9.10.16

Paul Éluard: "Anneau de paix" / "Anel de paz": trad. Maria Gabriela Llansol




Anneau de paix

J'ai passé les portes du froid
Les portes de mon amertume
Pour venir embrasser tes lèvres

Ville réduite à notre chambre
Où l'absurde marée du mal
Laisse une écume rassurante

Anneau de paix je n'ai que toi
Tu me réapprends ce que c'est
Qu'un être humain quand je renonce

A savoir si j'ai des semblables.



Anel de paz

Passei as portas do frio
Pelas portas da minha amargura
Para vir beijar teus lábios

Cidade reduzida ao nosso quarto
Onde a absurda maré do mal
Deixa uma espuma tranquilizante

Anel de paz só te tenho a ti
Ensinas-me e volto a saber
O que é um ser humano e a desistir

De saber se tenho semelhantes.




ÉLUARD, Paul. "Anneau de paix" / "Anel de paz". Trad. por Maria Gabriela Llansol. In:_____. Últimos poemas de amor. / Derniers poèmes d'amour. Lisboa: Relógio d'Água, 2002



6.10.16

W.H. Auden: "Words" / "Palavras": trad. José Paulo Paes




Palavras

Nasce um mundo da frase pronunciada
Onde tudo acontece tal e qual;
Na palavra a palavra está empenhada:
À fala, não ao falante, dá-se o aval.

Clara seja a sintaxe, e mais: que nada
Mude ao tema seu fluxo natural
Nem troque os tempos por amor à toada
Pois há tristes versões de pastoral.

Para que um blá-blá inteminável
Se os fatos são nossa melhor ficção?
Antes o verbo facilmente achável

Do que a rima a falsa encantação,
Qual dança de zagais mima o insondável
Cavaleiro a vagar na solidão




Words

A sentence uttered makes a world appear
Where all things happen as it says they do;
We doubt the speaker, not the tongue we hear:
Words have no word for words that are not true.

Syntactically, though, it must be clear;
One cannot change the subject half-way through,
Nor alter tenses to appease the ear:
Arcadian tales are hard-luck stories too.

But should we want to gossip all the time,
Were fact not fiction for us at its best,
Or find a charm in syllables that rhyme,

Were not our fate by verbal chance expressed,
As rustics in a ring-dance pantomime
The Knight at some lone cross-roads of his quest?




AUDEN, W.H. "Words" / "Palavras". In:_____. Poemas. Seleção: João Moura Jr.; tradução: José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

4.10.16

Alberto da Costa e Silva: "Elegia"




Elegia

Sofrer esta infância, esta morte, este início.
As cousas não param. Elas fluem, inquietas,
como velhos rios soluçantes. As flores
que apenas sonhamos em frutos se tornaram.
Sazonar, eis o destino. Porém, não esquecer
a promessa de flores nas sementes dos frutos,
o rosto de teu pai na face do teu filho,
as ondas que voltam sobre as mesmas praias,
noivas desconhecidas a cada novo encontro.
As causas fluem, não param. As folhas nascem,
as folhas tombam longe, em longínquos jardins.
Em silêncio, vives a infância de teus olhos
e, morto, és tão puro que te tornas menino.



SILVA, Alberto da Costa e. "Elegia". In:_____. "Poemas dos vinte anos". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

2.10.16

Rui Ribeiro Couto: "Soneto da fiel infância"




Soneto da Fiel Infância

Tudo que em mim foi natural – pobreza,
Mágoas de infância só, casa vazia,
Lutos, e pouco pão na pouca mesa –
Dói na saudade mais que então doía.

Da lamparina do meu qarto, acesa
No pequeno oratório noite e dia,
Vinha-me a sensação de uma riqueza
Que no meu sangue de menino ardia.

Altas horas, rezando no seu canto,
Minha mãe muitas vezes soluçava
E dava-me a beijar não sei que santo.

Meu Deus! Mais do que o santo que eu beijava,
Faz-me falta o cair daquele pranto
Com que ela junto ao peito me molhava.



COUTO, Rui Ribeiro. "Soneto da fiel infância". In:_____. Poesias reunidas. Rio de Janeiro: José Olympio, 1960.

30.9.16

Leiam "O povo de Deus e o fim da política", por Jozafá Batista




Recomendo enfaticamente a leitura do artigo do sociólogo Jozafá Batista intitulado "O povo de Deus e o fim da política". E o recomendo, não por ter sido nele citado -- embora isso, para mim, seja uma honra -- mas porque realmente se trata de um artigo importante, principalmente nos tempos atuais. Ele se encontra aqui:  http://www.juruaemtempo.com.br/o-povo-de-deus-e-o-fim-da-politica/

29.9.16

Antero de Quental: "Nox"




Nox

Noite, vão para ti meus pensamentos,
Quando olho e vejo, à luz cruel do dia,
Tanto estéril lutar, tanta agonia,
E inúteis tantos ásperos tormentos...

Tu, ao menos, abafas os lamentos,
Que se exalam da trágica enxovia...
O eterno Mal, que ruge e desvaria,
Em ti descansa e esquece alguns momentos...

Oh! Antes tu também adormecesses
Por uma vez, e eterna, inalterável,
Caindo sobre o Mundo, te esquecesses,

E ele, o Mundo, sem mais lutar nem ver,
Dormisse no teu seio inviolável,
Noite sem termo, noite do Não-ser!



QUENTAL, Antero de. "Nox". In: VIEGAS, Francisco José (org.). Cem poemas para salvar a nossa vida. Lisboa: Quetzal, 2014.

27.9.16

Rainer Maria Rilke: "Baudelaire": trad. José Paulo Paes




Baudelaire
                        Para Anita Forrer/ em 14 de abril de 1921

Somente o poeta juntou as ruínas
de um mundo desfeito e de novo o fez uno.
Deu fé da beleza nova, peregrina,
e, embora celebrando a própria má sina,
purificou, infinitas, as ruínas:

assim o aniquilador tornou-se mundo.




Baudelaire
                       Für Anita Forrer/ aum 14. April 1921

Der Dichter einzig hat die Welt geeinigt,
die weit in jedem auseinanderfällt.
Das Schöne hat er unerhört bescheinigt,
doch da er selbst noch feiert, was ihn peinigt,
hat er unendlich den Ruin gereinigt:

und auch noch das Vernichtende wird Welt.




RILKE, Rainer Maria. "Baudelaire". In:_____. Poemas. Seleção, tradução e introdução José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.