30.7.21

Pedro Tamen: "Como se na boca da trompete"

 



Faleceu ontem o grande poeta português Pedro Tamen. Eu já admirava muito sua poesia quando o conheci, em 2006, na ocasião em que ambos, a convite do Centro Nacional de Cultura de Portugal, participamos de uma missão de poetas lusófonos a Macau. Desde então ficamos amigos, e lamento profundamente a sua morte.Eis um dos seus belos poemas:



Como se na boca da trompete

coloca-se a surdina sobre a vida

e a memória irrompe qual um vento

imitação de sons    de vozes    tiros

num escuro que nada mais já pode iluminar


Não há cheiro novo que resseja a planta

verdadeira    a genuína cor    o prato

a fumegar de uma sápida sopa inexistente

sopra-se na vida todo o ar que o tempo

nos pôs no peito em anos discorridos

e é cor de sombra agora o arco-íris





TAMEN,  Pedro. "Como se na boca da trompete". In:_____. Memória indescritível. Lisboa: Gótica, 2000. 

 



28.7.21

Daniel Jonas: "Composição a negro cinzento"

 



Composição a negro cinzento



Aquela além

recolhida, bravia


defenestrando 

o olhar, a razão, a fé,



pode ser a mãe de Whistler;

a minha não é.

*





JONAS,  Daniel. "Composição a negro cinzento". In:_____. "Bisonte". In:_____. Os fantasmas inquilinos.:Poemas escolhidos. Seleção por Mariano Marovatto. São Paulo: Todavia, 2019.

26.7.21

Manuel Bandeira: "A Antonio Nobre"

 



A Antônio Nobre



Tu que penaste tanto e em cujo canto

Há a ingenuidade santa do menino;

Que amaste os choupos, o dobrar do sino,

E cujo pranto faz correr o pranto:


Com que magoado olhar, magoado espanto

Revejo em teu destino o meu destino!

Essa dor de tossir bebendo o ar fino,

A esmorecer e desejando tanto...


Mas tu dormiste em paz como as crianças.

Sorriu a Glória às tuas esperanças

E beijou-te na boca... O lindo som!


Quem me dará o beijo que cobiço?

Foste conde aos vinte anos... Eu, nem isso...

Eu, não terei a Glória... nem fui bom.




BANDEIRA, Manuel. "A Antônio Nobre". In: _____. "A cinza das horas". In:_____. Estrela da vida inteira -- poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1966.


23.7.21

Georg Trakl: "Gesang einer gefangenen Amsel" / "Canto dum melro preso": trad. de Paulo Quintela

 



Gesang einer gefangenen Amsel

                           Für Ludwig von Ficker

 

Dunkler Odem im grünen Gezweig.

Blaue Blümchen umschweben das Antlitz

Des Einsamen, den goldenen Schritt

Ersterbend unter dem Ölbaum.

Aufflattert mit trunknem Flügel die Nacht.

So leise blutet Demut,

Tau, der langsam tropft vom blühenden Dorn.

Strahlender Arme Erbarmen

Umfängt ein brechendes Herz.




Canto dum melro preso

                              A Ludwig von Ficker


Hálito escuro na verde ramaria.

Florinhas azuis pairam em volta da face

Do solitário, fazendo morrer o passo

Dourado sob a oliveira.

Levanta voo a noite em asa ébria.

Tão baixo sangra humildade,

Orvalho, que manso goteja do espinheiro em flor.

Compaixão de braços radiosos

Abraça um coração que quebra.







TRAKL, Georg. "Gesang einer gefangenen Amsel" / "Canto dum melro preso". In:_____. Poemas.
Antologia e versão portuguesa de Paulo Quintela. Porto: M. J. Costa & Ca., Ltda.

21.7.21

Antonio Cicero: "Nênia"

 



                                               NÊNIA


A morte nada foi para ele, pois enquanto vivia não havia a morte e, agora que há, ele já não vive. Não temer a morte tornava-lhe a vida mais leve e o dispensava de desejar a imortalidade em vão. Sua vida era infinita, não porque se estendesse indefinidamente no tempo mas porque, como um campo visual, não tinha limite. Tal qual outras coisas preciosas, ela não se media pela extensão mas pela intensidade. Louvemos e contemos no número dos felizes os que bem empregaram o parco tempo que a sorte lhes emprestou. Bom não é viver, mas viver bem. Ele viu a luz do dia, teve amigos, amou e floresceu. Às vezes anuviava-se o seu brilho. Às vezes era radiante. Quem pergunta quanto tempo viveu? Viveu e ilumina nossa memória.

 

 



CICERO, Antonio. "Nênia". In:_____. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002.

17.7.21

Bertolt Brecht: "Vom ertrunkenen Mädchen" / "A moça afogada"

 



A moça afogada


1

Quando ela se afogou e a boiar foi descendo 

Dos córregos para os rios mais caudalosos, 

Brilhava o céu de opala tão maravilhoso 

Qual se devesse recompensar o cadáver.

 

2

Sargaços e algas iam-na enleando,

De modo que ela aos poucos ficava com mais peso.

Frios os peixes nadavam-lhe pelas pernas,

Plantas e bichos faziam-lhe ainda mais lenta a última viagem.


3

E o céu da tarde era escuro feito fumaça

Retendo à noite o brilho das estréias sobre o horizonte.

Mas cedo alvoreceu, a fim de que também

Manhã e tarde houvesse para ela.


4

Quando seu corpo branco apodreceu nas águas, 

Aconteceu (bem devagar) que Deus foi-a esquecendo:

Primeiro o rosto, as mãos depois e por fim os cabelos.

Então ela passou a ser no rio uma carniça igual a tantas outras.




BRECHT, Bertolt. "A moça afogada". In:_____. Poemas e canções. Seleção e tradução por Geir Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966. 




Vom ertrunkenen Mädchen


1

Als sie ertrunken war und hinunterschwamm

Von den Bächen in die größeren Flüsse

Schien der Opal des Himmels sehr wundersam

Als ob er die Leiche begütigen müsse.


2

Tang und Algen hielten sich an ihr ein

So daß sie langsam viel schwerer ward.

Kühl die Fische schwammen an ihrem Bein

Pflanzen und Tiere beschwerten noch ihre letzte Fahrt.


3

Und der Himmel ward abends dunkel wie Rauch

Und hielt nachts mit den Sternen das Licht in Schwebe.

 Aber früh ward er hell, daß es auch

Noch für sie Morgen und Abend gebe.


4

Als ihr bleicher Leib im Wasser verfaulet war

Geschah es (sehr langsam), daß Gott sie allmählich vergaß

Erst ihr Gesicht, dann die Hände und ganz zuletzt erst ihr Haar.

Dann ward sie Aas in Flüssen mit vielem Aas.





BRECHT, Bertolt. "Vom ertrunkenen Mädchen". In:_____. Die Gedichte von Bertot Brecht in einem Band. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1981.


15.7.21

Luís Miguel Nava: "Na pele"

 



Na pele



O mar, venho ver-lhe a pele a rebentar

ao longo das falésias, o que sempre

me traz a exaltação desses rapazes que circulam

por Lisboa no verão.

O mar está-lhes na pele. Partilho

com eles os quartos das pensões, sentindo as ondas

a avançar entre os lençóis. Perco-me à vista

da pedra onde o mar vem largar a pele.





NAVA, Luís Miguel. "Na pele". In:_____. "Onde a nudez". In:_____. Poesia completa. 1979-1994. Org. por Gastão Cruz. Lisboa:  Publicações Dom Quixote, 2002.