se virtualmente acessível a todos os homens. A venalidade é uma virtude cardeal. O homem venal sabe calar seus instintos assassinos a associais – sentimento de honra, amor-próprio, patriotismo, ambição política, fanatismo religioso, racismo – para só deixar falar sua propensão à cooperação, seu gosto pelas trocas frutuosas, seu sentido da solidariedade humana. É preciso tomar literalmente a expressão idade do ouro, e vejo claramente que a humanidade chegaria lá mais rapidamente se só fosse conduzida por homens venais. Infelizmente são quase sempre homens desinteressados que fazem a história, e então o fogo destrói tudo, o sangue corre em torrentes. Os gordos mercadores de Veneza nos dão o exemplo da felicidade faustuosa que conhece um estado dirigido somente pela lei do lucro, enquanto que os lobos esgalgados da Inquisição espanhola nos mostram as infâmias de que são capazes os homens que perderam o gosto pelos bens materiais. Os hunos teriam rapidamente interrompido seu ímpeto se tivessem sabido aproveitar das riquezas que haviam conquistado. Com o peso de suas aquisições, ter-se-iam estabelecido para melhor gozar delas, e as coisas teriam retomado seu curso natural. Mas eram brutos desinteressados. Desprezavam o ouro. E arremessavam-se à frente, queimando tudo em sua passagem.



Je mesure aujourd'hui la folie et la méchanceté de ceux qui calomnient cette institution divine : l'argent! L'argent spiritualise tout ce qu'il touche en lui apportant une dimension à la fois rationnelle — mesurable — et universelle — puisqu'un bien monnayé devient virtuellement accessible à tous les hommes. La vénalité est une vertu cardinale. L'homme vénal sait faire taire ses instincts meurtriers et asociaux — sentiment de l'honneur, amour-propre, patriotisme, ambition politique, fanatisme religieux, racisme — pour ne laisser parler que sa propension à la coopération, son goût des échanges fructueux, son sens de la solidarité humaine. Il faut prendre à la lettre l'expression l'âge d'or, et je vois bien que l'humanité y parviendrait vite si elle n'était menée que par des hommes vénaux. Malheureusement ce sont presque toujours des hommes désintéressés qui font l'histoire, et alors le feu détruit tout, le sang coule à flots. Les gras marchands de Venise nous donnent l'exemple du bonheur fastueux que connaît un État mené par la seule loi du lucre, tandis que les loups efflanqués de l'Inquisition espagnole nous montrent de quelles infamies sont capables des hommes qui ont perdu le goût des biens matériels. Les Huns se seraient vite arrêtés dans leur déferlement s'ils avaient su profiter des richesses qu'ils avaient conquises. Alourdis par leurs acquisitions, ils se seraient établis pour mieux en jouir, et les choses auraient repris leur cours naturel. Mais c'étaient des brutes désintéressées. Ils méprisaient l'or. Et ils se ruaient en avant, brûlant tout sur leur passage.

De : TOURNIER, Michel. Les limbes du Pacifique. Paris : Gallimard, 1969, p.61-62.