30.11.16

Ferreira Gullar: "Registro"




Registro

À janela
             de meu apartamento
à rua Duvivier 49
            (sistema solar, planeta Terra,
             Via Láctea)
             limpo as unhas da mão
por volta das quatro e quarenta da tarde
             do dia 2 de dezembro de 2008
enquanto
              na galáxia M 31
a 2 milhões e 200 mil anos-luz de distância
              extingue-se uma estrela




GULLAR, Ferreira. "Registro". In:_____. "Em alguma parte alguma". In:_____. Toda poesia. Rio de Janeiro: 2015.

26.11.16

Paulo Bomfim: "Soneto I"





Soneto I

Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.
Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.
Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.



BOMFIM, Paulo. Antologia poética. São Paulo: Martins, 1962.

24.11.16

Carlos Pena Filho: "Olinda"




Olinda

De limpeza e claridade
é a paisagem defronte.
Tão limpa que se dissolve
A linha do horizonte.

As paisagens muito claras
Não são paisagens, são lentes.
São íris, sol, aguaverde
Ou claridade somente.

Olinda é só para os olhos,
Não se apalpa, é só desejo.
Ninguém diz: é lá que eu moro
Diz somente: é lá que eu vejo.

Tão verdágua e não se sabe
A não ser quando se sai.
Não porque antes se visse,
Mas porque não se vê mais.

As claras paisagens dormem
No olhar, quando em existência.
Diluídas, evaporadas,
Só se reúnem na ausência.

Limpeza tal só imagino
Que possa haver nas vivendas
Das aves, nas áreas altas,
Muito além do além das lendas.

Os acidentes, na luz,
Não são, existem por ela.
Não há nem pontos ao menos,
Nem há mar, nem céu, nem velas.

Quando a luz é muito intensa
É quando mais frágil é;
Planície, que de tão plana
Parecesse em pé.



PENA Filho, Carlos. "Olinda". In:_____. Livro Geral. Recife: UFPE, 1969.

21.11.16

Show de Arthur Nogueira, com participação de Antonio Cicero

No Rio de Janeiro, será amanhã, dia 22, na Casa de Cultura Laura Alvim, o show de lançamento do álbum PRESENTE, que meu amigo, o cantor e compositor Arthur Nogueira, fez para homenagear os meus 70 anos. A Casa de Cultura Laura Alvim fica na Av. Vieira Souto, 176, em Ipanema. O show começará às 20h. Arthur cantará canções cujas letras compus para parceiros como Adriana Calcanhotto, João Bosco, José Miguel Wisnik, Lulu Santos, Marina Lima, Orlando Moraes, Roberto Frejat, Waly Salomão e ele mesmo. E eu recitarei alguns poemas meus e de alguns poetas que admiro. Apareçam!

Clique, para ampliar:

20.11.16

Manoel de Barros: "Uns homens estão silenciosos"




Se ainda estivesse vivo, o poeta Manoel de Barros teria feito 100 anos ontem. Por isso, Ana Clauda Guimarães, da coluna de Ancelmo Gois em O Globo, ontem pediu a mim e a alguns outros poetas que lhe enviassem alguns versos do autor da "Gramática expositiva do chão". Enviei-lhe o seguinte poema, do qual saiu hoje publicado um trecho: 



Uns homens estão silenciosos

Eu os vejo nas ruas quase que diariamente.
São uns homens devagar, são uns homens quase que misteriosos.
Eles estão esperando.
Às vezes procuram um lugar bem escondido para esperar.
Estão esperando um grande acontecimento.
E estão silenciosos diante do mundo, silenciosos.

Ah, mas como eles entendem as verdades
De seus infinitos segundos.



BARROS, Manoel de. "Uns homens estão silenciosos". In:_____. Poesia completa. Porto: Leya, 2010.

Sophia de Mello Breyner Andresen: "Eu me perdi"




Agradeço ao meu querido amigo, o excelente escritor e artista plástico Pedro Maciel, por me ter chamado atenção para os seguinte poema da maravilhosa Sophia de Mello Breyner Andresen:




Eu me perdi


Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Policia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu em salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar




ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. "Eu me perdi". In:_____. Obra poética. Edição: Carlos Mendes de Sousa. Alfragide: Editorial Caminho, 2011.

18.11.16

Oswald de Andrade: "3 de maio"




3 de maio

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.



ANDRADE, Oswald. "3 de maio". In:_____. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1974.