30.11.17

Carlos Cardoso: "O bonde do silêncio"



O bonde do silêncio


Já é noite e o bonde do silêncio
permanece intacto.

Nas ruas as pessoas observam os
pássaros a sobrevoarem as
correntezas.

E tudo permanece intacto.

Os amantes, os Deuses, as estátuas.

Só a poesia perambula.

Acaso os versos caminham ágeis e
desapercebidos.

E tudo permanece intacto.



CARDOSO, Carlos. "O bonde do silêncio". In:_____. Na pureza do sacrilégio. Cotia: Atelier, 2017.


28.11.17

Wallace Stevens: "Man carrying thing" / "Homem carregando coisa": trad. de Paulo Henriques Britto



Homem carregando coisa

O poema tem que resistir à inteligência
Até quase conseguir. Exemplo:

Vulto pardo em tarde de inverno resiste
À identidade. O que ele carrega resiste

Ao sentido mais premente. Aceite-os, pois,
Como secundários (partes semipercebidas

Do todo óbvio, partículas incertas
Do sólido certo, primário indubitável,

Coisas a flutuar como os cem primeiros flocos
Da nevasca que há que suportar a noite inteira,

De uma tormenta de coisas secundárias),
Horror de pensamentos súbito reais.

Temos que suportá-los a noite inteira, até
Que o claro óbvio se mostre, imóvel, no frio.




Man carrying thing

The poem must resist the intelligence
Almost successfully. Illustration:

A brune figure in winter evening resists
Identity. The thing he carries resists

The most necessitous sense. Accept them, then,
As secondary (parts not quite perceived

Of the obvious whole, uncertain particles
Of the certain solid, the primary free from doubt,

Things floating like the first hundred flakes of snow
Out of a storm we must endure all night,

Out of a storm of secondary things),
A horror of thoughts that suddenly are real.

We must endure our thoughts all night, until
The bright obvious stands motionless in cold.




STEVENS, Wallace. "Man carrying thing" / "Homem carregando coisa". In:_____. O imperador do sorvete e outros poemas. Trad. de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

26.11.17

Paul Valéry: "Quem escreve em versos..."



Quem escreve em versos...

Quem escreve em versos dança sobre a corda. Anda, sorri, saúda e isso nada tem de extraordinário, até o momento em que se percebe que esse homem tão simples e à vontade faz todas essas coisas sobre um fio da grossura do dedo.



VALÉRY, Paul. “Poésie”. In:_____. Ego scriptor et Petits poèmes abstraits. Présentation et choix de Judith Robinson-Valéry. Paris: Gallimard, 1992.

25.11.17

Domício Proença Filho: "O lugar"



O lugar

Ventre liso e livre
a Serra da Barriga
emprenhada a sangue
e sal
suor de negro
ferro
no pescoço
e na alma
argola
couro de rebenque
a pele
arrebatada
a vinagre e pimenta
a carne viva
a voz emparedada:
sêmen
da cidade do sonho
negro.




PROENÇA FILHO, Domício. "O lugar". In:_____. Dionísio esfacelado (Quilombo dos Palmares). Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

24.11.17

Paul Celan: "Ein Drönen" / "Um estrondo": Trad. de Celso Fraga Fonseca



Agradeço ao meu amigo, o poeta Adriano Nunes. por me ter chamado a atenção tanto para o fato de que ontem foi o aniversári de Paul Celan, quanto para a excelente tradução, por Celso Fraga da Fonseca, do seguinte, belíssimo poema desse poeta:


Um estrondo

Um estrondo: a
própria verdade
surgiu entre
os homens
em pleno
turbilhão de metáforas




Ein Drönen

Ein Dröhnen: es ist
die Wahrheit selbst
unter die Menschen
getreten,
mitten ins
Metapherngestöber



CELAN, Paul. "Ein Drönen" / "Um estrondo". In: "Poemas de Paul Celan". Trad. de Celso Fraga Fonseca. In: Cadernos de Literatura em tradução nº 4, p.17.

21.11.17

Emily Dickinson: "Our share of night to bear" / "Nossa porção de noite": Trad. de Augusto de Campos



Nossa porção de noite —
Nossa porção de aurora —
Nossa ausência de amor —
Nossa ausência de agrura —

Uma estrela, outra estrela
Que se extravia!
Uma névoa, outra névoa,
Depois – o Dia!




Our share of night to bear –
Our share of morning –
Our blank in bliss to fill
Our blank in scorning –
 
Here a star, and there a star,      
Some lose their way!
Here a mist, and there a mist,
Afterwards – day!




DICKINSON, Emily. "Our share of night to bear" / "Nossa porção de noite". In:_____. não sou ninguém. Traduções de Augusto de Campos. Campinas: Unicamp, 2015. 



Ouçam "Nossa porção de noite" musicada pelo Cid Campos e interpretada por ele e pela Adriana Calcanhotto: