13.6.21

Luis Olavo Fontes: "meu amor de soslaio"




meu amor de soslaio


Faz tanto calor no Rio de Janeiro

que é bom sentir essa neve

partir do seu olhar.




FONTES,  Luis Olavo. "meu amor de soslaio". In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org.). 26 poetas hoje. Antologia [1976]. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.

 

11.6.21

Eugénio de Andrade: "Regressar ao corpo, entrar nele"

 



Regressar ao corpo, entrar nele

sem receio da insurreição da carne.

Nenhuma boca é fria,

mesmo quando atravessou


o inverno. Uma boca é imortal

sobre outra boca: diamante

aceso, estrela aberta

quando a luz irrompe, invade


ombros, peitos, coxas, nádegas, falos.

Despertos, puros no seu pulsar,

aí os tens: esplendorosos,

duros.





ANDRADE, Eugénio de. "Regressar ao corpo, entrar nele". In:_____. "Branco no branco". In:_____. Poemas de Eugénio de Andrade. Org. por Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

9.6.21

Daniel Maia-Pinto Rodrigues: "O nosso amor parecia uma história de fadas"

 



O nosso amor parecia uma história de fadas

o encanto girava que nem em quatro rodas

depois as rodas deram umas guinadas

e descambou tudo num conto de fodas.




RODRIGUES, Daniel Maia-Pinto. "O nosso amor parecia uma história de fadas". In:_____. Malva 62: uma recolha de poemas breves. São Paulo: Escrituras, 2011.

7.6.21

Sylvio Back: "ante"

 



ante


ante a lágrima arredia

ante a súplica da alma


ante a lassidão pétrea

ante a colossal tontura


ante o rumor derruído

ante o nervo sanguíneo


ante o agudo alvéolo

ante o áspero clarão


ante o iniludível flerte

ante o inaudível falsete


a esperança é grotesca





BACK, Sylvio. "ante". In:_____. "A maior diversão" (inédito). In:_____. Silenciário: obra reunida. Florianópolis: Editora da UFSC, 2021.


5.6.21

Vera Casa Nova: "Meu poema é feito"

 

Os poemas do belo livro Versos oblíquos ou a obliquidade do tempo, de Vera Casa Nova, são, como ela mesma diz, feitos como conversas com a poesia de diversos poetas. Resolvi, aqui, postar um poema que conversa com a poesia de Hölderlin.




Meu poema é feito

de restos -- 

de mim, da memória

de outros poetas --

o passado de leitura

o presente de leitora

vão abrindo

caminhos

para os versos acontecerem.

Partilho aqui e ali

um verso bem feito

ou mal feito

nos espaços da paixão 

pela poesia.





NOVA, Vera Casa. "Meu poema é feito". In:_____. Versos oblíquos ou a obliquidade do tempo. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2021.

3.6.21

Antonio Carlos Secchin: "Carta aos pais"

 



Carta aos pais



Vem de um sonho distante

o que aqui celebro novamente:

o amor e seu motor incessante

que incendeia de luz toda a gente.

Catorze de janeiro sessenta vezes

ainda assim não é bastante:

tudo que parecia tão antigo

ressurge na força deste instante.

Sessenta vezes ser feliz inteiro,

por inteiro ser companheiro e amante.

Mil novecentos e quarenta e sete,

clara memória, afeto transbordante

que gerou Carlos, Antonio e Cristina,

ao abrigo do vento e da vida errante.

Regy e Sives, tanta alegria de ver

que vale viver, se viver intensamente

é ação recomeçada em cada dia,

para que cada dia se reinvente.

Nossa herança maior - os pais

que sabem nos chamar para o futuro,

pais que não são de antigamente,

pois o que eles fazem do passado

é trazê-lo sempre perto do presente.

Pais, queridos pais, sessenta anos

aqui se condensam diante de nós,

e, mesmo que nossa voz não cante

tanto quanto se presume,

que agora, então, se proclame

a conta incontornável

deste amor que número nenhum resume.

O tempo, que é velho e que é infante,

nesta hora entra na sala, lentamente.

Aproxima-se de Sives e Regy,

e vê que o par, de tão perfeito e tão constante,

já se tornou eterno nessas bodas,

que, como o casal, são de puro diamante.







SECCHIN, Antonio Carlos. "Carta aos pais". In:_____. Desdizer e antes. Rio de Janeiro: Topbooks, 2017.

1.6.21

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Terror de te amar"

 



Terror de te amar



Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo


Mal de te amar neste lugar de imperfeição

Onde tudo nos quebra e emudece

Onde tudo nos mente e nos separa.


Que nenhuma estrela queime o teu perfil

Que nenhum deus se lembre do teu nome

Que nem o vento passe onde tu passas.


Para ti eu criarei um dia puro

Livre como o vento e repetido

Como o florir das ondas ordenadas.







ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Terror de te amar". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguesa. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 2005.