28.2.14

Íbico: "Eros, de novo, sob pálpebras sombrias" / trad. Décio Pignatari





Eros, de novo, sob pálpebras sombrias,
Lança-me olhares molhados
De manhas mil,
E me enreda nas malhas cerradas
Da deusa da beleza.
À sua aproximação,
Tremo
Como um cavalo atrelado,
Antes pronto a vencer,
Agora hesitante
Ante carros mais rápidos.




ÍBICO. In: PIGNATARI, Décio. 31 poetas 214 poemas. De Rigveda e Safo a Apollinaire. Uma antologia pessoal de poemas traduzidos, com notas e comentários. Campinas: Unicamp, 2007.

25.2.14

Almeida Garrett: "Não te amo"





Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem d'alma.
E eu n'alma – tenho a calma,
A calma – do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida – nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.




ALMEIDA GARRETT. Folhas caídas. Prefácio e notas por Augusto C. Pires de Lima. Porto: Domingos Barreira, 1982.

23.2.14

Stéphane Mallarmé: "Salut" / "Brinde": trad. de Augusto de Campos





Brinde

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa,
Vós à proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde.

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.



Salut

Rien, cette écume, vierge vers
A ne désigner que la coupe;
telle loin se noie une troupe
De sirènes mainte à l'envers.

Nous navigons, ô mes divers
Amis, moi déjà sur la poupe
Vous l'avant fastueux qui coupe
Le flot de foudres et d'hivers;

Une ivresse belle m'engage
Sans craindre même son tangage
De porter debout ce salut

Solitude, récif, étoile
A n'importe ce qui valut
Le blanc souci de notre toile.




MALLARMÉ, Stéphane. "Poesias (1864-1895)". Trad. de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto; PIGNATARI, Décio; CAMPOS,  Haroldo. Mallarmé. São Paulo: Perspectiva, 1980.



20.2.14

José Almino: "É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios"





É mal de enigmas não se decifrarem a si próprios.
Carecem de argúcia alheia
e da retórica.
Procuram uma qualidade
em pedra e cal.

(Repelem-na,
ao mesmo tempo.
Tal é a condição dos enigmas.)

Quedam-se por aí:
esguios ao tato,
ocos de imagem,
ferozes no seu silêncio.

Dignos e sós
como um concerto de violoncelo.



ALMINO, José. A estrela fria. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

18.2.14

Luis Turiba: "Falecido"




Falecido

Pode ter medo
Até de barata
Menos de amor
Que é o grande barato
Do criador

Quando em mim
Morre um amor
Morro junto

Vou ao velório
Mando flores
Consolo a viúva
Faço missa de sétimo dia

Rei morto, rei posto
Vida que segue
Mesmo a contragosto

Se o falecido morreu
Antes ele, do que eu

Quando eu for
Quero ir como flor
Sorriso no peito
Leve perfume de dor



TURIBA, Luis. "Ofícios do amor" In:_____. Qtais. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013.

16.2.14

Antonio Cicero: "Palavras aladas"





Palavras aladas

Os juramentos que nos juramos
entrelaçados naquela cama
seriam traídos, se lembrados
hoje. Eram palavras aladas
e faladas não para ficar
mas, encantadas, voar. Faziam
parte das carícias que por lá
sopramos: brisas afrodisíacas
ao pé do ouvido, jamais contratos.
Esqueçamo-las, pois, dentre os atos
da língua, houve outros mais convincentes
e ardentes sobre os lençóis. Que esses,
em futuras noites, em vislumbres
de lembranças, sempre nos deslumbrem.




CICERO, Antonio. Porventura. Rio de Janeiro: Record, 2012. 

Marcus Preto: "Antonio Cicero em prosa"





Confesso que fiquei todo prosa com o artigo "Antonio Cicero em prosa", de Marcus Preto. Eis o link:
http://oifm.oi.com.br/site/#!/noticia/musica/-comabocanomundo--antonio-cicero-em-prosa