26.2.21

Yves Bonnefoy: "Le pont de fer" / "A ponte de ferro": trad. por Mário Laranjeira

 



A ponte de ferro



Existe ainda por certo ao fim de uma longa rua

Onde andava eu criança um pântano estagnado

Retângulo pesado de morte ao céu negro.


Desde então a poesia

Separou de outras águas suas águas,

Beleza alguma, ou cor a vão reter,

Por ferro ela angustia-se e por noite.


Nutre um longo

Pesar de margem morta, uma ponte de ferro

Lançada à outra margem mais noturna ainda

É sua só memória e só real amor.





Le pont de fer



Il y a sans doute toujours au bout d'une longue rue

Où je marchais enfant une mare d'huile,

Un rectangle de lourde mort sous le ciel noir.


Depuis la poésie

A séparé ses eaux des autres eaux.

Nulle beauté nulle couleur ne la retiennent,

Elle s'angoisse pour du fer et de la nuit.


Elle nourrit

Un long chagrin de rive morte, un pont de fer

Jeté vers l'autre rive encore plus nocturne

Est sa seule mémoire et son seul vrai amour.



BONNEFOY,, Yves. "Le pont de fer" / "A ponte de ferro". In: LARANJEIRA, Mário. Poetas de França hoje. 1945-1995. São Paulo: Edusp, 1996. 



23.2.21

Stefan Georg: "Lied" / "Cantiga": trad. por Olympio Monat da Fonseca

 



Cantiga



Nas janelas onde outrora contigo

A paisagem da noite contemplava,

Brilham estranhos lumes.

O caminho ainda começa da porta


Onde, sem olhares para trás,

Um dia rumaste ao vale.

Mas a lua, quando tornou,

Tua pálida face fez erguer:


Então, era já demasiado tarde para um apelo.

Sombras, silêncio, ar pesado – 

Afogam minha casa.

Levaste contigo toda alegria.






Lied



Fenster wo ich einst mit dir

Abends in die landschaft sah

Sind nun hell mit fremdem licht.


Pfad noch läuft vom tor wo du

Standest ohne umzuschaun

Dann ins tal hinunterbogst.


Bei der kehr warf nochmals auf

Mond dein bleiches angesicht..

Doch es war zu spät zum ruf.


Dunkel -- schweigen -- starre luft

Sinkt wie damals um das haus.

Alle freude nahmst du mit.





GEORG, Stefan. "Lied" / "Cantiga". Trad. por Olympio Monat da Fonseca. In: CAMPOS, Geir (org.). O livro de ouro da poesia alemã. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d.


21.2.21

Murilo Mendes: "Jogo"

 


Jogo


Cara ou coroa?

Deus ou o demônio

O amor ou o abandono

Atividade ou solidão.


Abre-se a mão, coro

Deus e o demônio

O amor e o abandono

Atividade e solidão.





MENDES, "Jogo". In_____. Poesias. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.

18.2.21

Constantinos Caváfis: "Desfecho": trad. por José Paulo Paes

 



Desfecho


No meio de temores e receios,

com olhos pávidos, com mente perturbada,

buscamos até a exaustão um plano que pudesse

nos pôr a salvo do real

perigo que tão sinistramente nos rondava.

Enganamo-nos, porém, não está a caminho:

eram falsas as notícias

(ou não ouvimos bem ou não as compreendemos).

Outro desastre, que nem imaginávamos,

cai de repente, torrencial, por sobre nós,

despreparados — já não há mais tempo — e leva-nos.







CAVÁFIS, Constantinos. "Desfecho". In: PAES, José Paulo (org. e trad.). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

16.2.21

Eugénio de Andrade: "Litania"

 



Litania



O teu rosto inclinado pelo vento;

a feroz brancura dos teus dentes;

as mãos, de certo modo, irresponsáveis,

e contudo sombrias, e contudo transparentes;


o triunfo cruel das tuas pernas,

colunas em repouso se anoitece;

o peito raso, claro, feito de água;

a boca sossegada onde apetece


navegar ou cantar, ou simplesmente ser

a cor dum fruto, o peso duma flor;

as palavras mordendo a solidão,

atravessadas de alegria e de terror,


são a grande razão, a única razão.





ANDRADE, Eugénio de. "Litania". In: PEDROSA, Inês (org.). Poemas de amor. Antologia de poesia portuguessa. Lisboa: Dom Quixote, 2005.

14.2.21

Homenagem aos noventa anos do poeta Augusto de Campos

 Hoje o grande poeta Augusto de Campos faz 90 anos. Para comemorar esse esplêndido fato, vários poetas lhe fizeram uma bela homenagem, que teve o design e a direção de arte do poeta André Vallias. Eis o link para essa merecida homenagem:

https://erratica.com.br/ac90 






12.2.21

Arnaldo Antunes: "valha"

 



valha



valha o que amo 

não porque amo

mas pelo que me faz

amar



valha por si

não por mim



pelo que si

lencia



não 

por meu sim





ANTUNES, Arnaldo. "valha". In:_____.  algo antigo. São Paulo: Companhia das Letras, 2021.