30.6.18
Dênis Rubra: "quanto tempo cabe em um ano"
quanto tempo cabe em um ano
quantos anos em um segundo
quantos cantos entre
quatro paredes
quantos
mundos
RUBRA, Dênis. "quanto tempo cabe em um ano". In:_____. É muito cedo pra pensar. Rio de Janeiro: Rubra Editora, 2017.
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Poema
28.6.18
Cassiano Ricardo: "Tradução"
Tradução
A Renato Jobim
outer space
Kosmitchskoie prostranstvo
espace extra-athmosphérique
espacio ultra-terrestre
tradução:
espaço poético absoluto.
RICARDO, Cassiano. "Tradução". In:_____. Jeremias sem-chorar. Rio de Janeiro: José Olympio, 1964.
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Poema
26.6.18
Adriano Nunes: Sobre o videclipe da canção "Ninguém"
O dia amanheceu esteticamente implacável e belo! Um salve para
todas as Musas que inspiraram o
potente e inquieto Zé Pedro a dirigir o videoclipe "Rei Ninguém",
da canção do Arthur Nogueira. No vídeo, vê-se a tensão dramática da poesia que
a canção abarca, reluzindo e refletindo-se em uma amplidão enigmática em que o
espectador não sabe a que instância dos signos o Rei que é metaforicamente
Ninguém vai chegar, se quer realmente em algum lugar fisicamente alcançável. Mas não se enganem! O Rei Ninguém do Arthur Nogueira está além das
convenções pragmáticas das estéticas mesquinhas e ornadas de clichês. Dizer que tem as terras de ninguém é dizer, ainda que pesem todas as consequências
inescapáveis do devir e do saber sobre, que possui as terras além-dono: as
terras-de-ninguém são as notas musicais da bela canção, são as imagens plenas
de sentidos e significados vistas no vídeo, procurando traduzir a real
grandeza, o real tesouro que o artista tem em mãos, e de que alma e sinapses
precisam para ser um rei, um rei ainda que, sob o pseudônimo
"Ninguém", reine absoluto no reino que é poeticamente só seu e que
lhe dá sentido e vida: o reino da Arte. Assim, como Ulisses, na Odisseia, a
responder ao feroz ciclope Polifemo, astuciosamente, parece que Arthur responde
a todos com a sua voz enigmática e transcendente: "Ninguém - este é o meu
nome!". Bravíssimo!
Para ser aplaudido de pé!
Adriano Nunes
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Arthur Nogueira: clipe da canção"Ninguém"
Assistam ao belo clipe em que o cantor/compositor Arthur Nogueira canta "Ninguém", canção composta por ele para a tradução que o poeta Erick Monteiro Moraes fez do poema "Niemand", de Rose Ausländer:
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25.6.18
Lêdo Ivo: "O homem vivo"
O homem vivo
Felicito-me a mim mesmo por ser transitório.
Sempre tive medo da eternidade,
esse grande cão obscuro que me farejava as pernas
e me seguia sem morder.
Aguardando a morte como quem espera uma carta
trazida por um estafeta divino,
nada tenho para as festas do dia seguinte.
Toda a minha vida foi este esperar sem fim.
Entre o sono e o mar total, na paisagem celeste,
soltei minha pandorga.
Vi o farol da minha terra, e minha infância inteira
estirada em cem léguas diante do mar.
Nada quero de ti, Morte, nem mesmo as recompensas de outro lado
com que amenizas o fim dos que muito sofreram.
Dá-me apenas o sono inteiriço dos que morrem
e são levados à terra dos pés juntos.
Que a vida seja um sonho, e os sonhos sejam sonhos
do sonho desdobrado dos que vivem.
Efêmero, bate no tempo um coração solitário
e a sombra da terra é pouca para escondê-lo.
IVO, Lêdo. "O homem vivo". In:_____. Poesia completa (1940-2004). Rio de Janeiro: Topbooks, 2004.
23.6.18
José Almino: "Objet trouvé"
Objet trouvé
tudo
não
é
só
bom
nem
tudo
é
só
bom
ALMINO, José. "Objet trouvé". In:_____. A estrela fria. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
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21.6.18
Antero de Quental: "Tormento do ideal"
Tormento do ideal
Conheci a Beleza que não morre
E fiquei triste. Como quem da serra
Mais alta que haja, olhando aos pés a terra
E o mar, vê tudo, a maior nau ou torre,
Minguar, fundir-se, sob a luz que jorre:
Assim eu vi o mundo e o que ele encerra
Perder a cor, bem como a nuvem que erra
Ao pôr do sol e sobre o mar discorre.
Pedindo à forma, em vão, a ideia pura,
Tropeço, em sombras, na matéria dura,
E encontro a imperfeição de quanto existe.
Recebi o baptismo dos poetas,
E, assentado entre as formas incompletas
Para sempre fiquei pálido e triste.
QUENTAL, Antero de. "Tormento do ideal". In:_____. Sonetos. Org. por António Sergio. Lisboa: Sá da Costa Editora, 1963.
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