1.9.13

Elizabeth Bishop: "It is marvellous to wake up together" / "É maravilhoso despertar juntas": trad. Paulo Henriques Britto






"It is marvellous to wake up together"

It is marvellous to wake up together
At the same minute; marvellous to hear
The rain begin suddenly all over the roof,
To feel the air suddenly clear
As if electricity had passed through it
From a black mesh of wires in the sky.
All over the roof the rain hisses,
And below, the light falling of kisses.

An electrical storm is coming or moving away;
It is the prickling air that wakes us up.
If lightning struck the house now, it would run
From the four blue china balls on top
Down the roof and down the rods all around us,
And we imagine dreamily
How the whole house caught in a bird-cage of lightning
Would be quite delightful rather than frightening;

And from the same simplified point of view
Of night and lying flat on one’s back
All things might change equally easily,
Since always to warn us there must be these black
Electrical wires dangling. Without surprise
The world might change to something quite different,
As the air changes or the lightning comes without our blinking,
Change as our kisses are changing without our thinking.




"É maravilhos despertar juntas"

É maravilhoso despertar juntas
No mesmo minuto; maravilhoso ouvir
A chuva começando de repente a crepitar no telhado,
Sentir o ar limpo de repente
Como se percorrido pela eletricidade
Numa rede negra de fios no céu.
No telhado, a chuva cai, tamborilando,
E cá embaixo, caem beijos brandos.

Uma tempestade está  chegando ou indo embora;
É o ar carregado que nos desperta.
Se um raio caísse na casa agora, desceria
Das quatro bolas azuis de porcelana lá no alto,
Se espalhando pelo telhado e os para-raios a nossa volta,
E imaginamos sonhadoras,
Que a casa inteira, uma gaiola de energia elétrica,
Seria muito agradável, e nada tétrica.

E do mesmo ponto de vista simplificado
Da noite, e de estar deitadas,
Todas as coisas poderiam mudar com igual facilidade,
Pois por esses fios elétricos negros
Seríamos sempre alertadas. Sem surpresa,
O mundo poderá virar algo muito diferente.
  Tal como o ar muda ou o relâmpago cai sem piscarmos,
Como estão mudando nossos beijos sem pensarmos.




BISHOP, Elizabeth. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.



30.8.13

Rogério Batalha: "a passeata"






a passeata

entre olhos observo a passeata
(enquanto a pedra estilhaça)
(enquanto -em forma de navio-
uma sabiá apita e canta)
e a flâmula embaçada bica e balança
como uma batata que se assa
sob os lençóis da cama
pois, assim, a noite caía,
(sobre as minhas líquidas pupilas)
que, indagavam, diante da maresia:
um esqueleto se fuzila?




BATALHA, Rogério. "a passeata". Disponível no site Rogério Batalha, em http://rogeriobatalha.webmium.com/poemas, acessado em 30/08/2013.

28.8.13

Ferreira Gullar: "A cabra"




A CABRA

Cabra de Picasso, lição de metamorfose:
de como um cesto vira barriga
duas cabaças viram úberes
cepos de parreira viram chifres
argila e ferro viram pernas e pés
folhas de palmeira viram pelos
lata dobrada vira sexo
um pedaço de cano vira ânus
de cabra
de como lixo vira bicho

Cabra de Picasso: arremedo de cabra
que nos mostra a cabra
cabra mais que cabra
cabeçuda apojada prenha
mais cabra que todas
as cabras
arcaica arquetípica
terrestre terrena
artefato sem artificio:


— de esqueleto à mostra



GULLAR, Ferreira. Relâmpagos [dizer o ver]. São Paulo: Coscnaify, 2003.







                                Pablo Picasso: La Chèvre (Musée Picasso, Paris)











26.8.13

Nelson Ascher: trompas






trompas

Se tua língua
linda, de longa
lábia, se aninha
em cada lábio
lábil da minha
trompa de Eustáquio
e langue-lenga,

a minha língua
logo se vinga,
lambe o batom
sabor de ópio
de tuas trom-
pás de Falópio
e por lá míngua..




ASCHER, Nelson. ponta da língua. São Paulo: Edição do autor, 1983.

24.8.13

Waly Salomão: "Amante da algazarra"






Amante da algazarra

Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto.
É ela !!!
Todo mundo sabe, sou uma lisa flor de pessoa,
Sem espinho de roseira nem áspera lixa de folha de figueira.

Esta amante da balbúrdia cavalga encostada ao meu sóbrio ombro
Vixe!!!
Enquanto caminho a pé, pedestre -- peregrino atônito até a morte.
Sem motivo nenhum de pranto ou angústia rouca ou desalento:
Não sou eu quem dá coices ferradurados no ar.
É esta estranha criatura que fez de mim seu encosto
E se apossou do estojo de minha figura e dela expeliu o estofo.

Quem corre desabrida
Sem ceder a concha do ouvido
A ninguém que dela discorde
É esta
Selvagem sombra acavalada que faz versos como quem morde.




SALOMÃO, Waly. O mel do melhor. Rio de Janeiro: Rocco, 2001.

23.8.13

Curso "A arte do poeta", no POP


CURSO NO POP, a partir da próxima 2ª feira:

O curso pretende (1) investigar a natureza da poesia e a sua 
relação tanto com as outras artes quanto com a filosofia; (2) 
interrogar a produção poética contemporânea e reconsiderar 
a tradição; (3) avaliar a experiência da modernidade e, em par-
ticular, a experiência da vanguarda; (4) discutir as dicotomias 
tradicionais, tais como verso e prosa, inspiração e trabalho, 
forma e conteúdo, continuidade e ruptura etc.; (5) revisitar as 
formas e as técnicas de versificação.



3 aulas, segundas-feiras: 19h30-21h30

26 de agosto
É possível definir a poesia? A poesia na tradição ocidental. 
Homero e a poesia oral primária. O mito, oepos e o logos.

2 de setembro
As formas poéticas. A natureza do poema escrito. 
A leitura do poema. A poesia e o juízo de valor. 
A poesia contemporânea e o legado da tradição.

9 de setembro
A poesia contemporânea e o legado da vanguarda. 
A poesia e a filosofia. 
A poesia e os novos meios.


Inscrições pelo tel. (21) 2286-3299 
ou pelo site
www.polodepensamento.com.br


POP – Polo de Pensamento Contemporâneo 
Rua Conde Afonso Celso, 103
Jardim Botânico, CEP 22461-060
Tel. (21) 2286-3299 e 2286-3682


20.8.13

Ivan Junqueira: "Últimas palavras"






Últimas palavras

Eis enfim o que expressa
a boca que se fecha:
uma praga, uma prece,
algo de ermo e secreto,
o asco aos vermes do verbo.




JUNQUEIRA, Ivan. "A sagração dos ossos". In:_____. Poemas reunidos. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 1999.