2.8.12
Adonis: "Fim do céu": trad. Michel Sleiman
Fim do céu
Sonha em jogar os olhos nas
profundezas da cidade próxima
sonha em dançar no abismo
em ignorar os dias que devoram
as coisas, os dias que engendram as coisas
sonha em levantar, em fluir como o mar
em apressar os segredos
começando um céu
no fim do céu.
ADONIS. Poemas. organização e tradução de Michel Seliman. Apresentação de Milton Hatoum. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
31.7.12
Harold Alvarado Tenorio: "En espera del gran dia" / "À espera do grande dia"
En espera del gran dia
Gran vida que todo das y todo quitas
ni siquiera él recuerdo quedará en nuestros huesos
ni siquiera la música del violín de Mendelssohn.
À espera do grande dia
Grande vida que tudo dás e tudo tomas
nem sequer a lembrança ficará em nossos ossos
nem sequer a música do violino de Mendelssohn.
TENORIO, Harold Alvarado. Summa del Cuerpo. Bogotá: Deriva Ediciones, 2002.
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Poema
28.7.12
Fernando Pessoa / Alberto Caeiro: "O mistério das coisas, onde está ele?"
XXXIX
O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
PESSOA, Fernando. "O Guardador de Rebanhos". In_____. Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
O mistério das coisas, onde está ele?
Onde está ele que não aparece
Pelo menos a mostrar-nos que é mistério?
Que sabe o rio e que sabe a árvore
E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?
Sempre que olho para as coisas e penso no que os homens pensam delas,
Rio como um regato que soa fresco numa pedra.
Porque o único sentido oculto das coisas
É elas não terem sentido oculto nenhum,
É mais estranho do que todas as estranhezas
E do que os sonhos de todos os poetas
E os pensamentos de todos os filósofos,
Que as coisas sejam realmente o que parecem ser
E não haja nada que compreender.
Sim, eis o que os meus sentidos aprenderam sozinhos: -
As coisas não têm significação: têm existência.
As coisas são o único sentido oculto das coisas.
PESSOA, Fernando. "O Guardador de Rebanhos". In_____. Poemas de Alberto Caeiro. Lisboa: Ática, 1946 (10ª ed. 1993).
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Poema
26.7.12
22.7.12
Lançamento de "Poesia e filosofia", de Antonio Cicero, e "Clarice Lispector: uma literatura pensante", de Evando Nascimento

23 de julho, segunda-feira:
18h. Conversa sobre as relações entre literatura e filosofia.
Participantes: Antonio Cicero, Evando Nascimento e Noemi Jaffe
19h30. Sessão de autógrafos e coquetel
Casa do Saber / Livraria da Vila
Rua Dr. Mario Ferraz, 414, Jardins SP
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21.7.12
Octavio Paz: de "Poesia e modernidade"
O mundo de Dante era finito e por isso pôde traçar a geografia do inferno, do purgatório e do paraíso. Mas esse mundo limitado era eterno: os homens estavam destinados a viver pelos séculos dos séculos e, depois do Juízo Final, sem experimentar mudança alguma. A eternidade dissipa o tempo e a sucessão. Seremos para sempre o que somos. Nisso consiste a diferença radical entre o mundo medieval e o moderno. O cristão medieval vivia num espaço finito e estava destinado à eternidade dos bem-aventurados ou dos réprobos; nós vivemos num universo infinito e estamos destinados a desaparecer para sempre. Nossa condição é trágica num sentido que nem os pagãos da Antiguidade nem os cristãos da Idade Média suspeitaram.
PAZ, Octavio. "Poesía y modernidad". In:_____. La otra voz. Poesía y fin de siglo. Barcelona: Seix Barral, 1990.
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Tempo
19.7.12
George Gordon Byron: de "Childe Harold": trad. de Augusto de Campos
113
O mundo eu não o amei, nem ele a mim;
Não bajulei seu ar vicioso, nem dobrei
Aos seus idólatras o joelho do sim. -
Meu rosto não abriu risos ao rei
Nem repetiu ecos; a turba, eu sei,
Não me inclui entre os seus. Vivi ao lado
Deles, porém sem ser da sua grei;
E à mortalha da sua mente atado
Estaria se não me houvesse precatado.
113
I have not loved the world, nor the world me;
I have not flatter'd its rank breath, nor bowed
To its idolatries a patient knee, --
Nor coined my cheek to smiles, nor cried aloud
In worship of an echo; in the crowd
They could not deem me one of such; I stood
Amongst them, but not of them; in a shroud
Of thoughts which were not their thoughts, and still could,
Had I not filed my mind, which thus itself subdued.
BYRON, George Gordon. "Childe Harold: From Canto III / Do canto III". In: CAMPOS, Augusto de (org. e trad.). Byron e Keats: Entreversos. Campinas: Unicamp, 2009.
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