Morandi
Una lámpara. Un vaso. Una botella.
Sin más utilidad ni pertinencia
que estar ahí, que dar a la consciencia
un soporte casual. Mas no la huella
del hombre que la enciende o que los usa
para beber: todo ha sido blanqueado
o cubierto de cal y nada acusa
abandono, descuido ni cuidado.
Sólo la luz es familiar y escueta
el relieve eficaz; la sombra neta
se alarga en el mantel. El día quedo
sigue el paso del tiempo con su vaga
irrealidad. La tarde ya se apaga.
Los objetos se abrazan: tienen miedo.
Morandi
Uma lâmpada. Um copo. Uma garrafa.
Sem outra utilidade nem premência
que estar aí, que dar à consciência
um suporte casual. Que traço grafa
o gesto que uma acende e os outros usa
para beber? Tudo foi clareado
ou coberto de cal e nada acusa
abandono, descuido nem cuidado.
A luz somente é familiar e reta,
o relevo eficaz; sombra direta
se alonga na toalha. O dia cedo
segue o passo do tempo, lento, a vaga
irrealidade. A tarde já se apaga.
Objetos se abraçam: sentem medo.
SARDUY, Severo. In: CAMPOS, Haroldo. "Três (re)inscrições para Severo Sarduy". In:_____O segundo arco-íris branco. São Paulo: Iluminuras, 2010.
30.7.11
23.7.11
Armando Freitas Filho: "Calder"
Calder
Linha leve ao léu
se lança: dinâmica
aranha de arame
tátil na teia
desenvolve móbile
tateia mecânico
mobilento serial
irradia seu raio
medular, corre
a cor — reticente
filamento, infinito
filiforme pensamento
oscila, delineia
desenrola um perfil
na orla do ar
sublinha assobio, silvo
célere labirinto
falha, o filme
de sua febre frágil:
fio fino fim.
FREITAS FILHO, Armando. "Calder" In: Instauração práxis. São Paulo: Edições Quiron, 1974, p.188.
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Poema
20.7.11
Décio Pignatari: "Interessere"
Interessere
Na vida interessa o que não é vida
Na morte interessa o que não é morte
Na arte interessa o que não é arte
Na ciência interessa o que não é ciência
Na prosa interessa o que não é prosa
Na poesia interessa o que não é poesia
Na pedra interessa o que não é pedra
No corpo interessa o que não é corpo
Na alma interessa o que não é alma
Na história interessa o que não é história
Na natureza interessa o que não é natureza
No sexo interessa o que não é sexo
(: o amor que, de resto, pode ser abominável)
No homem interessa o que não é homem
Na mulher interessa o que não é mulher
No animal interessa o que não é animal
Na arquitetura interessa o que não é arquitetura
Na flor interessa o que não é flor
Em Joyce interessa o que não é Joyce
No concretismo interessa o que não é concretismo
No paradigma interessa o que não é paradigma
No sintagma interessa o que não é sintagma
Em tudo interessa o que não é tudo
No signo interessa o que não é signo
Em nada interessa o que não é nada.
PIGNATARI, Décio. "Interessere". Disp. no site 7ª Bienal do Mercosul, 2009, no URL http://www.bienalmercosul.art.br/7bienalmercosul/es/decio-pignatari. Acessado em 20/07/2011.
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Poema
18.7.11
Moacyr Félix: "O poema"
O Poema
Ou se vive por inteiro
ou pela metade a gente
escreve a vida
que não viveu.
E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.
O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia
FÉLIX, Moacyr. "O poema" In: FELIX, Moacyr (org.). 41 poetas do Rio. Rio de Janeiro: Funarte,
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Poema
16.7.11
Fala de Carlos Drummond de Andrade sobre Deus e a morte
Você não pode imaginar como Deus me chateia. Eu não creio nele. Creio realmente numa organização natural que pode tomar o nome de Deus. Esse argumento de que não é possível existir nada sem um poder gerador que seria Deus não resolve, porque então quem criou Deus? Deus gerou o mundo? E quem gerou Deus?
[...]
Não é Deus que é misterioso; é a vida que é misteriosa. Por que nós nascemos? Por que alguém nasceu e gerou outros tantos? Esse mistério não está explicado, e eu me curvo diante dele. Agora, não aceito uma explicação metafísica.
A única coisa de que estou convencido é de que nós morremos de verdade, nós morremos mortos. Nós não revivemos, porque não há nenhum exemplo na natureza disso. Essa história de transformação está bem, mas a essência humana desaparece. Se ela se converte em cinza, em adubo, em qualquer coisa, não é mais a essência humana. Vamos convir que o homem não é assim tão importante.
E aí vem o problema da morte. A aceitação da morte é o máximo que o ser pode conseguir para efeito de se ajustar com a vida, de se entender com a natureza. Se todas as coisas são mortais, o homem não pode pretender à imortalidade. Ela me parece uma grande pretensão de sua parte. Com a ideia da imortalidade, ele se consola da sua mortalidade, mas ele não tem nenhuma prova de que exista essa imortalidade.
Transcrição de trechos de:
ANDRADE, Carlos Drummond de. Maria Julieta entrevista Carlos. Entrevista a Maria Julieta Drummond de andrade. CD. Rio de Janeiro: Luz da Cidade, 2002.
15.7.11
Nicanor Parra: "Cartas a una desconocida" / "Cartas a uma desconhecida": tradução de Albano Martins
Cartas a una desconocida
Cuando pasen los años, cuando pasen
Los años y el aire haya cavado un foso
Entre tu alma y la mía; cuando pasen los años
Y yo sólo sea un hombre que amó,
Un ser que se detuvo un instante frente a tus labios,
Un pobre hombre cansado de andar por los jardines,
¿Dónde estarás tú? ¡Dónde
Estarás, oh hija de mis besos!
Cartas a uma desconhecida
Quando passarem os anos, quando passarem
Os anos e o ar tiver cavado um fosso
Entre a tua alma e a minha; quando passarem os anos
E eu for apenas um homem que amou,
Um ser que se deteve um instante diante dos teus lábios,
Um pobre homem cansado de andar pelos jardins,
Onde estarás tu? Onde
Estarás, ó filha dos meus beijos?
PARRA, Nicanor. "Antipoemas". Tradução de Albano Martins. In: Relâmpago. Revista de Poesia, nº 17, 10/2005.
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