29.1.20

Alberto da Costa e Silva: "Imitação de Botticelli"




Imitação de Botticelli


Como a luz numa caixa de laranjas
ou a chuva sobre a mesa de verduras no mercado,
desce a manhã neste jardim, descalça,

e as flores que traz, na involuntária beleza,
parecem, contra seu corpo de verão enfunado,
musgo, limo, ferrugem, as feridas que os pássaros

abrem na casca lisa e perfeita de um fruto.





COSTA E SILVA, Alberto. "Imitação de Botticelli". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

27.1.20

Emily Dickinson: "7": trad. de Augusto de Campos




7


Êxtase – grão por grão –
Paga-se com sofrer
A Dor em proporção
Ao prazer –

Cada hora de ardor –
Anos de desencanto –
Com moedas sem valor –
Cofres de Pranto!




7


For each ecstatic instant
We must an anguish pay
In keen and quivering ratio
To the ecstasy – 

For each beloved hour
Sharp pittances of years –
Bitter contested farthings –
And Coffers heaped with Tears!




DICKINSON, Emily. "7". In:_____. Não sou ninguém. Traduções de Augusto de Campos. Caompinas: Editora da Unicamp, 2015.

25.1.20

Contardo Calligaris: "Qual o sentido de 'Brasil acima de tudo, Deus acima de todos?'"


Cito, abaixo, dois trechos do excelente artigo que o psicanalista Contardo Calligaris publicou, no dia 23 do corrente, em sua coluna da Folha de São Paulo. Ele está certo:



Qual é o sentido de ‘Brasil acima de tudo, Deus acima de todos?'



O brado nacionalista só serve como uma boa desculpa para não pensar com a cabeça que nos foi dada

Desde a campanha eleitoral de 2018, eu me pergunto qual é o sentido possível da divisa "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos".

"Deus acima de todos" só se entende se for completado assim: "...acima de todos os que acreditam nele". Para os que não acreditam em Deus, Ele (ou Ela, se for mulher) não está acima de coisa alguma. Para os que acreditam num deus que não é o nosso, o deus acima de todos seria o deles, e, às vezes, os dois deuses pensam diferente.

[...]

Mas vamos em frente. "Brasil acima de tudo" é mais estranho ainda. É uma retomada do primeiro verso do "Deutschlandlied": "Deutschland über Alles", Alemanha acima de tudo. As letras foram escritas em 1841, para lembrar que a urgência era a unificação da Alemanha (que era na época uma federação comercial de 35 monarquias e quatro cidades-Estado).

A primeira estrofe do canto se tornou o hino do nazismo, pois Hitler queria mesmo reunir todos os "alemães", quer eles fossem austríacos ou vivessem como minorias, na Tchecoslováquia, na Polônia, na Alsácia etc. (foi com esse pretexto que ele começou a invasão da Europa). Enfim, a estrofe é hoje proibida na Alemanha, pois se verificou que pôr a nação "acima de tudo" acaba autorizando qualquer turpitude.






CALLIGARIS, Contardo. "Qual o sentido de 'Brasil acima de tudo, Deus acima de todos?'". In: Folha de São Paulo. São Paulo, 23/1/2020.

23.1.20

Ferreira Gullar: "Vendo a noite"




Vendo a noite


Júpiter, Saturno.
De dentro de meu corpo
estou vendo
o universo noturno.

Velhas explosões de gás
que meu corpo não ouve:
vejo a noite que houve
e não existe mais –

a mesma, veloz, em Troia,
no rosto de Heitor
– hoje na pele de meu rosto
no Arpoador.





GULLAR, Ferreira. "Vendo a noite". In:_____. "Dentro da noite veloz". In:_____ Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 2015. 

20.1.20

Jorge Mautner: "Da maravilhosa loucura"




Da maravilhosa loucura


Da maravilhosa loucura
da matéria porosa escura
do buraco negro vem
e nasce a negra energia.
Tudo isso é compreendido
pela nova astronomia.

Essa energia é fundamental
para a harmonia do espaço sideral
mas tudo isso a gente já sabia
por causa da força divina que o samba irradia
batucando por nós essa negra melodia.






MAUTNER, Jorge. "Da maravilhosa loucura". In:_____. Kaos total. Org. por João Paulo Reys e Maria Borga. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.

18.1.20

Antonio Cicero: "Teofania"





Teofania


Sabe-se que um deus só vem porque quer
e que é capaz de desaparecer
a seu bel-prazer, por mero capricho.
Nisso ele se assemelha mais a um bicho

selvagem, feito serpente ou veado,
do que a gente. Uns são intempestivos.
É no momento menos indicado
que nos capturam e mantêm cativos.

Assim é o Amor, por exemplo. Não
há quem não reconheça a divindade
de tal deus. Não: os próprios cristãos dão
a mão à palmatória e têm saudade

do realismo do mundo pagão
quando o vêem chegar como quem não quer
nada e ofuscar tudo. Outros são
diferentes. Todos vêm por prazer,

isso é claro mas, por exemplo, o Sono
não deixa de abraçar-nos todo dia
enquanto somos jovens: dir-se-ia
ser nosso escravo e não suave dono.

Mas isso não se deve nem pensar
pois se ele ouvir o nosso pensamento
e resolver provar-nos a contento
ser mesmo deus, desaparecerá,

pois que ele é deus mostra-o nem tanto o fato
de que vem sem ser chamado e escraviza,
em teatros, aulas, ônibus, vigílias,
o desejo que almeja dominá-lo

quanto a própria insônia, teofania
negativa do Sono, quando somem
as doces nuvens e as torres macias
do príncipe dos deuses e dos homens

 e não se abrem as águas da lagoa
ou os portões de chifre ou de marfim
e nossa imaginação se esboroa
em prosa e a noite cansa até o fim.

Não se iludam. Nem o mais poderoso
dos soporíferos substituiria
ver abolirem-se as categorias
pela espontânea ação de um deus gasoso.

Tais deuses só na velhice sabemos
o que são. O jovem nem desconfia
ser divino o próprio Tesão ou mesmo,
tremo só de lembrar, a Poesia.







CICERO, Antonio. "Teofania". In:_____. Guardar. Rio de Janeiro: Record, 1996.

15.1.20

Bertolt Brecht: "Die neuen Zeitalter" / "As novas eras": trad. por André Vallias




As novas eras


As novas eras não começam de repente.
Meu avô já vivia numa nova era
Meu neto vai viver ainda na antiga.

Carne nova se come com garfo velho.

Não foram os veículos autodirigíveis
Nem os tanques
Não foram os aviões sobre nossos telhados
Nem os bombardeiros.

Das novas antenas vieram as velhas asneiras.
A sabedoria foi de boca em boca transmitida.





Die neuen Zeitalter


Die neuen Zeitalter beginnen nicht auf einmal.
Mein Großvater lebte schon in der neuen Zeit.
Mein Enkel wird wohl noch in der alten leben.

Das neue Fleisch wird mit den alten Gabeln gegessen.

Die selbstfahrenden Fahrzeuge waren es nicht
Noch die Tanks.
Die Flugzeuge über unseren Dächern waren es nicht.
Noch die Bomber.

Von den neuen Antennen kamen die alten Dummheiten.
Die Weisheit wurde von Mund zu Mund weitergegeben.







BRECHT, Bertolt. "Die neuen Zeitalter" / "As novas eras". In:_____. Poesia. Org. e trad. por André Vallias. São Paulo: Perspectiva, 2019.